
Sérgio Almeida
À boleia do mediatismo de vários cozinheiros, os livros de culinária figuram cada vez mais nas preferências dos portugueses. Mas a procura desses títulos não é alheia também à preocupação crescente com a saúde e economia.
Até há poucos anos, falar de obras de culinária equivalia a falar de O livro de Pantagruel, o lendário título lançado em 1945 por Berta Rosa-Limpo, de que quase todas as famílias portuguesas tinham um exemplar nas cozinhas. Ou A cozinha tradicional portuguesa, de Maria de Lourdes Modesto, que terá vendido perto de um milhão de livros ao longo dos tempos.
Hoje, dificilmente qualquer livro atingirá esses números. Não por falta de interesse, mas porque a oferta está muito dispersa. “Há uns anos saíam dois ou três livros por ano. Agora, são 200 ou 300”, reforça Henrique Sá Pessoa, cozinheiro e autor de cinco livros, cada qual com vendas próximas dos 10 mil exemplares.
Generalistas ou específicos, do veganismo à cozinha de fusão, abarcam dezenas de nichos e correntes suscetíveis de irem ao encontro de qualquer interesse. A tal ponto que conquistaram o direito a um espaço próprio na maioria das livrarias.
É difícil situar o momento exato a partir do qual os portugueses passaram a ver os livros de culinária como objetos apetecíveis. Do que não restam dúvidas é do motivo principal que esteve na origem desse interesse: os programas televisivos. Graças a esses produtos, “houve uma democratização da culinária mais sofisticada”, reconhece Cláudia Gomes, da Porto Editora, que passou a contar com os livros do influente cozinheiro britânico Jamie Oliver no seu catálogo.
Por muito importante que tenha sido o contributo televisivo, outros motivos concorreram para o atual ‘boom’. Até questões de ordem económica, como sublinha Marta Ramires, da Leya. “Ao passarem a fazer mais refeições em casa, em vez de irem a restaurantes”, os portugueses procuraram aprofundar os dotes culinários, contribuindo para um alargamento da oferta.
Acrescente-se à lista outro fator de peso, como afirma o chef Hélio Loureiro: “Hoje as pessoas olham para a gastronomia como um benefício para a sua saúde e também como um novo hóbi onde podem descontrair e conviver à volta da mesa”.
Uma das pioneiras no segmento foi a Civilização, cuja diretora editorial, Simona Cattabiani, atribui o acréscimo de interesse ao alargamento do público-alvo. Associados por norma à faixa feminina, estes livros são agora consumidos por “um público transversal em termos geracionais e etários”. Mas a principal mudança deve-se aos leitores masculinos, em clara ascensão. “Apresentam um interesse acrescido por ‘chefs’ ou cozinhas específicas, como o sushi”, adianta.
Satisfeitas com os resultados, as editoras ponderam reforçar a aposta. Embora Cláudia Gomes refira que “poucos livros e autores atingem vendas comparáveis às de ficção”, o interesse crescente leva a que os responsáveis acreditem que há margem para crescer. Até porque, para Simona Cattabiani, “além dos livros de venda imediata, há outros que vão vendendo ao longo do tempo”.