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Por Elmano Madail
e Sérgio Almeida
 

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Outubro 2011 - Posts

A marginalidade que se faz central

30

Outubro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:36
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 Sérgio Almeida

 

A marginalidade a que as edições da poesia estão cada vez mais confinadas, por força dos ditames do mercado, está longe de ser um fatalismo.

Atente-se, a título de exemplo, na Piolho, revista/fanzine de poesia que, número após número, vê confirmada a sua pujança criativa, em tudo oposta à assumida insipiência gráfica.

Com o incansável António da Silva Oliveira (ou simplesmente A. Dasilva O.) ao leme, a publicação tem conseguido, mormente as dificuldades de distribuição, cimentar o prestígio como um veículo indispensável de divulgação poética.

Recentemente lançado, o sexto número depura os sinais positivos já presentes nas edições anteriores, apresentando um naipe apreciável de autores que configuram a novíssima poesia portuguesa.

Além dos já consolidados Rui Pires Cabral e Manuel de Freitas (cujo poema Inventário plebeu é de uma acutilância demolidora para com alguns dos novos consagrados da nossa praça literária), há também colaborações de autores como Miguel Martins, Golgona Anghel, Rui Caeiro ou Fernando Guerreiro, entre muitos outros.

Outro dos pólos de indiscutível interesse deste número são três poemas de Charles Bukwoski (A minha vez, Apontamento sobre poesia moderna e Cão) traduzidos pela primeira vez para Português por Manuel A. Domingos.

 

TÍTULO: Piolho

COORDENADORES: Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Fernando Guerreiro e A. Dasilva O.

EDITOR: Edições Mortas/Black Son Editores

PREÇO: 8 euros

Uma voz poética inquebrantável

28

Outubro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:00
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Mais conhecida como poetisa, Luiza Neto Jorge (1939-1989) foi também uma tradutora de méritos incomuns. E se é certo que foi, em certa medida, por razões de subsistência que se entregou a essa tarefa, nem por isso o grau de paixão foi menor.

A ficção e o teatro foram os principais géneros em que trabalhou, traduzindo obras de autores como Diderot, Goethe, Marguerite Yourcenar, Jean Genet ou Boris Vian, mas a poesia também mereceu ampla atenção da autora de Terra imóvel.

Neste volume, estão reunidos poemas dos principais 15 autores, entre os quais Léon Tolstoi, Paul Verlaine, Victor Hugo, Verlaine, Paul Éluard e os menos conhecidos Robert Desnos, Léopold Senghor ou Pierre Clastres.

Em todas estas intervenções poéticas, destaca-se a forte inventividade de Luiza Neto Jorge, capaz de manter a verve original dos poemas mas adaptando-os às especificidades do idioma lusitano.

Na introdução, o poeta e crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida salienta que “a chama vasta dessa revolução da língua que ela mesma operou nos seus poemas não deixa de atravessar esse tecido de nova substância que foram as suas traduções de outros poetas”, ao mesmo tempo que enaltece “o altíssimo exemplo ético da sua voz, em toda a força e fulgor de explosão que ela contém”.

 

TÍTULO: Poesia traduzida

AUTOR: Luiza Neto Jorge

EDITOR: Modo de Ler/Afrontamento

PREÇO: 14 euros

"Só acredito na guerra interior"

25

Outubro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 19:23

 

 

Isabel Teixeira da Mota 

 

Kadriel é um simples homem. Porém, vive nele o herói disposto a travar um sério combate na linha da frente contra as forças do mal. Protagonista desta saga, comparada a O senhor dos anéis, Kadreil personifica a busca humana da virtude. Pelas mais de quinhentas páginas do livro perpassa a luta histórica incessante dos guardiões da luz contra os senhores das trevas. O primeiro romance do brasileiro Talal  Husseini - professor de Filosofia e artes marciais, além de ser empresário em vários ramos de actividade - é o resultado de anos de reflexão sobre as circunstâncias da guerra e da paz. A ampla receptividade da obra no Brasil pesou no convite que o autor recebeu para proferir, a 10 de Novembro, na sede da ONU, a conferência Uma nova visão da paz. Na semana passada o autor esteve em Lisboa a convite da editora Eranos para lançar o livro, Paz guerreira.

Este é o seu primeiro livro. Foi uma boa experiência escrevê-lo?
É o meu primeiro livro, primeira experiência. Sim, gostaria que todos a tivessem porque é muito boa.

Que pretendeu com esta história?
Eu criei uma história que tem um herói principal, Kadriel, que personfica a ideia mitológica do herói. Ele busca a sua felicidade e descobre, junto ao seu mestre, que a maior de todas as guerras está dentro dele. Kadriel é indicado para suceder no trono ao rei Sokarin - o maior problema dos governos mundiais é a sucessão. Nesse momento surgem muitas intrigas que visam impedir que Kadriel tome o trono. Ele vê-se exilado, na companhia do seu mestre, Ravi, e da sua amada, Dhara. Esses personagens conquistam armas mágicas, através de sagas incríveis, para as usarem no confronto final. Durante toda a trajectória, as principais armas que conquistam é o desenvolvimento das virtudes. Em cada capítulo descobre-se o que significa cada virtude, não de uma forma pesada, mas profunda e suave.

Paz guerreira soa a paradoxo.
Quando falamos de paz, as pessoas pensam numa paz muito passiva. Mas eu não vejo que esse seja o caminho para uma verdadeira paz duradoura. Penso que deve haver uma paz activa. Não pode ser uma paz sem movimento. Tem que se trabalhar muito para a conquistar. Quando falamos de guerra vemos que todas as guerras que existem no mundo advêm da ignorância humana. Se os seres humanos fossem mais sábios não haveria guerras.

No livro é promovida a guerra.
É interessante. Eu promovo um certo tipo de guerra, mas não uma guerra entre as nações. É uma guerra interior, que eu acredito que é a única e verdadeira guerra para o ser humano.

Essa guerra interior o que é?
Nós temos medos, temos inclinações, hábitos. É uma esfera obscura que nos atrapalha em muitos momentos ou, quando nos domina, tira-nos do bom caminho e limita a felicidade ou a auto-realização porque surgem carências. São vícios de personalidade.

A guerra de que fala eliminaria esses vícios?
Não há como eliminar os vícios. Não é possível, simplesmente, deixar de ter medo, ou deixar de ter instintos violentos, ou vaidades. A luta não é para deixar de ter, mas para dominar. Antes que eles nos dominem, deveríamos, nós, dominar esses elementos, e fazer uso disso. A paz guerreira é aquela que advém de uma guerra interior. Aquele que tem em si a paz guerreira pode governar os povos.

Como é essa guerra interior?
O caminho que eu proponho é o do desenvolvimento de qualidades humanas, também conhecidas com o nome de virtudes. As pessoas não sabem bem o que significa a virtude. São qualidades humanas que têm uma essência luminosa. Elas ampliam um campo luminoso que existe em nós. Já falámos do campo obscuro que temos, também há uma parte luminosa. Se ampliarmos esta parte diminui o espaço da escuridão.

Como é vivido isso no livro?
Por exemplo - quer dominar o medo. A única forma de o dominar é pelo desenvolvimento do amor, não há outra forma. Outro exemplo: você pode ter uma inclinação egoísta. Pode libertar-se dessa inclinação através do desenvolvimento de que virtude? Da generosidade e da bondade. Quando desenvolve a generosidade você diminui o espaço do egoísmo, como também diminui o espaço da ignorância, quando desenvolve a sabedoria.

Como chegou a esse método?
Eu fiz um estudo das tradições do mundo - um estudo comarado das tradições guerrreiras e das correntes filosóficas do oriente. Cheguei a dezasseis virtudes humanas. É quase uma matemática filosófica. Eu falo na construção de uma nova civilização pautada por virtudes.

Tem alguma religião por base?
Todas as culturas religiosas vieram de uma pré-cultura espiritual que as antecedeu. Todas as religiões tiveram como base um conceito espiritual.

E encontrou-o nalguma cultura específica?
Em todas. Quando se tem essa visão espiritual universal encontram-se elementos em todas as religiões. Em todas as civilizações encontramos parcelasde várias culturas para chegar à unidade essencial universal que é espiritual. Por isso não entrei em contradição com nenhuma religião.

Não é um pouco exagerada a comparação com 'O senhor dos anéis'?
A história que eu conto também é uma saga. Eu procurei usar uma linguagem que toda a agente pudesse entender. E criei uma ficção, uma história, fazendo uso da mitologia universal. São estas as semelhanças que apontam às duas obras. Eu recriei uma nova mitologia.

Essa desconhecida realidade do iberismo

25

Outubro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 15:12
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Rui Branco 

 

Os povos ibéricos têm em comum o território que ocupam, mas estão divididos por uma multiplicidade de raízes culturais cheias de particularidades. Que o diga a vizinha Espanha, onde os desentendimentos entre as diversas zonas do país são sistemáticos, não disfarçando, em várias ocasiões, tratar-se de uma forçada  união de repúblicas.

 Mas o que Iberiana, de João Lopes Marques, nos revela é a existência de uma segunda Ibéria, no Cáucaso,  na actual Geórgia, separada da outra por um êxodo histórico, mas com paisagens de tal forma iguais que acabam por nos lançar na perplexidade.

O protagonista desta história é Zigor, mais tarde transformado em Pequeno Corvo, o profeta de Iberiana, que em criança vive o desaparecimento do famoso quadro de Picasso, Guernica, do Museu Rainha Sofia, em Madrid. O pequeno nem sequer compreende a razão pela qual dão tanta importância ao sucedido:
– Papá, porque é que roubaram um quadro tão feio? – pergunta intrigado.

Mas este episódio virá a marcar uma nova era na Península Ibérica, realidade que virá a conhecer por dentro mais tarde, quando for estudar Teologia para o País Basco.

A língua mostrou-se tão esquisita para o jovem que várias raras vezes ouviu contar a piada que o próprio Diabo resolveu passar sete dias em Euskal Herria (País Basco) para aprender o idioma. Só que ao fim de um semana memorizou apenas três palavras, que rapidamente esqueceu assim que se foi embora...

Zigor, entretanto baptizado como Belasco, fica a saber que Iberiana é composta pelo povo mais antigo do Mundo e está dividida em quatro tribos.

A ironia, assumindo por vezes traços caricaturais, está sempre presente nesta viagem temporal em que acompanhamos João Lopes Marques. Ao  fim e ao cabo, o povo iberiano acaba por possuir as mesmas virtudes e fraquezas de todo o ser humano, apesar das elaboradas especulações espirituais criadas numa espécie de pseudo-religião. Na verdade, o que se procura são bons momentos sempre regados com vinho de qualidade e a melhor das disposições.

 

TÍTULO: Iberiana

AUTOR: João Lopes Marques

EDITOR:  Sextante

PREÇO: 13.90 euros

Simples mas não banal

22

Outubro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:51
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Vítor Pinto Basto

 

Eu e tu. Um título banal com uma história contada com a mestria da simplicidade. Falamos do livro de Niccolò Ammaniti. O autor, nascido em Roma, publicado em mais de 40 países, tem na Holanda tanto êxito que a editora criou para ele uma espécie de clube de fãs.

A história de Eu e tu fala de uma criança que não gosta do sítio onde está: uma família que faz tudo o que ele quer e que, mesmo assim, apesar de ser mimado até ao exagero, não entende como ele pode ser tão egocêntrico, tímido e egoísta.

Essa criança poderá ser semelhante a muitas das nossas crianças produzidas num mundo de pais-corujas que vivem como podem (muitas vezes como não podem, endividando-se) para dar tudo aos filhos.

Com o cinismo de quem tudo quer e tudo parece não querer, refugia-se no mais miserável betão da vida: a mentira. Inventa que amigos que não tem o convidam para uma semana de férias na neve e vai viver durante esse período na cave do prédio onde mora com os pais. Ali, encontra uma irmã (do primeiro casamento do pai) e assim nasce o confronto existencial entre Lorenzo (Eu) e Olívia (Tu). E o Eu percebe que o Tu tem uma vida mais desgraçada que a dele mas com um betão mais ético.

Em síntese, este é um belo livro na senda de A solidão dos números primos, de outro italiano, Paolo Giordano. E também deverá passar para o cinema. Merece.

 

TÍTULO: Eu e tu

AUTOR: Niccolò Ammaniti

EDITOR: Bertrand

PREÇO:  13.90 euros

Portugal, o Brasil e as quotas raciais

19

Outubro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 13:28
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Isabel Teixeira da Mota 

 

A intensificação das relações económicas entre Portugal e o Brasil não é acompanhada pela devida valorização da sua proximidade histórica e cultural.

Reagindo a este ambiente de distanciamento entre os dois países, o professor brasileiro Ibsen Noronha, assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, lançou  em Lisboa, o opúsculo Escravidão e leis no Brasil - aproximações jurídico-históricas, no qual debate um tema caro ao Brasil: o sistema de quotas raciais universitárias.

O autor põe o dedo na ferida  dizendo que facilitar a entrada na universidade a negros e índios como dívida histórica é um crime e pode “gerar grandes injustiças”. “Criar uma divisão racial no Brasil é um crime histórico”, diz, sustentando que “está em causa a presença portuguesa no país”.

O autor opõe-se ao argumento central dos defensores das quotas, que insistem que está em causa uma dívida histórica. Analisando o processo de abolição da escravatura no Brasil, Ibsen Noronha contraria a tese: “Os textos comprovam a sábia acção de libertação dos escravos. Além disso, a miscigenação – característica essencial brasileira – torna qualquer tentativa de criação de vantagens sob critérios raciais desprovida de objectividade”.

O tema que tem apaixonado o Brasil chega agora a Portugal sob a vertente de um quid iuris.

 

TÍTULO: Escravidão e leis no Brasil: aproximações jurídico-históricas

AUTOR: Ibsen Noronha

EDITOR: Artpress Gráfica/Editora Ltda (São Paulo)

"Os excêntricos atraem-me"

18

Outubro

2011

Publicado por Sergio_Almeida às 17:24
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Sérgio Almeida 

 

Com O quarto de Jack, obteve uma popularidade global que jamais imaginaria. A irlandesa Emma Donoghue descreve ao JN o impacto profundo que teve na sua vida o romance sobre um rapaz de cinco anos. “Já quase nem tenho tempo para escrever”, diz.

A história de Jack, uma criança que vive com a mãe num acanhado aposento, desconhecendo a terrível situação em que se encontram (raptados por um psicopata), tem cativado milhões de leitores em todo o Mundo, rendidos à mistura de ternura e violência que atravessa o livro.

Agora publicado em Portugal pela Porto Editora, o livro é definido pela autora como “uma ideia maravilhosa e simples que por felicidade caiu no meu colo”.

Pelos contornos da história, muitos foram os que viram no romance uma inspiração directa do caso de Joseph Fritzl, o septuagenário austríaco que chocou o Mundo quando se descobriu a relação incestuosa que manteve com a filha durante décadas. Donoghue não nega algumas ligações entre ambos os casos  – sobretudo “o conceito da criança que é forçada a crescer num espaço fechado –, mas afirma não se ter prendido a nenhum elemento biográfico em particular.

Verdadeiro estudo em forma de romance sobre o Mal, o livro é narrado sob a perspectiva de Jack, opção que, assegura, o distancia de obras similares. Escrever de acordo com o olhar de uma criança nem foi uma tarefa complicada, revela Emma Donoghue, porquanto “tenho um filho com a mesma idade em casa”. Por isso, estar atenta às suas preocupações e compreender os seus pontos de vista foram questões fundamentais” para concretizar o livro.

A personagem do raptor, Nick, mereceu uma atenção particular da escritora, que se recusou a atribuir-lhe uma aura de fascínio com que muitas vezes os psicopatas são retratados. Esse interesse nem sequer é novo, já que, confessa, “os excêntricos e as aberrações sempre me atraíram porque eles iluminam o quotidiano com um novo ângulo ou ponto de vista”.

Se a leitura de O quarto de Jack pode ser considerada intensa, já o processo de escrita, pelo contrário, foi para a escritora “calmo e agradável”, bem distante da “pesquisa horrível”.

“Escritora veterana”, como gosta de denominar-se, Emma Donoghue já tinha uma longa carreira antes do reconhecimento obtido por um livro que nem sequer precisou de ter arrecadado os prémios para os quais estava nomeado, como o Man Booker Prize e o Orange.

“Mais importante do que as críticas, as vendas ou os prémios, é a intensa resposta que os leitores me têm dado acerca do livro”, diz.

Se o êxito veio transformar positivamente a sua vida, há apenas uma consequência de que não se importaria de abrir a mão. “Com tantas solicitações, já quase nem tenho tempo para escrever”, desabafa, embora revele que já iniciou o sucessor do aclamado romance. A história, ambientada em San Francisco na década de 1870, debruçar-se-á sobre um crime por desvendar.


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