Cultura

Cativeiro de The Wolfpack no arranque do Porto/Post/Doc

Cativeiro de The Wolfpack no arranque do Porto/Post/Doc

Festival internacional de cinema dedicado ao documentário e a estilos híbridos começa esta terça-feira na Baixa do Porto e dura até dia 8.

Sete irmãos vivem enclausurados pelo pai há mais de uma década num apartamento em Manhattan e têm no cinema a única fresta para o mundo exterior. "The Wolfpack" estreia no nosso país esta terça-feira à noite, no Rivoli, no arranque do Porto/Post/Doc. Nesta segunda edição, o festival homenageia o documentário social de base política com retrospetivas da obra de Lionel Rogosin, Thom Andersen e Chantal Akerman.

Se as boas histórias e as boas personagens garantem um bom documentário, "The Wolfpack" é à partida o filme imperdível do Porto/Post/Doc, festival dedicado ao género. A realizadora estreante Crystal Moselle foi premiada na rua quando se cruzou com os irmãos Angulo, vestidos ao estilo "Reservoir Dogs" de Tarantino, numa das poucas vezes em que escaparam de casa. O pai, devoto de Hare Krishna, mantinha-os afastados da sociedade em confinamento, numa tentativa de os proteger dos perigos do mundo. Era a mãe quem lhes dava aulas, em casa. Os adolescentes encontraram no cinema uma janela para a realidade e um subterfúgio para o quotidiano, ao interpretarem entusiasticamente personagens e cenas de filmes vistos, ao criarem adereços e figurinos com o que tinham à mão e ao reescreverem guiões. Agora querem mais.

"The Wolfpack" venceu o Grande Prémio do Júri no Sundance e encaixa-se na secção "Teenage" do certame do Porto, também eleita temática do festival, pela busca e afirmação de identidades que atravessa o programa. É também ali que passa "Listen to me Marlon", um documentário de Steven Riley sobre Marlon Brando, que usa gravações áudio do próprio e imagens de arquivo.

Entre relações de amor, realidades quase distópicas e reflexões sobre a História, "Las Letras", do mexicano Plabo Chavarria Gutiérrez, surge na competição oficial do festival como um poético ato de contestação contra o sistema corrupto mexicano através da reconstrução da história de um professor e ativista indígena a partir das cartas que escrevia à irmã desde a prisão. É uma das estreias nacionais a concurso, tal como o documentário "Cartel Land", de Matthew Heineman, outro forte concorrente.

Foi filmado na perigosa fronteira dos carteis da droga, entre o México e os EUA, e o risco valeu-lhe o prémio de melhor realizador do Sundance, além do prémio de melhor fotografia.

As produções lusas "Portugal - Um dia de cada vez" de João Canijo e Anabela Moreira e a "A Toca do Lobo" de Catarina Mourão, já conhecidas doutras salas, também integram a seleção competitiva.

Arqueólogo das imagens, o incontornável documentarista norte-americano Thom Andersen, em foco, estreia em Portugal a longa "The Thoughts That Once We Had", onde traça a história do cinema e ensaia a correspondência com a história das ideologias políticas. O seu novo "Juke: Passages From Films by Spencer Williams" também está em antestreia e questiona a escassa representação da comunidade afro-americana em Hollywood.

Por ser judeu, o tema da segregação cedo interessou a outra referência do cinema documental norte-americano, Lionel Rogosin. Em 1957, viajou até África do Sul para gravar a vida durante o apartheid, donde saiu "Come Back, Africa", revisitado agora no Porto/Post/Doc.

Os filmes de Chantal Akerman, recentemente falecida, interpretam-se com a emoção que só o tempo permite. Num tributo à cineasta belga e ao seu legado, o festival dedica-lhe uma retrospetiva, onde exibe o seu último filme, "No Home Movie". É uma espécie de diário intimo de vídeos domésticos da mãe, figura central do cinema de Chantal, que aqui a quer imortalizar, perante a inevitabilidade da perda que se aproxima.

O festival reservou para o último dia, a nova obra do mestre do documentário social, Frederick Wiseman, que nos apresenta sítios através das histórias de quem os habita. Assinado aos 85 anos, "In Jackson Heights", um bairro em crise de identidade.

A pensar nos melómanos, o Porto/Post/Doc apresenta a secção "Transmission". Entre o rock"n"roll perdido do Cambodja e a música "drone" de Phil Niblock, destaca-se o documentário sobre os Blur à volta do seu último álbum - "Blur: New World Tours" de Sam Wrench, em estreia no nosso país. Estreia sagrada será a de "Keith Richards: Under the Influence", o documentário sobre o lendário guitarrista dos Rolling Stones e a génese do seu som, pela lente do vencedor do Óscar da Academia Morgan Neville.

De Espanha, também chegam filmes recentes, patentes na secção "Cinefiesta". O novo talento Lois Patiño apresenta "Noite sem Distância", gravado entre a Galiza e o Minho. Um filme híbrido, com elementos documentais e ficcionais, tal como "L"Accademia delle Muse" do aclamado José Luis Guerrin.

"Cinema Falado" é a secção onde os novos filmes em língua portuguesa se revelam. Pedro Neves estreia "Bairrismos", relativo a seis bairros municipais do Porto, Daniel Blaufuks "Como se", sobre o gueto de Theresienstadt, antigo campo de concentração checo, e Tiago Afonso apresenta ao mundo "A Causa e a Sombra", sobre o revolucionário e antigo padre Alípio de Freitas.

De 1 a 8 de dezembro, o Porto/Post/Doc exibe 66 filmes, entre as salas do Rivoli, Passos Manuel e Maus Hábitos, na baixa portuense. O bilhete custa 4 euros (2 euros para menores de 18 e maiores de 65 anos). A partir da meia-noite, a animação transita para a pista do Passos Manuel, a cargo de diferentes dj"s.

No dia 4, discute-se sobre "documentar o imaginário" no Fórum do Real, no Rivoli (entrada gratuita), que traz ao Porto cineastas, os programadores dos principais festivais de documentário europeus e Dennis Lim, diretor de programação da Film Society of Lincoln Center de Nova Iorque e conceituado crítico de cinema, que assina uma das cartas brancas do Porto/Post/Doc. A outra pertence a "Les Rencontres Internationales".

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