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Por Elmano Madail
e Sérgio Almeida
 

As nossas escolhas

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Ensaios visuais sobre a lucidez

31

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
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Sérgio Almeida 

 

Com uma coerência acima de qualquer dúvida, Gonçalo M. Tavares continua a erguer  uma obra que, explorando como poucas as fragilidades da humanidade no que esta tem de mais imperecível, não se furta a dialogar com o presente, ao criar, sem necessidade de panfletarismos  gratuitos ou militâncias serôdias, ensaios que contribuem para um maior esclarecimento e lucidez.

Em tempos em que a resignação e a revolta se tornaram, de tão antagónicas, em mecanismos de manipulação destinados à perpetuação do ‘statu quo’, Tavares propõe uma via alternativa – a desmontagem dos artifícios da escrita, no que constitui uma transformação interior de resultados mais duradouros do que qualquer uma das anteriores posições.

Dos dois tomos publicados nas últimas semanas, Short movies é o que melhor se inscreve nessa tentativa de reordenamento do Mundo através do paradoxo: são mais de meia centena de micro-histórias nas quais o escritor se converte em cineasta, dada a forte visualidade dos textos.

Sem julgamentos morais ou considerações ideológicas, o autor de Canções mexicanas (lançado recentemente pela Relógio D’Água) explana, com uma secura narrativa notável, situações que oscilam entre o absurdo, o risível e o medo.

Neste catálogo de sensações, no qual não faltam homens que fogem de si mesmos desconhecendo que se limitam a correr atrás de uma mesa, a câmara que observa o que a rodeia é fria e desapiedada. À imagem da própria realidade.

 

TÍTULO: Short movies

AUTOR: Gonçalo M. Tavares

EDITOR: Caminho

PREÇO: 11.90 euros

Espécie de policial que retrata uma nação

19

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 14:44
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Rui Branco

 

Esta espécie de romance policial é mais uma história apaixonante passada numa povoação da Argentina de 1970, uma época particularmente cara a Ricardo Piglia. Em Alvo nocturno, tudo se precipita quando Tony Durán, um bem apessoado porto-riquenho que, diz-se, mantém uma tórrida relação com as gémeas ruivas Ada e Sofia Belladona, aparece assassinado no quarto do hotel.

A partir daí surgem as mais diversas teorias sobre o que terá estado na base do crime, que passam desde a lavagem de dinheiro até à questão passional homossexual, tendo sido injustamente acusado o desgraçado de um segurança japonês do hotel, que tinha uma foto de Durán seminu na mesa-de-cabeceira do seu quarto.

É então que entra em acção o alter ego de Piglia, o jornalista Emilio Renzi, que desagua na pequena povoação e vai encontrar um microcosmos que representa o país nesses tempos de ditadura, com a morte violenta, a corrupção, a lavagem de dinheiro e de empresas, o sexo, as drogas, as intrigas familiares, entre outras situações peculiares ao ambiente de ditadura militar que dominava a nação argentina.

Renzi encontra no detective Croce um precioso cicerone, ainda que se trate de uma personagem um tanto ou quanto desconcertante, uma vez que se refugia num hospício sempre que precisa de descansar durante algum tempo, longe dos dramas que povoam habitualmente o seu quotidiano. Mas ninguém conhece aquela terra e aquela gente como Croce.

Para acompanharmos de uma forma mais próxima os passos de Renzi, o autor acrescenta, no final de alguns capítulos, as suas anotações em itálico e é assim que ficamos a saber, por exemplo, que o jornalista acaba por se tornar visita frequente dos lençóis  de uma das belas e desejadas gémeas Belladona.

Apesar de ter ganho o Prémio Hammet para romance negro, a obra  não é exactamente um policial nos moldes que conhecemos, ainda que Ricardo Piglia se sirva desse clima para partir para um tipo de narrativa multifacetada, graças  às figuras que cria, só possíveis nas histórias que nos contam os grandes escritores sul-americanos. E Piglia é um deles

 

TÍTULO: Alvo Nocturno

AUTOR: Ricardo Piglia

EDITOR: Teorema

PREÇO: 16.90 euros

De obra promissora a bocejo literário

18

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 17:28
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Vítor Pinto Basto

 

Uma estudante desaparece. A família do pai, chique e desestruturada, contrata detectives privados para a encontrar. Pista: Valentine não é flor que se cheire, costuma fazer sempre o que quer e da maneira mais descomplexada possível, uma explosiva “baby” parisiense que assume ser capaz de trocar os seus luxos pelos pais carinhosos que não tem.

Para início de livro, a autora. Virginie Despentes (que nos é dada como ex-mulher a dias, ex-prostituta, ex-crítica de filmes pornográficos e cineasta), tem o condimento substancial para nos agarrar à leitura. Porém, à medida que entram em cena as duas detectives (Hiena, lésbica, arisca e com sincrética destreza intelectual, e a narradora, que acaba por ter uma relação lésbica, em Barcelona, durante as investigações), a história torna-se sensaborona até ao imprevisto final de Valentine.

Daí o nome do título, Apocalypse baby, tornado clarividente no fim de um livro elogiado por alguma crítica internacional, farto em orgias de gente mal-amada e em críticas ao niilismo de uma sociedade em queda livre para o nonsense, mergulhada no criticável individualismo.  

Assim, a fugitiva e o seu apocalipse surpreende e desilude. Transformando-se num penoso bocejo literário.

Bocejo que nos leva a questionar a importância dos prémios literários. Apocalypse baby venceu o Prémio Renaudot. É obra premiada como muitas, em Portugal e no estrangeiro, suculentas em desnecessários bocejos literários.

 

TÍTULO: Apocalypse baby

AUTOR: Virginie Despentes

EDITOR: Sextante

PREÇO:  16.60 euros

Histórias mínimas com efeito prolongado

11

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
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Sérgio Almeida

 

São narrativas breves mas não fugazes as que compõem Contos do efémero, primeiro livro de Rui Sousa Basto.

Lê-las equivale a entrarmos num universo alternativo que, por improvável que possa parecer, é revelador da animalidade associada à condição humana. Evitando as fáceis armadilhas da gratuitidade e do moralismo, o autor colou a essas narrativas uma notável contenção estilística que apenas aumenta o seu impacto.

Os exemplos dessa atracção particular pelo sombrio ou insólito atropelam-se. Há políticos internados de urgência por terem sucumbido às garras da honestidade, agentes da autoridade escrupulosos no cumprimento das leis severas mas apenas fora das horas de serviço, octogenárias que, por recusarem os sinais do tempo, não abdicam do uso de máscaras...

Na derradeira micro-história, um escritor vê-se forçado, a pedido do editor, a resumir cada vez mais o seu romance de mil páginas, por razões relacionadas com as solicitações do mercado. No final, após sucessivas intervenções, o livro é condensado a uma única frase, escrita “na lápide da campa onde enterrou o editor”.

Num parágrafo, Rui Sousa Basto consegue descrever situações-limite, reveladoras do frágil equilíbrio em que assentam as supostas regras civilizacionais. A escrita seca, despida de artifícios, revela-se a mais indicada para traduzir estes estados de alma, à semelhança dos desenhos de Pedro Aires, cujos traços elegantes impressionam pela sobriedade. 

 

TÍTULO: Contos do efémero

AUTOR: Rui Sousa Basto

EDITOR: Opera Omnia

PREÇO:  13 euros

O que perdura quando tudo o resto desaparece

09

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
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Sérgio Almeida 

 

O ano que findou há poucos dias não foi avaro foi para essa pequena legião de resistentes que são os leitores de poesia.

É verdade que o género voltou a estar quase arredado das apostas das principais editoras – tendência que, por certo, irá acentuar-se em 2012 – e não consta que  algum livro de poesia tenha entrado em qualquer tabela dos mais vendidos (como se isso significasse algo). E, no entanto, a poesia deu sinais de franco dinamismo.

Além da multiplicidade de edições (em formato artesanal ou de auto-edição, pouco importa), das revigorantes propostas de inúmeros colectivos de poesia e das novas obras de autores como Gastão Cruz, José Agostinho Baptista ou Bernardo Pinto de Almeida, só para citar alguns exemplos, o Prémio Camões foi entregue a um dos maiores artífices da língua portuguesa, Manuel António Pina, motivo de regozijo para todos quantos ainda entendem que a literatura não se esgota no marketing.

Na recta final de 2011, o mesmo autor, após um hiato poético de oito anos, publicou Como se desenha uma casa, livro em que a depuração e a pureza presentes há muito na sua escrita atingem um novo cume.

“Uma casa é as ruínas de uma casa, / uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra; / desenha-a como quem embala um remorso, / com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso”, escreve logo no inaugural poema homónimo, num tom que encontra eco ao longo das páginas seguintes.

O regresso à essência, a marcha inexorável do tempo e a necessidade do silêncio pairam sobre estes escritos, nos quais a beleza e a melancolia caminham de par em par, numa dança assombrada que ora nos cativa ora nos repele. De permeio, convoca os companheiros de sempre, como os gatos e os livros, “esta espécie de coração (o nosso coração) dizendo ‘eu’ entre nós e nós”.

Não menos impressiva é a segunda parte do livro, Amigos e outras moradas. Nos nove poemas aí inscritos, Pina revisita amizades (e)ternas, como as de Eugénio e de Mário Cesariny, e, para lá da dor que a partida de alguém próximo nos provoca, tudo relativiza com a ironia desarmante de sempre. “Mortos estamos todos. A gente vê-se um dia por Aí”.

 

TÍTULO: Como se desenha uma casa

AUTOR: Manuel António Pina

EDITOR: Assírio & Alvim

PREÇO: 10 euros

A vida do escritor maldito vista à lupa

08

Janeiro

2012

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
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Cristiano Pereira  

 

Luiz Pacheco construiu um percurso de vida, no mínimo, singular. João Pedro George, professor de Sociologia da Cultura na Universidade Nova de Lisboa, que se tem debruçado em investigações sobre o meio literário português, fez dessa vida errante a sua tese de doutoramento.

Parte dela está agora reunida em *** que os pariu! A biografia de Luiz Pacheco. O livro, com carimbo das edições Tinta da China, já está  nas lojas e pode ser adquirido por pouco mais de uma nota de 20 euros, coisa pouca tendo em conta o retorno: quase 600 páginas onde são reconstruídos, com um rigor assinalável, os passos de uma das personagens mais fascinantes e polémicas do meio literário português das últimas seis décadas.

A labuta de João Pedro George parece ter sido tarefa épica: conversou com Pacheco ao longo de imensas horas, recolheu depoimentos de dezenas de pessoas que lhe eram próximas, estudou e dissecou todos os textos que o autor publicou e teve acesso a um vastíssimo naipe de material inédito (cartas, sobretudo).

Chega, aliás, a ser impressionante a quantidade de fontes e bibliografia que passou pelas mãos do biógrafo – e o resultado é uma minuciosa reconstrução da vida e obra de Pacheco. Está lá tudo, e devidamente arrumado e organizado: as mulheres e as prisões, a faceta de editor com a Contraponto, a marginalidade, o alcoolismo, a causticidade da sua verve de crítico literário e, claro, a obra escrita. 

“A obra de Pacheco é claramente uma transposição quase directa da sua situação existencial”, escreve, já no final, enumerando os “problemas, conflitos e angústias gerados pela sua vida conjugal, a separação dos filhos, as relações amorosas e sexuais, as deambulações pelo país, as prisões, a miséria material, a vida picaresca, as múltiplas e obsessivas doenças, a experiência como escritor profissional, a tensão entre a exigência de ganhar dinheiro (fazendo traduções, revisões tipográficas, colaborando na imprensa) e o trabalho de criação literária propriamente dito”.

João Pedro George fez um magnífico e denso trabalho.  E deixou a questão: “Pode um biógrafo, depois de conhecer profundamente a vida de um escritor, ficar a gostar mais do autor do que da obra?”

 

TÍTULO: *** que os pariu! A biografia de Luiz Pacheco

AUTOR: João Pedro George

EDITOR: Tinta da China

PREÇO: 23.90 euros

Um brinde ao Porto da união e dos afectos

31

Dezembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
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Sérgio Almeida

 

À já longa lista de obras que elegem o Porto como mote ou inspiração deve ser somada agora mais uma, que, pelo primor artístico e competência dos textos, bem que merece uma atenção especial.

Em Porto sem filtro, o poeta José Efe e o fotógrafo Gaspar Jesus concretizam uma homenagem sentida à Invicta que, embora inclua no roteiro pontos de paragem obrigatórios e por demais conhecidos (Foz do Douro, a Sé, o Palácio de Cristal ou a Estação de São Bento), consegue escapar aos lugares comuns, ao destacar um Porto menos óbvio,  o das camélias, das barbearias ou dos gatos.

Não significa isto que o livro seja uma sucessão de odes aos evidentes encantos do Porto. Como portuense empenhado na defesa da sua cidade, José Efe aponta, observa, critica e lamenta os erros de que a velha urbe tem sido vítima ao longo dos tempo e cujo reflexo mais visível será a sua perda de importância a vários níveis.

Como livro com gente dentro que é, Porto sem filtro não passa à margem de figuras do Porto. Não aquelas com que nos habituámos a cruzar em livros sobre a Invicta, mas todo um naipe de pessoas cuja grandeza reside precisamente no facto de terem virado costas a essa pretensão ilusória de imortalidade. Há fadistas, bombeiros, adeptos fanáticos, pugilistas e marginais que podem não ter vivido vidas extraordinárias no sentido tradicional do termo, mas pelo menos nada lhes retira virtudes como a resiliência, a combatividade e a coragem.

 

TÍTULO: Porto sem filtro

AUTOR: José Efe/Gaspar Jesus

EDITOR: Mosaico de Palavras Editora

PREÇO: 17.50 euros

Porque nunca é tarde para iniciar nova vida

28

Dezembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00

 

Rui Branco

 

Os protagonistas das histórias de aventuras normalmente são homens ou mulheres com boas figuras, no auge das sua vidas, capazes de proezas que não estão ao alcance do comum dos mortais. Ora em O centenário que fugiu pela janela e desapareceu, o sueco Jonas Jonasson contraria radicalmente essa tendência e elege um centenário, Allan Karlsson, para seu herói.

Esta personagem única, no dia em que completa 100 anos e quando se prepara uma festa de homenagem no lar onde vive, decide calçar as pantufas e fugir pela janela, rumo ao desconhecido.  Não estava para tributos. O que mais lhe interessava era viver enquanto podia.

A partir do momento em que pega numa mala cheia de dinheiro, que um homem lhe tinha pedido para guardar momentaneamente, e entra no primeiro autocarro que pára à sua frente, nada será como antes e uma série de acontecimentos sucedem-se num inesperado turbilhão.

À medida que a alucinante narrativa tropeça em momentos hilariantes, uns atrás dos outros, ficamos a conhecer o passado desta figura, realmente incomparável. Em novo,  Allan especializou-se em explosivos e essa  condição  valeu-lhe, sem que nada tenha feito para isso, conhecer Franco, a quem salva a vida, Robert Oppenheimer, a quem aconselha como deve fazer rebentar a primeira bomba atómica, Harry Truman, Mao Tsé Tung, que lhe dá dinheiro para passar umas prolongadas férias, Estaline e Beria, que acabam por condená-lo a um gulag, entre muitos outros famosos.

Ao ficarmos a saber  como é que  foi a vida deste quase super-herói sueco acabamos por não nos admirar como é que , chegado aos 100 anos, consegue o dinamismo para fugir com uma avultada soma de dinheiro e convencer mais três companheiros a segui-lo, levando atrás de si até um cão e um elefante…

Depois de uma vida cheia de experiências marcantes, qualquer um  sonharia  apenas com o dia em que poderia finalmente descansar. Mas para Allan nunca é tarde para começar um novo episódio na sua existência, mesmo quando se chega ao centenário. A sua forma de estar acaba por ser uma boa e bem  disposta lição para todos.

 

TÍTULO: O centenário que fugiu pela janela e desapareceu

AUTOR: Jonas Jonasson

EDITOR: Porto Editora

PREÇO: 16.60 euros

A literatura como jogo de opostos

25

Dezembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:28
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Sérgio Almeida 

 

A obra do catalão Enrique Vila-Matas, publicada em Portugal na íntegra, é um imenso jogo literário que fornece ao leitor a possibilidade de fazer parte de uma trama sedutora em que o lado lúdico e a reflexão caminham lado a lado. 

Perder teorias, livro que assinala o novo projecto editorial de Carlos Veiga Ferreira, é uma espécie de apêndice de Dublinesca, romance que a Teorema publicou no início deste ano.

O autor de Breve história da literatura portátil” retoma uma ideia já expressa no anterior Dublinesca, ampliando-a: um alter-ego do escritor é convidado a participar num encontro literário em Lyon, mas, como ninguém aparece para o receber, opta por refugiar-se no quarto de hotel, onde aproveita o tempo livro para construir uma teoria geral do romance.

O cerne do livro consiste, assim, numa reflexão sobre os livros, a vida e a espera, com citações e paráfrases abundantes que, por muito pertinentes que possam ser, entravam em muitos casos a progressão da narrativa, arrastando-a para lá do desejável.

Sem a inspiração de obras como Doutor Pasavento” ou Viagem vertical, Perder teorias – título assumidamente pessoano – funciona sobretudo como um tributo de Vila-Matas a alguns dos escritores que mais influenciaram o seu percurso, como Julian Gracq, Franz Kafka  ou Rimbaud

 

TÍTULO: Perder teorias

AUTOR: Enrique Vila-Matas

EDITOR: Teodolito

PREÇO: 10 euros


Memorial do génio saudoso da vida

21

Dezembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 16:14
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Elmano Madail

 

O derradeiro livro do historiador norte-americano Tony Judt é uma obra consagrada à memória por dupla via: na substância e no processo que presidiu à sua feitura. Diga-se, aliás, que embora a elegância formal e o conteúdo intimista com que, as espaços, Judt surpreende o leitor – habituado ao analista feroz que aquele académico era – sejam merecedores de deferência, o método construtivo dos textos inclusos no volume denuncia um espírito superior.

É o próprio Judt que explica a urdidura difícil das páginas, singelas no cômputo da obra do polémico investigador que escreveu o monumental Pós-Guerra, História da Europa desde 1945 (Edições 70, 2010): já muito afectado pela esclerose lateral amiotrófica, conhecida como doença de Lou Gherig – mal neurodegenerativo, que ataca as células do sistema nervoso central, inibindo os movimentos e a fala até à falência orgânica –, que lhe fora diagnosticada em 2008, Judt vê-se confinado à cama, mas mantendo a lucidez de sempre, agora tormentosa.

Insone e só, entregue à contemplação da sua própria degradação, Judt percebeu que, noite adentro, redigia histórias na cabeça, trocando “a contagem de carneiros pela complexidade narrativa, com o mesmo efeito”. Resolveu partilhá-las, decidido a não se deixar derrotar pela doença nem pelo sofrimento, ciente de que a dimensão do seu inferno particular jamais seria alcançável por outrém.

Assim, socorrendo-se dos artifícios mnemónicos  dos viajantes - o “palácio da memória”, que consistem em mobilar uma casa imaginária (daí o duplo sentido de chalet do título...) com fragmentos da narrativa a reconstituir depois num todo coerente percorrendo o sentido inverso –, Judt regressa aos autocarros da sua infância na Londres natal, ao austero professor de alemão, ao seu sionismo incondicional que o levou a passar os verões da adolescência num kibutz...

Mas o que impressiona mesmo neste opúsculo é a ironia fina que perpassa as suas páginas, e até um humor leve – sobre a culinária materna ou a arte de ludibriar a proibição de namorar uma aluna, casando com ela – como se o seu martírio não fosse mais do que uma parte aborrecida da comédia da vida.

 

TÍTULO: O chalet da memória

AUTOR: Tony Judt

EDITOR: Edições 70

PREÇO: 15 euros

Os passos iniciais rumo à consagração

12

Dezembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:16
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Sérgio Almeida 

 

É sempre um privilégio quando o leitor, esse voyeur sem tréguas, tem a possibilidade de confrontar-se com os diferentes períodos da obra de um escritor que admira. Não se quedar apenas pelas páginas mais célebres que lhe conferiram a justa reputação, mas compreender também o processo de escrita – e aprendizagem – que conduziu o autor até um estado mais avançado de desenvolvimento narrativo.

Vem esta introdução a propósito da publicação de Fall River e outros contos dispersos, terceiro e derradeiro volume que reúne as narrativas da juventude por John Cheever.

Se nos dois primeiros títulos refulge em todo o esplendor o brilho da escrita, que lhe valeu o epíteto de maior estilista da sua geração, o livro agora publicado pela Sextante insere-se na tal construção a que aludimos nas linhas iniciais.

É um Cheever sequioso de descobrir e encontrar histórias nos locais mais improváveis o que encontramos em Fall River e outros contos dispersos. Ainda muito influenciado por Hemingway, privilegia o estilo directo e enxuto à densidade psicológica e narrativa que o evidenciaria nas décadas seguintes.

Tal não significa, todavia, desleixo ou menor esmero na arte da síntese. Simplesmente, a tal sofreguidão de contar as histórias que encontrava em todos os sítios, mesmo no quotidiano mais monótono, levava-o a optar por um estilo a roçar o cru, abdicando do segundo sentido e subjectividades análogas. Mas, embora inspirados no dia-a-dia, os contos não são simples esquematizações da realidade, porquanto sabiam introduzir elementos mais singulares e quase fantásticos, reveladores de uma vontade de criar elementos perturbadores no real que tão bem sabia descrever.

Documento imprescindível para compreendermos o modo como a concepção literária de John Cheever foi sofrendo alterações – num processo inverso ao da maioria dos escritores, que transitam dos experimentalismos para uma contenção crescente –, Fall River e outros contos dispersos é ainda um retrato impressivo de um período depressivo da História (anos 30 do século passado) que apresenta mais semelhanças com o presente do que por certo gostaríamos.

 

TÍTULO: Fall River e outros contos dispersos

AUTOR: John Cheever

EDITOR: Sextante

PREÇO: 15 euros

Reciclar é uma mania como outra qualquer

10

Dezembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:30
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Isabel Peixoto 

 

Quatro livros, quatro histórias que levam os miúdos a pensar sobre o ambiente. E a preocupar-te com a reciclagem dos objectos que sobejam no dia-a-dia. A colecção Tens a mania? Se não tens, devias ter... congrega textos de Pedro Seromenho e ilustrações  suas e de outros três autores:Sandra Fernandes, José Machado e Sebastião Peixoto.

Cada livro tem o seu tom: verde, amarelo, azul –  as cores dos ecopontos – e vermelho. Comecemos por este, que conta como o palhaço Avaria, um terrível adepto de quinquilharia, descobre a forma de devolver a vida aos seus colegas do circo e à sua amada.  O segredo está num planeta onde a electricidade relampeja  do chão para as nuvens, as flores nascem com as pétalas de pé e as toupeiras têm lâmpadas mo focinho.

Felismina Cartolina e João Papelão vivem em aldeias separadas pelo ódio das  famílias  Cartoléquios e Papeleto.  Nesta história com final feliz, o pequeno leitor vai perceber como duas crianças podem mudar o rumo dos acontecimentos.

O livro amarelo fala dos pesadelos do menino Chico, que acabam no momento em que ele percebe que, afinal, o sol não foi raptado. O verde, por sua vez, apresenta as aventuras de Maria Botelha numa viagem em que encontra muitos amigos.

Tendo a reciclagem como mote, cada história divulga, no final, uma série de curiosidades e dicas. No livro azul, por exemplo,  deparamo-nos com uma receita muito prática e fácil de executar.

 

TÍTULOS: O Palhaço Avaria, Chico Fantástico, Felismina Cartolina e João Papelão e Maria Botelha

AUTORES: Pedro Seromenho (textos e ilustração), Sandra Fernandes, José Machado e Sebastião Peixoto (ilustrações? 

EDITOR: Paleta de Letras

PREÇO: 9.90 euros (cada volume)

A década de 1960 numa fotografia nítida

07

Dezembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 15:28
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Rui Branco 

 

Quando o pequeno Che nasceu viviam-se tempos de loucura nos Estados Unidos. Na década de 60 do século passado residiam 15 mil hippies em Haight-Ashbury, São Francisco, e John Lennon afirmou  que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo. Foi uma altura de profundas alterações sociais e políticas.  Sobretudo de utopias. A contestação à guerra no Vietname estava na ordem do dia, com os mais jovens na rua a protestar. Malcolm X e Luther King deram a vida para colocar ponto final no racismo que dominava o país.

É um retrato deste momento da história  americana que o escritor australiano Peter Carey nos oferece em O seu lado clandestino. Aqui seguimos os passos do jovem Che ( uma alcunha que indicia os traços ideológicos dos pais) que, na companhia daquela que julga ser a mãe, que não conhecia por ter sido criado pela avó, inicia com ela uma longa fuga, desde Nova Iorque até à desconhecida floresta de Queensland, na Austrália.

A esperança do pequeno de 8 anos é poder vir a conhecer o pai, que, juntamente com a progenitora, foi um activista da Students for a Democratic Society quando estudava em Harvard, o que lhe custou perseguições e a necessidade de entrar na clandestinidade.

Che, que viveu sempre ausente do Mundo porque a avó não lhe permitia sequer ver televisão, vai encontrar  uma realidade completamente diferente, longe da civilização, onde falta tudo a que está habituado e onde habita um conjunto de espíritos marginais, que se enquadra na vegetação selvagem.

De desilusão em desilusão, O seu lado clandestino não é mais do que um veículo para desmontar utopias que foram alimentadas durante uma boa parte da década de 60 e que, olhadas a esta distância, nos parecem demasiadamente absurdas para alguém ter acreditado nelas na flor da sua vida.

Com a sua peculiar riqueza de imagens, Peter Carey escolhe como protagonistas para a sua narrativa uma hippie e o seu pretenso filho, dois ilustres desconhecidos, em vez das figuras heróicas do passado que povoam as suas obras anteriores. É possível que esta tenha sido a melhor forma de conseguir uma fotografia mais nítida de uma época.

 

TÍTULO: O seu lado clandestino

AUTOR: Peter Carey

EDITOR: D. Quixote

PREÇO: 15 euros

Quando a polémica não é apenas gratuita

25

Novembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:25
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Sérgio Almeida 

 

As polémicas em redor de livros que versam sobre a religião não são recentes. Por estas semanas, apenas para citar um exemplo actual, um romance escrito por um apresentador televisivo tem feito brado por, alegadamente, conter afirmações difamatórias para a instituição católica.

Estranhamente, um livro mais contundente e assertivo tem passado despercebido, no que só pode ser entendido como mais uma das perversões do mercado editorial.

As diferenças entre ambas as propostas são por demais notórias: para começar, Philip Pullman é escritor e não um mero replicador de pseudo-teses alheias, o que não é uma vantagem de somenos. Depois, o escritor inglês, apesar de ter estudado a fundo o assunto em causa, não assumiu a pretensão de ter entre mãos uma descoberta extraordinária,   evitando o ridículo de exibir uma mão cheia de nada.

O que lemos é uma efabulação que, de modo inteligente e jamais gratuito, procura criticar a religião organizada, a qual, no entender de Philip Pullman, se afastou de forma chocante dos ensinamentos divinos originais.

A premissa do autor de A torre dos anjos é simples: Jesus e Cristo seriam dois irmãos gémeos separados em quase tudo. Enquanto o primeiro é um orador nato, imbuído de uma franca vontade de alertar as multidões sobre a iminência da chegada do reino de Deus, Cristo é o oposto: desconfiado e astuto, vive na sombra do irmão, cujo carisma natural faz recair sobre si a totalidade das atenções. 

É nesta altura que o enjeitado irmão acaba por ser contactado por um enviado misterioso que lhe propõe adornar as deambulações de Jesus com o objectivo de edificar as fundações de uma futura Igreja.

A oposição feroz de Jesus a esta possibilidade (“montar um espectáculo sensacionalista para os crédulos” é como define a tentativa de persuasão feita por Cristo) leva a que o seu irmão o siga à socapa, ampliando os seus feitos.

É na visão alternativa que propõe sobre a História que Jesus o bom e Cristo o patife mais se destaca, ao constituir uma espécie de  manual instrutório de explicação de possíveis mitos e lendas.

 

TÍTULO: Jesus o bom e Cristo o patife

AUTOR: Philip Pullman

EDITOR: Teorema

PREÇO: 15.90 euros

Tomar o pulso à gente a distribuir dinheiro

19

Novembro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 23:30

 

Rui Branco 

 

Por muito altruístas que sejam os nossos propósitos, no sentido de auxiliar o próximo (neste caso oferecendo dinheiro) em qualquer paragem deste mundo, acabamos sempre por esbarrar ou com a desconfiança das pessoas  ou por despertar nelas um certo sentimento de ganância. E isto verifica-se quer nos situemos na Europa, em África ou noutra latitude qualquer. Já para não falar que, por incrível que pareça, até as próprias paisagens se repetem.

Estas conclusões terão de vez clarificado o universo interior de Will - atormentado com a morte do seu grande amigo Jack - que, inesperadamente, recebe uma considerável maquia e decide realizar uma volta ao Mundo com o objectivo de doar o dinheiro. Para cumprir este objectivo convence  Hand a partir para a aventura. E é essa pequena odisseia, que dura uma semana, que vivemos em Conhecereis a nossa velocidade!, de Dave Eggers.

No entanto, nem tudo corre bem aos dois companheiros que começaram por traçar ambiciosos planos pelas mais díspares paragens do Planeta: dispunham apenas de uma semana de férias e, em vários países, era necessário um visto , o que, a solicitar junto de algumas embaixadas, iria demorar o tempo de que dispunham para cumprirem a tarefa.

Depois de muitas hesitações, de várias perguntas junto de balcões de aeroportos e agências de viagens, Will e Hand seguiram as hipóteses possíveis: Senegal, Marrocos, Estónia, Letónia e regresso  ao México e aos Estados Unidos, respectivamente.

Will tem um pensamento curioso que nos diz respeito a todos: “Eu não pensava em Portugal como agradável, embora jamais tivesse visto alguma imagem, nem me lembrasse de nenhuma. Quando ouvia a palavra Portugal, eu pensava em Madagáscar, coberto de mato, pobre, as árvores a abarrotarem de lémures...”. Será que há muita gente a partilhar esta ideia sobre o nosso país?

Dave Eggers é uma das revelações da literatura norte-americana dos últimos tempos, sendo comparado a vultos como Salinger ou Kerouac. A sua escrita  reveste-se de uma admirável fluidez, que faz com que acompanhemos a sua narrativa com interesse constante, da primeira à úiltima página.

 

TÍTULO: Conhecereis a nossa velocidade!

AUTOR: Dave Eggers

EDITOR: Quetzal

PREÇO: 21.90 euros


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