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Por Elmano Madail
e Sérgio Almeida
 

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"Não há nenhuma máquina idêntica ao livro"

25

Novembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 15:12

 

Sérgio Almeida 

 

Primeiro convidado do "Porto de Encontro", um ciclo de conversas com escritores promovido pela Porto Editora com o apoio do Jornal de Notícias, Gonçalo M. Tavares partilhou o seu universo literário com quase centena e meia de pessoas que, no último sábado, sobrelotaram o Palacete dos Viscondes de Balsemão, no Porto. Para o autor de Matteo perdeu o emprego, os livros não são apenas máquinas de pensamento superiores a qualquer inovação tecnológica, mas também instrumentos decisivos para a liberdade individual.

Crítico do recurso às novas tecnologias no acto da aprendizagem da leitura, Gonçalo M. Tavares confessa ainda a sua estranheza e desabituação face às regras do Acordo Ortográfico.

O ciclo prossegue no próximo dia 10 de Dezembro, às 18 horas, com José Rentes de Carvalho, num local a anunciar brevemente.

 

Por muito compensador que seja, o reconhecimento de uma obra pode fazer diminuir a vigilância do autor para com o seu trabalho. Como procura precaver-se desse risco?

Sou cada vez mais vigilante. E de uma forma doentia. Acredito que, se tentarmos ser mais lúcidos no final de cada dia, seremos pessoas mais vigilantes.

E os livros são um contributo válido para esse aumento de lucidez?

Acredito que sim. Gosto muito de cinema ou artes plásticas, por exemplo, mas os livros pertencem a outra ordem. São uma máquina de lentidão mas também de isolamento, pensamento e silêncio. O que os livros têm de extraordinário é que podemos estar no meio de uma multidão de um milhar de pessoas e, mesmo assim, estarmos totalmente isolados. Não há nenhuma máquina capaz de fazer isso. Quando levamos um livro no bolso é como se carregássemos um templo. O que fazemos quando abrimos um livro é muito semelhante à atitude que adoptamos ao entrar numa igreja. Em ambas as situações, baixamos logo o tom de voz. A igreja também é uma máquina de desacelerar e reflectir. Se alguém se limitasse a ler apenas, recusando as outras artes, seria, ainda assim, uma pessoa densa. O cinema, o teatro, as artes plásticas dão-nos muito - mas a literatura é talvez algo de mais estrutural.

A sua obra tem dado azo, ao longo dos anos, a adaptações teatrais, curtas-metragens e até peças de arquitectura. Como vê o diálogo dos seus livros com outras artes?

É muito simpático sair da cápsula dos leitores para a de artistas. Dou liberdade total para que invistam em propostas criativas e, se possível, afastadas dos livros.

Acompanha essas adaptações?

Por vezes, assisto a um ou outro ensaio, mas evito estar muito presente para dar todo o espaço a uma nova criação, totalmente independente.

Vê-se a utilizar um leitor de livros electrónicos?

Uma das grandezas do livro clássico é que estamos totalmente concentrados na leitura. Há um único centro. Quando os livros electrónicos remetem para links intermináveis, isso já não acontece - nestes casos há uma fragmentação da atenção.

As novas tecnologias podem cercear a criatividade?

As crianças estão a aprender a ler, vendo. Mas ensinar a ler através da disponibilização de múltiplas imagens pode perturbar o processo da leitura. Só começamos a ler quando deixamos de ver as letras e imaginamos. Ler é, em certo sentido, deixar de ler e começar a imaginar. As letras são um conjunto de traços, uma mera abstracção. É a nossa mente que faz o resto. Por isso, a leitura não é um processo técnico – é um processo da inteligência e de imaginação.

É possível encontrar num só livro seu vários géneros. Não faz sentido compartimentá-los?

A divisão entre história e pensamento é artificial. Os géneros literários são limitativos. Se um Lego já é espantoso, o alfabeto consegue sê-lo muito mais, porque, com apenas 23 letras, conseguimos escrever biliões de coisas diferentes. Quando começamos a escrever, temos tudo ao nosso alcance. Ao escolhermos só um género, estamos a reduzir-nos.

À semelhança do que acontece a outros escritores, muitos dos seus livros não se situam num território definido. A literatura portuguesa actual é, de certo modo, apátrida?

No meu caso, o que me interessa são os movimentos das pessoas, ou seja, não é a paisagem que me move mas sim o que os seres humanos fazem nela.

Faz questão de não se dedicar apenas à escrita?

Há um grau de liberdade de que não abdico. Escrevo apenas aquilo que quero escrever. Além disso, é muito importante sair do mundo da escrita e contactar com outras pessoas.

Jogou futebol federado até aos 18 anos. Concorda com Albert Camus quando disse que o que aprendeu sobre a ética e os valores deveu-o, em larga medida, ao futebol?

Todas as concentrações de grupos são uma espécie de micro-sociedade. Ao juntarmos um número elevado de pessoas num espaço, encontramos pessoas com características de liderança, de força, outras de seguidismo, etc. Há estudos sociológicos muito curiosos que demonstram que, por maior que seja o grupo, a esmagadora maioria de pessoas segue as indicação de duas ou três. O que me assusta não são os líderes de cada grupo, mas sim as massas que os seguem de forma cega.

É favorável ao Acordo Ortográfico?

Os possíveis desentendimentos linguísticos entre Portugal e Brasil não são de ordem ortográfica. Uma frase comum que os brasileiros possam utilizar, como “não jogue papel no vaso”, continuará a ter um significado para eles e outro totalmente distinto para nós. Esteticamente, confesso que a perda de certas consoantes me perturba. Vejo, por vezes, as palavras abrangidas pelo Acordo e sinto que têm um erro visual, com o qual não me sinto confortável.

 

O Brasil ainda hoje paga pela escravatura... - Laurentino Gomes

27

Setembro

2010

Publicado por elmanomadail às 20:37

Elmano Madail

 

Com uma simplicidade formal que não compromete o conteúdo – pelo contrário –, Laurentino Gomes passou em revista o contexto político e sócio-económico da independência do Brasil, proclamada por D. Pedro, o I do Brasil e IV de Portugal, num livro cujo título evoca a data – 1822 – e personagens complexos. Best-seller no Brasil, chegou agora a Portugal.

 

O que explica o êxito de 1882, a sua abordagem aos primórdios do Brasil soberano?

Hoje, na lista dos 10 livros mais vendidos no Brasil, seis são de História! Há uma reflexão profunda e silenciosa sobre as nossas raízes. O Brasil foi uma ditadura até há 25 anos, e as pessoas julgaram que a Democracia tornaria o país desenvolvido; mas não – é uma aprendizagem lenta, sofrida, e as pessoas estão assustadas com a pobreza, as desigualdades, a criminalidade... e interrogam-se. E buscam na História explicações para o presente.

 

Diz que o Brasil tinha tudo para dar errado enquanto país independente. Que tudo é esse, e o que contrariou tal destino?

O Brasil tinha mesmo tudo para fracassar, por vários factores: étnico, pois um cada três brasileiros era escravo, e os outros índios ou mestiços; uma população miserável com 90% de analfabetos; províncias rivais e desligadas entre si, sem sentido de unidade nacional; e havia o risco de guerra civil entre monárquicos, republicanos e federalistas. Depois, o país estava falido, porque D. João VI, ao regressar a Lisboa, raspou os cofres públicos, deixando o país sem dinheiro para armas, munições ou soldados para sustentar uma guerra. Então, o expectável era que o país mergulhasse numa guerra civil ou étnica (entre escravos e brancos). E aí entra a fantástica combinação de sorte, improviso e sabedoria, que consolida o país integrado e independente quando os riscos de fragmentação eram maiores. O Brasil singrou mais pelas fragilidades do que pelas virtudes, isto é, o risco de guerra civil ou étnica era tão grande, e tão desastroso para as elites da época, que preferiram unir-se em redor do herdeiro da coroa portuguesa, D. Pedro, e preservar o país unido.

 

Qual foi a verdadeira extensão do papel da Maçonaria nesse processo? A influência da Maçonaria ainda se mantém?

A Maçonaria funcionava, na viragem do século XVIII para o XIX, como agente internacional de subversão, cuja agenda visava reduzir o poder dos reis e ampliar os direitos civis, e esteve por trás de quase todas as transformações da época, desde a Revolução Francesa, à libertação da América espanhola, à independência dos EUA... Ser mação era chique, os intelectuais todos eram mações, o que não significa que a Maçonaria fosse homogénea – esse é um mito. Outra falsa ideia é a de que a independência brasileira foi toda tramada, organizada e decidida nas lojas maçónicas. Eu digo que não. A Maçonaria foi fundamental, mas os mações estavam divididos entre republicanos, federalistas, monárquicos absolutistas e constitucionalistas, esclavagistas e abolicionistas, pelo que funcionou mais como proto partido político. O facto de D. Pedro ter sido grão-mestre no Rio de Janeiro e logo a seguir mandar fechar e perseguir os mações mostra como a Maçonaria usou e foi usada pelos grupos de pressão da época. Hoje, não tem grande influência, é só uma excentricidade.

 

D. Pedro é o pai da independência ou foi a marioneta de José Bonifácio e da Inglaterra?

D. Pedro não é o monarca sábio que faz tudo segundo a sua visão e vontade; é alvo, claro, da sedução e manipulação pela elite política brasileira. Mas é fundamental por ser o elemento de força que impede a desagregação do território. A independência resulta menos do desejo genuíno de autonomia dos brasileiros do que da crise na metrópole. Até às vésperas da proclamação da independência, a maioria das lideranças defendia o Reino Unido do Brasil, Portugal e o Algarve, porque lhe interessava: como o Brasil é mais rico do que a metrópole – estava lá o tráfico negreiro, o açúcar, o algodão, o café, ouro e diamantes – manter o reino unido dava acesso ao mercado europeu, através de Portugal, sem mediadores. Mas com a radicalização na metrópole – as Cortes Constituintes -, os brasileiros aproveitam para executar o projecto de independência. É nessa altura que entra a sabedoria de José Bonifácio, homem experiente e sábio, que tinha assistido à Revolução Francesa em Paris. Ele percebe que manter o Brasil íntegro só com uma monarquia constitucional sob liderança de D. Pedro. É esta forma de Brasil que triunfa em 1822, cuja face visível é D. Pedro e a oculta José Bonifácio Andrade e Silva.

 

Leopoldina, primeira mulher de Pedro,  geriu os assuntos de Estado em momentos cruciais, e formalmente é a autora da independência (com Bonifácio). Como é possível ter morrido maltratada e de desgosto?

Ao contrário de D. Pedro, Leopoldina teve educação esmerada, na corte mais ilustrada da época, a dos Habsburgos de Viena. E chega ao Brasil iludida sobre o país e o marido. Achava que vinha para um sítio exótico, idílico, como o Éden. E apaixonara-se completamente pelo marido só de lhe ver o retrato num medalhão. Quando chega ao Rio de Janeiro, assusta-se com as ideias liberais dele – ela vinha de uma corte absolutista –, mas depois sofre uma transformação política e pessoal. Política aderindo ao projecto de independência e, em 1822, tem um papel formal importante: quando D. Pedro faz as famosas cavalgadas a Minas Gerais e São Paulo, conduz as reuniões do gabinete e despacha a correspondência diplomática. Na vida pessoal, é a história mais trágica da independência. Decepciona-se logo com tudo e todos: era maltratada pela corte portuguesa, invejosa da princesinha ilustrada; descobre um marido epiléptico e infiel; e vê que o Brasil é quente, sujo, cheio de mosquitos e de escravos. Depois, torna-se na parideira real – engravida nove vezes em nove anos –, descuida os seus atributos e mergulha na depressão. Morre aos 29 anos, completamente deprimida e abandonada pelo marido, que a humilha em público com a amante.

 

Que imagem ficou, no Brasil, de Pedro? O estadista liberal, militar aguerrido e generoso, ou o homem bronco e dissoluto?

Infelizmente, a que prevalece é a do príncipe boémio, inconsequente, mulherengo e imoral. E por duas razões. A mais antiga vem da implantação da República (1889). O novo regime, para se legitimar, faz duas coisas: constrói novos mitos, como Tira-Dentes, e desconstrói a História anterior e os seus heróis, como D. Pedro I. Depois, no regime militar, há outra revisão da História, na qual D. Pedro é o herói marcial e épico do Grito do Ipiranga, o pai da pátria. Quando chega a democracia, ocorre a desconstrução dessa visão, e D. Pedro volta a ser boémio e mulherengo! A História é fascinante por isso, por  ser alvo de manipulações o tempo todo, porque a natureza do poder é reescrever o passado para legitimar o presente. Por isso é um herói multiusos da História brasileira – moldado e remoldado conforme as circunstâncias.

 

Pedro abandona o Brasil em desgraça por se ter dividido entre as razões de Estado e as do coração. Havia hipótese de sair incólume deste dilema do prisioneiro?

Acho que não. Ele perde rapidamente a aura de herói da independência por três razões: primeiro, pela contradição entre o discurso liberal e a índole profundamente autoritária. Ele aceita assumir o trono brasileiro como imperador constitucional – poderes limitados pela Constituição –, mas depois dissolve a Constituinte por ela não se curvar e outorga ele uma Constituição – muito liberal, aliás. A segunda são os escândalos pessoais – muitas amantes, bastardos, e a morte de Leopoldina, amada pelo povo; a terceira é o dilema entre os interesses do Brasil e os de Portugal, porque ele é o primeiro imperador brasileiro mas é também herdeiro da coroa portuguesa, que assume – poucos brasileiros sabem que foi rei de Portugal em 1826. Lisboa vivia um momento tão difícil que não era possível a D. Pedro ignorá-lo e não proteger os interesses da filha, Maria da Glória. E torna-se inviável continuar no trono brasileiro. É obrigado a abdicar. É muito simbólico que até na morte continue dividido: o coração está aqui, no Porto, e os demais restos no Ipiranga, em São Paulo...

 

Iniciado o primeiro reinado da independência, a desavença entre o poder Executivo, exercido por D. Pedro, e o legislativo leva à dissolução da Constituinte. Os governos autoritários são uma marca genética do Brasil?

É verdade. O Brasil é um país construído de cima para baixo. Comparando com os EUA, ali temos, em 1776, uma sociedade com senso de participação comunitária, e com 90% de letrados que fazem a independência e criam um Estado – é um processo de baixo para cima. No Brasil é o contrário: faz-se uma independência sem povo (no sentido de entidade capaz de participação política). É o rei que, vindo de Lisboa em 1807, tem de organizar o Estado brasileiro, criar instituições que não havia, uma máquina burocrática, administrativa, que constrói o Brasil. E essa construção, de cima para baixo, continua com D. Pedro. Então, a construção do Brasil é sempre de uma elite imperial, representada pelo monarca. E essa construção autoritária continua até há 25 anos, porque a República, depois de 1889, nominalmente alarga a base de participação, mas como o povo não estava preparado para isso, por ser analfabeto e pobre, temos uma república monárquica – é sempre um general ditador, um caudilho, como Getúlio Vargas, um rei republicano, que organiza tudo de modo autoritário. É o nosso código genético – organização autoritária do Estado sem participação popular.

 

Diz que a delonga em acabar com a escravatura ainda hoje marca o Brasil. De que modo? E hoje, seria possível eleger um negro, ou um mulato, para a Presidência?

Esse é um passivo que o Brasil carrega desde a época colonial. Em quatro séculos, entraram quatro milhões de escravos no Brasil contra um milhão de portugueses. Em 1822, Bonifácio e D. Pedro eram abolicionistas, mas a escravatura estava de tal modo enraizada que se perpetua até 1888. Só que o Brasil, ao fazer a abolição, não incorpora os escravos na sociedade  – não dá educação, nem terra nem oportunidades. O grande cinturão de pobreza que vemos em redor do Rio de Janeiro e de São Paulo, dominado pela criminalidade, é herança óbvia desse período. É um preço que o Brasil paga por não ter incorporado essa grande massa de pobres e de excluídos. Enquanto não resolver essa herança, o país não conseguirá avançar. Quanto à eleição de um negro, é pouco provável. Há o mito de que o Brasil é uma democracia racial; na verdade, é um país profundamente preconceituoso.

 

Como acha que Lula da Silva irá passar para a História?

O grande justiceiro da História é o tempo – quanto mais distanciado do personagem, mais equilibrado tende a ser o juízo sobre ele. Mas acho que, no longo prazo, Lula da Silva ficará na História como personagem maior. É um homem de sabedoria inata – não estudou, não é culto, é do povo –, e tem um cariz simbólico importante por ser a primeira vez que um retirante – o emigrante que foge da seca no Nordeste – e sindicalista chega ao poder. Teve a sabedoria de preservar os fundamentos económicos das reformas de Fernando Henrique Cardoso, e fez uma outra coisa importantíssima: ele realmente governou para os pobres.

"Nada resiste ao tempo"

20

Julho

2010

Publicado por Sergio_Almeida às 17:02

Sérgio Almeida

 

Nas crónicas como na poesia, abarca a desmesura do Mundo, como se procurasse "desimaginá-lo e descriá-lo".  Manuel António Pina acaba de ver as suas crónicas publicadas no Jornal de Notícias, Notícias Magazine e Visão reunidas no livro Por outras palavras, editado pela Modo de Ler.

 

Só nos últimos meses foi alvo de homenagens na Guarda, Sabugal e no Porto. Ainda reage com algum desconforto a estas manifestações de apreço pela sua obra?

Com desconforto e com gratidão. Também sou leitor, embora bissexto, daquilo que designa por minha "obra" e, sem pretender representar a rábula da modéstia, sou lúcido q.b. em relação a ela para aceitar iniciativas do género sem cepticismo.

 

Homenagear os escritores apenas depois do seu desaparecimento é uma tendência que pertence, felizmente, cada vez mais ao passado?

A julgar no que se passa comigo (mais vale cair em graça que ser engraçado) parece que sim.

 

Mesmo já tendo afirmado que não pertence a lugar nenhum mas a muitos ao mesmo tempo, reconhece que o Porto e a Beira Alta são dois lugares especiais da sua geografia de afectos?

É minha convicção de que somos fundamentalmente memória, memória de lugares, de gente e mais dispersas existências, de livros, filmes, sonhos, desejos, medos...  O Porto e a Beira Alta são, na minha memória, e decerto também na parte da minha memória que é esquecimento, um pouco de tudo isso.

 

Não publica poesia desde 2003. O cronista tem silenciado o poeta?

Não escrevo poesia como escrevo crónicas, profissionalmente. No caso da poesia, sou antes amador, isto é, aquele que ama. Só escrevo poesia quando não posso deixar de escrevê-la. Ou, como Borges diz (acho que é Borges), quando uma espécie de incomodidade, ou de remorso, me força a procurar a poesia. O facto de passar às vezes anos sem publicar poesia não significa que tenha deixado de escrever poesia. Tenho há muito um livro praticamente pronto, reunindo poemas dispersamente publicados aqui e ali, em jornais e revistas, e inéditos. Não tenho é tido tempo (nem pachorra) para trabalhar sobre alguns poemas que continuam à procura de si mesmos. Dois ou três deles estão há anos presos por um único verso; tenho, d e alguns desses versos, inúmeras versões, ou tentativas, mas não são o que procuro. Embora não saiba o que procuro, sei que, quando o encontrar o reconhecerei. Resta-me esperar; não tenho pressa.

 

No final do ano passado, leu um poema inédito de sua autoria na Festa da Poesia, em Matosinhos. Continua a escrever regularmente, apesar da publicação irregular?

Escrevo como publico, irregularmente. Para regularidade, basto-me com as crónicas. Não escrevo poesia dizendo a mim mesmo: "Agora vou escrever um poema". O meu processo, se pode chamar-se a isso processo, é esperar. Passo bem sem escrever poesia (sem ler poesia já é outro assunto). Quando começo a passar mal, o poema encarrega-se de se escrever a si mesmo em mim. O resto, depois, é trabalho, "transpiração", como António Ferreira dizia.

 

Por estes dias, chega também às livrarias “Por outras palavras”, compilação de crónicas publicadas no Jornal de Notícias e Notícias Magazine, entre outros. Como foi o confronto posterior com textos escritos, na sua maioria, no momento em que se desenrolavam os acontecimentos?

Na verdade, não cheguei a confrontar-me com esses textos. Habitualmente, aliás, evito um tal confronto, pois muito raramente leio qualquer das minhas crónicas depois de terem sido publicadas. Receio o que irei encontrar. No caso dessa antologia, foi Sousa Dias quem as leu (quase 3 000 delas, publicadas desde 2001, incluindo muitas que eu entretanto perdera) e escolheu umas 250. O autor dessas crónicas sou eu, mas o autor do livro é Sousa Dias. Sousa Dias e também o editor José da Cruz Santos, que há anos insistia comigo por esta antologia. Foi a generosidade de ambos que venceu a minha inércia; e ambos sabem (sobretudo o Sousa Dias, que esteve quase um ano à espera por uma revisão minha que nunca cheguei a fazer e acabou ele por assumir) como a minha inércia é difícil de vencer. Diz-me constantemente o Sousa Dias que posso ter orgulho neste livro. Tenho orgulho é de o ter a ele e ao Cruz Santos como amigos.

 

Na introdução de “O anacronista” confessava que “as crónicas do jornal duram um dia e morrem”. Não concorda que as crónicas mais analíticas possibilitam leituras que resistem ao tempo?

Nada resiste ao tempo. Vista a coisa a suficiente distância, um dia depois, ou um ano depois, ou um século depois, tudo (crónicas, poemas, romances) acaba na mesma imensa campa rasa do esquecimento. Isto é, como diziam os velhos tipógrafos dos jornais, tudo serve, no dia seguinte, apenas para embrulhar peixe. Tenho consciência de que algumas crónicas (como alguns poemas) lutam desesperadamente, como nós próprios lutamos, contra o tempo. Sabendo, como nós também sabemos, que é uma luta perdida. Acho que há como dizer?, alguma grandeza nisso.

 

Que critérios adoptou na escolha das crónicas?

Os critérios de selecção das crónicas agora antologiadas são da responsabilidade de Sousa Dias. Fui consultado sobre eles, mas, com uma ou outra sugestão, limitei-me quase sempre a concordar com eles.

 

Numa das suas crónicas mais recentes, escrevia que o jornalismo português contemporâneo continua, como há 40 anos, demasiado subserveniente face aos poderosos, em contraste com o despudor com que costuma tratar os menos afortunados. O “respeitinho” lusitano é atávico?

Não é característica apenas lusitana, o "respeitinho" ("Neste país em diminutivo/ respeitinho é que é preciso", escreveu Alexandre O'Neill). Há profissionais do "respeitinho" por todo o lado, no jornalismo como na vida. Também nisso não somos originais. A nossa única originalidade é apenas talvez a convicção de que somos originais, que, como dizemos constantemente, "isto só em Portugal". Não, "isto", como o  resto não, é só em Portugal, é em todo o lado.

 

No prefácio deste livro, o director do JN, José Leite Pereira, conta que “se por qualquer motivo, a sua crónica falha chovem telefonemas e cartas de leitores”. A “violência” que representa escrever todos os dias sobre a actualidade é compensada por estas manifestações de afecto?

Devo isso aos leitores do JN. E também esta antologia, que me foi sugerida por muitos deles. Sinto uma grande responsabilidade por isso, e faço todos os dias um esforço enorme para tentar não frustrar as expectativas desses leitores, certo de que, para não ficar de mal comigo mesmo, algumas vezes tenho que o fazer. Essa é também uma espécie de servidão (escrever, socorrendo-me de novo de O'Neill, para o "leitor que me pede a crónica que já traz engatilhada"). Mas dou-me bem com servidões. Às vezes chego a achar que não há nada mais libertador que uma boa servidão.

 

Lendo as sua crónicas através dos tempos, nas quais tem apontado sucessivamente as contradições, fragilidades e incoerências do nosso sistema político, não se pode dizer que deva estar muito surpreendido com o estado a que o país chegou. Viver num país destes é o sonho de um cronista (não lhe faltam temas...) e o pesadelo de um cidadão?

Diz-se que os povos felizes não têm história. Não é fácil (nem bonito) dizê-lo, mas às vezes, a infelicidade de um povo é a felicidade dessa espécie de historiadores do presente que os cronistas (sobretudo aqueles que, como eu, praticam sobretudo a crónica como género jornalístico e não literário) são.

"Vivemos na era do socialismo disfarçado"

08

Julho

2010

Publicado por Sergio_Almeida às 15:22
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A escrita aguçada e o humor omnipresente dos livros de Luís Fernando Veríssimo não poderiam contrastar mais com a discrição e a timidez que evidencia no trato pessoal. Nada que impeça, todavia, críticas contundentes aos responsáveis do que considera ser o estado "trágico e preocupante" da economia actual.

 

Num dos seus mais recentes livros, Orgias, enumera os vícios reprovados pela sociedade. Os prazeres têm os dias contados?
Ao mesmo tempo que existe uma libertação sexual, há um contra-movimento conservador muito forte. O meu receio é saber se não estamos a retroceder e caminhar no sentido de uma sociedade repressiva, religiosa e tribal.


Essa vaga asséptica também tem muitos defensores no Brasil?
Escrevo em dois jornais muito conservadores, O Globo e O Estado de São Paulo, e sinto uma reacção muito forte de leitores conservadores. Há uma protecção imediata quando é tomada alguma posição mais vanguardista.  Apesar das ideias feitas sobre o Brasil, do Carnaval à nudez, há um forte centro conservador.

 

A situação actual do Mundo seria cómica se não fosse tão trágica?

Chegámos a este estado devido à incompetência de gestores considerados infalíveis. O pensamento dominante do capitalismo indicava uma eficiência a toda a prova e quem ousasse pensar o contrário era logo apelidado de retrógrado, mas não foi preciso muito para tudo se desmantelar. Era tudo frágil, baseado numa abstracção. É trágico e preocupante, mas também é engraçado ver pessoas ditas infalíveis sem respostas para a crise.

 

Concorda com o auxílio aos bancos?
Vivemos numa era de socialismo disfarçado, ou seja, um socialismo que não se assume como tal. Não sei se haveria outra forma de lidar com a situação. Provavelmente, a receita do Keynes é a única capaz de travar um cenário tão arrasador.

 

É dos que acreditam que o capitalismo tal como o conhecemos chegou ao fim?
Não acredito. Pelo contrário, é uma forma de depuração do capitalismo para que regresse ainda mais forte. Mas é uma fase perigosa: basta ver o que aconteceu com a outra crise com a qual o Mundo se debateu, a Grande Depressão, para concluirmos que o risco do crescimento do nazismo e fascismo é real.

 

A Europa está mais permeável?
Sim, é verdade, mas temos que aguardar para ver as consequências políticas.

 

Em Portugal, há dois fenómenos recentes assinaláveis: a crise e uma nova geração de humoristas. Há uma relação entre estes dois factos, confirmando a tese dos que defendem que o humor é o lenitivo ideal?
O humor alimenta-se do conflito. É por isso que o humor na Escandinávia deve ser bastante mau. Afinal, aquilo é tão certinho...

 

Esse facto não faz recair sobre os humoristas uma responsabilidade excessiva?
De certa forma, sim, porque o humorista tem que ser crítico mas, ao mesmo tempo, deve divertir. Vejo o humor como um instrumento que não deve ser encarado com leveza só porque pretende fazer rir.

 

Espera-se sempre de si uma piada pronta... Não é um fardo carregar essa imagem?
Não sou um humorista natural. É mais uma técnica do que uma vocação. O meu humor não é espontâneo, mas pensado.

 

Ao fim de tantos anos, escrever humor é mais fácil?
Tenho a sensação de que tudo já foi dito, mas o principal problema com que me debati durante anos foi a censura. Para escaparmos aos censores da ditadura militar, usávamos artimanhas. Quando esse inimigo visível desapareceu, o problema passou a ser o oposto. Agora temos a governação da Lula, muito criticada mas em relação à qual procuro conter-me, porque, se fosse severo, estaria a fazer o jogo da Direita. É outra forma de censura, mais perigosa, porque nasce de nós. O humor tem que ser crítico para evitar ser cúmplice da reacção.

 

Ainda consegue balizar as diferenças entre a Esquerda e a Direita?
É algo que se diluiu muito, mas há diferenças. Pelo menos, gosto de pensar assim.

 

Dá razão aos que dizem que o Acordo Ortográfico representa uma cedência aos interesses brasileiros?
É possível que faça sentido, mas não deixa de ser uma questão menor quando comparada com as vantagens. Veja-se o caso do espanhol. Como a língua está unificada, os escritores chegam a mais sítios.

 

É um Brasil socialmente mais justo o que vai sair da governação de Lula?
Acho que sim. Lula decepcionou todos: a Esquerda, porque foi conservador e beneficiou o capital financeiro, mas também a Direita, porque não foi o fracasso completo de que estavam à espera. É um presidente popular, porque tomou muitas medidas no campo social. O grande problema é a desigualdade na distribuição de riqueza e, aí, houve progressos. Claro que foi um Governo cheio de problemas, com vários casos de corrupção...

 

A eleição de Lula foi encarada com grande optimismo. O desencanto é indissociável de qualquer governação, tal como se irá passar com Barack Obama?
As pessoas esperam em demasia. É preciso fazer acordos, defender-se da reacção, mas, no final, há avanços. Mesmo que não operem a ruptura, tanto Lula como Obama já fizeram História.

 

Sérgio Almeida

"A felicidade não faz bem a um escritor"

06

Julho

2010

Publicado por Sergio_Almeida às 17:46
0 comentários

O nome, a roçar o impronunciável, não poderia contrastar mais com o tom despojado da escrita de Brooklyn, o novo romance de Colm Tóibín, que pôs fim a uma ausência de prémios (venceu o Costa Award, após três nomeações falhadas para o Booker) que ameaçava eternizar-se. Mordaz e de resposta pronta, Tóibín é a antítese do escritor que vive apenas para a literatura.

 

A escrita de “Brooklyn” é muito depurada. Atingir este estado é resultado de anos de esforço?
Para este livro, entendi que era o tom mais adequado. A própria história, bastante simples, assim o determina. Precisava de um tom que reflectisse essa pureza e inocência, em vez de uma estrutura muito complexa.

 

Mais importante do que a história é o modo como a acção é descrita?
Comparo a escrita de "Brooklyn" a um quadro, cuja criação exige o maior número possível de detalhes. Procurei adicionar textura a um cenário em branco, quase como se de um jogo se tratasse.

 

Escreveu uma história emotiva, mas não demasiado sentimental. A contenção foi o maior esforço que teve pela frente?
Temos que estar muito alertas para a lamechice, porque é com um romance que estamos a lidar. É fácil incorrer em más interpretações sobre este livro, precisamente por ser tão simples.

 

Em tempos como estes, em que tudo acaba por ser imediato, "Brooklyn" é um apelo à lentidão.
Continuo a achar que os momentos mais ricos das nossas vidas são aqueles em que estamos sozinhos. Temos tempo para digerir as emoções, reflectir.

 

Como se faz pesquisa para um livro como este?
Preocupei-me com a frase seguinte. Como se sentia a protagonista ao acordar, por exemplo? Isso não é pesquisa, mas imaginação.

 

Passaram 50 anos sobre a história narrada no livro. Hoje seria igual?
A posição da mulher na sociedade sofreu uma grande evolução. Acima de tudo, a protagonista seria mais confiante.

 

Por certo que considera o ofício da escrita recompensador, mas como reage aos congressos, autógrafos, entrevistas?
Procuro estabelecer limites. Agora, os jornais querem entrevistas que enfatizem a personalidade ou o lado humano. O Graham Greene, por exemplo, nunca deu muitas entrevistas e nem por isso os jornais deixavam de escrever sobre os seus livros...

 

Não precisou disso para se tornar famoso.
Sim, a sua reputação foi crescendo lentamente, à medida que os leitores iam lendo os seus livros.

 

Hoje, os escritores têm de aparecer.
Exemplos como os de Thomas Pynchon ou Salinger são raros. No outro dia, liguei o rádio e ouvi o Philip Roth numa entrevista, o que não acontecia. E fiquei espantado com o seu sentido de humor.

 

Ao exporem-se mais, os escritores não tendem a perder a aura de mistério?
Por muitas transformações que ocorram, há algo que nunca vai mudar: continuamos a escrever e a ler sozinhos. O resto é apenas folclore e divertimento.

 

Das mudanças ocorridas, a importância  atribuída aos prémios será uma das principais, não concorda?
A vantagem dos prémios é fazerem-nos chegar a mais gente. Os editores, então, são loucos por eles! Poderem ostentar na cama o nome de um galardão qualquer fá-los entrar em delírio. Como sabe, farto-me de perder o Booker...

 

Já foi nomeado três vezes.
No fundo, é bom para a minha alma. Se ganhasse, ficava feliz e tenho sérias dúvidas de que a felicidade seja boa para um escritor.

 

Escreve apenas quando está infeliz?
Se escrevermos um livro sobre personagens felizes e bem sucedidas acabaremos por contar histórias de pessoas desinteressantes como o Bill Gates e não é bem isso que pretendo.

 

Vive em Dublin, cidade que, ao contrário de Londres, não tem um meio literário forte. Não é uma desvantagem?
Em Londres, há festas todos os dias. Nem me importava de participar, se o vinho que lá servem não fosse tão horrível. Acho que nunca provei vinhos tão maus...

 

A Irlanda, tal como Portugal, faz parte do núcleo de países cujas economias atravessam uma crise profunda...
Refere-se aos P.I.G.S.? (sigla que significa, em Inglês, Portugal, Itália, Grécia e Espanha).

 

Sim. Como irlandês, a quem atribui as culpas pelo actual estado de coisas?
A Europa não precisou de Bruxelas para conseguir, durante séculos, a livre circulação de ideias. Tudo mudou quando os actuais burocratas chegaram ao poder. Tentaram convencer-nos de que a cultura não é importante, mas sim a livre circulação de capitais.  Ainda por cima, todos têm péssima imagem e maus cortes de cabelo. As suas vidas espirituais não estão desenvolvidas. Cada vez Cada vez mais, chego à conclusão de que estamos a ser regidos por gente com espíritos dissecados.

 

Sérgio Almeida


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