Cultura

Artistas sem trabalho estão a passar fome

Artistas sem trabalho estão a passar fome

Há atores e músicos a passarem fome por falta de trabalho. Alguns, para combater a crise, organizam eventos, mas muitos dão prejuízo. Com as autarquias "falidas", há artistas à beira do desespero.

O ilusionista Luís de Matos, o imitador Fernando Pereira, a atriz Lídia Franco, as bandas Fingertips e Os Azeitonas, os cantores Luís Luís Represas, Miguel Ângelo, FF, Luís Portugal e Rouxinol Faduncho e o guitarrista Júlio Pereira são apenas alguns dos muitos exemplos de artistas/grupos que estão a apostar na promoção dos seus próprios espetáculos, por falta de contratos com caché garantido.

"As câmaras municipais eram os principais clientes de espetáculos. A crise acabou com isso. Passou-se do exagero dos anos 80, em que se chegava a esbanjar dinheiro com três ou quatro artistas de primeiro plano numa só noite de festa, para uma situação que está a ser dramática para muitos músicos e atores, que estão a passar fome. Conheço muitos a passar mal". Quem o afirmou, ao JN, foi Fernando Pereira.

O imitador é um dos que recorrem à produção própria para encher a agenda. "As coisas mudaram. Os proprietários das salas de espetáculos não podem arriscar como antigamente. Mas como precisam de manter a agenda preenchida, cedem os espaços, oferecendo a totalidade ou uma percentagem da bilheteira aos músicos/atores", afirma.

Luís de Matos, que só neste ano já fez 40 espetáculos à bilheteira - "todos com lucro", sublinha -, vê um lado positivo no meio deste cenário de crise: "algumas companhias, cuja razão de existir sempre foi o facto de que certo dia conseguiram passar a ser subsidiadas, vão acabar".

"A forma como se financia a cultura em Portugal é profundamente desmotivadora para quem trabalha e altamente protecionista para os chamados subsidio-dependentes.Ao longo dos tempos criou-se a regra de que devem ser subsidiadas as companhias que não conseguem subsistir comercialmente, independentemente da sua qualidade ou do trabalho desenvolvido.

Esta ideia não tem em linha de conta o facto de que algumas dessas não deviam mesmo existir. Não existe uma estrutura que separe o trigo do joio e que apoie o que de facto tem qualidade", afirma o mágico, revelando conhecer "companhias que são subsidiadas há mais de duas décadas e, invariavelmente, os seus espetáculos têm 20 ou 30 espetadores".

"Durante os primeiros 5 ou 10 anos poderíamos acreditar que essas companhias estavam a formar públicos e que, por isso, mereciam ser subsidiadas. Ao fim de 20 anos percebe-se que o seu trabalho é simplesmente mau e por isso o público não perde tempo com elas. Contudo, não há a coragem política de dizer basta. Em contrapartida companhias como a minha, que opera há mais de 20 anos, nunca teve qualquer apoio nem que fosse simbólico ou apenas institucional. Entrámos na 'Red Nacional de Teatros', em Espanha, desde 2002. Contudo, em Portugal, não somos sequer oficialmente reconhecidos", lamenta o ilusionista.

Luís de Matos, que prevê um "doloroso processo de seleção natural", diz que "quem faz bem, nada deve temer. Quem faz mal, deverá mudar de atitude ou desistir". "Sobreviverão os que mais capacidade tiverem para se adaptar. Os espetáculos fazem-se para o público e devem mesmo deixar de fazer-se para o ego dos encenadores ou diretores de teatros e companhias. Acredito que melhores dias virão. Contudo, é insustentável continuar a alimentar estruturas de supostos fazedores de cultura que a única coisa que fazem é falar ao espelho porque gostam muito de se ver e ouvir", afirma o mágico.

João Lampreia, manager de espetáculos, acredita que esta fase crítica para os artistas seja "benéfica para filtrar alguns projetos que surgem do nada, sem qualidade e sem estofo musical para se aguentarem neste mercado cada vez mais competitivo".

Paulo Dinis, da empresa Braga Eventos, afirma que "alguns artistas estão muito mal habituados no que diz respeito à cobrança de cachês, que são elevadíssimos. Vão ter de os rever em função da qualidade. E alguns artistas terão de se dedicar a outra profissão, porque nunca foram músicos ou cantores na vida".

Quanto aos gestores das salas de espetáculos, Paulo Dinis considera que "terão de passar a apostar em eventos que atraiam público e não apenas a cumprir a agenda cultural".

"Um grupo com qualidade e cachê acessível, vai sofrer a crise que todos os ramos estão a sofrer. Os outros, ficam pelo caminho", defende o responsável da Braga Eventos.

Ana Soares, manager do Rouxinol Faduncho (Marco Horácio), lembra que algumas salas cheias não significam lucros ou grandes lucros: "Num país sem poder de compra, os bilhetes têm de ser baratos e algumas plateias mesmo esgotadas não conseguem pagar todas as despesas envolvidas no espetáculo". A produtora diz que "já muitas salas fecharam e muitas outras fecharão nos próximos tempos".

Contudo, vê um lado bom: "talvez se reestruture o mercado de espetáculos".

Francisca Lacerda, empresária de espetáculos, critica as câmaras municipais que se queixam de não ter dinheiro para pagar cachês de 300 euros "e depois contratam dois ou três artistas, para uma só festa, que cobram mais de 40 mil euros/cada". "Claro que depois cancelam as restantes festas ao longo do ano nesses concelhos", diz.

Rogério Saraiva, manager dos Fingertips, defende que "vamos assistir ao desaparecimento de projetos criativos e à degradação de equipamentos culturais". Na sua opinião, vamos precisar de "uma década para ultrapassar esta fase".

Flávio Serpa, manager de Luís Represas, diz que, estando as autarquias "falidas", uma hipótese em aberto e pouco ou nada usada é a de recorrer a apoios comunitários. "Eles existem, mas pouco saberão como recorrer aos mesmos. A legislação para o efeito é densa e burocrática. Por essa razão muitos nem tentam. E o que acontece é que muito desses apoios (como outros em outras áreas) são devolvidos à União Europeia", afirma.

Ricardo Simões, da SMOG-Produções Culturais, defende que, "a médio prazo, vamos assistir a um desaparecimento das médias empresas deste setor, ficando apenas as micro organizações (do tipo associativo) e as grandes produtoras, reduzindo consideravelmente a oferta cultural bem como a sua qualidade".

Alain Vachier, manager de Júlio Pereira, diz que os próximos anos, para os artistas e donos de salas de espetáculos, serão "péssimos". "A perspetiva é negra. Se a política do atual governo se mantiver, com o desmantelamento do aparelho cultural, a curto prazo muitas empresas terão que fechar portas, empurrando para a fome e miséria todos os trabalhadores das artes do espetáculo. Artistas, técnicos de som e luz, proprietários de salas, agentes e produtores, cenógrafos, gráficos, rent a car, restaurantes, hotéis e outros vão deixar de poder pagar segurança social, IRS, IVA e, por isso, serão impedidos de concorrer a concursos promovidos pelas câmara municipais ou pelo Estado", afirma.

Pedro Barbosa, manager de "Os Azeitonas", considera que a crise favorece os proprietários das salas. Porquê? "Terão cada vez mais possibilidade de programar quase tudo numa lógica de bilheteira para o artista".

Luís Fernandes, da Câmara de Lousada, destaca o facto de as autarquias que até aqui não tinham orçamento para pagar a grandes artistas, terem agora a possibilidade de os ver ao vivo nas suas terras. Flávio Serpa, manager de Luís Represas, lembra, como que em jeito de aviso às autarquias que espreitam "oportunidades únicas", que "só os grandes artistas esgotam salas e em locais estratégicos".

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