Entrevista

Quim Barreiros: "O Marcelo veio copiar-me, ando há 40 anos a tirar selfies"

Quim Barreiros: "O Marcelo veio copiar-me, ando há 40 anos a tirar selfies"

Quim Barreiros faz 70 anos nesta segunda-feira e anda há 40 a distribuir beijos e fotografias. Nas aldeias, o povo aguça-lhe a malandrice e o "Mestre de culinária" agradece a matéria-prima.

Quando sobe ao palco do Motorfest, em Monte Redondo, Leiria, já a noite vai longa, e Quim parece bem fresco. Conhecido pelas rimas com duplo sentido, a resvalar para o sexual, põe o icónico chapéu e dispara: "Está melhor? Mas olhem que eu não gosto nada de tapar a cabeça."

Chamam-lhe rei da música popular, e domina também nas "selfies" - há 40 anos, nota. Onde passa, chovem beijos e pedidos de fotos, a que responde sem sombra de enfado. Lembra alguém? Para Quim, só duas pessoas põem o povo português feliz: ele e o presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Faz 70 anos amanhã...

Eu penso que sou mais novo (risos). Até as velhinhas nas festas dizem: não parece ter a idade que tem.

Custa-lhe deixar de ter 69?

Ó minha querida, não. Penso sempre no dia de hoje e no de amanhã. Não me preocupo com os anos, nem com as rugas. Às vezes, preocupo-me com uma coisa que não te digo, que é própria da minha idade (risos)!

Tem lançado um álbum de ano a ano.

Nos últimos anos, todos os anos gravo. Gravei o "Eu faço 69" [em 2016] e neste ano já saiu "O zinho". Cada vez é mais difícil gravar, porque é preciso matéria-prima. Para não andar sempre a bater no mesmo, não é fácil encontrar piada. Gostava de gravar até 2021, porque aí fazia 50 anos de discos gravados. Já estou a trabalhar para o do ano que vem.

Como nascem as cantigas?

Vou aprendendo com os mais velhos, nas aldeias. Faço cantigas de piadas, de versos populares... O que tenha malandrice, eu aproveito. Há velhinhos que, como sabem o meu estilo de música, me dão dicas para gravar.

O "Melhor dia para casar" (1996) foi um reitor...

Da Universidade de Vila Real. Estava a tomar um café com ele e disse-me: ó Quim, sabes qual é o melhor dia para casar? É o 31 de julho. Porque amanhã entra agosto. Comecei a pensar... aqui está uma cantiga.

Toma notas?

Tenho de tomar. Muitas vezes, estou na cama, acordo de noite, e tenho ali papel e esferográfica, senão no outro dia não me lembro. Por vezes, há uma palavra de que preciso para rimar com outra, que não é fácil. Vou para a cama a pensar naquilo e acordo a pensar na palavra. Já tenho ido para a Madeira sozinho, e para o Brasil, dez dias, para fazer cantigas, e não faço uma. E por vezes o livro abre-se e começa a sair música e letra por todo o lado.

Começa tudo na letra, não é?

Faço a letra e às vezes agarro-me ao piano, não sai nada; agarro na viola, não sai nada; agarro-me ao acordeão, também não sai. Depois vou para o sintetizador, ponho um som qualquer que me desperta... olha, está aqui.

Toca vários instrumentos.

Mal, mas toco vários. Tenho habilidade para tudo, mas não sou perfeito em nada. Sou um acordeonista popular. Há aí campeões do mundo do acordeão.

Em que é que é melhor? Qual é a melhor coisa?

A melhor coisa é sempre ganhar dinheiro. Sem dinheiro, não fazes nada. E então na nossa vida [dos artistas] toda a gente te põe o pé em cima do pescoço. A gente tem que ter um bocadinho para se defender. A minha sorte foi ter ido para o estrangeiro, para os emigrantes, ganhar o meu dinheirinho. Ao chegar cá, quando me apareciam os empresários a dizer: tens de ir de borla para acolá, para ganhar nome, eu: para ganhar nome? De borla, vai tu. Em Portugal, conheço alguns artistas que vivem bem; agora, rico, não conheço ninguém.

E o Quim?

Vivo bem. Sempre ganhei dinheiro, porque é importante a gente trabalhar e ter uma vida desafogada.

A certa altura, escolheu apostar nos trocadilhos...

Não escolhi nada. A minha mãe era analfabeta e queria pôr-me a estudar; mas o meu pai: não, senhor. Estudar era para malandros, dizia ele. Pôs-me a trabalhar como mecânico. Tinha 9 anos. Mas quase aos 16 anos fiquei órfão de mãe...Aí vi necessidade de ir mais longe. Em Vila Praia de Âncora não havia muitas facilidades, mas com a ajuda de uma irmãzinha de uma congregação de que já não sei o nome, e do Francisco Sampaio, que mais tarde foi o diretor do Turismo de Viana de Castelo, agarrei-me aos livros. Cheguei ao sétimo ano [atual 12.º]... Já me deu entrada na Força Aérea.

Foi para Lisboa.

Fui, para a Força Aérea. Faltava-me uma cadeira para entrar na Universidade. Ainda fui a exame uma vez ou duas. Mas começo a ganhar dinheiro... Ganhava 75 escudos, por mês, como soldado-músico, e comecei a ganhar 100 escudos por dia para tocar um bocadinho numa casa de fados. Na mesma noite, cheguei a tocar em três ou quatro casas. E aí nascem os convites. Fui para a América, para o Canadá, cantar para os emigrantes, acompanhar os grandes artistas portugueses... Duo Ouro Negro, Francisco José, Gabriel Cardoso... Já não saí dali, porque ali havia os dólares. Aqui, entretanto, já havia o 25 de abril. Não tínhamos hipóteses, eram só os cantores de intervenção nas rádios, a televisão também era porta fechada... Eu lá estava nas minhas sete quintas. E quando, anos depois, vim para aqui, vim com estaleca para comprar um carro, um furgão para trabalhar, uma aparelhagem, acordeões eletrónicos...

Graças ao que amealhou a tocar para os emigrantes.

Claro. Devo muito aos emigrantes da América e do Canadá. Comia com eles, dormia nos quartinhos que me arranjavam e corria o Canadá e a América, nos anos 1970, 80.

Mas a aposta nesta música mais divertida, com os trocadilhos, a maioria de teor sexual, foi um caminho que escolheu porque sabia...

Não escolhi. Isto é nosso.

A sua raiz é a música tradicional. Depois, passa pelas casas de fados, e os primeiros discos são bastante rentes à música tradicional.

Todos tradicionais. Os primeiros discos nem são cantados, são tocados.

...mas há uma altura em que começa a tocar mais nesta tecla...

Tínhamos grandes acordeonistas em Portugal, que tocavam muito melhor do que eu - o Carlos Areias, Fernando Ribeiro, Isidro Baptista, Tino Costa... E, a tocar acordeão, eram pobres. Eu vi a necessidade que há de cantar. Não tenho uma voz bonita. Não sou o Marco Paulo a cantar, nem o Carlos do Carmo. Tenho uma voz para transmitir que quero transmitir. Sou afinadinho, dentro do tom, sou músico... Cantar o quê? Ora, tendo eu bases de conjuntos musicais que fazem os bailes da aldeia... Dos 9 até aos 18, comia aquilo tudo, no Conjunto Alegria, do meu pai.

Entrou aos 8 anos, a tocar bateria.

Isso. Depois passei a tocar acordeão. E, intercalado com o conjunto musical, tocava acordeão num dos melhores grupos folclóricos que havia em Portugal: o Grupo Folclórico de Santa Marta de Portuzelo. Toquei no Grupo Folclórico de Afife... Quando tocava nos ranchos, ouvia os mais velhos cantar ao desafio aquelas malandrices, e isso estava tudo aqui [aponta para a cabeça]. Um dia, venho da América e um grande amigo, o Dr. França Amaral, de Afife, traz-me um disco e diz-me: Quim, tens que gravar isto. E eu gravei essa música. Fiz meu primeiro disco cantado. É a partir desse disco que começo a fazer músicas baseado no duplo sentido.

Está no ADN português, essa malandrice?

Está. Se estudaste literatura, vais ver: cantigas ao desafio, cantigas de amigo, cantigas de maldizer, os nossos poetas antigos... Está tudo lá! Encontrei no Brasil um livro de (risos)... eles dizem sacanagem, duplo sentido, de poetas brasileiros e portugueses, que é interessantíssimo. O cheirar o bacalhau já há 100 ou 200 anos está em prosa de escritores nacionais.

Essa letra é brasileira...

É. Isto é tudo nosso. Os brasileiros também não inventaram nada. Eu fui para o Brasil, fui para o Nordeste. O forró deles são os nossos corridinhos, com um batuque diferente. As piadas deles têm tudo a ver connosco. Nós é que levámos isso para lá.

Algumas letras não são suas...

60% são minhas. Porque depois os Quim Barreiros do outro lado [Brasil] já mandam para eu gravar.

Quando escreve as suas letras, há algum limite que se imponha a si mesmo?

Só não me meto em política e religião. Política e religião a gente não deve gravar, porque choca. É mais bonita a brincadeira, o duplo sentido.

O seu tema "Casamento gay" gerou polémica, com acusações de homofobia...

Mas está errado, porque aquilo é uma piada, e foi mal interpretado. Não quero ofender ninguém. Tenho grande amigos gays, quer na televisão, quer jornalistas, quer cantores, não só homens como lésbicas. Sempre respeitei toda a gente. Toda a gente gosta de mim.

Anda sempre a correr de um lado para o outro. É o Quim que conduz, que faz tudo?

Sou. A minha banda anda no seu carro, eu ando no meu. Tenho a minha vida, e se a gente andar com alguém partilha a vida com outra gente. E a minha vida sei-a eu.

Mas é mais cansativo. Já disse que, por mês, faz 10, 12 mil quilómetros.

Cansado, fico, e sei que isto vai ter um limite, mas um homem como eu, que tenho um relógio biológico totalmente avariado...

Tem?

Tenho que ter, porque tanto posso ir para a cama à meia-noite, como se a festa acaba às quatro da manhã vou para a cama às cinco, como se estou em casa adormeço às dez da noite e às 3 da manhã já estou acordado... Durmo à base de comprimidos. Quando vou para a estrada, não tenho sono. Mas vejo que a idade vai avançando e não é só o sono, é a vista, é... Começo a sentir que tenho que mudar um bocadinho. Porque eu parar não paro. Parar é engordar, é... morrer. E eu também já estou naquela idade em que se a gente acorda sem uma dor está morto, não é? Um gajo levanta-se, põe o pé no chão e lá vai a andar (risos).

Quantos concertos dá por ano? O seu máximo foi 287.

E tive em muitos anos 280, 282, 284... Agora, anda à volta dos 200. É violento. A maior parte dos meus colegas faz metade. Outros, menos de metade.

Por que faz tantos?

É o bichinho. Gosto disto, gosto da estrada, gosto de andar aqui, acolá... Até em casa, não consigo estar parado. Não consigo ver televisão. Ponho num jogo de futebol, só quando gritam golo é que vou ver.

O Quim tem alguma música preferida?

Não. Como posso escolher entre o "Mestre de culinária" e a "Garagem da vizinha", ou entre o "Bolo do caco" e o "Bacalhau à portuguesa"? Todas têm a sua piada. É como o folclore. Cada música tem a sua verdade.

Sempre teve o cuidado de escrever de modo a que as crianças não percebessem os segundos sentidos.

Claro. Também já fiz cantiguinhas para elas não perceberem, mas vão crescendo e começam a ver a malandrice.

Conheço quem tenha começado a namorar a 31 de julho e faça a brincadeira com o "Melhor dia para casar". O Quim chega a toda a gente, não é? Mesmo aos mais jovens.

Mais jovens e mais velhos. E tenho feito vários casamentos. Telefonam para mim, até moças: ó Quim, vou casar no dia 31 de julho. Pode vir cá beber um copo? E, se eu puder, vou.

O musicólogo José Alberto Sardinha afirmou que o Quim é "um cantor tradicional que herdou toda a tradição da música minhota e que cria de acordo com os parâmetros que lhe foram fornecidos pela tradição. Só que ainda ninguém reparou nisso". Acha que devia ser mais valorizado?

Eu não. Até é bom que não falem em mim.

Não procura reconhecimento?

Nada. Procuro é andar no meu povo, nas minhas festinhas... Agora, de homenagens, fujo.

Mas sente que é respeitado pelos seus pares?

Sou respeitado por toda a gente e, se há cantores a nível nacional que são mais procurados para campanhas políticas, eu sou um deles... Desde o senhor engenheiro António Guterres até, sei lá, todos os políticos... Fiz as campanhas deles todos... Mas não quero nada. O meu papel é trabalhar. Sou isento. Tanto trabalho para o PS, como para o PSD, como para o CDS... Os da esquerda nunca me convidaram. Aliás, há malta de esquerda que já me tem convidado. Não é convidar, é dizer: 'pá, tu tens que ir'. Claro que vou. Mas depois não formalizam.

Por que acha que isso acontece?

Acho que a malta de esquerda convida para as suas festas a malta de esquerda. Também não vejo lá malta mais de centro-direita.

Considera-se mais à direita?

O meu partido é o NBP - Notas do Banco de Portugal. Quando é para votar, voto. De resto... Quando vou para cima do palco, agradeço a quem me contrata. Agora, não estou para lá a bater palmas, até salto fora. Faço o meu papelzinho, não influencio ninguém.

Disse que foge das homenagens, mas já manifestou o desejo de ter um museu na sua terra.

Acho que sim. Falta-me o tempo.

Não é um contrassenso?

Não. Porque tenho um espólio muito grande. Não há artista nenhum português que tenha metade dos discos gravados que eu tenho, por exemplo.

Quantos discos tem gravados?

Sei lá. 70 ou 80. Tenho muita coisa que me ofereceram. Cartazes... Acordeões, instrumentos... Se a [acordeonista] Eugénia Lima abriu uma coisinha ali perto de Rio Maior, eu também gostava de ter na minha terra. Uma coisa minha, que ficasse para a família. Já fui ver o museu do Cristiano Ronaldo à Madeira, mas acho que posso fazer melhor. Não tenho bolas de ouro, mas acho que tenho mais coisas para mostrar (risos).

Tem mulher, dois filhos, três netos e uma albergaria em Vila Praia de Âncora, além da carreira musical absorvente. Como concilia tudo?

Fiz a albergaria quando comecei a ganhar dinheiro. Comprei umas casinhas velhas em frente ao mar e fui construindo, olhando para o futuro. É raro veres-me na albergaria. Quem está à frente daquilo já nem é a Isabel [mulher], é uma senhora que está a tomar conta. Não tenho vida para aquilo. É minha e um dia há-de ser para um filho.

Quando pensamos em si, pensamos em alegria, divertimento. O Quim fora do palco é o mesmo que é no palco?

Sou. Sempre fui uma pessoa extrovertida, simpática, agora, brutalmente distraída. Na rua passo por ti e é preciso que tu: 'ó pá, então não me conheces?' Porque eu não reparo.

Mas vê-se como essa pessoa realmente alegre?

Sempre fui alegre e positivo. E realista. E unindo a isto a minha vontade de trabalhar, ser honesto, humildade e andar para a frente. Também tenho uma coisa que tenho que agradecer: a saúde. Felizmente, até hoje, nunca tive nenhuma coisa que me abalasse...

Nem a morte da sua mãe?

Tinha 15 anos, são coisas que marcam para toda a vida, mas não tem nada a ver com a nossa maneira de ser.

Não influenciou?

Não, porque a própria minha mãe era alegre. Nesse aspeto, saio a ela. A minha mãe passava a vida a cantar. [Era] daquelas mulheres que estavam a cozinhar e a cantar, que iam para o rio lavar a cantar, estavam a sachar as batatas e a cantar. Ela, as irmãs, toda a gente cantava. É isso que não vejo nas mulheres de hoje. Daí as depressões.

Cantar é alegria.

[Expira] E sai cá para fora.

Disse numa entrevista que só havia duas pessoas neste país que punham o povo feliz: o Quim e Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas o Marcelo veio copiar-me. Porque já ando aqui há 40 anos a tirar selfies, fotografias com toda a gente na rua, a dar beijos a toda a gente na rua. Fiz uma festa quando ele era secretário-geral do PSD e, que me recorde do meu presidente - que daqui saúdo, gosto muito dele e foi nele que votei -, na altura, não era assim; não dava beijos a toda a gente. Hoje, tenho que lhe dar os parabéns, porque o povo português precisava de um presidente assim.

Afetuoso?

Ora muito bem. Quem é que não se recorda do ar sério e grave do Américo Tomás? Antes, de Craveiro Lopes. Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes, Sampaio... Mário Soares também não era aquela pessoa sorridente... O Prof. Dr. Cavaco Silva também com ar sério... Até que aparece um homem que põe o povo feliz.

O que pensa da atual situação política e social do país? Estamos melhor?

Pago sempre mais impostos, a gasolina diminui um cêntimo, passado três dias aumenta dois, andamos sempre nisto... Estar lá A, B ou C, não noto nada. Não quero saber.

Não liga à política?

Não. Esteja lá Pedro ou Paulo, para mim está tudo bem. Só sei que tenho de trabalhar. Tenho de poupar o meu dinheiro. E andar para a frente. Com que é que me preocupo? Comer, quando posso, beber um copinho, confraternizar com os amigos, que são a coisa mais importante - a família e os amigos.

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