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Memória pedagógica da Renascença Portuguesa

21

Outubro

2013

Publicado por Sergio_Almeida às 14:23

 (Vista do Choupal, em Coimbra, local onde decorreu a reunião fundacional da Renascença Portuguesa (postal ilustrado do início do século XX)

 

José Carlos Casulo *

 

1. A  fundação da Renascença Portuguesa

 

Datada do primeiro dia de Dezembro (dia da Restauração) do ano de instauração da República Portuguesa, surgiu, no Porto, o número inicial de uma nova fase de uma revista que contava entre os seus colaboradores com alguns dos nomes sonantes da intelectualidade de então, sendo que parte deles já se tinham distinguido, também na capital do norte, em movimentos culturais como o que estava por trás da revista Nova Silva e como o grupo dos Amigos do ABC.

A Águia, assim se intitulava a revista (1), era dirigida por Álvaro Pinto e tinha por certa, desde esse seu primeiro número, a participação, entre outros, de Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Augusto Casimiro e Jaime Cortesão, precisamente aqueles que, ainda com Augusto Martins, se reuniriam no Choupal, em Coimbra, em 27 de Agosto de 1911, com outros  homens de letras do sul.

A iniciativa desta reunião e a ideia que a justificava eram da responsabilidade de Jaime Cortesão que, um mês antes, assim tinha  confidenciado, em primeira mão, a Raul Proença, a necessidade de criar um movimento apolítico, de artistas e intelectuais, que exercesse uma acção socioeducativa junto do povo português:

"… sinto-me cheio dum proselitismo sagrado e antevejo a alegria de pôr de parte todos os trabalhos egoístas, ainda mesmo os da minha Arte, para me dedicar a uma obra absolutamente nobre e necessária (…).'

 'Por isso vou entregar nas suas mãos a ideia em bruto como um diamante que é necessário lapidar. Lembre-se: falei-lhe da necessidade de fundar uma Associação dos artistas e dos intelectuais portugueses com o fim principal de exercer a sua acção, isenta de facciosismos políticos dentro da actual sociedade. Acção social orientadora e educativa num meio como o nosso, onde não há grandes ideias, nem grandes homens que se imponham."  (2).

 

Dando concretização a este projecto, realizou-se, cerca de um mês depois, a já referida reunião do Choupal, à qual o próprio Cortesão aludiu realçando o propósito educacional dela saído: "A 27 de Agosto de 1911, promovida por mim, realizava-se em Coimbra, no Choupal, uma reunião (…). Aí se lançaram as bases da nova organização que se propunha dois fins essenciais: restituir Portugal à consciência dos seus valores espirituais próprios; e promover em todo o país, por meio duma revista, que fosse o órgão do movimento, de edições de livros, Universidades populares, conferências, exposições e concertos, uma profunda acção cultural, junto de todas as camadas sociais."(3).

 

Nesta reunião elaborou-se, também, um projecto de estatutos para a novel associação e tomou-se a decisão de fazer um manifesto-programa do movimento, tarefa esta de que foi incumbido Teixeira de Pascoaes. O poeta amarantino redigiu o manifesto e enviou-o a Álvaro Pinto, para que este o apresentasse numa nova reunião que viria a ter lugar em Lisboa, em 17 de Setembro, na qual Proença e outros intelectuais do sul estariam presentes e à qual  Pascoaes entendeu que não devia comparecer:


"Aí vai o [manifesto] com as emendas que devem ser feitas com todo o cuidado(…).'

'Talvez convenha eu não ir [à reunião de Lisboa], para que não imaginem lá que me quero salientar neste assunto. Convém não ferir suscetividades, compreende?…"(4).

Notas

(1) A escolha do título da revista tinha sido inspirada “…pelo Poemeto A Morte da Águia, de Jaime Cortesão…" (cfr. Pascoaes, Teixeira, Renascença, em A Saudade e o saudosismo (dispersos e opúsculos) [compilação, introdução, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes], D. Maria Amélia Teixeira de Vasconcelos (e filhos)/ Assírio & Alvim, Lisboa, 1988, p. 201).

(2) Cfr. Carta de Jaime Cortesão a Raul Proença”, em Jaime Cortesão / Raul Proença, Catálogo da exposição comemorativa do primeiro centenário (1884-1984), Biblioteca Nacional, Lisboa, 1984, p. 277.

(3) Cfr. Cortesão, Jaime, No 40º aniversário da fundação da Renascença Portuguesa, em Portucale, Porto, IIIª série, vol. I, 1962, (suplemento 1), p. 3.


(4) Cfr. Pinto, Álvaro, Para a história da Renascença Portuguesa, em Ocidente, Lisboa, vol. XLIV, 1953, nº 177, p. 50.
                                                    
                   

* Instituto de Educação da Universidade do Minho


1 comentário(s)

Memória pedagógica da Renascen&cc... sexta-feira, 25 de Outubro de 2013 0:48

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