Mário Cordeiro é pediatra e uma referência para os pais portugueses da última década, habituados a procurar nos livros do médico respostas a questões práticas da vida dos filhos. O “Em Letra Miúda” entrevistou-o a propósito do livro “Dormir Tranquilo” e sobre essa parte da vida dos filhos tão importante para a qualidade de vida dos pais: o sono.
Por que é o sono dos bebés e dos filhos um assunto tão sensível para os pais?
As perturbações do sono, nas crianças, têm um impacte muito grande na vida dos pais, para lá da preocupação que causam por evidenciarem mal-estar nos filhos. Não dormir adequadamente, se a situação se prolongar, causa alterações profundas físicas, psicológicas, emocionais e sociais. A capacidade cognitiva e o desempenho (por exemplo profissional) ficam comprometidos, a agressividade aumenta e as pessoas ficam infelizes, frustradas e deprimidas. Para mais, o filho é visto como “o inimigo”, o que faz os pais ralharem, perderem as estribeiras, culpabilizarem a criança (o que vai ainda mais aumentar a sua sensação de insegurança) para depois eles próprios caírem em si, durante o dia, e encherem-se de culpas, exagerando depois para o outro lado.
O tema que tem suscitado um crescente interesse. Os bebés de hoje dormem pior do que os bebés de há 20/30 anos?
É difícil estabelecer comparações sem ter dados fiáveis… e comparáveis. No entanto, se tivermos em linha de conta que a sensação de insegurança da criança, por um lado, e o stresse parental, por outro, são dois elementos determinantes deste problema, então poderemos quase afirmar que sim, que os problemas de sono são mais frequentes agora.
Quais os erros mais comuns cometidos pelos pais?
Não serão propriamente erros, mas talvez falhas, o que é um pouco diferente: os pais não entenderem o que é o sono, ou seja, para que serve, como se processa, as suas várias fases, as suas perturbações e, principalmente, a relação entre os medos naturais da criança e os seus sentimentos de insegurança e de necessidade de protecção com o mau dormir.
O que é essencial para um bom sono dos bebés?
Sentir-se seguro, não ter factores que perturbem o bem-estar (fome, frio, ruído, etc), sentir-se amado e saber que os pais apoiam as suas inseguranças naturais. E não estar demasiado cansado ou excitado – ou seja, os factores ambientais são muito importantes, não apenas no “durante” mas no “antes”.
Quais os principais conselhos que gostava de deixar aos pais?
No meu livro tento resumir um pouco esses conselhos. Considero essencial entenderem-se os mecanismos do sono: porque dormimos, como dormimos, o que pode perturbar o sono, o que são os sonhos, os pesadelos, as chamadas parassómnias (falar durante o sono, sonambulismo, ranger os dentes, etc) e o ambiente adequado a um melhor dormir (como o mobiliário ou as cores do quarto). É fundamental que os pais parem para pensar, em conjunto com o médico-assistente do bebé, com a família, que vejam, depois de se tornarem mais informados acerca do assunto, quais os factores que perturbam o sono do filho para os tentar resolver. Com ajuda, claro, não regateando apoio, mas tentando um plano que, a prazo, devolva o bem-estar à criança e à família. Os problemas do sono podem dar cabo da harmonia familiar e causar graves consequências no dia-a-dia e na vida profissional das pessoas, e não se pode levar esta questão com ligeireza ou com “paninhos quentes”.
O que explica que haja crianças que dormem uma boa noite de sono desde os três meses e outras que não o conseguem fazer, apesar de muito mais velhas?
Tem a ver com o que referi acima: temperamento (designadamente a sensação de insegurança, humana e natural, mas que em algumas pessoas está muito aguda), experiência pessoal, ambiente e feed-back de segurança que os pais dão. Por exemplo, logo nos primeiros dias, se os pais vão deitar o bebé cheios de stresse, porque se sentem inseguros, irritados com as visitas que não saem de casa, preocupados porque acham que não vão conseguir levar o barco a bom porto, perplexos porque ninguém – nem sequer os profissionais – lhes deram algumas “dicas” sobre o que é uma criança (não esquecer que mais de metade das crianças que nascem em cada ano, em Portugal, são primeiros filhos, o que se traduz por inexperiência dos pais), ao depositar a criança no berço fazem-no com sinais físicos de stresse (tom de voz, timbre, olhar, tónus dos músculos dos dedos, suor da pele, frequência cardíaca e respiratória, etc), e a criança lê esses sinais, emitidos pelas únicas pessoas em quem confia, como perigo. Assim, chora, não quer ir para o local do perigo e, pelo contrário, quer regressar à barriga da mãe, só adormecendo ao colo, ao peito ou na cama dos pais. Pelo contrário, se os pais estiverem calmos, tranquilos, felizes, a sua postura é oposta e o bebé sente-se seguro.
Acha que o excesso de informação e de literatura poderão funcionar como ruído e como pressão junto dos pais?
Eu diria a informação de qualidade ou utilidade duvidosa, o excesso de “eu se fosse a ti fazia assim”, o dizer-se muita coisa mas sem conhecimento de causa. Mas sobretudo a falta de esclarecimento, de boa informação (rigorosa e científica, mas eminentemente prática) e os factores de pressão sociais e familiares.
O livro "Dormir tranquilo" pretende ser um guia… De leitura aconselhável para pais à espera do primeiro filho ou útil para pais de crianças em todas as fases de crescimento?
A minha intenção, ao escreve-lo, foi construir um livro que seja útil a todos os pais e a outras pessoas, como os profissionais que lidam com a criança, para que lhes pudesse transmitir, não apenas informação, mas também conhecimento e até sabedoria. Esta exige os anteriores e experiência: daí este livro ser pontuado por muitos casos que funcionam, afinal, como vivências. O livro cobre todos os grupos etários, mas é evidente que a maioria dos problemas se localiza nos três primeiros anos de vida.
Quantas horas é que as crianças devem dormir por noite?
É muito variável e depende da idade. Na adolescência, por exemplo, o número de horas é mais “por semana” do que “por dia”. Se pensarmos, grosso modo, numa criança de 2 ou 3 anos, diria que onze horas. No primeiro ciclo, talvez cerca de dez, mas sempre dependendo da qualidade do sono e também da informação recebida e da actividade tida nesse dia.
Qual a importância do sono no sucesso escolar?
Muito grande. É durante o sono que o cérebro processa uma elevada percentagem da informação recebida durante o dia, formando conhecimento e sabedoria. Sono em pouca quantidade ou de má qualidade acaba por interferir no processo de gestão da informação e nas competências cognitivas da criança.
Que conselhos deixa aos pais para melhorarem o sono dos filhos no início do ano escolar?
Tentar que os momentos a seguir ao jantar sejam calmos, sem televisões, conflitos (as mochilas devem estar prontas e os trabalhos de casa terminados antes), com afecto, mimo, segurança e algum apoio (histórias, conversas calmas); depois, que haja uma rotina e que, salvo excepções, a hora de dormir seja mais ou menos a mesma em todos os dias de aulas; finalmente, cuidar para que os factores ambientais não sejam negativos e não perturbem o sono.
Quer acrescentar alguma coisa que ache importante transmitir aos pais?
Não deixem os problemas avolumar-se, não vejam no vosso filho um adversário nem o culpabilizem por estar a “tramar” o vosso trabalho (ele nem sabe o que é um trabalho), e tentem pedir ajuda. Sem receio de estarem a ser piores pais, pelo contrário.