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Kendrick Lamar rei num dia de Super Bock Super Hip-Hop

Kendrick Lamar rei num dia de Super Bock Super Hip-Hop

A 22.ª edição do Super Bock Super Rock terminou na madrugada deste domingo, coroada pela atuação de Kendrick Lamar, o rapper mais influente do momento.

Dedicado ao hip-hop, o terceiro e último dia do festival foi o único a esgotar e podem apontar-se responsabilidades a Kendrick Lamar, o homem eleito como um dos 100 mais influentes do mundo pela revista Time e que tem sido apontado pela crítica como capaz de elevar o hip-hop a um novo patamar.

Assim que os músicos subiram ao palco e o fundo do ecrã se encheu com a mensagem "Look both ways before you cross my mind", atribuída a George Clinton, a multidão - 20 mil neste último dia -, rejubilou. E continuaria assim durante pouco mais de uma hora, em que foram tão celebradas as canções de "good kid, m.A.A.d city (2012) como as do universalmente aclamado "To pimp a butterfly" (2015).

No público, uma fã em lágrimas, cartazes - além dos clássicos "Give me the setlist" podia ler-se "White silence = white opression" -, um jovem com um vinil na mão ou uma t-shirt de Compton - cidade californiana de onde Lamar é natural e berço de rappers como Dr. Dre ou Ice Cube, fundadores dos seminais N.W.A. Os braços estiveram no ar quase em permanência, na plateia em pé ou nas bancadas, e muitos deixaram despertar o rapper que vive dentro deles, reproduzindo as letras (ou parte delas) na maioria das canções.

A abrir das hostilidades, saltaram do disco de 2012 "Backseat freestyle" e "The art of peer pressure", mas foi "Swimming pools (drank)" a primeira digna de uma ovação. "Bitch don"t kill my vibe", "m.A.A.d city", "King kunta", "i" ou a muito jazzy e irónica "For free?" foram o delírio anunciado.

Acompanhado por uma banda competentíssima, Kendrick desmonta o estereótipo do rapper ancorado apenas na voz, com guitarras, bateria e piano a terem um lugar central no espetáculo, neste hip-hop que também percorre territórios do jazz e que bebe de várias influências.

A consciência política que atravessa algumas das suas canções também teve espaço em palco, quando recordou o mundo tortuoso em que vivemos e as vítimas de conflitos (raciais) das duas últimas semanas.

Os gritos e ovações constantes da multidão sacaram-lhe um enorme sorriso dos lábios e um certo ar surpreendido perante tamanha devoção. E, mais uma vez neste festival, o público decidiu brindar Kendrick com o novo hino da moda: "E foi o Éder que os f...". O rapper não terá percebido, mas o som imponente de tamanho cântico a encher o Meo Arena foi suficiente para o deixar visivelmente emocionado, a olhar a multidão, com o palco em silêncio total.

No encore, "Alright" e a promessa: "Vou voltar. Adoro-vos!"

Antes, os históricos De La Soul já tinham a casa composta quando desafiaram o público a competir com braços e vozes ao alto. Autênticos "entertainers", não deixaram o público sossegado, ao mesmo tempo que lançavam temas como "Saturday" ou "Me, myself and I".

Para os mais novos, que ainda não conhecem o trabalho do trio norte-americano, avisaram que há novo disco para breve, com data de lançamento agendada para 26 de agosto. Quem esteve no Meo Arena e não os conhecia terá levado para casa uma excelente recordação e a vontade de (re)visitar o trabalho do grupo.

O palco principal do festival abriu com o coletivo português Orelha Negra, que apresentou ao público as duas novas canções, "A sombra" e "Parte de Mim", que antecipam o terceiro disco de originais. "M.I.R.I.A.M" ou "Throwback" não foram esquecidas, entre samples de "Hotline bling", de Drake, ou "Todos gordos" e "Dedicatória", dos Mind a Gap.

Como sempre acontece quando pisa um palco, a rapper Capicua acaba por gerar bons concertos. E ali junto ao Pavilhão de Portugal não foi exceção. Ela arremessou rimas várias, de gente que não se acomoda perante as injustiças, de gente que ergue a cabeça e que faz questão de aqui estar para mostrar que não tem medo, que não tem "medo do olho da rua e do olhar do patrão e medo de morrer mais cedo do que a prestação", como cantou em "Medo do medo". Para rematar: "Eles têm medo que um dia não tenhamos medo".

A cantora do Porto também deixou um rap - "Medusa" - contra a violência doméstica, contra a realidade das agressões a um mulher de que mais ninguém tem pena / que apanha, sem queixa, que deixa e aguenta". É algo que infelizmente sucede um pouco por todo o lado. "Espero que um dia deixe de fazer sentido cantá-la", disse Ana Matos Fernandes, aliás Capicua.

O concerto foi novamente acompanhado por um ilustrador que desenhava em tempo real: e os desenhos, um por cada música, foram projetados num ecrã atrás do palco. Toda gira num vestido preto, Capicua segurou a multidão com "Fumo denso", "Casa no campo" ou "Maria capaz" (com outras quatro mcs convidadas). "A liberdade", disse ela, "não é uma coisa que se festeja no 25 de abril: é uma conquista quotidiana".

O último concerto do festival nesse palco aconteceu com a celebração dos 30 anos de "Psicopátria" dos GNR. Coadjuvados por mais três músicos - "um meio campo de luxo", disse Reininho - os GNR fizeram uma belíssima viagem ao passado e percorreram aquele disco na íntegra. A imagem da capa de "Psicopátria" permaneceu projetada atrás da banda. Aquela fotografia do miúdo em voo de pássaro rumo às águas do Douro - haverá capa de disco mais bonita do que essa? - misturou-se em cores em movimento.

À segunda canção, "Bellevue", um dos maiores tesouros da pop nacional, constatou-se uma evidência prazenteira: a voz de Reininho está melhor do que nunca. E as canções foram saindo, umas atrás das outras. Particularmente aplaudida foi "Choque frontal", início demolidor, o palco cheio de fumo, Reininho rei e senhor. "Nós somos um projeto novo, não temos mais músicas", comentou no final, antes de lançar três surpresas: "Vídeo Maria", "Las Vegas" e "Cadeira elétrica".

Em dezembro passado, os madrilenos The Parrots deram um dos melhores concertos do Vodafone Mexefest. Tocaram no Ateneu, em Lisboa, e a farra foi de tal monta que as paredes até transpiraram. Felizmente, voltaram para um concerto no Super Rock. Abriram o palco EDP, debaixo da pala de Siza Vieira, e ainda de dia, debaixo de um calor abrasador. O trio voltou a implementar uma formidável sessão de rock apunkalhado, sem rodriguinhos nem requintes, todo selvagem a propagar um desvairo rock'n'roll que não se vê todos os dias.

É uma banda que merece ser seguida. Vale a pena descobrir "Los niños sin miedo" e canções como "No me gustas, te quiero". Explosivos e festivos. Para desentupir o canal auditivo e encher-nos de vigor.

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