
Isabel Teixeira da Mota
Kadriel é um simples homem. Porém, vive nele o herói disposto a travar um sério combate na linha da frente contra as forças do mal. Protagonista desta saga, comparada a O senhor dos anéis, Kadreil personifica a busca humana da virtude. Pelas mais de quinhentas páginas do livro perpassa a luta histórica incessante dos guardiões da luz contra os senhores das trevas. O primeiro romance do brasileiro Talal Husseini - professor de Filosofia e artes marciais, além de ser empresário em vários ramos de actividade - é o resultado de anos de reflexão sobre as circunstâncias da guerra e da paz. A ampla receptividade da obra no Brasil pesou no convite que o autor recebeu para proferir, a 10 de Novembro, na sede da ONU, a conferência Uma nova visão da paz. Na semana passada o autor esteve em Lisboa a convite da editora Eranos para lançar o livro, Paz guerreira.
Este é o seu primeiro livro. Foi uma boa experiência escrevê-lo?
É o meu primeiro livro, primeira experiência. Sim, gostaria que todos a tivessem porque é muito boa.
Que pretendeu com esta história?
Eu criei uma história que tem um herói principal, Kadriel, que personfica a ideia mitológica do herói. Ele busca a sua felicidade e descobre, junto ao seu mestre, que a maior de todas as guerras está dentro dele. Kadriel é indicado para suceder no trono ao rei Sokarin - o maior problema dos governos mundiais é a sucessão. Nesse momento surgem muitas intrigas que visam impedir que Kadriel tome o trono. Ele vê-se exilado, na companhia do seu mestre, Ravi, e da sua amada, Dhara. Esses personagens conquistam armas mágicas, através de sagas incríveis, para as usarem no confronto final. Durante toda a trajectória, as principais armas que conquistam é o desenvolvimento das virtudes. Em cada capítulo descobre-se o que significa cada virtude, não de uma forma pesada, mas profunda e suave.
Paz guerreira soa a paradoxo.
Quando falamos de paz, as pessoas pensam numa paz muito passiva. Mas eu não vejo que esse seja o caminho para uma verdadeira paz duradoura. Penso que deve haver uma paz activa. Não pode ser uma paz sem movimento. Tem que se trabalhar muito para a conquistar. Quando falamos de guerra vemos que todas as guerras que existem no mundo advêm da ignorância humana. Se os seres humanos fossem mais sábios não haveria guerras.
No livro é promovida a guerra.
É interessante. Eu promovo um certo tipo de guerra, mas não uma guerra entre as nações. É uma guerra interior, que eu acredito que é a única e verdadeira guerra para o ser humano.
Essa guerra interior o que é?
Nós temos medos, temos inclinações, hábitos. É uma esfera obscura que nos atrapalha em muitos momentos ou, quando nos domina, tira-nos do bom caminho e limita a felicidade ou a auto-realização porque surgem carências. São vícios de personalidade.
A guerra de que fala eliminaria esses vícios?
Não há como eliminar os vícios. Não é possível, simplesmente, deixar de ter medo, ou deixar de ter instintos violentos, ou vaidades. A luta não é para deixar de ter, mas para dominar. Antes que eles nos dominem, deveríamos, nós, dominar esses elementos, e fazer uso disso. A paz guerreira é aquela que advém de uma guerra interior. Aquele que tem em si a paz guerreira pode governar os povos.
Como é essa guerra interior?
O caminho que eu proponho é o do desenvolvimento de qualidades humanas, também conhecidas com o nome de virtudes. As pessoas não sabem bem o que significa a virtude. São qualidades humanas que têm uma essência luminosa. Elas ampliam um campo luminoso que existe em nós. Já falámos do campo obscuro que temos, também há uma parte luminosa. Se ampliarmos esta parte diminui o espaço da escuridão.
Como é vivido isso no livro?
Por exemplo - quer dominar o medo. A única forma de o dominar é pelo desenvolvimento do amor, não há outra forma. Outro exemplo: você pode ter uma inclinação egoísta. Pode libertar-se dessa inclinação através do desenvolvimento de que virtude? Da generosidade e da bondade. Quando desenvolve a generosidade você diminui o espaço do egoísmo, como também diminui o espaço da ignorância, quando desenvolve a sabedoria.
Como chegou a esse método?
Eu fiz um estudo das tradições do mundo - um estudo comarado das tradições guerrreiras e das correntes filosóficas do oriente. Cheguei a dezasseis virtudes humanas. É quase uma matemática filosófica. Eu falo na construção de uma nova civilização pautada por virtudes.
Tem alguma religião por base?
Todas as culturas religiosas vieram de uma pré-cultura espiritual que as antecedeu. Todas as religiões tiveram como base um conceito espiritual.
E encontrou-o nalguma cultura específica?
Em todas. Quando se tem essa visão espiritual universal encontram-se elementos em todas as religiões. Em todas as civilizações encontramos parcelasde várias culturas para chegar à unidade essencial universal que é espiritual. Por isso não entrei em contradição com nenhuma religião.
Não é um pouco exagerada a comparação com 'O senhor dos anéis'?
A história que eu conto também é uma saga. Eu procurei usar uma linguagem que toda a agente pudesse entender. E criei uma ficção, uma história, fazendo uso da mitologia universal. São estas as semelhanças que apontam às duas obras. Eu recriei uma nova mitologia.