Julho 2008 - Posts

Rui Massena é um caso sério de popularidade internacional no universo da música clássica. Aos 35 anos, é maestro titular da Orquestra Clássica da Madeira, ilha que o  rendeu há oito anos.

Vive há oito anos na Madeira. Para si, a ilha é mais sinónimo de Carnaval ou de república das bananas?Apesar do preço das viagens, convido-a a vir à Madeira, para perceber que a ilha tem fruta, carnaval, mas também natureza, mar, cultura e um povo que recebe extraordinariamente bem. 
 
Hoje é dia de festa anual aí, no Chão da Lagoa. Também consegue, como Alberto João Jardim, beber um copo em cada uma das 54 barraquinhas? Estou a treinar. Tenho pena de ainda não ter sido convidado, mas acredito que neste momento, aguentaria aí...umas 47. Mas vou continuar a treinar... 
 
E se ele o convidasse para sambar no Carnaval, aceitava? Na verdade, eu é que o convido a sambar. A Orquestra faz um concerto de Carnaval, ao qual vamos todos mascarados. Divertimo-nos imenso. Aí, normalmente, convido o público a participar.  
 
Em contrapartida, alguma vez o viu em algum dos seus concertos?
Faz parte do público fiel da orquestra. Vai em mangas de camisa, sem qualquer staff, sem lugar reservado, a muitos concertos da Orquestra Clássica da Madeira, e no fim por vezes troca comigo uma impressão sobre o que ouviu.


Que outro político gostaria de ter entre o seu público? Nenhum em especial. Mas talvez o Dr. Jorge Sampaio, porque o sei um apreciador de música. 


O líder regional madeirense já foi apelidado de "professor português do insulto" [El País, 2005]; a José Sócrates está colado o rótulo de "arrogante e insensível". Qual deles causa mais ruído à sua música?

Só quando estão juntos num concerto...[Risos]


Também lhe acontece ser assomado, como acontece a Alberto João, por "excessos verbais"?

[Risos] Sim, normalmente excedo-me. Penso que é o que acontece a todos os que vem viver para a Madeira, para perto do Dr. Alberto João. 
 
Concorda com o que o poeta Luís de Camões escreveu no Canto V de Os Lusíadas, sobre o facto de a Madeira ser "mais célebre por nome do que por fama"?

O Luís só tinha uma vista. Os tais excessos... [Risos]
 
Viver nessa ilha a que distância o coloca dos problemas do Continente?

Vivo como quando vivia em Lisboa. Sou atento á vida do País. É evidente que viver numa ilha limita o campo de acção, e em alguns sentidos há a tendência para construir um ritmo próprio. Os problemas que aqui se sentem são mais os locais do que os do país. Mas se sairmos de Lisboa e do Porto, e se formos por exemplo ao Algarve, acontece-nos o mesmo. Mas o rectângulo tem problemas? [Risos]

O seu filho mais novo frequenta o clube Andorinhas, o mesmo onde treinou Cristiano Ronaldo. Está a educar um futuro jogador de futebol?

Não. Estou a educar um homem, que gosta de futebol. Educá-lo nos vários interesses da vida, com a consciência do que quer que faça tem de esforçar-se por fazer bem. O desporto é competitivo mas leal, por isso saudável.  
 
Há quem defenda que a nossa verdadeira idade nunca é a que está no BI. O seu BI diz 35 anos. Quantos anos tem?

Às vezes, cinquenta; outras vezes, dezoito. Fui sempre velho para a minha idade, mas é um processo que se tem invertido. Vou envelhecendo com a sensação que tudo é mais possível. Hoje sinto-me mais novo do que quando tinha 25 anos. As artes permitem-nos a liberdade de existir menos formatados.  
 
E há quem diga que quem não se lembra da música do Verão Azul [série espanhola] não faz verdadeiramente parte da geração de 70. Lembra-se da música? Que recordações lhe traz? 
As melhores. O assobio era sinónimo de um tempo descomprometido. Como diria Ernesto Sabato," tínhamos tempo para matar o tempo". Hoje eles teriam que usar protector solar. 


Revê-se nessa geração que passou a infância a ver a Abelha Maia, o Tom Sawyer, o Dartacão?

Sim, claro. A Abelha Maia...não era bem a minha preferida. Mas o Tom e o Dartacão, o mais possível. Um saudoso cumprimento ao Vasco Granja, pelo experimentalismo checo dos princípios do cinema de animação. 
 
Como definiria essa geração - que é a sua - que brincava na rua, jogava ao Monopólio ao berlinde, às escondidas e ao mata?

Uma geração que se conheceu, no início de um processo democrático. Um liberdade a ser experimentada, sob o signo implícito de muitos anos de ditadura, e que deixou marcas aos nossos pais. Apesar de tudo, uma geração que brincava com simplicidade, num verão azul de três meses, mas que cresceu para a vida atrasada. Mas com alma. Foram tempos de enormes memórias, mas distantes dos que hoje vivemos. Também são tempos óptimos. Ainda bem que tudo muda.

Já lhe acontece soltar um "no meu tempo em que era bom"?

Naturalmente que vivo com as referências do meu tempo de juventude. Tenho porém consciência, da importância de irmos construindo novas referências, para que essas sejam as actuais. Isso é importante para uma adaptação inteligente e feliz á vida o que não quer dizer que se percam as outras. É um processo de soma e filtragem. É daqui que vem as opiniões. Ninguém é só presente e futuro. A história é fundamental.   
 
Colecciona mais alguma coisa para além de gravatas?

Sapatilhas, batutas, telefones móveis, livros. 
 
É sobejamente conhecido pelas suas colaborações com os Da Weasel. O seu sonho era ser um hip hop man?

Francamente gostava. Quem sabe? Tenho apenas trinta e cinco no B.I. 

A excentricidade é a sua imagem de marca?

Gosto da vida e de me expressar.

Helena Teixeira da Silva

Foi o braço direito de Rui Rio. Depois, veio criticar o seu Executivo. É caso para dizer: zangam-se as comadres; descobrem-se as verdades?
 Não. Estamos apenas a falar de caminhos que foram convergentes até determinado momento e depois foram divergentes.
 
No seu caso, que foi vereador do urbanismo, é impossível aplicar-se o ditado: "depois de mim virá quem bom de mim fará"?
Não sou a pessoa ideal para o dizer, mas é facto é que a defesa do interesse colectivo e do urbanismo parece ter acabado em Portugal e em particular também na cidade do Porto.
 
Quando vê projectos imobiliários que chumbou, como a Quinta da China, serem aprovados, sente o quê?
 Receio pelo futuro dos meus filhos e dos meus netos.
 
Deixou certamente de ser assediado por empreiteiros e partidos políticos quando deixou a vereação do urbanismo. Isso foi realmente um alívio?
Não. Esse alívio ainda não se verificou na medida em que sou talvez o maior denunciante dos crimes de urbanismo em Portugal. Por isso, continuo a ter os incómodos. Mas já estou disposto a viver com eles, porque é uma missão justa e necessária para o futuro do país.
 
Tornou-se numa espécie de cavaleiro dos bons princípios urbanísticos de uma forma que, às vezes, pode parecer obsessiva. Sente mais necessidade de denunciar a corrupção ou de provar que não foi como os outros?
Sinto necessidade de intervir tendo em vista uma alteração deste paradigma. Às vezes sinto-me um pouco como um D. Quixote, mas apesar de tudo um D. Quixote que já derrubou alguns moinhos.
 
O poder deixa saudades? Ou é mais afrodisíaco ser professor de matemática?
[Risos] A matemática é uma paixão a política é uma missão. A minha vontade em cada um destes dois pratos tem um estado de espírito diferente. De qualquer forma, são sempre caminhos paralelos. 
 
Publicou em 2006 o livro "Mudar o poder local" – uma longa entrevista de António Freitas de Sousa. Porque é que fica sempre a sensação de que os políticos só vêem a luz quando deixam de ser políticos? 
Isso não se pode aplicar ao meu caso, na medida em que eu, desde os 18 anos, participo na vida pública, denunciando aquilo que acho necessário e menos correcto. Enquanto exerci funções políticas executivas tudo fiz para que não se pudessem concretizar um conjunto de situações menos claras. Todas as situações com que não concordei, não permiti que se concretizassem. E sempre fiz reflexo público dessas minhas opiniões. Sempre denunciei as situações que contribuem para este estado de pobreza em que Portugal se encontra. E espero continuar a fazê-lo por muitos anos. Nunca confundi o exercício do poder com a cumplicidade com os que estão no poder.
 
É mais fácil ser treinador de bancada, mesmo para quem já teve a sua equipa?
Para quem faz uma reflexão estratégica sobre o país, a diferença entre estar na bancada ou no campo é implementar ou não aquilo que defende. Mas as ideias não se alteram um milímetro.
 
Aprova a demolição das torres do Aleixo, mas diz que preferia ver ali um jardim público ou um bairro menos denso. Não é o tipo de afirmação inócua de quem quer ficar bem com todos?
Não. A demolição é positiva na medida em que se vai eliminar aquela chaga social, no fundo, aquele gueto. Agora, eu acho que não há qualquer necessidade de se associar esta operação a uma manobra de especulação imobiliária. Por duas razões: primeiro, por uma questão de princípio. As Câmaras não têm nada que fazer negócios imobiliários. Existem para gerir condomínios, tratar do espaço público, infraestruturar a cidade e os concelhos. Em segundo lugar, por que sob o ponto de vista económico é um negócio desastroso na medida em que o realojamento de todas aquelas famílias custaria à Câmara, no máximo, sete milhões de euros e o terreno vale muito mais do que isso. Do ponto de vista económico, é um negócio desastroso para a cidade.
 
Rui Rio mudou de opinião de 2001 para agora. Só não muda quem não evolui?
Concordo com ele. Houve uma primeira fase em que se tentou eliminar a chaga social que representava o Aleixo na medida em que se percebe que o bairro é dominado por negócios menos claros, nomeadamente pelo tráfico de droga. Apenas resta fazer o que já se fez com o S. João de deus. A demolição do Aleixo hoje é uma medida louvável.
 
Ficaram amigos?
 [Risos] A relação entre Rui Rio e Paulo Morais não é alvo de discussão pública.
 
A sua afirmação "os políticos passaram a ser mandantes, caciques do poder económico" exclui alguém?
 Infelizmente, inclui a grande maioria dos políticos. A maioria dos políticos que exercem hoje cargos públicos em Portugal são mais dependentes de quem os financia do que leais a quem os elegeu.
 
Alguma vez deu dinheiro a um arrumador?
Nos últimos sete anos não de certeza absoluta.
 
Isso quer dizer que deixou de os ver na cidade?
 Não. Quer dizer que compreendi que dar dinheiro a um arrumador  é arrumá-lo a ele num canto qualquer da cidade e não lhe permitir integração na sociedade, que é a nossa obrigação. 
 
"Só vale a pena exercer um cargo político neste regime se for para ajudar a destruir o próprio regime". Saiu por não o conseguir destruir?
Saí no momento em que compreendi que é mais fácil destruir o regime através da opinião do que de um cargo político. Hoje, é assim, No futuro, espero que seja diferente.
 
Concorda com Manuela Ferreira Leite quando ela diz que "o papel da oposição não é o de apresentar alternativas aquilo que o Governo faz,  mas o de fiscalização a sua acção"?
Não. O papel da oposição é apresentar uma alternativa e não assumir-se como o melhor gestor do mesmo paradigma.

Helena Teixeira da Silva

Ofuscou Pedro Roseta no Ministério da Cultura. José Amaral Lopes, talvez o melhor secretário de Estado dos últimos anos, tem mala feita para rumar a Bruxelas. Deixa o país, mas não a cultura.

 Vai apanhar a boleia de Manuela Ferreira Leite para voltar à política?

Trabalho para ter o meu próprio meio de transporte. E Manuela Ferreira Leite não quererá ninguém à boleia. Quem anda à boleia não é independente.

Fartou-se da política, dos políticos, ou da impotência de ambos?

Não me fartei. Só que às vezes os políticos são substituídos por pessoas sem ideais políticos. Daí a tendência para se desconfiar deles.

Isso fá-lo temer ficar associado à nuvem que Carmona Rodrigues deixou na Câmara de Lisboa?

Não. Eu sei, com consciência, que não posso ser confundido com contextos de corrupção, manipulação ou compadrio.

Foi dos primeiros vereadores a permitir que houvesse eleições intercalares. É sempre dos primeiros ratos a abandonar o navio?

Não abandonei navio nenhum. Estar na política é estar disponível; não é estar agarrado ao cargo ou ao poder pelo poder.

Que pergunta teria feito a José Sócrates se tivesse participado no debate da nação?

Não acha que muitas vezes esquece que o homem tem direito a programar o futuro e não pode viver numa insegurança permenente?

E Paulo Rangel, saiu-se bem na sua estreia no Parlamento?

Ele não apareceu agora, nem deve a sua carreira à política. É um jurista e um académico de mão cheia.

Mas como líder de bancada do PSD representou bem a Oposição?

Sim. Falou em coisas que estão em desuso na democracia, mas que é bom que deixem de estar.

A cultura do país está melhor do que há cinco anos, quando também era membro do Governo?

Eu faria diferente do PS, mas não digo mal de quem me sucede. Essa avaliaação cabe aos agentes culturais.

 Mas tem-se na conta do melhor secretário de Estado que o país conheceu?

Elogio em boca própria é vitupério, como diz ditado. Tive a sorte de ter um grande homem da cultura como ministro [Pedro Roseta]. Mas sei que não fiz tudo bem, nem fiz tudo o que queria.

Não criou a Cinemateca no Porto, por exemplo, como havia prometido. E ninguém parece conseguir criá-la. É normal o sentido de posse de Bénard da Costa em relação a um bem que é público?

Assumo que falhei. Mas nunca defendi uma cinemateca no Porto à custa do prejuízo da de Lisboa. A ideia nunca foi dividir uma para criar duas; mas criar uma no Porto, de raiz.

Ignorando o espólio da de Lisboa?

Claro que a colaboração da de Lisboa seria importante: pela experiência e pelo património.

Estabeleceu uma relação cultural estreita com Óbidos. O seu maior dom é o de levar determinados projectos para os sítios certos?

Eu não tenho talento nenhum [risos]. Tenho obrigação de conhecer o sector cultural para saber o que se faz e o que pode ainda fazer-se. Mas não inventei a roda! Óbidos é um caso exemplar no país. Investe 30% em educação e cultura.

Já não é preciso estar em Lisboa para estar onde as coisas acontecem?

Não sou mentiroso. Gostava de poder dizer que isso é verdade, mas não é. Ainda.

Tem estado ligado ao cinema. Imagina-se a realizar um filme?

Às vezes dou por mim a pensar por que é que os filmes nacionais não são mais arrojados... pareço um treinador de bancada. É fácil falar para quem está de fora, não é?

E com o telemóvel, faz filmes?

Não. Mas gostava de escrever guiões, contar histórias para cinema. Fascina-me a liberdade que a escrita tem.

Helena Teixeira da Silva

Os dois actores conheceram-se num espectáculo de stand-up num bar do Porto, quando Pedro, no público, interrompeu o número de João, no palco. O princípio de uma bela amizade. Foi há oito anos.

Onde Fica Curral de Moinas?
Pedro Alves [PA] -
Também perguntaria ao Albert Urdezo onde fica a aldeia do Astérix?

Mas é o quê, um purgatório?

PA - É um paraíso ficasl.

João Rodrigues [JA] -É uma terra cheia de coisas bonitas e de moças jeitosas. A Piedade é um anjo, só lhe faltam as asas.

De que riem as pessoas quando riem de Curral de Moinas?

JR - Riem de coisas que são tão estúpidas que são impossíveis.

Quim Roscas e Zé Estacionâncio cospem quando dizem o nome do presidente da Junta. Fazem o mesmo quando, na vida real, ouvem os políticos?

De maneira nenhuma.

O Telerural é o melhor remédio contra a subida das taxas de juros, da gasolina e afins?

PA - Tudo o que nos faça esquecer o que está a acontecer à nossa volta é bom.

Às vezes mais vale obedecer ao ditado do Quim: "O homem  é como a árvore, só vê o que quer"?

JR - Prefiro o ditado: "Não há melhor prática do que a teoria".

PA - Eu nunca fui bom em ditados: dava muitos erros.

Por que é que oas cromos do Norte provocam sempre queixas pelos excessos de linguagem?

Não dizemos uma única asneira; damos a entendê-la, o que é diferente. Para criticar, as pessoas deviam saber ouvir. Dizem que o nosso humor é popularucho porque não prestam atenção aos textos, que são geniais.

Quem os escreve?

JR - Dois moços de Lisboa muito jeitosos: o Frederico Pombares e o Henrique Dias.

Há humor a receber as críticas?

JR - Passam-me ao lado.

PA - Só fico chateado quandso dizem que não promovemos a cidadania, como se isso fosse responsabilidade nossa e não do Governo.

É possível gozar com as queixas que chegam ao Proverdor da RTP?

JR - Mas nós temos queixas? Dizemos asneiras? Cocó é asneira?

PA - O que é agressivo em nós? É o sotaquer? Não percebo.

O Quim e o Zé são jornalistas-agricultores. O Sindicato dos Jornalistas não vos chateia?

JR - Somos agricultores antes de tudo. Agora é que estamos a descobrir o jornalismo. mas todos os jornalistas deviam saber também algumas coisas de cultura.

O director da RTP, José Fragoso, já deu permissão para gozarem com ele. Vão gozar com o patrão?

PA - Se um dia o Curral de Moinas passar a ter uma estação de televisão própria...

O vosso Telejornal rural tem mais audiência do que o humor urbano de "Os Contemporâneos". É uma surpresa?

JR - Adoro os Contemporâneos! Rio-me às garagalhadas...

PA - As pessoas ainda não estão habituadas à crítica social. Isso pode ser ingrato para eles. O nosso humor é mais abrangente.

Os cromos do Nortes ganham menos do que os de Lisboa?

PA - Não. As cadernetas são as mesmas. No meio artístico, já não é verdade dizer que as oportunidades estão apenas em Lisboa.

Quim Roscas e Zeca Estacionâncio são mais famosos do que vocês. É bom?

JR - Excelente.

PA - Ninguém sabe nada do João e do Pedro. E ainda bem.

Ganharam alguma imunidade com o humor?

JR - Ao contrário. Os meus professores [na Universidade Católica, na qual é finalista de Direito] deixaram de me levar a sério.

PA - Continuo a ter as multas que tinha antes, ou até mais.

Comer tremoços só de meias é realmente um prazer?

É! Tens que experimentar! 

Helena Teixeira da Silva