O Porto no Mundo pela mão da arquitectura
02.05.2010
Manuel Correia Fernandes

Nicolau Nasoni, John Carr, Gustav Eiffel, Teófilo Seyrig, Barry Parker, Giovanni Muzzio, Marcello Piacentini, Robert Auzelle, Manuel Sollà-Morales ou Rem Koolhas são alguns dos mais notáveis arquitectos estrangeiros que, nos últimos dois séculos, deixaram a sua marca no Porto. Significa, isto, que o Porto foi, e ainda é, uma cidade que muitos causticam como provinciana nos comportamentos mas que, na realidade, se afirma tranquilamente cosmopolita nos seus actos, aberta ao Mundo e capaz de lidar com outras formas de pensar e de se pensar a si própria. Em muitos casos, as obras que realizou atingiram mesmo o sublime e foram já elevadas à rara categoria de "ícones" da cidade como acontece com a torre de Nasoni e a ponte de Eiffel. Como se sabe, Nasoni desenhou, em 1748, a belíssima Igreja dos Clérigos, cuja imponente torre é um dos símbolos maiores da cidade, e Eiffel projectou e dirigiu as obras da Ponte de D. Maria, entre 1876/1877. Trata-se, igualmente, de outro dos emblemas do Porto e, sem dúvida, de uma das mais belas e celebradas pontes do Mundo. Contudo, não muito longe, no espaço e no tempo, uma outra, a originalíssima e também monumental Ponte de Luís I (1886), é igualmente metálica mas de dois tabuleiros, é oriunda do traço de outro estrangeiro que foi o belga Teófilo Seyrig e identifica também a cidade.

Mas, a obra de estrangeiros (notáveis) na cidade, não fica por aqui. Com efeito, ainda no século XVIII e ao mesmo tempo que Nasoni concebia a igreja e a sua torre, outro estrangeiro, o inglês John Carr, era chamado a desenhar o monumental Hospital de Santo António (1779), implantado ali muito perto e, seguramente, um dos mais belos e notáveis edifícios que a cidade construiu. Depois, e já com a República implantada, as primeiras vereações republicanas da edilidade portuense lançam mãos à obra que se destinava a marcar a mudança política com a consequente e desejada modernização da cidade que se consubstanciava na abertura da Avenida dos Aliados, em substituição e prolongamento, para Norte, da sereníssima Praça Nova, onde hoje é Praça da Liberdade e onde se localizava, até então, a sede do Município. Para isso, e uma vez mais, a cidade chama um estrangeiro, o inglês Barry Parker, que projecta o novo centro cívico do Porto, ainda que a forma definitiva, e até mais arrojada e generosa, lhe venha a ser dada já por arquitectos portugueses como Marques da Silva e Correia da Silva.

Depois, já em tempo de Estado Novo (1930/40) e no âmbito das boas relações que o regime detinha com a Itália de Mussolini, são chamados a trabalhar em Portugal mais dois arquitectos estrangeiros: os italianos Giovanni Muzzio e Marcello Piacentini. Ocupam-se, então, dos planos de expansão da cidade, propondo novos traçados que rasgam a sua compacta e antiga malha urbana, dando novos horizontes à importante rede de lugares e edifícios monumentais que a estruturam. Ainda em tempo de ditadura, mas já nos anos 50 e 60, é, de novo, um estrangeiro, o urbanista francês Robert Auzelle, que vai assumir o encargo de elaborar o Plano Director da cidade (1963), segundo o qual o Porto finalmente se organiza até que um novo plano o irá substituir, já na década de 90. Então, mais dois arquitectos estrangeiros vão deixar na cidade a marca do seu cosmopolitismo. Um, é o catalão Solà-Moralles (1997) que irá dar corpo ao ambicioso projecto de ligação do Parque da Cidade ao mar, desenhando, para o efeito, e para além do Edifício Transparente, o esbelto viaduto que o ampara e o subtil passeio marítimo da Avenida de Montevideu que lhe dá sequência. O outro, é o arquitecto holandês Rem Koolhas que, por via do concurso internacional aberto pela "Porto 2001", vai projectar e construir a impressionante Casa da Música (1998), que constitui, já hoje, um dos mais impressivos sinais da modernidade da cidade que, com a obra de Siza - afinal, o mais "estrangeiro" dos arquitectos portugueses - coloca o Porto e Portugal nas rotas da arquitectura do Mundo.

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foto António Orlando/JN

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