Entrevista

Andrade Albuquerque: "Nunca ocultei a minha identidade"

Andrade Albuquerque: "Nunca ocultei a minha identidade"

Nunca precisou dos favores da crítica especializada portuguesa para construir uma carreira internacional quase sem paralelo entre nós.

Após mais de meio século a vender milhões de exemplares com o pseudónimo de Dick Haskins, António Andrade Albuquerque publicou recentemente os dois primeiros livros em nome próprio: "O Papa que nunca existiu" e "O expresso de Berlim". Uma inflexão que em nada perturba a entrega e o empenho de um autor que, aos 79 anos, mantém intacta a paixão pela escrita e pela vida em geral.

Por que optou só agora por publicar dois livros em nome próprio?

Decidi, simplesmente, passar a usar o meu próprio nome nos dois primeiros romances que escrevi fora do chamado "género policial", que sempre foi tão desdenhado pela chamada elite dos pseudo-intelectuais que abundam entre nós. Aos pouco atentos ou distraídos sublinho que nunca ocultei a minha verdadeira identidade sob a capa do pseudónimo: fui forçado a usá-lo por imposição editorial e porque os portugueses não acreditavam que um compatriota pudesse escrever obras de carácter policial, muito menos ainda se usasse o próprio nome!

"O Papa que nunca existiu" reflecte a sua visão sobre a necessidade de a Igreja ser menos virada para os bens materiais?

O livro não poderia ter sido escrito por um ateu, nem por um mau cristão, mas sim por um verdadeiro, ou por um imperfeito cristão como eu. O Papa que realmente nunca existiu é, na verdade, a minha visão de como um Papa devia ser. Com um Papa como aquele que "criei", a Igreja abandonaria automaticamente os bens materiais e, seguindo os verdadeiros princípios de Cristo, despojada de títulos que Ele nunca usou nem usaria, dedicar-se-ia de alma e coração aos que no Mundo têm sofrido e continuam a sofrer no corpo e no espírito, a sofrer de fome, de frio, de doenças e de uma profunda tristeza que já não pode ter outro rosto.

É um céptico?

Na generalidade nunca fui. Contudo, e por sempre ter acreditado no próximo, sofri alguma desilusões. Verticalidade e transparência não passam hoje de alguns dos muitos bordões que nos enjoam diariamente na chamada comunicação social. Passei a ser céptico na política que se pratica actualmente no nosso país e no resto do planeta que, a meu ver, já caminha a passos desmedidos para um descalabro total; talvez já não estejamos muito longe de uma segunda Arca de Noé. E, nestas condições, seremos confrontados com um problema muito grave e de muito difícil solução - o número de habitantes da Terra supera de muito longe o do tempo de Noé e os animais, os selvagens, esses já atingiram um número assustador...

A escrita continua a ser um ritual que exercita em permanência?

É verdade, escrever é a minha profissão. E procuro sempre fazê-lo mantendo o enredo que imagino em consonância com o português correcto.

É consensual dizer que os policiais já adquiriram respeitabilidade junto da crítica. Essa evolução fez com que esses escritores perdessem um certa áurea de mistério?

No estrangeiro essa respeitabilidade sempre existiu. Se, entre nós, a "evolução" existe, nunca me apercebi. O que sempre existiu e continua a existir é o princípio idiota de classificar a literatura como maior e menor quando, fundamentalmente, o que existe é boa e má literatura, seja ela ou não de carácter policial. Quanto à perda de uma certa áurea de mistério, não vejo como isso possa ter prejudicado Conan Doyle, Agatha Christie, Raymond Chandler e muitos outros. Se o enredo de um romance ou de um filme não contiver mistério e uma dose, maior ou menor, de suspense, o risco de não provocar e manter o interesse do leitor ou do espectador é - regra geral - posto em causa de imediato...

Considera mesmo que o escritor de policiais é o mais versátil?

Sem menosprezar qualquer autor que nunca tenha escrito policiais, creio que esta literatura é muito 'sui generis' e nem todos os autores terão vocação para a escrever. Parece-me indiscutível que para produzir este género literário é fundamental que haja uma inclinação especial para o praticar.

Num policial, o domínio da técnica é mais importante do que num romance convencional?

Sem dúvida que é, tal como a imaginação no que respeita ao enredo; um enredo de características policiais mal imaginado nunca será aceite, nem perdurará na memória do leitor. Num romance dito policial, a técnica descrita, o enigma, o mistério e um desfecho surpreendente, são fundamentais e não devem nem podem ser tratados de ânimo leve.

Apesar dos pontos de contacto, concorda que há diferenças entre os livros que escreveu como Dick Haskins e os mais recentes?

No aspecto de sentimentos humanos, do seu aprofundamento, variável em personagens de índoles totalmente opostas, há inegáveis diferenças entre estas obras e as que escrevi com o pseudónimo. Mas também devo salientar que não considero válidos, até pertinentes, quaisquer termos de comparação estabelecidos entre dois géneros literários totalmente diferentes entre si. Como não tenho a dita de ser um escritor aos calcanhares do qual nenhum outro chega, não poderia permitir-me o luxo de reproduzir as considerações feitas por dois críticos que nem sequer conheço e que considero íntegros e imparciais.

Nos dias que correm, ser estrangeiro ainda é um pormenor decisivo para o sucesso de um autor?

Não, hoje até poderá ficar a nível inferior ao de um português.

Acompanha as obras de autores contemporâneos ou continua a preferir os clássicos?

Não, salvo uma ou outra excepção. Limito-me a tomar conhecimento - casualmente, a maioria das vezes - do que se propaga por escrito ou de viva voz sobre essas obras. Continuo a interessar-me pelo que escreveram "velhos" escritores, alguns de quem fui amigo e muitos que já não se encontram entre nós. Contudo, já li algumas arrepiantes "calinadas" de português escritas por já considerados Grandes (com maiúscula inicial) da literatura contemporânea.

Por mais prestigiado que seja um escritor, são sempre poucos os livros que sobrevivem ao tempo. No seu caso, quais serão?

Não tenho opinião. Esse assunto diria ou dirá apenas respeito aos meus leitores, os únicos a quem devo o que terei conseguido literariamente até hoje. Não há hipocrisia no leitor que paga para nos ler. A opinião de um leitor é a única verdadeira verdade que pode ser dita sobre um autor, a única que conta.

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