
Sérgio Almeida
Os herdeiros de Eugénio de Andrade vão mesmo contestar nos tribunais a ordem de despejo da Câmara do Porto, ignorando o prazo para abandonar o edifício que albergou a Fundação. Entretanto, a Câmara do Fundão mostrou-se disponível para albergar o espólio do poeta.
“Não abandonamos a casa até que haja uma decisão do tribunal nesse sentido”, reiterou ao JN Ana Maria Moura, mãe do afilhado de Eugénio de Andrade, Miguel Moura, que cuidou do poeta durante os seus últimos 30 anos de vida.
Pouco mais de uma semana depois de ter terminado o prazo de dois meses dado pelos serviços camarários para que abandonasse o edifício, na Rua do Passeio Alegre, no Porto, onde vive há quase duas décadas com o marido, Gervásio, Ana Maria Moura continua convencida de que “tudo não passa uma represália por nos termos recusado a colaborar com a extinção da Fundação Eugénio de Andrade (FEA)”.
No desemprego desde o pedido de extinção da FEA, em 2009, Ana Moura afirma que a Câmara “não está interessada no diálogo, desrespeitando a memória de Eugénio de Andrade”, ao mesmo tempo que rejeita a acusação camarária de ser proprietária de outras duas casas na cidade. “Não temos nada a temer. Todos sabem que o Eugénio só aceitou que a fundação fosse criada com o pressuposto de que nos fosse facultada habitação”, reforçou.
A incerteza em redor da preservação do espólio do autor de Os sulcos da sede já levou a Câmara do Fundão – Eugénio nasceu no município, na freguesia da Póvoa da Atalaia – a mostrar disponibilidade para acolher esse valioso acervo, composto por uma biblioteca de milhares de títulos e dezenas de obras de artistas como Júlio Resende, Fernando Lanhas ou José Rodrigues.
Confessando acompanhar o caso “com preocupação”, o presidente da Câmara afirmou à agência Lusa que o espólio poderia estar exposto “em permanência, quer na casa interpretativa, dedicada a Eugénio de Andrade na sua aldeia natal, quer nos espaços da biblioteca municipal”.
“A obra e o espólio do poeta não podem ficar ocultados do público, por forma a salvaguardar o trabalho de um poeta universal, para que possa ser um embaixador ainda maior da cultura portuguesa”, explicou Paulo Fernandes, que revelou aguardar pela marcação de uma reunião por parte da Câmara do Porto.
O final do impasse não desagrada a Arnaldo Saraiva, presidente da direcção da FEA quando esta foi extinta, há menos de cinco meses. O professor universitário e ensaísta, sublinha, porém que “o desejo expresso no testamento de Eugénio e no protocolo assinado com a Câmara do Porto era outro”. “Se não fosse isso, veria com bons olhos a possibilidade, porque o Fundão já fez muito pelo Eugénio”, reconhece Arnaldo Saraiva.
Sem avanços significativos nos últimos meses encontra-se a desejada intenção de transformar a FEA numa casa da poesia aberta à cidade. O antigo dirigente reconhece que “não tem havido diálogo, porque a prioridade actual da Câmara do Porto passa por resolver o problema dos inquilinos”.
Contactada pelo JN, a Câmara Municipal do Porto (CMP) não esclareceu se vai aguardar por uma decisão judicial para desalojar os herdeiros do poeta ou se vai optar por uma medida de força. Num comunicado lacónico enviado à redacção, o gabinete de comunicação limitou-se a adiantar que “neste momento, a CMP não tem nada a acrescentar à sobre este assunto. Se as pessoas em causa entendem ser do seu interesse tratar da questão desta forma, é porque acham que ganharão alguma coisa com isso”.
A autarquia portuense remeteu-se ainda ao silêncio quanto ao anunciado interesse da Câmara do Fundão em albergar o espólio de Eugénio de Andrade.