Tudo começara três meses antes, quando o Prelado particular de Sua Santidade decidiu autorizar o último pedido da vidente Irmã Rosa, retida no Carmelo: o de ser visitada por um jornalista a quem relataria o seu último testemunho do que lhe havia sucedido, e aos seus dois primos, em 1917, quando assistira a seis aparições de Nossa Senhora no Campo da Eira em Fátima. Nunca seria do agrado do Bispado que a Irmã fosse visitada no Carmelo, dada a reclusão própria desta instituição. Mas todos, pelo menos os que estavam por dentro da verdadeira história, sabiam que não poderiam permitir que a Irmã Rosa contasse livremente à mole pública todas as mentiras e ilusões que lhe fluíam da mente enlouquecida pela visão da divindade, e que apenas ouvidos obedientes e treinados poderiam filtrar. Não era um segredo, senão para os estultos do exterior do Santuário.
O Cónego fizera-lhe ver isso quando o chamou um dia ao seu gabinete, de sóbrias paredes brancas e longos cortinados debruados a fio dourado, com as armas bispais bordadas. O padre vestia a sua farda acinzentada e sóbria que o distinguia do comum mortal a quem só importava a cobiça por bens terrenos. Sentou-se, a pedido do Cónego, num dos sofás de pêlo escarlate, a cor do Sagrado Coração, e serviu-se de um pouco de limonada ligeiramente adocicada.
O Cónego não hesitou em colocá-lo ao corrente da situação. Era um homem a dobrar os sessenta anos, apenas uma mão cheia de anos mais velho que o padre Marta, e um porte altivo que roçava a loucura em dias menos felizes.
- Marta, penso que posso depositar em si a confiança que necessita um assunto de tal gravidade.
- Como sempre, Senhor Cónego. Faça favor, esteja à vontade.
- As suas funções no Santuário do Campo da Eira, desde que foi indigitado há doze anos atrás, exigiram que fosse posto ao corrente dos interesses da Santa Madre Igreja neste Santuário.
- E entendo a seriedade com que mo relembra.
- E já lhe expliquei porque é que, há cinquenta anos atrás, trouxemos a Irmã Rosa de volta de Espanha e a colocamos na clausura do Carmelo, não foi?
- Para evitar que espalhasse mais mentiras, Reverendo.
- Exacto. Então, entende porque não me agradou saber há dias que a Irmã Rosa fez chegar ao Prelado particular de Sua Santidade um pedido... um pedido para que a autorizassem a escrever um último diário, livre da censura da Igreja.
- Ninguém me contou nada, Reverendo! - protestou o padre Marta.
- No Carmelo, foram muito inocentes em deixar que a Irmã Rosa escrevesse directamente à Prelatura, com o pretexto de que desejava a Sua Santidade as melhoras da doença que o tem afligido.
O padre Marta ignorava-o. Sentiu o seu poder, como gestor do Santuário, colocado em causa. Satisfazer os pedidos do seu Cónego e lutar pela ascensão da sua carreira pessoal, se na servidão do Senhor, não lhe parecia um pecado. Além disso, o Cónego estivera recentemente doente e fora devidamente acompanhado pelo seu médico pessoal, e - Deus o proíba! - poderia vir a necessitar de ser substituído nas suas funções por alguém, não só temente a Deus e fiel à Santa Madre Igreja, mas também conhecedor dos segredos que deviam ser mantidos dos ouvidos estultos. Lutara muito, todos aqueles anos, para chegar ao cargo que o colocava na linha de promoção para um bispado antes do sessenta anos. Não lhe podiam roubar aquela glória quando já contava cinquenta e três.
- Quem o permitiu? - Indagou Marta.
- Não interessa debater nomes. A autorização veio de cima, agora temos de fazer algo para evitar que a Irmã Rosa conte mais das suas fantasias a ouvidos não preparados, para separar a verdadeira revelação da Fé das mentiras que a mente perturbada da Irmã Rosa costuma inventar frequentemente. Sabe do que falo.
- Foi-lhe concedida uma benção que nenhum de nós pode sequer imaginar. Ela viu Nossa Senhora, Reverendo, e desde então nunca mais foi a mesma. Basta-nos abraçar a Fé que se esconde entre as palavras insanas, e esquecer estas.
- Sim. Mas como impedir que ela fale com jornalistas, é isso que interrogo.
- Jornalistas?
O Cónego levantou-se, e dirigiu-se para uma discreta garrafeira com as armas bispais, de onde começou a tirar pequenos cálices e uma garrafa escura de vinho religioso.
- Infelizmente, sim. - Continuou o Cónego. - A Santa Sé, suponho que por sugestão da Irmã, pretende que um jornalista exterior à Igreja entreviste a Irmã Rosa. Defende-o dizendo que a verdade revelada em Fátima necessita chegar ao maior número de pessoas possível, e isso só se conseguirá através da utilização maciça dos média. O Santo Padre está doente, mas sempre manteve boa relação com jornais e televisões. Embora o seu juízo se tolde lentamente - que Deus o proteja - não hesitou em concordar com a Irmã Rosa. E suponho que outros interesses do Vaticano não hesitariam em dar maior cobertura a Fátima, agora que o segredo foi revelado e o seu mistério feneceu. E o Santo Papa encara isto como uma forma de agradecer a Nossa Senhora tê-lo salvo do atentado que quase o vitimou.
- Podemos ser nós a propor o jornalista.
- Ela não aceitaria, protestaria junto da Prelatura.
- Podemos censurar o seu correio, já o fizemos antes.
- Não é tão fácil hoje em dia, sabe-o bem. A Igreja não tem a mesma cobertura de outros tempos. Bastaria uma suspeita, e as consequências seriam graves. Nem pensar em ofender o Núncio. Ou o Patriarca. Sobretudo o Patriarca.
- O Senhor Cardeal entender-nos-ia, se pedíssemos a sua autorização.
- Mas não o faremos, Marta. Será melhor manter o problema aqui, em Fátima. Longe dos reboliços políticos da capital, e da sede de escândalo dos jornalistas.
- Podemos sempre influenciar a escolha. Conheço pessoas que podem sugerir um jornalista que seja próximo às nossas ideias, sem que pareça que somos nós quem o faz.
- Ora, sabia que podia contar consigo! Mas ninguém que seja abertamente religioso. Alguém maleável, que não nos importune muito com questões nem demonstre junto da Irmã Rosa que é movido pela Fé, quero que ela fale livremente, é importante saber o que ela quer contar, que ideias permanecem ainda na sua mente idosa. Quem sabe que revelações poderão ainda sair dos seus lábios, e do resto quanto mais soubermos, melhor nos poderemos defender.
- Entendo-o, Reverendo.
O Cónego calou-se, deixando as palavras morrer num lento murmúrio, e olhou Marta profundamente. O padre manteve o seu silêncio respeitador, sentindo que havia ainda algo que o seu superior não conseguira desabafar. Por fim, o Cónego ganhou a coragem de lhe contar o perigo que o amedrontava, enquanto começou a encher os cálices.
- Marta, há ainda outro assunto que terá de conhecer. Há pessoas... pessoas alheias à Igreja, diria até inimigas da Igreja, que seguem o actual pedido da Irmã Rosa muito de perto. Suspeito que estarão por trás desse mesmo pedido. Há alguém no Carmelo, talvez mesmo no Santuário, que não opera pelos caminhos de Deus. Pessoas ligadas a seitas ateístas, sabe a que género me refiro.
- Dizei-me quem, Reverendo, eu mesmo lidarei com os hereges. A lei canónica 2335 explicita que cristãos envolvidos em sociedades de conhecido cariz ateísta são passíveis de imediata excomunhão. Só preciso de nomes.
- Desconheço quem sejam. Nem tal me preocupa, de momento. Para já, cuidemos da Irmã Rosa e, depois de passada esta tempestade, cuidaremos dos ratos que infestam a nau. E há outra coisa. Mesmo controlando quem recolha o depoimento da Irmã Rosa, não conseguimos controlar o próprio depoimento. Um boato, um rumor, é tudo quanto é necessário para que a imprensa - e aqueles que são inimigos da Fé - se atirem à Irmã Rosa como cães a um osso. E, fora do Carmelo, não existe o mesmo recato.
- Sim, pensei nisso. A imaginação da Irmã Rosa, infelizmente, é o seu grande defeito. Mas uma palavra bem colocada da devida autoridade religiosa...
- Não vá por aí, senhor padre, há sempre maneiras de resolver a questão sem recorrer à autoridade da Igreja que, sem dúvida, daria muito nas vistas e atiçaria contra nós a opinião pública.
- A que se refere?
O Cónego segurou alto o cálice de Porto, pegando-lhe pelo pé, e admirou o brilho rubicundo da sua transparência. E, contudo, através de néctar transparente, mesmo assim vinham imagens distorcidas.
- Deixe-me contar-lhe uma história, padre Marta. Uma história pela qual muitos matariam. É uma história de morte e sacrifício, na Santa Madre Igreja. Uma história que só um coração especialmente dedicado - especialmente crente, diria! - consegue ouvir sem dor. Há muitos anos atrás sentou-se na cadeira de Pedro um Italiano a quem a política e o escândalo falavam mais alto que a Fé. Um Italiano a quem certos interesses eram mais importantes que os sacrifícios necessários à eternidade do testemunho de Cristo. Esse Italiano, foi escolhido pelos cardeais seus pares, decerto pela inspiração do Espírito Santo, para ser Papa e, nem um mês passara sobre essa benção, e já ele pensava que iria reformar dois mil anos de História e destruir tudo aquilo que o testemunho de Cristo havia construído. Veja quão egoísta ele era, mais preocupado com a sua pequena missão pessoal do que com a missão divina. Um dia, chamou o seu braço direito e contou-lhe todas as reformas que iria fazer a partir do dia seguinte e, quanto tudo estivesse concluído, exigia a demissão do braço direito. Imagine que isso lhe acontecia a si, Marta, interrogo-me o que faria.
- Senhor Cónego, o dever de obediência a um Santo Padre obrigar-me-ia a fazer tudo o que ele me mandasse mas, se isso colidisse com a Fé, não seria esta a prevalecer?
- O que estaria disposto a fazer por Cristo, Marta?
- Tudo menos amaldiçoar a minha alma.
- Essa decisão competiria a Deus, Marta. Pois saiba, que este homem de que lhe falo, braço direito do Santo Padre, não hesitou em cuidar que, nessa mesma noite, o Santo Padre fosse ter com o seu Criador para Lhe explicar porque pecava contra a Santa Madre Igreja. Choco-o, Marta?
- De todo, senhor Cónego. Mas essa é uma história de que nunca ouvi falar.
- Claro que não, Marta. Quando encontraram o Santo Padre afogado no seu vómito, lavaram-no, fizeram desaparecer a sua última refeição, e deitaram-no sossegado na cama aguardando o médico, com o respeito que a um Santo Padre é devido. Por piedade, o médico declarou que o falecimento se devera a um enfarte.
- De forma indirecta, direi que Deus fizera justiça, como castigou os Hebreus que dele se esqueceram após a chegada a Canã.
- Mas entenda, homem, que a Fé é fundamental. Um homem apenas, o guarda do Vaticano que devia ter cuidado do bem estar do Santo Padre naquela noite, começou a duvidar da justeza do acto. A dúvida enlouqueceu-o, começou a sentir-se perseguido, por fim condenou a alma ao Purgatório dispondo da sua vida. A família dele levantou a suspeita de que tivesse sido assassinado para esconder a verdade que ele conhecia, mas graças a Deus não passava da revolta do luto. Mas tudo podia desmoronar nesse dia, por causa da fraqueza desse homem. Quando nem fora complicado escolher substituto para o Santo Padre. Alguém que sempre colaborara em representar os interesses da Igreja na sua luta contra o mal comunista, e servira de intermediário entre a Santa Madre Igreja e os sindicatos cristãos que combatiam o comunismo na Polónia. Alguém que sabia sacrificar-se pelos valores do Divino.
- Entendo tudo isso que me conta, e aceito. Apenas não entendo onde quer chegar.
- Não basta dizer que se acredita, padre Marta. É preciso estar à altura de fazer os sacrifícios necessários.
- E que sacrifício me pretende pedir, senhor Cónego?
- A Irmã Rosa é uma senhora de idade, tem mais de noventa e cinco anos, tem muitas doenças e faz muitas medicações. Não seria de todo inesperado que algo grave lhe acontecesse, antes de ser entrevistada. Resolver-se-ia tudo muito mais depressa. Quer um Porto?
Estendeu-lhe um dos cálices de vinho rubicundo, que o padre Marta tomou sem delonga, com um agradecimento sóbrio.
- É muito gentil, Reverendo.
O Cónego não necessitava dizer-lhe mais nada.
In Fénix Mutilada