Casado mas com vida de solteiro
08.04.2012
Jorge Fiel

Neste dia em que celebramos a Ressurreição, sei que corro o risco de parecer herege ao citar James Joyce, que para modelo ideal de homem preferiu Ulisses a Jesus, que considerava incompleto por nunca ter casado.

Nos primeiros 30 anos de vida, Cristo levou uma existência apagada. Com José, o pai legal, aprendeu o ofício de carpinteiro. E estudou as Escrituras, como qualquer jovem judeu da época. Nos três últimos e extraordinários anos da sua vida, abundantemente documentados nos Evangelhos, foi bondoso com os enfermos e ajudou pobres, humilhados e ofendidos. Mas quanto a mulheres, apenas sabemos que perdoou a pecadora e libertou Maria Madalena dos "sete demónios". Não viveu com nenhuma.

Dou razão a Joyce. Viver com outra pessoa é uma das coisas mais difíceis que um homem tem de fazer. Obriga à busca permanente de consensos e equilíbrios entre direitos e obrigações e à generosidade de partilhar não só os bons momentos mas também aturar os maus.

Recordo Joyce e a vida de Cristo a propósito da muita hipocrisia e irresponsabilidade que anda no ar a propósito da ratificação do Tratado Orçamental, que 25 dos 27 membros da UE aprovaram a 2 de março, obrigando-se a transpor de forma permanente, para o ordenamento jurídico nacional, a regra de ouro do défice orçamental não exceder 0,5% do PIB e a divida pública ser inferior a 60% da riqueza nacional.

Vale a pena parar um pouco para pensar nisto, evitarmos cair na demagogia barata e sermos contaminados pela argumentação desonesta de políticos medrosos ou que, em respeito pelo seu passado, melhor fariam em estar calados e a gozar as delícias da reforma, abstendo-se de ser mal-educados e ainda por cima mandarem para nós a conta das multas por excesso de velocidade.

Perdidas as colónias, optamos por casar com a Europa. Em 86, fomos admitidos na CEE. De então para cá vivemos sempre acima das nossas possibilidades, beneficiando de um casamento acima da nossa classe, pelo que fomos dizendo sempre que sim quando chamados a reforçar os votos matrimoniais. Aplaudimos com entusiasmo o mercado único, a livre circulação de pessoas e mercadorias. Deliramos orgulhosos por nos deixarem entrar no clube restrito da moeda única.

Andamos felizes e contentes a esbanjar muito mais do que produzíamos até darmos por nós a balouçar à beira do abismo da falência. A Europa rica, com que estamos casados de livre vontade, deu-nos a mão, quando lhe pedimos ajuda, mas naturalmente impõe condições.

Digo naturalmente, fazendo coro com Campos e Cunha, quando o primeiro ministro das Finanças de Sócrates diz: "Uma vez que não nos soubemos governar é melhor aceitar a tutela".

Digo naturalmente, subscrevendo por baixo o exemplo luminoso que Teixeira dos Santos (sucessor de Campos e Cunha) dá aos seus alunos da FEP: "Não podemos estar casados e continuar a levar vida de solteiro".

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