Saber não ouvir
16.08.2010
Oscar Mascarenhas

Devo ser dos poucos portugueses que não conseguem ter opinião peremptória sobre as causas e modos de combater os incêndios florestais. Esta minha hesitação vem desde que, há 27-anos-27, organizei e reportei, no 'Diário de Notícias', uma mesa-redonda com algumas das pessoas mais habilitadas sobre o assunto, e verifiquei que, desde então, poucas dúvidas e controvérsias foram superadas pelos especialistas e decisores.

Para dar um exemplo: quando então se falou na «limpeza das matas», alguém conhecedor explicou, branda e pedagogicamente, que é preciso muito cuidado e ciência, porque o subbosque é uma garantia de manutenção da humidade dos terrenos e da sobrevivência das árvores. Não se pode «limpar» a eito.

Limpar as matas exige conhecimentos, sabedoria. É, pois, uma tarefa muito mais adequada aos infatigáveis cérebros dos deputados do CDS do que aos semianalfabetos beneficiários do rendimento mínimo. Tal como acredito que estes, se fossem deputados, produziriam muito mais ideias para pôr outros a trabalhar sem paga do que os prodigiosos criativos de Paulo Portas.

Como jornalista, de incêndios, sei o que dizem o bom senso e os psicólogos que estudam o assunto, em matéria de divulgação de imagens: é preferível mostrar o que ficou queimado do que aquilo que está a arder, para não entusiasmar os doentes da piromania. E que não devem ser estimulados sentimentos de pânico, vingança e ódio cego entre as testemunhas dos fogos, evitando dar-lhes a palavra ao vivo e em directo, sem nos asseguramos do princípio deontológico de só entrevistar pessoas em condições de serenidade e responsabilidade.

Esta prudência tem a ver com as vítimas desesperadas, mas igualmente com os mirones e outros que fazem da mediatização o seu modo de vida. A prevenção de não ouvir nem dar voz estende-se, por exemplo, àquele presidente de câmara que defendeu, quiçá entontecido pela fumaça da floresta, que os incendiários deviam ser obrigados, como medida acessória da pena, a ajudar a apagar os incêndios. Não se sabe se o condenado deveria apagar o fogo que ateou - o que levaria o tribunal a interditar a acção dos bombeiros durante três a seis anos, para que o suspeito o fosse apagar, quando transitada a sentença em julgado - ou se de futuros incêndios, algo como reeducar uma raposa obrigando-a a guardar a fauna sobrevivente do galinheiro que depredou.

E quais as penas principais e acessórias para os assim-chamados responsáveis que fazem declarações incendiárias na vertigem do populismo mediático?

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