No dia em que Rosa soube que era vidente, tinha saído uma vulgar pastorinha de casa, de manhã cedo, para brincar pelo Campo da Eira. Os terrenos de pastoreio pertenciam à família de sua tia, Rosalinda Sereno, mãe dos primos Alzira e Almerindo, e era para lá que todos os dias os três pastorinhos levavam as ovelhas, passavam lá a maior parte da manhã, comiam um pequeno e pobre farnel a meio da manhã, e só regressavam quando a fome apertava e o sol ia alto. As ovelhas, com o seu instinto, pareciam perceber melhor ainda a que hora deveriam regressar ao curral, e acabavam por ser elas quem determinava quando as três crianças regressavam a casa para as suas famílias.
Após deixar os primos em casa, seguiu para o seu lar descontraída, contando com uma refeição agradável e quente. Mas a casa estava demasiado sossegada para um normal dia de semana. Quando entrou na cozinha poeirenta e escura, viu a sombra da sua mãe aguardando por si. Não podia ser bom motivo. Conhecia bem a sua mãe, e o quanto ela era rigorosa na disciplina e na educação religiosa que dava aos seus filhos. Estar ali, àquela hora, esperando por si, só podia significar que, mais uma vez, Rosa tinha violado uma das suas regras, e precisava expiar a culpa.
- Anda cá, tenho que falar contigo! - Gritou a mãe quando a viu.
Rosa perdeu a alegria e, condicionada por nove anos de disciplina física, baixou o olhar e aproximou-se da mãe, tentando atrasar o castigo. Assim que a apanhou a uma boa distância, a mãe agarrou-a pelos cabelos e puxou-a para si.
- Anda cá! Vais-me dizer se é tudo verdade ou mentira!
- O quê, mãe? - gritava a pequena Rosa.- Não sei de nada! Não sei de nada!
- Vais-me dizer se é verdade o que a tua prima anda por aí a dizer! Ai de ti se é tudo mentira e descubro que foste tu quem inventou essa blasfémia!
- Não sei de nada, mãe! - protestava a criança, tentando fugir da mão firme que lhe agarrava os cabelos.
- Não sabes de nada? Ah mentirosa que te vou partir toda!
Atirou a criança ao chão e correu a buscar a vassoura. Levantou-a no ar, fazendo a pequena criança encolher-se de medo pois sabia o que vinha a seguir, que tantas vezes tinha sido sovada, mas a mãe susteve o golpe no ar prestando-se a um último teste.
- A tua prima anda por aí a dizer que vocês viram Nossa Senhora. Ai de ti se for mentira, que te dou uma tareia que te mando para o hospital!
- Não, não, mãe!
- Não viste a Nossa Senhora, desgraçada? Andas por aí a brincar com o nome da Mãe de Cristo?
- Não, mãe, não me batas! - chorava a criança.- Eu não menti, eu não menti...
Soçobrou. Ficou caída no chão sujo e frio da cozinha, dissolvendo a miséria com as suas lágrimas. Mas o golpe não veio. A sua mãe não lhe bateu. Pela primeira vez na sua curta e sofrida vida, conseguira escapar às fúrias selvagens da sua mãe. Tudo o que fizera, fora dizer-lhe o que ela queria ouvir, mas na altura não percebeu isso. Servir-lhe-ia de lição para o futuro próximo.
A mão firme da mãe levantou-a do chão, mas não para lhe bater. Limpou-lhe as lágrimas da cara, e puxou-a para fora de casa.
∴
Levou-a até à Igreja, calada todo o caminho, e Rosa começava a pensar que sabia ao que ia. O padre Miguel era pessoa austera, das suas palavras saiam as mais penitentes histórias sobre o castigo aos pecadores, nos fogos do Inferno, as histórias que tanto assustaram Alzira quando era mais nova. O padre Miguel faria com que Rosa se arrependesse de joelhos perante o Cristo vivo, julgando-a do alto da Cruz.
Mas o confronto entre o padre e a mãe de Rosa não foi calmo. A comadre Hermínia, assim era o seu nome, estava ali para defender a sua reputação como mãe e como mulher de Fé. Com a mesma convicção com que defendia a virgindade da Santa Mãe de Cristo, foi peremptória que a sua filha nunca mentiria num assunto tão sério, pois nunca fora essa a educação que lhe dera. E obrigou Rosa a assumir, perante o padre, que era verdade que vira Nossa Senhora, como dissera Alzira. Não tinham sido aquelas as suas palavras, mas que diferença faria se todo aquele pesadelo poderia acabar mesmo ali? Agora, era tarde para mudar de ideias. Por isso, repetiu perante o padre tudo o que dissera a mãe: não mentira nunca a esse respeito.
Rosa foi esquecida naquele momento. Pode afastar-se para a porta da Igreja, agora livre do peso do pecado, enquanto o padre e a sua mãe discutiam. O interesse daquilo tudo, excedia já a sua compreensão. A falta de crença do padre em que as duas primas tivessem visto alguma coisa, era visto pela mãe como uma acusação à educação que dera à sua filha. Para o padre, era mais importante a falta de apoio da população em resolver alguns problemas da igreja. O tecto estava a apodrecer, e quando chegasse o Inverno voltaria a chover dentro do edifício santo. Mas insistia a comadre Hermínia, se a sua filha dizia que tinha visto Nossa Senhora, era porque tinha visto Nossa Senhora. E saiu pela porta da Igreja fora, de volta à aldeia, arrastando a filha pelo braço.
As semanas seguintes foram loucas. Sem o saber, Rosa não enterrara o pesadelo, apenas o alimentara e tornara mais forte. A família nunca havia convivido tanto como após se tornar conhecida a Aparição. Até a Tia Maria da Benta, que vivia sempre fechada em casa dos pais de Alzira e Almerindo, apenas saindo para ir à Igreja, começou a aparecer em casa dos pais de Rosa, insistindo na veracidade do que havia acontecido. Claro que ninguém sabia bem o que realmente acontecera, nem quando, nem onde, nem quantas vezes. A própria Rosa recusava contar detalhes daquilo que não podia testemunhar, mas isso apenas alimentava nos adultos a curiosidade em saber o que havia acontecido, e se Nossa Senhora havia dito alguma coisa.
E assim, de desejo em desejo, alimentada de fantasia e vestida de temores, a história foi ganhando corpo e carne. Após uma romaria a Nossa Senhora da Conceição, numa freguesia distante, um dos amigos de família trouxe de lá uma imagem votiva. Era um negócio engraçado, e confortava os corações vir da romaria trazendo uma imagem santa. Por isso, propôs que se mandasse fazer à mesma gráfica na grande cidade, uma imagem semelhante descrevendo a Aparição. E, à falta de sugestões para a Nossa Senhora do Campo da Eira, sugeriu adaptar aquela imagem da Nossa Senhora da Conceição, apenas adicionando a imagem das três crianças, numa posição de respeitosa genuflexão como conviria à piedosa Fé daquelas gentes. A partir daí, sempre foi essa a imagem que o Mundo inteiro conheceu e tomaria como reprodução da realidade.
E Rosa assistia a tudo isto calada. Ficava a um canto, e mesmo quando os adultos a espicaçavam, recusava-se a contar mais do que já havia dito naquela tarde ao padre Miguel. Só o primito Almerindo, um rapaz e por isso mais curioso, continuava a perguntar aos adultos de quem falavam quando se referiam a uma senhora que tinha aparecido numa oliveira. Os adultos riam-se. “Pois quem poderia ser, senão Nossa Senhora?” Almerindo encolhia os ombros. Tomavam-no por néscio, e por seguro que mentia quando dizia nada ter visto, pois ninguém poderia negar algo de tamanha importância. O pequeno não se importava que comentassem em voz alta que não havia entendido a importância do evento, afinal ainda não passava duma criança, sem direito a opinião. E se os adultos lhe diziam que ele também o tinha visto, então ele também o tinha visto.
Apenas a pequenita Alzira falava, e não se conseguia calar. Assustada pelas visões do Inferno que estavam queimadas na sua retina, tão reais como quando saíam da boca do padre Miguel e dos relatos que Rosa lhe fazia nas tardes de ócio, não poderia deixar de falar sobre as Aparições. Não fora uma vez que vira Nossa Senhora, mas várias. E isso assustava-a. Porque achava que Nossa Senhora lhe aparecera porque o Mundo estava em sofrimento. E se aparecera aos pecadores como Alzira, fora para lhes exigir sacrifícios, expiar as culpas pelos males do Mundo. E Alzira tinha que se sacrificar, e pedia a todos que o fizessem, a pedido da Nossa Senhora, para salvar o Mundo da perdição e do castigo que se aproximava, nessa Grande Guerra de que todos falavam, em que máquinas infernais esmagavam e mastigavam a carne e o sangue de tantos jovens e homens crescidos. E quanto mais celeuma e interesse as Aparições provocavam nas populações em redor de Campo da Eira, mais desesperada Alzira ficava porque a mensagem não passava. Todos apareciam a pedir bençãos, poucos as queriam merecer.
O Mundo, que ela queria salvar, estava demasiado cego pelo delírio e pelo prazer de ter sido honrado com as Aparições, para se aperceber do sofrimento da pequena criança. Não lhe sobrou alternativa ou solução, que suportar sózinha os pecados do Mundo, e foi sozinha que começou a mortificar-se, recusando comida, recusando bebida, e provocando dor no seu corpo durante horas sem fim, enquanto tentava esquecer o sofrimento com uma reza constante, revelada pelas palavras da própria Nossa Senhora.
Chegou Julho, e com o Verão chegaram os jornalistas, de fato engomado e chapéu cinzento, com as suas máquinas de metal frio e couro castanho, maljeitosas e enormes. Quem os mandara, ninguém soube. Por essa altura, estava mais ou menos já decidido que tudo começara em Maio, num domingo que calhara a um dia 13. Porquê, ninguém sabia dizer, mas tomavam por garantido que começara nessa data e que se repetira aos dias 13 de cada mês em diante, até chegar a Julho e às fotografias que fizeram a primeira página. A partir daí, os próximos dias 13 só poderiam ser de maior loucura. Porque, após publicarem na primeira página dos principais jornais aquela foto com as três crianças abençoadas pela visão da Mãe de Deus, muitos leitores nas grandes cidades nunca se deteriam até conseguirem falar com elas.
Na fotografia, um borrão primitivo numa folha de papel de jornal, cada um lia a possível salvação para os seus problemas mundanos. Que, em 1917 num Portugal ainda recentemente mudado para a República mata-frades, se resumia a poucas coisas, e na maior parte dos casos tinha a ver com a Grande Guerra em que os mata-frades haviam afundado a Nação. Aquelas Aparições, vinham na altura certa para oferecer a tantas almas angustiadas a saída dos seus pesadelos pessoais. Ninguém conseguia ler, naquela imagem a preto e branco, o tédio de Almerindo que desistira de insistir não ter visto nada; ninguém estranhava o olhar perdido de Alzira, a quem apenas interessava o martírio pela salvação dos pecadores; e a imagem escondia o ar comprometido de Rosa que, agora e cada vez mais, tinha de jurar aos quatro ventos que não mentira nunca, a respeito das Aparições. E era verdade.
Começou a ser difícil a Rosa, Alzira e Almerindo, ir até ao Campo da Eira passear as ovelhas. Todos os dias apareciam estranhos a perguntar pelas crianças que haviam visto Nossa Senhora. Incultas mas espertas, as crianças negavam ser quem eram. E em breve deixaram de aparecer no Campo da Eira para evitarem esses estranhos. De qualquer maneira, aqueles pés calçados iam estragando o pasto das ovelhas de tanto o calcorrearem, e com isso acabaram a impedir o ganha-pão da pobre família. Graças a Nossa Senhora, a família dos videntes começou a passar fome.
Mas a liberdade do anonimato esgotar-se-ia, mesmo na aldeia. A loucura era um fogo que ia ardendo lentamente, como um papel seco que vai queimando sem se notar, e em breve as três crianças viviam nas últimas cinzas da sua inocência. Um por um, os mais afoitos começaram a vir procurá-las na aldeia, e com uma pergunta aqui, uma pergunta ali, e a cumplicidade de todos os vizinhos que queriam mostrar que as conheciam, acabaram por ser identificadas como as santas criancinhas.
A sorte mudaria quando, no auge da desgraça, Rosa viria a aprender que tudo o que acontecera com a sua mãe e o padre Miguel, não fora apenas uma benção, um milagre, uma coincidência ou azar, mas uma regra aparentemente comum sobre a forma como funcionava a cabeça dos adultos, e isso permitir-lhe-ia fugir mais depressa daquele pesadelo, embora não soubesse que apenas se iria conseguir afundar cada vez mais na mentira. E uma tarde, quando calcorreavam tristes as pedras do caminho sonhando com o cheiro doce da erva ao Sol no Campo da Eira, numa rua traseira da aldeia ali em frente à casa da Dona Linda Martinho que poucos tratos tinha com as suas famílias, viram um casal de citadinos, bem vestidos e assombrados, vindo na sua direcção. Voltaram-se para trás, mas outros três, duas senhoras e um cavalheiro, vinham também do outro lado, aproximando-se em passo rápido para que não lhes fugissem, mas com o corpo retraído e inclinado para trás com medo de as ofenderem com o seu atrevimento.
As três crianças encolheram-se sem saber que fazer, e depressa aqueles braços canibais agarraram-se-lhes à roupa, soterrando-as de vozes. Alzira gemia de medo, Almerindo permanecia calado mas incomodado, só Rosa protestava que os largassem. Protestava. Falava. Comunicava. E era a ela que dedicavam o seu desespero. Cada grito seu, era mais um braço que se colava a si, mais uma voz que lhe implorava que a ouvisse.
Almerindo puxou a pequena irmã Alzira e levou-a inconscientemente para casa da Dona Linda Martinho. Esta não estava em casa, e eles refugiaram-se no interior. Rosa tentava libertar-se para se lhes juntar, jurava às pessoas que se haviam enganado, que nada podia fazer, que nada havia visto. Mas as pessoas sabiam já mais sobre si e o que lhe acontecera, do que a própria Rosa tinha coragem de admitir. “Que disse Nossa Senhora?”, perguntavam eles e elas, “Como podemos falar com ela? Como lhes podemos pedir bênçãos?” Rosa gritava que a largassem. “Vimos de longe, vimos da cidade, temos de falar com a Nossa Senhora, tens de lhe falar por nós!” Rosa chorava, que nada sabia sobre os tempos difíceis que corriam, nada sabia sobre os espinhos políticos dos antigos monarquistas, desconhecia o que era o Corpo Expedicionário Português.
“Se não podemos falar com Nossa Senhora, fala-lhe tu por nós!”, insistiam os adultos, implorando que abençoasse o seu desespero. Rosa gritou que tudo faria por eles, mas que a largassem, que magoavam os seus braços. E aí, quando lhes disse isso, os adultos explodiram de alegria, elevaram os braços aos céus, e gritaram “Aleluia, Deus seja louvado!”
Quando olharam para Rosa, esta desaparecera misteriosamente.
No interior da casa da Dona Martinho, Rosa espreitava pelas cortinas de linho sujo, abraçada à pequena Alzira. Almerindo resfolegava. Não poderiam sair enquanto eles não fossem embora, mas a Dona Martinho poderia chegar e dar-lhes-ia uma coça por se atreverem a entrar em sua casa. Estaria tudo doido? Onde fora parar a vida calma e sossegada do Campo da Eira?
Enquanto via os adultos a irem embora pelas pedras da rua, subitamente aliviados de desespero, Rosa percebeu que pela segunda vez conseguira escapar aos adultos, bastando-lhe para isso ter de lhes contar o que queriam ouvir. Nem a sua mãe tinha coragem de lhe voltar a bater! Poderosa arma a criança adquirira contra a loucura dos adultos: a estranha verdade da mentira.
O crescendo de romaria ao Campo da Eira começara a traduzir-se em flores deixadas numa árvore, uma oliveira onde a lenda contava que a Nossa Senhora havia sido vista. A oliveira da Aparição não seria aquela onde as crianças haviam visto a Nossa Senhora, mas a primeira oliveira escolhida pelo primeiro ramo de flores, pelo primeiro estranho que por lá andou perdido em busca de uma oliveira diferente de todas as outras. Depois, outros ramos de flores, rosários, fotografias, notas pregadas na sua casca, colares em ouro, elegeram-na como “A Oliveira”. E quando a Tia Maria da Benta, agora mais saída de casa com o seu novo objectivo na vida de servir de testemunho ao milagre das Aparições, pela primeira vez foi ao local e viu os donativos que estavam perdidos pelo chão, tomou em mãos o encargo de os proteger de mãos e intenções menos pias. Um dia sonhava ela, construiriam naquele sítio um pequeno santuário a recordar que foram sobrinhos seus os escolhidos pela Mãe de Deus, e aqueles donativos serviriam esse fim.
Claro que o padre Miguel recusou donativos com tão obscura e blasfema procedência, e alertou o Bispo em Leiria para a tragédia que se adivinhava. Responderam que já lhes havia chegado ao conhecimento tal blasfémia, e prometeram-lhe que em breve enviariam alguém para apreciar o fenómeno, alguém com autoridade para tomar controle da situação. O padre Miguel começou assim a sua longa espera.
A Tia Maria da Benta, entretanto, escolheu uma pequena mesa e carregou-a às costas até ao campo de pasto da família, e pousou-a junto à Oliveira, para que todos pudessem colocar ali as oferendas que ela, no dia seguinte, viria recolher e guardar. Montou um arco com paus, algumas flores, e duas lanternas de óleo. Logo no primeiro dia, a mesa desapareceu. Tudo o que a Tia Maria da Benta encontrou no seu lugar foi um monte de donativos, moedas, notas, peças de ouro. A mesa fora soterrada pela Fé.
Quando chegou o dia 13 de Setembro, ninguém conseguia contar quantas pessoas tinham já visitado o Campo da Eira. O prado era agora terra seca e esmagada. A Oliveira das Aparições secara, a sua casca esfolada, as folhas e ramos arrancados como relíquias. E, depois dela, foram esfarrapadas as oliveiras vizinhas. Pela voz do povo corria a curiosidade em estarem presentes, em assistirem a nova Aparição de Nossa Senhora, naquela que seria a quinta-feira memorável de 1917. Nem as crianças iriam faltar. A comadre Hermínia desdobrava-se em azáfama, nem pensar em deixar que roubassem à sua filha a glória do protagonismo num dia que ficaria para a História. Se os pais de Alzira e Almerindo os fechavam em casa para os protegerem roubando-os da sua glória, era erro que a comadre Hermínia não cometeria. Vestiu a criança com a melhor roupa, colocou-lhe colares de ouro, lenços de linho, meias brancas e sapatos novos. E assim a levou, para o Campo da Eira, protegida pelo marido e por um irmão deste. Nem reconheceram Campo da Eira quando lá chegaram. Milhares de Portugueses se espalhavam, farnéis ao pé, garrafões de vinho por companhia, pelo deserto de terra seca que antes fora promessa de verdejante Fé. Amontoavam-se lixo e fezes humanas, maços de cigarro e fósforos queimados, papéis sebentos e restos de comida. E quando viram a criança, como cadáveres adiados, levantaram-se e tropeçaram ao seu encontro. Os mais afoitos começaram a aproximar-se. Chamaram por Rosa. Tentaram tocar-lhe. Pediam-lhe pelo amor duma apaixonada. Rosa concedia-lhes tal amor. Pediam dinheiro e desafogo. Claro que sim, o cheque seguira pelo correio. Mas pela meia-dúzia que apaziguava, atiçava os ânimos de milhares.
Porque quem ali estava, naquela tarde arrefecida de Setembro, não fora lá por dinheiro, nem por paixão, mas por amor a familiares distantes. Unia-os um único apelo. Nas terras de La Lis se sepultava o ganha-pão das famílias Portuguesas. Que Nossa Senhora fizesse o que o Governo Republicano não soubera fazer: escutar a voz dos familiares dos soldados destacados para o estrangeiros, ouvir o lamento das mães, das esposas, dos irmãos e irmãs, filhos e filhas, dos homens integrando o Corpo Expedicionário Português, enviados para morrer em França.
Aos poucos a turba foi rodeando a pequena vidente. Os três adultos que a protegiam tentavam manter afastadas as pessoas, mas era impossível deter tanta gente. De repente, quando tentaram ser mais afoitos e afastar a turba, viram-se separados, rodeados, bloqueados. Rosa desaparecia por entre braços, os gritos de medo abafados pelas súplicas. “Larguem a criança! Larguem a minha filha!”, gritavam, mas naqueles breves segundos Rosa era desfolhada como uma oliveira, arrancavam-lhe as peças de ouro, rasgavam-lhe as roupas, arrancavam-lhe cabelos, violavam a sua paz. Mas as parcas relíquias não chegaram para tanta Fé.
E quando as relíquias acabaram, e as dezenas desesperadas lhe imploraram que pedisse a Nossa Senhora para acabar com a Guerra, sufocando-a com o peso dos seus corpos, Rosa gritou aquilo que sabia que eles queriam ouvir:
“A guerra acaba hoje!”
Minutos depois, tremendo ainda de medo, Rosa estava a salvo fechada em casa, pelos braços de seus pais. A multidão delirava, lá longe no Campo da Eira, trocada a presença da santa criança pela revelação do Primeiro Segredo. Ninguém deu mais pela sua falta, durante todo o dia.
A recordação dolorosa demorou a evaporar-se, como a névoa que se eleva das árvores num dia quente de Maio após uma breve chuva, mas a loucura sedimentava nos solos áridos. Rosa estava presa a uma roda de tortura, e cada frase que usava para se libertar era uma frase mais que a prendia. Conseguira fugir naquele dia, mas agora as pessoas queriam saber mais. O resto, faltava o resto. Decerto, a Nossa Senhora não aparecera apenas para contar que a Guerra iria acabar. Que lhe contara nos dias anteriores, o quê?!
Pobre Rosa, quantos Segredos teria de revelar até se saciarem? Por Sorte e intervenção do Deus, Rosa foi salva ao dia 13 de Outubro. Quando o dia se aproximava, e Rosa se martirizava para encontrar uma saída, cavaleiros vieram ao seu encontro, vestidos com a farda da Guarda Nacional Republicana, a força fiel ao Governo Republicano, a mesma força que esmagara a revolta da Cadeia da Relação no Porto a 19 de Maio e o golpe de estado em Lisboa a 20 de Maio desse mesmo ano. Sete dias depois do dia 13 de Maio, por estranha coincidência que Rosa ignorava.
Detida, Rosa foi poupada a nova loucura, mas esta não foi impedida. Ganhara já uma vida própria, independente das palavras das crianças videntes. Enquanto Rosa era interrogada em Leiria, e o Capitão da GNR a assustava com ameaças de prisão e degredo, no Campo da Eira as barreiras da GNR foram galgadas pela multidão histérica que acorreram a assistir a milagres nunca antes vistos por olhos mortais, uns viam o Sol a dançar por entre as nuvens, outros diziam que estranhos cabelos de anjo caíam dos céus, outros ainda que um estranho calor lhes secara as roupas húmidas das chuvas que começavam a cair. Os carros, ainda poucos mas mesmo assim presentes, foram testemunho de que algo insólito se passava, quando se calaram e se recusaram a obedecer às ordens de arranque, quando o Sol dançou por entre as nuvens.
Breves minutos, e tudo se calmou e voltou à ordem prévia. E Rosa foi libertada. Para se preocupar com o próximo dia 13, em Novembro.
∴
Entretanto, numa tarde calma entre Aparições, o padre Miguel teve de abandonar a sua igreja para administrar a extrema-unção ao pobre João Águas, um lavrador que vivia num casebre distante da pequena aldeia, e à vinda deu com um carro rico parado à porta da sua igreja. Pensando tratar-se de um dos milionários das grandes cidades que vinham à blasfémia das Aparições, bateu no vidro do condutor adormecido, enfurecido pela afronta. O condutor acordou, e desculpou-se dizendo que trouxera o Reverendo desde Leiria para lhe dar uma palavrinha.
O padre Miguel rejubilou. Finalmente, a Santa Autoridade da Igreja chegara a Campo da Eira para pôr um fim àquela loucura ímpia. Correu ao interior, e ajoelhou-se perante o Bispo agradecendo a sua intervenção. Contou-lhe toda a impostura que assolava a pequena paróquia, e como desde o início tentara convencer os pais das crianças a não espalhar mentiras. Jurou a pés juntos que nunca acreditara naquelas histórias, e que achava um insulto para a Igreja que ninguém ajudasse a reparar o telhado da casa de Deus mas houvesse dinheiro e ouro escondidos para oferecer em donativos ímpios.
O Bispo desculpou-o, e disse que não se preocupasse mais, pois estava ali para o informar que fora agraciado com a transferência para outra paróquia, como recompensa para tão valoroso serviço em defesa do bom nome da Santa Madre Igreja. De ora em diante, o Bispado tomaria conta da situação, e regularizaria a questão dos donativos.
Graças a Deus, não chegou a haver 13 de Novembro.
in Fenix Mutilada (autor Anónimo)