A Casa Fernando Pessoa distinguiu ontem, terça-feira, com a Ordem do Desassossego a investigadora pessoana Maria Aliete Galhoz e o filósofo Eduardo Lourenço, que a classificou como uma "singular condecoração cultural", por ser "da ordem virtual". A Ordem do Desassossego foi entregue ao final da tarde, no primeiro dia do II Congresso Internacional Fernando Pessoa, pela escritora Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa (CFP), a Eduardo Lourenço, na ausência de Maria Aliete Galhoz, responsável pela primeira edição do Livro do Desassossego, por motivos de saúde.
Trata-se de uma medalha de prata que retrata a figura icónica de Fernando Pessoa, "um Pessoa voador, um Pessoa flutuante, um Pessoa nas nuvens", descreveu Inês Pedrosa - um desenho feito em 1985 pelo designer Jorge Colombo para o Jornal de Letras, no âmbito das comemorações dos 50 anos da morte do poeta, adoptado pela CFP como imagem do Congresso Internacional - e que tem também inscrito um verso do poeta, "É o que me sonhei que eterno dura", da Mensagem.
A distinção, criada pela CFP "para honrar aqueles que honram Pessoa e honram Portugal (...), sabem amá-lo e têm uma atitude de desprendimento e de curiosidade genuína como a que caracterizou Pessoa", foi atribuída a Maria Aliete Galhoz e Eduardo Lourenço, porque "têm ambos a generosidade de continuar a ler e a acompanhar os trabalhos dos novos autores", afirmou Inês Pedrosa, numa das salas do Teatro Aberto, onde decorre o congresso, até quinta-feira. "E isto é inestimável, é o que mantém uma cultura viva", acrescentou.
Quando entregou a Ordem do Desassossego a Eduardo Lourenço, que classificou como "um poeta e o romancista que se sonhou ser e que diz que não foi", destacando da sua obra um título, Fernando, Rei da Nossa Baviera, que "é um poema em prosa, ele próprio", a plateia aplaudiu de pé.
Eduardo Lourenço agradeceu a Inês Pedrosa "as palavras generosas com que quis justificar a entrega desta singular condecoração cultural, que não é da ordem institucional, mas é da ordem virtual", observando: "E como Fernando Pessoa é o rei da virtualidade... realmente, as coisas são bem feitas..." "Nenhuma das condecorações que recebi - de que não me lembro - me entusiasma tanto", sublinhou.
Depois, elogiou "o enorme contributo" do trabalho de Maria Aliete Galhoz "para o conhecimento da literatura portuguesa moderna" e declarou-se acompanhado de amigos, os que estão vivos e os que já morreram, que pertencem todos a uma espécie de "confraria invisível" de leitores e estudiosos da obra de Pessoa, que "foi o sonhador de todos os sonhos, mesmo os mais improváveis".
O filósofo, de 87 anos, falou da importância da obra do poeta dos heterónimos, que definiu como "o grande poeta da incondição humana", e recordou que foi em 1942/43 que o encontrou, comentando: "Encontrarmos alguém que já nos viveu é qualquer coisa de paradoxal". Em seguida, leu um texto que escreveu sobre Fernando Pessoa "para agradecer esta gentileza, que é diferente de todas as outras, porque não tem preço".