As crianças que têm pouco auto-controlo aos três anos têm maior risco de sofrer, aos 32 anos, de problemas de saúde, financeiros e criminais, independentemente da sua origem e do QI.
Foi o que concluíram os investigadores ingleses, americanos e neozelandeses, a partir de dados de dois grandes estudos que compilaram, ao longo de 30 anos, resultados de testes físicos, genéticos e ambientais que influenciaram a vida de 1037 crianças, nascidas entre Abril de 1972 e Março de 1973, na Nova-Zelândia.
Os investigadores descobriram que as crianças com menos auto-controlo têm maior probabilidade de sofrerem, em adultos, de hipertensão, obesidade, problemas respiratórios e de doenças sexualmente transmissíveis.
“Dominar o auto-controlo e a gestão de impulsos são as primeiras exigências que a sociedade faz às crianças”, disse Terrie Moffitt, professora de comportamento social e desenvolvimento King's College London e na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, que liderou a investigação, publicada pela Academia Nacional Americana das Ciências. “O nosso estudo demonstra, pela primeira vez, como a força de vontade que se tem em criança influencia as possibilidades de ser saudável e rico na idade adulta”, acrescentou, citada pela Reuters.
Os critérios de avaliação incluíram incapacidade para controlar a raiva, falta de perseverança para alcançar objectivos, dificuldades para terminar tarefas, hiperactividade, tendência para agir antes de reflectir, dificuldade para esperar pela sua vez, agitação e falta de escrúpulos.
A impulsividade e a relativa incapacidade para pensar a longo prazo, combinadas com um escasso auto-controlo, fazem com que estas pessoas tenham dificuldades para gerir suas finanças, desde economizar até reembolsar um empréstimo hipotecário, adianta o estudo.
Estas crianças também têm grandes probabilidades de se tornar mães solteiras, alcoólicas, fumadoras ou consumidoras de outras drogas, de ter problemas com a justiça, adiantam, ainda, os autores do estudo.
Dados de investigações anteriores corroboram estes resultados, lembra a equipa da Universidade de Duke. No Reino Unido, os investigadores descobriram, a partir de um trabalho junto de 500 pares de gémeos, que o irmão com menor auto-controlo aos cinco anos tinha mais probabilidades de começar a fumar, de portar-se mal na escola e adoptar um comportamento anti-social, por volta dos 12 anos.
"Isto mostra que o auto-controlo é importante por si só, independentemente dos outros factores que os irmãos partilham, como os pais e a vida familiar", acrescenta Avshalom Capsi, que trabalhou com Terrie Moffitt.
Alexis Piquero, professor de criminologia na Universidade Estatal da Florida, que não participou na investigação, considera uma boa notícia o facto de os níveis de auto-controlo puderem mudar, especialmente se os seviços sociais e de saúde foram chamados a intervir cedo.
"Identificar um baixo nível de auto-controlo tão cedo quanto possível, fazer prevenção e intervenção é muito mais barato", do que lidar com prisões, programas de drogas e rupturas económicas, considera Piquero.