África do Sul ganhou o Mundial
12.07.2010
Catarina Carvalho

Quem ganhou o Mundial de Futebol 2010? A África do Sul. Por "goal average", diferença de golos, isto se usarmos o sentido mais lato de golo, objectivo. Tendo em conta tudo o que se disse que seria este Mundial, das banais acusações de que os estádios não estariam prontos, às brutais previsões de assaltos e homicídios, passando pelas questões políticas, a África do Sul superou as expectativas. As expectativas eram baixas, dir-me-ão. Pois. A África do Sul ganhou precisamente mostrando que as expectativas sobre ela eram demasiado baixas.

Nós é que fomos parvos. Não se deve esperar pouco de um país que é um milagre. Para um país que conseguiu recuperar do brutal regime que o dividia em dois, sem a natural e previsível guerra civil e hoje, apenas 16 anos depois, é uma nação evoluída, das mais importantes do Mundo, para um país deste gabarito não devia ser assim tão difícil organizar com eficiência um campeonato do Mundo de futebol. Contámos pouco com a inteligência desse povo, em que os vencedores estão habituados a ser magnânimos e os vencidos sensatos. E esquecer que este é o país que Mandela fez e que fez Mandela. Nem ele, com toda a sua dimensão, seria grande coisa sem a arte de viver do seu povo.

Este foi um desafio ganho pela África do Sul. Cresceu aos olhos do Mundo, com a organização impecável, audiências brutais, nos estádios e televisivas - recorde de 760 milhões para o campeonato mais bem filmado de sempre - e na paz nas ruas. Ganhou importância, como dizia Danny Jordaan, o mestiço director da organização sul-africana do Mundial, como parceiro de negócios do Mundo.

E ganhou lugar no coração dos muitos que a visitaram e que, apesar da tristeza dos muros altos dos subúrbios ricos de Joanesburgo e das degradadas barracas das townships, das desigualdades óbvias, conheceram um país com ganas de crescer, mais preocupado em debelar a crise económica do que em entregar-se em problemáticas étnico-políticas. Um país lindo, civilizado, onde os sentimentos autodestrutivos não ganharam espaço.

Ontem, dia da final do Mundial da África do Sul, ao fim da tarde, apareceu nas agências noticiosas uma daquelas polémicas parvas: o neto de Nelson Mandela queixava-se de que a FIFA estava a fazer pressão para que o avô fosse ao encerramento do Mundial. Esta história só pode partir de um desses mal-entendidos que às vezes dão notícias completamente ao contrário da realidade das coisas. Só pode. Não devia haver ninguém com mais vontade de aparecer no estádio de Soccer City que Nelson Mandela. Como aliás se viu, um pouco mais tarde, no seu sorriso largo enquanto cumprimentava a multidão no estádio, e esta, delirante, lhe respondia com "Madiba, Madiba", a alcunha calorosa a humanizar o mito.

Mandela faz 92 anos esta semana, e apesar de já ter vivido muito, este terá sido um dos momentos mais importantes da sua vida. Como ele próprio, sábio, previu quando se empenhou na candidatura da África do Sul a esta organização. Ao Mundo, Mandela mostrara o quanto vale o seu país. Ao seu país, quanto ele próprio vale - importante numa nação que ainda se define com o slogan que Mandela inventou para ela, a do arco-íris e precisa de destinos comuns que unam todas as cores. Precisa, como aconteceu neste momento, de dizer "nós". Todos os sul-africanos agitando a mesma bandeira, "com uma sensação de alegria e de pertença, em vez do habitual orgulho motivado pela oposição a algo que sempre esteve na origem do nacionalismo africander e africano por tanto tempo", como dizia Mark Gevisser, autor sul-africano, ao "LA Times".

África do Sul é a maior vencedora do Mundial 2010. E isso é tão importante para ela como para o Mundo.

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