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Três farpas

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Em entrevista a este jornal, o cardeal--patriarca de Lisboa, Dom José Policarpo, pessoa que muito admiro e considero, defendeu que os bispos não se devem envolver na política directa, e afirmou que ninguém sai da política com as mãos limpas.

Ora, para quem, como eu, tem defendido a hierarquia da Igreja Católica a propósito dos casos de pedofilia, argumentando que não se pode generalizar a toda a instituição o comportamento perverso de alguns dos seus membros, a generalização do cardeal é particularmente infeliz. Certamente que há políticos corruptos, porque a corrupção é um mal que se estende a todas as profissões e porque o poder expõe mais facilmente quem o exerce a certas influências, mas não é verdade que todos os políticos sejam corruptos. Em todos os partidos, da esquerda à direita, há muito quem participe e se envolva na política por convicção, com espírito de missão, não se deixando corromper no desempenho das suas funções. Infelizmente, têm sido frequentes, e normalmente infelizes, as alusões aos políticos por parte de alguns bispos. As declarações do cardeal-patriarca têm, no entanto, um outro peso, e assumem, por isso, maior gravidade. É óbvio que a Igreja não pode deixar de ter uma opinião clara sobre as questões sociais do nosso tempo que são a génese da política, e também é óbvio que não deve participar em actividades partidárias ou fazer apelo directo ou indirecto ao voto nesta ou naquela força política. Mas, pela mesma ordem de razões, deve abster-se de diabolizar a classe política.

Finalmente, o presidente da República resolveu falar sobre a Madeira. Fê-lo depois do seu regresso dos Açores, o que se compreende, e optou pela entrevista, o que não parece a melhor forma de comunicar com o país. No entanto, e uma vez que planeou a entrevista, exigia-se que tivesse sido mais claro. Cavaco Silva bem sabe que o problema da governação de Alberto João Jardim não é, apenas, um problema de estilo e, numa entrevista em que deixou avisos múltiplos ao Governo e até à troika, não se entende que não tenha deixado um recado ao povo madeirense. Aquilo que eu esperava nesta conjuntura, e antes de eleições regionais, é que o presidente dissesse que o desgoverno de Jardim nos colocou em terríveis dificuldades perante o exterior, e que são os madeirenses quem pagará a grande fatia da factura. Cavaco Silva tem uma visão redutora, segundo os seus detractores, e institucionalista, segundo os seus apoiantes, do cargo que ocupa. A meu ver, não tem razão quando diz ter, apenas, o poder da palavra. Mas, na medida em que reconhece ter esse poder, esta era a hora para o utilizar.

Os industriais da restauração andam preocupados, e com razão, com as prováveis alterações ao código do IVA. Numa altura de retracção do consumo interno e de tudo o que pode ser considerado supérfluo, receiam que a aplicação da taxa máxima do IVA à sua facturação possa contribuir para reduzir a procura e para aumentar, assim, as suas aflições. Simpatizando com o argumento e com a aflição, e não estando interessado em pagar mais por aquilo que consumo, não posso deixar de salientar que há uma prática comum que diminui a autoridade moral de quem se queixa. É que, como todos sabem, é raro o restaurante em que, depois de pedirmos para pagar, nos aparece a respectiva factura. Por norma, aparece um extracto da conta, com a desculpa de que se trata de um documento para conferência prévia. E, quando efectuamos o pagamento, o funcionário não apresenta a factura antes de nos perguntar se a queremos. Ora, para além da questão de princípio, acontece que o preço que pagamos por tudo o que consumimos num restaurante inclui uma taxa de 13 por cento de IVA, que é destinada aos cofres do Estado. Imagine-se o que seria se disséssemos então ao empregado não quero a factura, mas devolva-me o dinheiro do IVA... São hábitos velhos, eu sei, mas estamos em tempo de mudar de vida...

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