Para miúdos e graúdos,

porque crescer também é difícil para os pais.

Já não sou uma mãe sempre à beira de um ataque de nervos... por breves instantes

sexta-feira, 4 de Maio de 2012 11:31

  


Deram-me tréguas as minhas filhas, mas é ainda a medo que escrevo, duas semanas após o primeiro ténue erguer da bandeira branca.


Seis anos depois, já não me acho todos os dias uma bruxa má praticante, repetitiva e estridente, capaz de suscitar apostas na vizinhança quanto ao exato momento em que sairei de cabelos em pé, pela janela do quarto delas, em cima de uma vassoura voadora, numa noite de luar.


Amo-as profundamente, tão profundamente que tal evidência sequer serve de ponto prévio à prosa. Mas sofri e sofro com a urgência que sinto em ama-las assim, profundamente, quando as tenho de educar. Em pouco tempo, nas poucas horas extenuadamente curtas que passamos juntas, entre os trabalhos de casa da M, a mais velha de seis anos, e as birras de tentativa-erro da S., a mais nova, de quatro anos.


Eu cansada, elas extenuadas dos dias que começam cedo demais, preenchidos demais, tudo demais. Chega sempre a hora fatal do descabelamento em série, elas uma com a outra -  que crescer a aprender que existe vontade alheia custa -, eu em stress, a educar, separar, ignorar, berrar, enquanto arranjo o dia seguinte, sempre na esperança de, no dia seguinte, poder correr tudo melhor.


Passada a hora do “quero tomar banho primeiro” ou “não gosto de tomar banho” ou “não quero sair da banheira” ou “quero banho de espuma” ou “quero banho com bolhinhas” ou do “quero tudo” ou “não quero nada”, seguimos para a hora do jantar. Em que educar é repetir e repetir é lembrar e relembrar o básico da convivência social. As mensagens possíveis entre os clássicos “não quero comer”, “não gosto de...”, “eu primeiro...” e “não quero mais”.


O que me atirou ao tapete durante anos foi a hora do sono, essa mesma, que, por aparentemente apaziguada, motivou o agora escrito. Verdade que a M. foi a que menos trabalho deu, e, tendo dado  trabalho ele foi apagado da nossa memória pelo impacto da trabalhosa chegada da S. à nossa vida.


Um martírio para adormecer, birras de meia-noite antes, durante o sono e ao amanhecer. Pais mal dormidos são ainda mais estridentes, mais impacientes. Pela sentida falta de eficácia, pela falta de vida que a ausência de sono mínimo nos imputa. A vida além da descendência, quando o silêncio da casa nos deixa respirar. O silêncio para nós.


Foi esse silêncio e a capacidade de ficar acordada para o gozar que conquistei há duas semanas. Uma grande trégua à minha condição de praticante de bruxa má, que aliada às rotinas por todos trilhadas e ajustadas, me dão, por estes dias, um doce distanciamento do estado de nervos.


Afinal, parece possível educar a gente pequena para que cresça.

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Maria Cláudia Monteiro: claudia@jn.pt

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