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Por Elmano Madail
e Sérgio Almeida
 

As nossas escolhas

Obras em

Destaque

Julho 2011 - Posts

Unidos em redor da obra do mestre

28

Julho

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:47
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Sérgio Almeida 

 

Um ano volvido após a morte de José Saramago, continuam a suceder-se as manifestações de apreço e devoção pela obra do único Nobel da Literatura de língua portuguesa. Um sinal mais de que o impacto que os seus livros provocaram num número alargado de leitores situados em paragens distintas irá resistir à passagem do tempo, feito de difícil alcance se constatarmos o grau de esquecimento que hoje rodeia obras ainda há poucos anos consideradas imprescindíveis.

Enquanto se aguarda, lá para o Outono, a publicação do inédito Clarabóia (além da vintena de páginas de Alabardas, alabardas! espingardas, espingardas!, romance que o autor deixou por concluir), a Caminho deu agora à estampa um volume que congrega um conjunto alargado de testemunhos de escritores, jornalistas, críticos literários e editores.

O que começa por impressionar é o espectro geográfico destes depoimentos. São 24 os países representados, incluindo territórios díspares como El Salvador, Panamá, Sara Ocidental ou Palestina, o que confirma o inacreditável alcance atingido pelos seus livros.

Das múltiplas evocações levadas a cabo poder-se-á construir um retrato invulgarmente pormenorizado do romancista e intelectual empenhado até ao fim. Se a admiração pela vida e obra saramaguiana percorre praticamente todos os textos, existem, todavia, abordagens e aproximações distintas, nada que cause estranheza atendendo ao carácter multifacetado do autor de O ano da morte de Ricardo Reis.

“De todas as coisas que José Saramago podia fazer, morrer era a mais inesperada”, observa o escritor e jornalista italiano Roberto Saviano,  referindo-se respeitosamente ao romancista português como “o meu mestre José”.

O naipe de ilustres que acederam a escrever sobre Saramago é extenso. Dario Fo, Umberto Eco, Carlos Fuentes, Baltasar Garzón, Jorge Sampaio, Fernando Meirelles, Moacyr Scliar, Laura Restrepo ou Mia Couto representam uma ínfima parte dessa galeria de personalidades, cativadas pelo poder ficcional dos seus livros mas também, como refere o chileno Luis Sepúlveda, pelo “ícone de decência social”.

 

TÍTULO: Palavras para Saramago

AUTORES: Vários

EDITOR: Caminho

PREÇO: 26.50 euros

O apego ao real como única premissa

23

Julho

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:01
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Sérgio Almeida

 

“No meu país, quando há eleições, fazem-se muitos debates na televisão, colam-se cartazes pelas ruas e, no fim, ganha sempre a estupidez”, escreve Rui Tinoco, em O processo eleitoral, um dos 35 poemas incluídos no quinto número da revista Piolho, mais uma vez publicado pelas Edições Mortas e Black Son Editores.

O tom directo e cru, sem concessões de maior, é extensivo à maioria destes escritos, fiéis a uma visão do Mundo assente no questionamento das verdades tidas por absolutas.

É o que sucede no pequeno conjunto de aforismos de Teixeira Moita. Além da convicção de que “o real é irrisório”, o autor defende que “a tragédia da Humanidade não foi Adão e Eva terem saído do Paraíso: foi o terem acatado a ordem”.

O quinto número da publicação coordenada por Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Fernando Guerreiro e A. Dasilva O. apresenta um poema de Georges Bataille, traduzido por Pedro Jofre, revelador de uma estética assente na transgressão e na sensualidade. “Nada tenho a fazer neste Mundo se não arder”, escreve em Poemas do Arcangélico o influente autor de  Literatura e o Mal.

O colectivo poético brasileiro Piolheira é o convidado especial do mais recente número, apresentando escritos de Roberta Ferraz, Renan Nuernberger, Rafael Rocha Daud, Maiara Gouveia, Érica Zingano, Danilo Bueno e Andréa Catrópa.

O lançamento da revista está marcado para 31 de Julho, às 17 horas, na Livraria Gato Vadio (Rua do Rosário, 281, Porto).

 

TÍTULO: "Piolho # 5"

COORDENADORES: Sílvia C., Meireles de Pinho, Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

EDITORA: Edições Mortas/Black Son Editores

PREÇO: 8 euros

O âmago de todas as coisas

18

Julho

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:30
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Sérgio Almeida 

 

Não existirão muitos poetas vivos, sobretudo de língua portuguesa, a quem se possa apodar o rótulo de “essencial”, mas Manoel de Barros é seguramente um deles.

A natureza, mais concretamente o Pantanal, é o cerne da sua escrita visual e poderosa que celebra a magnificência da vida com um ardor incomum. Mas Barros, fazendeiro e advogado nascido no interior do Brasil há 95 anos, não se limita a evocar os elementos naturais: ele recria-os e transforma-os, incutindo-lhes uma faceta mágica que a torna ainda mais grandiloquente.

Convicto de que “as coisas que não levam a nada têm grande importância”, o autor de O guardador das águas - que, incompreensivelmente, ainda não foi distinguido com o Prémio Camões – concretiza uma visão panteísta não só do mundo como da própria escrita poética. “Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distancia servem para poesia”, sintetiza.

 

TÍTULO: Poesia completa

AUTOR: Manoel de Barros

EDITOR: Caminho

PREÇO: 28.90 euros

O sentido que o absurdo faz

15

Julho

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 18:22
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Sérgio Almeida 

 

O tempo não envelheceu por aí além o romance que conferiu fama e glória a Joseph Heller, publicado há exactamente meio século.  

É certo que, de então para cá, o tom e o estilo do livro não deixaram de ser seguidos, copiados e glosados até à exaustão, retirando o impacto da novidade a quem só agora se confronta com o seu contéudo, mas o estilo de Heller continua, em larga medida, insuperável.

O absurdo é constante nesta saga que acompanha o destino de um pelotão da Força Aérea Americana acantonado numa pequena ilha italiana durante a Segunda Guerra Mundial. Yossarian, o improvável herói do livro, é um militar que, incapaz de perceber a utilidade ou sequer a razão de ser do conflito em que se viu envolvido, tenta por todos os meios escapar à frente de batalha, nem que para tal tenha que invocar insanidade.

Mas a burocracia non-sense que Heller zurze com vigor no romance não tarda a entrar em acção: o célebre artigo 22 que dá título ao livro pressupõe que um indivíduo, ao alegar insanidade, está a dar mostras de um sentido de autopreservação incompatível com esse estatuto, logo, não está louco... Os saltos cronológicos, os diálogos espirituosos e a satíra à instituição militar asseguram algumas das melhores passagens de Catch 22.

 

TÍTULO: Catch 22

AUTOR: Joseph Heller

EDITOR: D. Quixote

PREÇO: 18.90 euros

Sexo, drogas e samba

13

Julho

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:13
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Sérgio Almeida 

É impossível não pensarmos em Charles Bukowski, Henry Miller, Thomas Pynchon ou Jack Kerouac ao lermos o novo romance do escritor brasileiro Reinaldo Moraes. O forte apego à liberdade individual, a atracção pelo lado mais marginal da existência e o tom escabroso adoptado provam a filiação estética do autor de Tanto faz, novela publicada no início dos anos 80 que lhe granjeou imediata fama.

Mas esta odisseia – quase 600 páginas – regada de sexo, álcool e todo o género de estupefacientes é muito mais do que uma adaptação tropical da literatura beatnick. Porque Moraes constrói um delirante digressão romanesca em que o abjecto, a comédia e a filosofia se aliam para construir uma história que nos fornece um retrato vívido do bas-fond paulista em toda a sua decadência.

Zeca, o protagonista do livro, é um cineasta falhado que insiste em seguir um estilo de vida ferozmente hedonista, apesar das queixas constantes da mulher e das ameaças do cunhado, arrependido do dia em que o empregou numa produtora falida. Numa derradeira oportunidade para se endireitar de vez, é-lhe atribuída a realização de um pequeno filme promocional sobre embutidos de frango, mas o tresloucado documentarista recorre a todo o género de subterfúgios para escapar ao cumprimento da missão que lhe foi atribuída.

Cocainómano, alcoólico, viciado em sexo e misógino, Zeca comporta-se como se fosse a personagem principal de “uma opereta bufa escrita por um surrealista tardio com graves distúrbios de personalidade e muito ácido na cabeça”. Essa inconsciência inextricável levá-lo-á a participar em duvidosas aventuras, incluindo bacanais disfarçados de sessões místicas, descritos com uma minúcia quase obsessiva.

Mais do que os contornos do enredo, Pornopopeia impressiona pelo arrojo formal de Reinaldo Moraes, que, através do recurso a neologismos improváveis, trocadilhos insólitos e comentários diletantes, se revela um hábil manejador da língua, mesmo quando a subverte de um modo que não deixará de chocar os mais puristas.

Se o protagonista prima pelos excessos de vária ordem, o romance não o é menos. No afã de escrever uma verdadeira epopeia dos sentidos, Reinaldo Moraes incorpora na prosa tudo o que o rodeia, desde o ambiente circundante a pensamentos recônditos, transformando o livro numa desconcertante amálgama de sensações que, ora cativando ora provocando repulsa, deixará poucos indiferentes.

 

TÍTULO: Pornopoeia

AUTOR: Reinaldo Moraes

EDITOR: Quetzal

PREÇO: 18.90 euros

Um amor peculiar em tempo de vinganças

09

Julho

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:46
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Rui Branco 

 

O tempo era de ressaca. Tinha terminado há pouco a Guerra dos Balcãs, que sucedeu ao desmembramento da Jugoslávia e à queda do regime comunista na Albânia. Através de uma trama policial, Ismail Kadaré, em O acidente, faz-nos um retrato dessa época de vinganças em que todos aqueles que cometeram crimes contra a humanidade estavam a começar a prestar contas no Tribunal de Haia.

A trama começa quando um táxi se despenha numa ravina, a caminho do aeroporto de Viena. No acidente salva-se apenas o motorista, perdendo a vida o casal, aparentemente de amantes, que viajava no banco de trás.
Ele, Bessfort Y.,  notoriamente mais velho, era membro do Conselho da Europa.

Daí que os investigadores se tivessem virado de imediato para a tese de atentado. Os testemunhos sobre o acontecido não foram  esclarecedores. Designadamente o taxista, em estado de choque, só conseguia lembrar-se de ver o casal a beijar-se, através do retrovisor e isso poderá  tê-lo distraído. Nada mais. Tudo o que pudesse dizer além disto era a mais pura especulação.

Excertos de contas, diários íntimos, conversas telefónicas, recibos, entradas de ginásios, idas ao médico, receitas, tudo foi investigado no sentido de se apurar quem eram os misteriosos amantes.

A chave parecia aparecer a cada momento, mas, num ápice, as portas voltavam a fechar-se. Bessfort Y. podia ser um agente albanês que teria estado na origem do conflito que fez com que a Sérvia perdesse o Kosovo. Uma coisa era certa:  receava as convocatórias do Tribunal de Haia e guardava fotografias de crianças sérvias assassinadas.

A sua relação com Rovena St. era peculiar. Estavam permanentemente separados, ela nem sabia muito sobre  a vida dele, mas quando se encontravam no quarto de um qualquer hotel por essa  Europa fora, a chama da paixão rapidamente apagava tudo.

Com o avançar da investigação, que se torna cada vez mais aliciante, conclui-se que afinal de contas nada é o que parece. Intriga política e caso amoroso complementam-se de forma convincente.

 

TÍTULO: O acidente

AUTOR: Ismail Kadaré

EDITOR: Quetzal

PREÇO: 17.50 euros

As confissões de um pai em apuros

08

Julho

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:39
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Sérgio Almeida

 

Por muito séria que seja a paternidade, há uma abordagem mais ligeira, humorística até, passível de ser feita. É o que concretiza o jornalista João Miguel Tavares neste conjunto de crónicas sobre o tema que se socorre da boa disposição para provar que as noites mal dormidas, os lamentos ou as depressões não são um exclusivo das mães, emboras estas recolham o pleno da solidariedade quando o assunto é abordado.

“Somos uma espécie de dodós domésticos: anafados, mal providos e absurdamente incompetentes. Eu, em minha casa, só recebo ordens. Tenho de fazer isto, e aquilo, e aqueloutro, e mais não sei o quê, tudo ao mesmo tempo e a grande velocidade. É de dar em doido. Os meus antepassados masculinos, ao menos, só tinham de ir lá fora caçar um mamute”, sentencia o autor.

Pai de três crianças, o jornalista povoa as suas crónicas de  exemplos extraídos do quotidiano de como a paternidade, embora recompensadora, também exige um punhado de sacrifícios que raramente são mencionados nas obras sobre o género, as quais se limitam, na maior parte das vezes, a transmitir apenas os elementos positivos da experiência.

Por isso, Tavares desfia os piores tormentos que os pais enfrentam durante o crescimento dos filhos, sem deixar de frisar, porém, que esses problemas são ínfimos quando comparados com  aquilo que recebem em troca.

 

TÍTULO: Os homens precisam de mimo

AUTOR: João Miguel Tavares

EDITOR: Esfera dos Livros

PREÇO: 18.50 euros


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