Teatro

A Escola da Noite conta "Histórias Perversas" nos seus 25 anos

A Escola da Noite conta "Histórias Perversas" nos seus 25 anos

Companhia de Coimbra assinala o aniversário com um regresso a Javier Tomeo, autor que marcou o seu arranque. O espetáculo, que se estreia nesta quinta-feira, no Teatro da Cerca de São Bernardo, inclui esqueletos falantes, mordomos míopes e agressões por causa de gravatas.

"A verdade é que fizemos mal em morrer - perdemos o coração", lamenta um esqueleto, em conversa com outro. Eis uma amostra do que se pode ver em "TOMEO Histórias perversas", o espetáculo que A Escola da Noite tem em cena até ao próximo dia 30.

Na nova criação, feita a partir de textos muito breves de Javier Tomeo, há esqueletos desejosos de "regressar à carne", confiantes de que "virão tempos melhores", um homem manietado que "nem sequer cheira a louco" ou um mordomo míope despedido após 20 anos de trabalho.

Também se fala de bombardeamentos para mudar a paisagem, da deserção embalada por música e da juventude, essa "loucura que passa", num espetáculo com um "elaborado dispositivo cénico" e três atores a encarnar diversos papéis.

Trata-se da 65.ª criação artística d' A escola da noite, que comemora os seus 25 anos de atividade com um regresso ao autor de "Amado monstro", o espetáculo com que se estreou, em março de 1992, no Teatro Académico de Gil Vicente.

"Um autor inclassificável"

"TOMEO Histórias perversas" abarca 26 textos de Tomeo, selecionados a partir das obras "Histórias mínimas", "Cuentos perversos", "Inéditos y reescrituras", "Los nuevos inquisidores", "Problemas oculares" e "Bestiário".

O autor, falecido em 2013, tem uma escrita "muitas vezes a raiar o absurdo", que "é plena de humor, ironia e sátira, mas também de poesia e humanismo", descreve a companhia.

A escrita de Javier Tomeo tem "um lado muito cinematográfico", observa António Augusto Barros, diretor artístico d' A escola da noite. "Muita gente o aproxima dos surrealistas, do absurdo. Acho que podem ser parentes. Mas ele é um autor inclassificável."

António Augusto Barros é responsável pela dramaturgia, encenação e espaço cénico de "TOMEO Histórias perversas", que tem música original de Jorri (a Jigsaw), vídeo de Eduardo Pinto e iluminação de António Rebocho.

O nome "Histórias perversas" foi retirado de uma obra de Tomeo. "Ele tem esse lado da perversidade, a deformação física, espiritual, social. A questão de que os homens veem uma parte da realidade, aquilo a que o seu pensamento os leva, o seu preconceito", explica Barros, lembrando que ele trabalha muito a questão da miopia, por exemplo.

"Em modo de resistência"

A aposta em três atores que se desdobram em personagens quase sem interrupções (Igor Lebreaud, Miguel Magalhães e Sofia Lobo) também se deve às circunstâncias d' A Escola da noite. "Desde que foi decretada a crise, tivemos um corte de 2/3 no orçamento. Isso é uma enormidade para uma estrutura que se pretende estável, com atores e técnicos contratados", explica o diretor artístico.

A situação de asfixia financeira da companhia, com os cortes no financiamento a nível nacional, "não é caso único", lamenta António Augusto Barros, lembrando que alguns projetos, no país, já acabaram, e "muitos estão para acabar".

"A situação na cultura é terrível. O exemplo da Cornucópia deu para perceber que era a sério. Quando este governo deixa que acabe uma companhia de referência, alguma coisa de preocupante está instalada", não duvida.

"Há 25 anos, imaginava que as condições iriam melhorar", comenta António Augusto Barros. Não antecipou a "pior situação" em que a companhia se encontra, devido ao "contexto de financiamento político-estatal e ao contexto local de enorme pressão sobre a companhia".

O diretor artístico admite mesmo a possibilidade de a companhia acabar, por falta de "financiamento adequado", apesar da "muita" vontade de prosseguir. "Estamos a resistir com nove pessoas, quando o normal, no nosso projeto, seria ter cerca de 15", concretiza.

"Estamos em modo de resistência, à espera que as coisas se alterem, porque, se não se alterarem, não é possível continuar assim. Os projetos tornam-se numa caricatura de si próprios", sustenta.

"TOMEO Histórias perversas" pode ser visto de quarta a sábado, às 21.30 horas, e ao domingo, às 16 horas, por valores entre 5 e 10 euros, não estando previsto que saia do Teatro da Cerca de São Bernardo, por questões técnicas.

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