Cultura

Inferno de "Behemoth" vence Porto/Post/Doc

Inferno de "Behemoth" vence Porto/Post/Doc

Documentário de Zhao Liang arrecadou o Grande Prémio da segunda edição do festival de cinema documental do Porto. Certame termina esta terça-feira e regressa para o ano com mais um dia.

Presente dantesco, futuro distópico, o poético "Behemoth" foi o grande vencedor da segunda edição do Porto/Post/Doc. O filme do documentarista chinês Zhao Liang, sobre a destruição de montanhas asiáticas e mineração para a produção de aço, conquistou o júri do festival de cinema documental, que em sete dias já tinha levado mais de oito mil espectadores à baixa portuense. Termina hoje, ao oitavo dia, e regressa para o ano com mais um, de 26 de novembro a 4 de dezembro.

Se uma imagem vale mais do que mil palavras, "Behemoth" tem esse dom de dizer-nos muito em poucas linhas, ao delegar o poder da comunicação na paisagem árida, na atividade laboral desumana e nos rostos sujos daqueles homens, entregues aos desvarios do mundo capitalista, captados. Ainda o filme não ia a meio e já sentíamos os pulmões calcinados daqueles humanos, mais mortos do que vivos, antecipando o que o final só vem confirmar: a doença, a morte, as cidades fantasma. Uma mensagem de desesperança, reforçada nas imagens espelho da paisagem que envolviam as aparições do narrador, enquanto reflexo no futuro da realidade estéril do presente e da sua voz premonitória e de denúncia.

"Este filme procura a beleza no inferno, a força de vontade sob as estruturas de predominação, a fragilidade humana na brutalidade do capitalismo moderno e fá-lo através de coragem, de uma procura poética, generosa e precisa, assente em verdadeiros working class heroes [heróis da classe trabalhadora]", justificou o júri, durante a entrega do Grande Prémio Porto/Post/Doc, Prémio Atelier des Créateurs, na cerimónia de ontem à noite, no Teatro Rivoli.

"Behemoth", um justo e incontestável vencedor, gravado no interior da Mongólia. O filme mais bonito que vimos no festival e nos últimos tempos. Também ganhou o Prémio Teenage, atribuído por um "júri de esperanças", dizia o diretor do festival Dario Oliveira, constituído por treze alunos de diversas escolas secundárias do Porto, novidade desta edição.

Mais espectadores

Em sete dias e a um de terminar, o Porto/Post/Doc contava já "uma audiência total de mais de oito mil espectadores", numa "média de 100 por sessão, incluindo várias lotações esgotadas em todas as salas", segundo o seu diretor, Dario Oliveira, que na cerimónia de entrega de prémios fazia um "balanço extremamente positivo" desta segunda edição. No ano da estreia, em 2014, mobilizou 6300 espetactadores, que se repartiram por dez dias de programação, nos mesmos recintos: Rivoli, Passos Manuel e Maus Hábitos.

"Pelo segundo ano consecutivo, provámos que é possível voltar a mostrar cinema de qualidade na Baixa do Porto. Ao longo destes dias, mostrámos que o público do Porto está disponível para voltar às salas de cinema", disse o responsável. "O Porto/Post/Doc já fidelizou um público interessado", sublinhou Dario Oliveira, acrescentando que as "salas estiveram cheias, com um publico cada vez mais jovem e curioso do que se faz de novo no cinema documental".

Filmes "Exótica, Erótica, Etc." e "Coming of Age" distinguidos

"Pela sua estética arrebatadora e os seus momentos inesperados no retrato de relações humanas", o júri do Porto/Post/Doc decidiu atribuir uma menção honrosa a "Exótica, Erótica, Etc.", de Evangelia Kranioti, outra inquestionável distinção. Este documentário é um ensaio sobre o amor, a entrega e a solidão num contexto de prostituição, a partir da história de uma antiga meretriz e dos marinheiros que recebia e sempre via partir no oceano, aqui retratado como a vida dessas pessoas - não conseguimos esquecer a imagem dos cargueiros a romper o mar em gelo a sul, como quem despedaça o coração daquela mulher largada, que agora chora por estar só e envelhecida, entre devaneios de amores perdidos.

"Coming of Age", um documentário de Teboho Edkins, sobre o futuro de uma comunidade em idade de decisões, esquecida nas inóspitas montanhas do Lesoto, venceu o Prémio Biberstein Gusmão destinado aos novos cineastas, pelo retrato que oferece do mundo da adolescência, "escapando de todos os clichés".

O 2º Porto/Post/Doc apresentou uma fortíssima e eclética seleção internacional competitiva. Entre os melhores argumentos, destacamos o do documentário da portuguesa Catarina Mourão, "A Toca do Lobo", que se revela uma belíssima contadora de histórias e, através da exposição da sua família, nos mostra a necessidade de percebermos as nossas raízes, para compreendermos quem somos. Como uma prodigiosa documentarista, Mourão interpreta os sinais que recebe durante a pesquisa e rodagem do filme e reconduz sabiamente a trama. Aquilo que era para ser um filme sobre "os sonhos e as memórias bloqueadas", como revela na apresentação do documentário no festival, acaba "a ser um filme pessoal", desenlaçado a partir do momento em que descobre um conflito na família relacionado com a ausência do avô materno - o falecido escritor Tomaz Figueiredo, autor do livro cujo título dá nome a este filme - e o resolve.

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