Dezembro 2008 - Posts

Psicóloga de formação, taróloga por gosto. Sara - Íris de nome adoptado - 30 anos, é a rainha das audiências no Porto Canal. Este mês lançou "O Livro do Ano", que promete transformar-se num best-seller.

Uma taróloga é uma espécie de spoiler, a que conta o fim do filme?
Não, de todo. Ergo o véu para um ano, não conto o fim da vida.

E é uma forma de bisbilhotice?
Também não. Tenho sempre autorização para entrar. 

É licenciada em Psicologia. É mais fácil sobreviver a ler cartas?
Finaceiramente? É. Mas não foi por isso que escolhi o Tarot.

A família deserdou-a quando disse que ia ignorar a licenciatura?
Não. Mas o meu pai costuma dizer que se soubesse, não me teria pago os estudos [Risos].

E os professores do curso não lhe  perguntam se perdeu a cabeça?
Não, pelo contrário. Alguns já me consultaram. Há a ideia de que os psicólogos são muito cépticos, mas são as pessoas mais crentes que conheço.

Quem são os seus colegas de profissão: pessoas como Joana Amaral Dias ou como a Maya?
Não tenho colegas; há apenas pessoas que fazem o mesmo que eu.

Lê as previsões da concorrência?
Sem problema nenhum.
Tenta passar aquela imagem de Cavaco Silva: nunca engana e raras vezes tem dúvidas?
Não sei se me engano, não tenho esse feed-back. Mas você aceitaria atender pessoas em directo na televisão [Porto Canal] se não acreditasse que não vai falhar?

Os tarólogos deviam ser penalizados quando enganam alguém?
Não, porque lidamos com algo que é subjectivo. Mas o português não é de "deixar passar". Muito menos as pessoas do Porto, que gostam de cobrar as falhas. Agora, nunca me aconteceu.

Quando lhe pediram para prever o futuro do Porto, respondeu que a cidade cresce todos os dias. Essa visão, que não é exactamente verdadeira, não é um mau cartão de visita para o seu trabalho?
Não me referia a nível financeiro ou à construção de prédios, mas às pessoas. Acredito profundamente que estão a evoluir. Se uma pessoa melhora, melhora um grupo, logo, uma cidade inteira.

É uma visão optimista. A canção de Rui Reininho, 'Dr. Optimista', que diz: "Sou perito em reiki, leio cartas, falo com o outro mundo" poderia ter sido escrita para si ?
Também leio cartas, faço reiki, falo com o outro mundo – quem não fala? –, leio na bola de cristal como num livro. Sim, sou a doutora Optimista.

Fazem-lhe desafios do género: "Se és mesmo capaz de ler, prova-o?
Não. Mas gosto de um bom confronto. Os meus melhores clientes são os cépticos, são os que voltam sempre. Gosto disso: de lhes abalar as estruturas rígidas.

Gostaria de abalar as "estruturas rígidas" de algum político?
Não tenho interesse nenhum.

Mas acha que eles teriam a ganhar se, de vez em quando, consultassem as cartas?
Toda a gente teria a ganhar. A minha ideia é fazer com que as pessoas parem para pensar e reavaliem o seu caminho.

O que é que não está nas cartas?
Não está o número do Euromilhões nem a felicidade. Não está a galinha dos ovos de ouro, estão as formas de os encontrar.

O destino é uma coisa fechada?
Claro que não. Se não pudessemos ter influência nele, não valia a pena ler as cartas.

Em tempo de crise, o seu consultório está cheio?
Sim. As pessoas querem desesperadamente saber se a vida vai melhorar.

Olham para si como uma tábua de salvação?
Muitas olham. E é um erro. Não salvo ninguém. Cada um é que tem de salvar-se. Colocar sempre a culpa nos outros não adianta.

Por que razão se reserva o direito de não lhes contar as coisas más?
Prefiro não contar o que a pessoa não pode mudar. Mas, nesse caso, prefiro eu própria não saber.

Sente-se uma privilegiada, no sentido em que consegue estar à frente do seu próprio futuro?
Não vejo as cartas para mim. Sei o meu futuro através dos meus sonhos e não das cartas. Tenho sempre avisos.

Helena Teixeira da Silva

Tinha 13 anos quando aderiu à JSD. Ocupou vários lugares dentro do partido, mas nunca no Governo. Aos 44 anos, será Pedro Passos Coelho o homem que veio do futuro para salvar o PSD?

Que idade terá em 2013?

Daqui a qualquer coisa como quatro anos terei 48.

É a idade com que José Sócrates se tornou Primeiro-ministro. Seria uma boa idade para fazer o mesmo?

É uma idade como qualquer outra. Não me sinto com falta de idade para ser Primeiro-ministro.

Quer dizer que 2013 fica muito longe da meta que estabeleceu para si?

Não estabeleci uma meta para nenhum lugar. A única meta que estabeleci foi para deixar de fumar. E deixei, aos 35 anos. Achei que depois desse limite seria mais difícil arranjar força de vontade. Deixei de fumar e deixei o parlamento. Na mesma data.

Ao contrário do que acontece nos outros partidos, no PSD não ter passado é uma vantagem?

Ter passado é uma vantagem; não é uma desvantagem. Não ter passado governativo quando a maior parte das pessoas exibe um desgaste maior desse mesmo passado governativo é que pode ser uma vantagem.

Já disse várias vezes que não tem nada a ver com o passado do PSD. Porquê, tem vergonha?

Não, não, nunca fiz tal afirmação. De resto, sou militante do PSD há muitos anos. A primeira vez que tive contacto com órgãos nacionais do PSD foi em 1980. F conselheiro nacional. Portanto, nunca poderia ter feito uma afirmação dessas. Sou militante de longa data, nesta altura até com mais tempo de filiação do que a doutora Manuela Ferreira Leite. Assisti a um período muito rico do PSD e do país, que foi todo o período que mediou entre a morte do Dr. Francisco Sá Carneiro e a chegada ao poder do engenheiro Guterres. Os primeiros quatro anos de Guterres ainda os acompanhei na bancada do PSD, no Parlamento. E na oposição, pela primeira vez em muitos anos. Significa que estou muito próximo do que foi a história do PSD dos últimos 25, 28 anos. O que nunca exerci foi lugares de governo. Mas isso não significa que não tenha orgulho naquilo que é o PSD.
 
No Conselho Nacional [CN] do PSD [terça, 16] afirmou que quando o partido estiver suficientemente mal reabrirá a discussão interna. Se não é agora, é quando?

O PSD precisa de transmitir uma imagem de confiança e de esperança ao país que não tem sabido transmitir. Precisa também de oferecer às pessoas um modelo de construção política distinta da do PS, que possibilite às pessoas ver bem as diferenças e perceber o que significa ter um governo do PS ou do PSD. Essa diferença, hoje, ainda não é nítida. Portanto, o PSD precisa de melhorar a sua comunicação. E o seu conteúdo. Mas também precisa de estabilidade interna. Tenho recusado as visões de defesa de congressos antecipados ou de outras iniciativas, que no fundo podem reabrir condições não de discussão política interna, mas de crise política interna. E o PSD não precisa de mais crise.

Neste momento, o PSD presta um bom serviço à democracia?
[Silêncio] Pode prestar um serviço melhor ainda. O PSD é um partido com muita história. Muito do que se passou no país, para o bem e para o mal, está ligado à história do PSD. O balanço é positivo no sentido em que os períodos em que o país teve um desenvolvimento mais acentuado e um sentido de modernização e progresso mais fortes foi em momentos em que o PSD liderou o governo. E espero que volte a ser um balanço muito positivo quando o PSD regressar ao governo para completar um programa de reformas no país, que estão prometidas há mais de 10 anos e não estão feitas.
 
Prefere um PS a governar mais à Direita, deixando, como se vê, menos margem de manobra para a Oposição, ou preferia um PS a governar à Esquerda, permitindo à Direita discordar mais?

O PS não tem governado nem à Esquerda nem à Direita. De resto, não tem sido carne nem peixe. E essa é a razão pela qual o programa de reformas no país foi prometido, mas não foi realizado. E essa é a razão pela qual estamos a assistir à recomposição e à redefinição do espaço político à Esquerda do Partido Socialista, à custa da insatisfação que o PS tem gerado. O que eu gostaria é que o PSD não fosse um destinatário passivo do que se está a fazer à Esquerda, mas que fizesse o contraponto a esse regresso de uma certa Esquerda mais radical que está a aparecer no país. E isso exige não ter receio de fazer uma proposta política mais ousada que nos distinga do PS. Espero que o PSD não venha a ocupar um espaço político no país em resultado do posicionamento que o PS pode vir a ter de ocupar em função deste regresso da Esquerda mais radical, mas que ocupe um espaço por direito próprio, com ideias próprias sobre aquilo que quer para o país.

Preocupa-o que a nova Esquerda - a ser cozinhada - possa beliscar mais a putativa maioria absoluta do PS que o próprio PSD?

As circunstâncias de hoje apontam para que a probabilidade da perda de Maioria Absoluta do PS se faça mais à Esquerda do que à Direita. Se o PSD se mantiver no lugar que tem ocupado e o PS vier a perder a maioria absoluta, vai perdê-la para a sua Esquerda e não para a sua Direita. Isso não é um bom sinal. Coloca o PS mais na posição de ser o campeão do reformismo moderado no país. Ora, esse é o papel histórico que o PSD vem desempenhando na sociedade portuguesa e para o qual tem uma constituição genética mais adequada de que o PS. O PS, de facto, foi mantendo muitos compromissos com uma Esquerda bolorenta que o impediu de fazer uma reforma séria no país. E o PSD não tem razões para ter esse complexo. Eu gostava que o PS não só perdesse a maioria absoluta como perdesse as eleições para uma proposta de mudança do PSD.
 
Conhece algum político com mais vidas do que Pedro Santana Lopes?

[Sorriso] O doutor Pedro Santana Lopes tem reaparecido em vários momentos da vida do PSD e do país, mostrando de facto um grande fôlego. Não sei se há na curta história da nossa democracia um político que tenha reentrado no palco tantas vezes como ele. Mas não vejo que isso seja um defeito.
 
O CN serviu para confirmar a candidatura dele a Lisboa. Também acha que foi um anúncio envergonhado?
Espero que não. A decisão do CN foi o culminar de um processo que talvez até se tenha arrastado tempo demais. O PSD finalmente clarificou a posição da sua candidatura a Lisboa. Eu disse logo no início desse processo que achava que o doutor Pedro Santana Lopes é um candidato forte, não apenas por que já foi presidente do PSD e Primeiro-ministro, mas também porque foi presidente da Câmara de Lisboa e deixou uma boa imagem lá enquanto autarca. Porventura até melhor do que a que deixou como Primeiro-ministro. Isso faz dele um bom candidato. Se alguém tinha vergonha da candidatura, não a devia ter caucionado. Espero que o PSD não esteja a fazer uma candidatura de meio gás, mas de corpo inteiro.
 
"Candidato forte" que também pode ser derrotado pela nova Esquerda, no caso, por Helena Roseta...

Ainda não é claro qual vai ser o comportamento dos partidos à Esquerda na corrida para Lisboa. E ainda não é claro o que grupos independentes como o de Helena Roseta vão fazer. Mas só alguém muito desatento poderia menosprezar a importância que esses movimentos tiveram em Lisboa e a importância que poderão vir a ter para a governabilidade da Câmara no dia a seguir. Mas concordo com a sugestão da sua pergunta: é uma equação que tem que ser mais abrangente do lado do PS do que do PSD.

Usou uma gravata laranja no CN. Vai dizer-me que foi por acaso?

[Risos] Vou. Mas por acaso não era laranja; era cor de tijolo.
 
Saber esperar é um dom ou coisa que se aprende?

As duas coisas. Aprende-se a não ser precipitado, a não ser angustiado com os resultados. A angústia é má
conselheira, turva-nos a vista. Isso, às vezes, faz alguns políticos sejam arrogantes e intransigentes, o que não ajuda verdadeiramente a alcançar os objectivos que se pretendem. Mas também é uma coisa que nasce com as pessoas. Ser tolerante, humilde, na abordagem dos problemas resulta tanto da aprendizagem como da natureza, do carácter das pessoas.
 
Sem pressa, tem assistido à queda de vários líderes do PSD, ícones de quase todas as facções. Espera que todos caiam para aparecer como o homem do futuro que vem salvar o partido?

Não é essa a imagem que tenho de mim. Nem o meu passado sugere esse jogo de paciência chinesa, desesperado para que todos saiam da frente, para que eu seja qualquer coisa. A minha intervenção política é caracterizada, em primeiro lugar, por uma grande liberdade e um grande desapego aos lugares. Desempenhei funções na JSD e depois no grupo parlamentar do PSD, até na sua Comissão Política Nacional, enquanto achei que tinha condições para o fazer, enquanto achei que estava a construir alguma coisa. Quando achei que o projecto se tinha alterado, ou que eu estava equivocado, saí pelo meu pé. Dizendo aquilo que pensava. Portanto, não tenho de mim próprio - e espero que ninguém tenha - essa visão de político calculista que definiu o lugar que quer atingir e que pacientemente o vai construindo.
Dizem que é novo de mais para quase tudo. É por isso que usa essa pose hirta, quase de Estado, de homem mais velho?

Não tenho nada uma pose de Estado. Cada um é como é, e eu não forço a minha maneira de ser por estar hoje na posição de ter disputado a liderança do PSD. Ninguém pode dizer que passei a adoptar um postura diferente daquela que tinha antes. O mais importante é não estar muito preso a um objectivo de lugar, mas não perder de vista a ideia que defendemos para as coisas. Tenho procurado defender sobretudo ideias, trazer um projecto que possa acrescentar alguma coisa ao PSD e ao país. E enquanto acreditar que posso fazer a diferença, a idade não é a questão mais relevante. Há pessoas que têm uma idade avançada e que representaram avanços enormes no xadrez político em que se movimentaram (não menciono nomes para não parecer ridícula qualquer comparação que eu pudesse fazer), mas também há pessoas extremamente jovens que jogaram em lugares muito importantes. Não é uma questão de idade, é uma questão de perspectiva e de momento da história. Tirando isso - já o mencionei mais do que uma vez - há cerca de 21 anos fui candidato da JSD, já sendo pai, e disseram que eu era velho demais para ser novo; 21 anos depois há quem ache que sou novo demais para ser velho. Não é importante.
 
Tenta demarcar-se desse passado na JSD ou essa aura de juventude dá-lhe jeito?

Não quero parecer mais velho para que isso me possa favorecer, nem mais velho do que sou. Normalmente, nem sequer me lembro da idade que tenho, o que não é mau sinal. Nem procuro afastar o passado que tive de líder de juventude do PSD. Pelo contrário, foi um período muito intenso, com o qual aprendi muito, ao qual me entreguei, e que valoriza muito a perspectiva que hoje tenho da vida e do mundo.

Quando sugerem que é o Sócrates do PSD soa-lhe a elogio?

Parece-me muito despropositado, não me soa particularmente a elogio. O engenheiro Sócrates é um homem que fez um percurso dentro do PS - e dentro do PS também pelo governo - sucedeu a um momento mais difícil do PS, que coincidiu com a saída do doutor Ferro Rodrigues. Por uma questão etária representou uma geração diferente da do PS, que era não a dos ex-combatentes do fascismo e dos fundadores do PS, mas de alguém que nasceu politicamente depois do 25 de Abril. Nesse sentido, fazemos parte da mesma geração política. Mas isso não significa que representemos a mesma coisa. Não sinto definitivamente como elogio que eu possa representar para o PSD o mesmo que José Sócrates representa para o PS.
 
Como é que um licenciado em Economia, candidato a candidato a Primeiro-ministro, explica aos portugueses a ajuda do governo aos bancos?

O governo está a ajudar a economia; não está a ajudar os bancos. Os bancos são instituições que fazem parte do sistema financeiro. Nas sociedades em que nos vivemos, bancos e sistema financeiro são assim uma espécie de rede capilar de todo o sistema económico. Se porventura estivéssemos a viver na iminência de um colapso do sistema financeiro dos bancos, teríamos uma crise económica e social sem qualquer precedente de há muitas décadas a esta parte. Portanto, o governo dá, e bem, - de resto, de uma forma concertada com a maior parte dos governos europeus  - uma resposta de emergência a uma situação de emergência, que era a de podermos estar perante o colapso do sistema financeiro. A intervenção garantida a nível europeu evitou essa ameaça.

Neste aspecto está, portanto, com Sócrates?

Com certeza, isso é indispensável. Um governo que, em Portugal, não tivesse, de forma articulada com o sistema europeu, contribuído para evitar o colapso do sistema financeiro, seria absolutamente irresponsável.

Disse recentemente que o país não pode ficar eternamente à espera do PSD. Há quantos anos é que o país - pelo menos, o que se revê no PSD - está à espera dele?

Desde 1995 que o PSD perdeu um bocadinho o seu norte. Já lá vão 13 anos. Há mais de uma década que o PSD tem passado momentos de crise cíclica. Está tudo muito relacionado com o fim do período longo de estabilidade que o professor Cavaco Silva representou, quer para o país quer para o PSD. Fechou-se na altura um ciclo de transformação na sociedade portuguesa que deixou o PSD aparentemente sem projecto. Já passámos pelo governo episodicamente durante quase três anos nestes 13. Mas isso é um espelho claro da desorientação em que o PSD caiu. Tanto que, quer o seu eleitorado quer o país, há muito tempo que precisavam de um PSD mais esclarecido, mais reencontrado consigo próprio. Por isso, eu disse no ano passado, quando o doutor Luís Filipe Menezes foi eleito, e em Maio último, quando a doutora Manuela Ferreira Leite também foi eleita, que o problema do PSD não é apenas de liderança - também é, mas não é só -; é um problema de projecto. É um problema que tem a ver com a forma como o PSD se relaciona com a sociedade. Temos que reconstruir muita coisa no PSD e isso não tem só a ver com o seu líder, depende de toda uma geração de gente no PSD.
 
Não acha que a sua actual relação com Manuela Ferreira Leite é um decalque do que aconteceu há 13 anos, era ela ministra da Educação e vivia-se a polémica das propinas. Nessa altura de conflito, conseguiu estar com ela e contra ela ao mesmo tempo...

Não me parece que seja realidade. Em primeiro lugar, porque não houve conflito nenhum. Ela era ministra da Educação e eu ajudei-a a ultrapassar um problema que resultava do facto de haver uma má lei, que nem sequer se podia cumprir, e que foi revista com a vinda dela para ministra da educação. Ultrapassou-se esse problema, ficaram outros em aberto. Problemas de qualidade da educação, quer ao nível do ensino superior quer nos outros. Têm sido problemas dramaticamente insistentes ao longo desta década e meia. Mas não houve nenhum outro conflito em particular, como de resto não há hoje. Anunciei a minha candidatura ao PSD este ano muito antes da doutora Manuela Ferreira Leite, ela disputou essa eleição comigo e com o doutor Pedro Santana Lopes. Ela ganhou, eu perdi. Ela é presidente do PSD, eu sou um militante responsável e activo dentro do PSD.

Permita-me recuperar o episódio da semana passada no Parlamento: Se estivesse na pele de Paulo Rangel, o que teria dito para justificar a falta dos 30 deputados?

Não estou na pele dele. Como tal, não posso responder.

Mas gostava de ver regressar as regras de Duarte Lima, que impunha uma multa aos faltosos?

Os deputados, como todas as pessoas, têm que ter responsabilidade. Não têm de ser policiados, mas têm que assumir a sua responsabilidade. E uma das responsabilidades dos deputados é estarem presentes nas votações; não é estarem sentados no hemiciclo quando há debates. Os deputados têm trabalho parlamentar para realizar, seja nas comissões, seja no contacto com os eleitores. R esse trabalho tanto pode ser desenvolvido dentro como fora do hemiciclo. Agora, têm que ter responsabilidade e estar presentes nas votações. E a direcção do grupo parlamentar tem obrigação de garantir condições para que os deputados estejam de facto presentes nas votações. Porque eles até podem estar em trabalho político, ausentes do Parlamento, e não poderem estar nas votações em momentos especiais, mas isso tem que ser acompanhado pela direcção. Portanto, não quero fazer nenhum julgamento sobre a forma como a direcção parlamentar tem conduzido o problema e não quero fazer nenhum julgamento sobre o que permitiu que 30 deputados tivessem faltado aquela votação. Mas, sem demagogia, deve dizer-se que a obrigação é estarem presentes nas votações e isso exige uma assunção de responsabilidade que tem que ter consequências.

Já em Maio aconteceu o mesmo. Na discussão sobre seis diplomas sobre a protecção da família, propostos pelo próprio PSD, apenas 20 dos 75 deputados estiveram presentes. Não lhe peço um julgamento, mas pergunto-lhe que imagem passa este PSD para o país?

Preferia que fosse uma imagem diferente.

Manuela Ferreira Leite disse esta semana estar disponível para dispensar quem quiser ser dispensado do PSD. Há gente que não faz falta no partido?

Não faz falta e deve ficar para trás quem não tenha ética na política, quem não seja competente, quem não tenha da política uma visão de entrega e de projecto. Tudo o mais faz falta ao PSD e à política. Não interpretei essa menção da doutora Manuela Ferreira Leite como uma menção de exclusão dentro do PSD – se era isso é errado e não bem vinda – eu interpretei-a no sentido literal em que não se pode exigir do presidente de um partido a resposta por tudo o que é feito. Os militantes têm, eles próprios, responsabilidade, iniciativa, não podem ficar à sombra apenas daquilo que faz a direcção. E nessa medida precisam eles também de pedalar, de dizer o que pensam, de apresentar os seus projectos, e de ajudar à afirmação do PSD. Nesse sentido todos fazem falta.

Pedro Passos Coelho é o melhor trunfo que o PSD tem cartola ou na sua cartola estão coisas diferentes?

Saber se o PSD olha para mim como quem olha para um activo importante com quem pode jogar é uma avaliação que só o PSD poderá fazer, não me cabe a mim. Eu posso responder se estou disponível ou não para ajudar o PSD a fazer uma mudança no país. E estou. Se não estivesse, não me teria candidatado a presidente do partido.

2008 foi um ano de derrotas com sabor a vitória ou o contrário?

As duas coisas. Do ponto de vista político, foi um ano em que a minha candidatura ao PSD foi derrotada, mas o facto de ter tido uma derrota não significa que me tivesse sentido derrotado politicamente. Uma eleição não é uma vida, não fiquei complexado com o resultado dessa disputa. Foi um ano de pequenos fracassos que aconteceram na vida profissional, mas também foi um ano de muitos sucessos profissionais e de muitos pequenos sucessos políticos. Portanto, é um um ano, do ponto de vista pessoal, profissional e político, do qual faço um balanço positivo. Foi um ano de total empenhamento pessoal, mesmo do ponto de vista físico. Um ano esgotante, mas no final não tem um sabor de cansaço e desalento. Pelo contrário.

Politicamente, 2009 é um ano muito apetecível...

É um ano importante, sim...
 
Acredita que é possível ao PSD vencer as legislativas ou basta-lhe ganhar a maioria das autarquias?

O PSD precisa de começar o ciclo eleitoral moralizado e portanto precisa de uma vitória nas europeias. Depois, o PSD precisa de ganhar as legislativas e as autárquicas.
 
Ainda encara a vitória nas legislativas como uma possibilidade real?

Claro que é uma possibilidade. Como se costuma dizer, até ao lavar dos cestos é vindima. Tudo depende da disposição com que se encaram estes desafios. Se olharmos para as eleições e pensarmos que estamos derrotados e que não temos nada de novo para oferecer, para fazer a diferença, aí será até um sacrifício muito grande fazer o tempo todo que demora daqui até às eleições, à espera do resultado e da derrota pesada. Se acharmos que neste ano decisivo podemos fazer a diferença, quer na maneira como atacamos a crise, quer na maneira como preparamos o país para sair dela, e para se modernizar e mudar, então acho que não há nenhuma razão para não estarmos moralmente preparados para fazer um bom desempenho eleitoral.
 
Helena Teixeira da Silva

Tem o dom de acreditar nas coisas muito tempo antes da maioria das pessoas. Isso significa que ao fim de 14 anos e 300 milhões de euros, conseguirá colocar em 2009 no mercado o primeiro antiepiléptico exclusivamente português. Luís Portela, 53 anos, diz que não é homem de fé, mas de convicções. O presidente da Bial é a Personalidade e o Profissional do Ano.

 

O que lhe passava pela cabeça quando queria ser monge?

Queria ser útil às pessoas. Pensava que no exercício da meditação poderia aperfeiçoar-me e, a partir daí, ser mais útil às outras pessoas.

Não foi monge, licenciou-se em medicina, mas o seu exercício é de gestão. Aprendeu a ser gestor nos livros?

Ainda não completei o aprendizado. Continuo a aprender a ser gestor, mas não nos livros. Aprendo sobretudo na vida prática, através do contacto com a realidade aqui na Bial. E também pude contar com o apoio extraordinário do professor Manuel Baganha, que então era presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Economia do Porto, que me apoiou num curso prático de gestão durante cerca de três anos. Ele estava sempre à minha disposição e quando eu tinha algumas questões práticas, colocava-lhes. Ele nunca dava as respostas por fotocópias de sebentas; emprestava-me livros e sempre me encaminhava no sentido de eu, por mim próprio, encontrar a melhor solução.
 

Nessa vida prática, tem dito imensas vezes que a maior riqueza da empresa são as pessoas. É um erro pensar que todo o exercício de bem gerir passa por conhecimentos técnicos?

O exercício de gestão é apenas um exercício de bom senso. Quando há bom senso e respeito pelas outras pessoas, podemos de facto conquistá-las, ganhá-las para um projecto, torná-las participativas. E consegue-se isso através de muito trabalho, muita dedicação. Se ouvimos as pessoas é mais fácil fazer com que elas também se apaixonem pelos projectos. Foi com muita surpresa que vi isso a acontecer na minha vida profissional. Porque realmente tinha pensado ser monge e depois médico. Não tinha pensado ser gestor. Portanto, foi uma experiência fantástica perceber como as pessoas vão aderindo, vão constituindo uma equipa, vão-se entrosando umas com as outras, constituindo equipas, produzindo - e produzindo bem. Realmente, é uma experiência de vida muito agradável.
 

Tem quase 100 investigadores de quase dez nacionalidades. Que língua se fala na Bial?

Na generalidade da empresa fala-se português. No departamento de investigação, inglês. As pessoas são de nacionalidades diferentes, a forma mais comum de trocarem impressões é em inglês. No entanto, nós temos mantido sistematicamente um curso de português para os nossos colaboradores estrangeiros. Muitos deles falam hoje um português impecável.
 

Faz questão de ter um curso de português?

Temos profissionais a viver em Portugal há oito, nove, mais de dez anos. Todos eles falam inglês. Mas para se sentirem bem no nosso país – não só na empresa – para se sentirem inseridos numa sociedade que é nova para eles, é importante que conheçam bem a vida portuguesa. Mas também temos sempre a correr um curso de inglês para os portugueses que queiram melhorar o inglês.

O ano de 2009 representará a materialização de um sonho [o antiepiléptico Bial chega ao mercado]. Isso contribuiu certamente para que fosse eleito o Profissional e Personalidade do ano.
Onde vão desaguar esses galardões: ao ego, à vaidade, ao sentido de responsabilidade…?

Não, não, não. Há pessoas que fazem o favor de ser minhas amigas, e depois exageram um bocado nestas coisas. Isto é um trabalho de equipa. Claro que tenho o maior orgulho em ser o capitão dessa equipa. Mas, quanto ao resto, acontece pelo trabalho e pelo apoio que os amigos nos dão. E depois, além de nos darem apoio, ainda nos acarinham com esses prémios que naturalmente motivam. Mas olho para essas coisas sempre como uma forma de alguém nos acarinhar, proteger, de dizer que gosta de nós.

Elogiam-lhe a coragem por ter investido 14 anos e 300 milhões de euros num novo produto…

É engraçado. Algumas pessoas, no princípio, diziam que eu era tolo. Até louco. E de facto, hoje, olhando para trás, acho que tinham alguma razão. Em todo este projecto houve alguma loucura, porque investimos muito e tínhamos consciência de que ou sairíamos por cima ou por baixo. Hoje, quando as pessoas dizem que tivemos coragem, acho graça. Fizemos muito trabalho, dedicámos empenhadamente muito tempo, e foi muita gente, não fui só eu. As coisas bonitas precisam sempre de muito trabalho, de muita dedicação, de muita paciência e persistência. Quando as coisas correm bem, claro que ficamos satisfeitos. Mas há que recordar que houve muitos maus momentos, muitos momentos difíceis e a equipa foi robusta, foi firme. Nunca se focou nos problemas, mas nas soluções.
 

Pois. Mas a loucura que lhe apontavam na altura é a mesma que dizem ter agora por gastar tanto dinheiro a apoiar estudos paranormais. A crítica é preconceituosa?

Não me incomoda muito isso, sabe? Não me considero um homem de fé, mas um homem de convicções. Há 15 anos tinha a convicção firme de que se nós trabalhássemos bem, se nos empenhássemos, se nos esforçássemos mais do que outras equipas da Europa, haveríamos de lá chegar. Era essa a minha convicção, podia estar errado -  felizmente não estava. Também já nessa altura tinha, e continuo a ter, a convicção de que se a humanidade procurar esclarecer-se nos seus aspectos neurocientíficos e também espirituais, se o fizer de forma firme, serena, procurando um esclarecimento, não procurando demonstrar que o que o outro diz é mentira e o que eu digo é verdade, não se agarrando às ideias feitas, aos tabus, procurando descobrir a verdade pura e simples, isso só poderá ser bom. Se se vai avançar muito ou pouco? Não sei. Não devemos criar expectativas porque há tantos anos que impera alguma superstição, tão pouco esclarecimento sobre a vida espiritual das pessoas, que se dermos alguns passos, por pequeninos que sejam, já será muito bom.
 

Mas fica chateado com a crítica?

É razoável que as pessoas façam críticas. Ao longo dos últimos tempos, fruto da ignorância sobre a realidade espiritual, têm-se feito tantas e tão estranhas conjecturas, e tem-se feito tanta exploração da ignorância, tanta negociata em torno disso, que é natural que as pessoas quando vêem alguém a querer contribuir para o esclarecimento pensem: “Olha, lá está mais um”. É natural. Ninguém sabe exactamente qual é a minha forma de pensar. O que eu penso é: não defendo uma doutrina ou uma religião. Gostaria só de contribuir para que a humanidade se esclarecesse o mais possível, seja qual for a verdade. Ao aproximar-se da verdade, a humanidade vai encontrar formas de viver e de estar mais apropriadas à sua passagem pela terra.

Tem facilidade em acreditar em coisas difíceis de provar?

Não acredito em milagres. Acredito que há determinado tipos de fenómenos que hoje não são entendidos pelo comum dos mortais porque a ciência ainda não se debruçou suficientemente sobre eles para encontrar as soluções. E que, mais cedo ou mais tarde, quando for estudada, vão encontrar-se soluções para isso. Portanto, admito que à semelhança do que aconteceu na História da Humanidade, há determinado tipo de fenómenos que ainda não são explicáveis de acordo com o rigor da ciência, mas quanto mais forem estudados mais facilmente poderão ser explicados. E aceito que o homem ainda não conhece todas as fórmulas da aplicação da energia universal, ainda não dispõe, como poderia, de toda a energia que tem em si próprio.

Escreveu recentemente uma crónica sobre o médico e investigador Ian Stevenson, que assinou vários estudos sobre vidas passadas. Acredita na reincarnação?

Na teoria das vidas sucessivas, talvez seja mais correcto. Não direi que tem que ser assim como verdade absoluta; direi que é uma explicação razoável, possível, inteligente, para muito do que se passa à nossa volta.

Tem defendido uma reforma na educação, que passa pela avaliação de todos os professores e de todos os órgãos de gestão das escolas. Isso significa que está ao lado de Maria de Lurdes Rodrigues?


Tenho muita admiração por esta equipa ministerial. A professora Maria de Lurdes Rodrigues teve coragem de assumir a política de que os portugueses precisavam há já algumas décadas. Portugal é dos países europeus que mais investe no ensino secundário e é dos que tem piores resultados: muita gente abandona e escola, a população tem um nível de instrução muito baixo…Portanto, algo está mal e algo tem que ser mudado no nosso sistema. Acho que isso é claro para a generalidade dos portugueses. E isso, a meu ver, passa por um grau de exigência maior em termos do que é o exercício da docência no nosso ensino. Passa por um sistema de avaliação que permita ao próprio profissional e aos outros órgãos que fazem a gestão, quer ao nível da escola quer da região, poderem aperceber-se de quem trabalha mais ou menos, quem tem mais ou menos capacidade para ensinar. E só por aí se pode diferenciar positivamente aqueles que têm melhor prestação, aqueles que conseguem melhores resultados. Esses sim, devem ser beneficiados quer em termos de carreira quer em termos remuneratórios. Acho que esse é o caminho.Por outro lado, acho que a actual equipa ministerial não terá tido a diplomacia suficiente para conduzir devidamente o processo. Também não terá tido a sorte de ter tido o apoio técnico que lhe proporcionasse elaborar um esquema de avaliação fácil e expedito, como se faz nas empresas. O sistema de avaliação, tanto quanto sei, é complexo e está a ser rejeitado pela generalidade dos professores. Se desejo que esta equipa ministerial mantenha veementemente o seu objectivo de conseguir implementar o sistema de avaliação, também acho que pode ser simplificado. A forma mais simples de testar isso é ir junto de alguns gestores de algumas grandes empresas e perguntar se aplicariam este modelo na empresa. Se o aplicassem, este modelo serve com certeza. Se os gestores disserem que é muito complexo, então não serve.
 

O comportamento dos professores é o contrário da exigência e da competitividade de que o país precisa?

Não diria que é o contrário. É razoável que a classe reaja. Há excelentes profissionais e há outros que se habituaram a viver de forma tranquila para aquilo que deveria ser o seu exercício profissional. No momento em que se gera um bocadinho de confusão, alguns aproveitam-se disso para tentar manter o status quo, para tentar manter as coisas como estão. As posições de ambas as partes endureceram, mas deitar tudo a baixo e voltar a fazer não me parece a melhor solução. Os sistemas de avaliação não são coisas do outro mundo; são deste. Limpam-se as arestas, simplifica-se e avança-se. Não pode ser assim tão difícil de conseguir.
 

Defendeu igualmente a reforma na saúde, apoiando inclusivamente algumas das medidas mais controversas deste governo. O ex-ministro da saúde, Correia de Campos, foi injustamente dispensado?

O professor Correia de Campos é das pessoas mais bem preparadas para poder ser um bom ministro da Saúde, sabe das coisas e tem ideias apropriadas. Em geral, defendeu algumas medidas muito correctas. E estou à vontade para o dizer, porque a passagem dele pelo governo assinala algumas medidas muito cáusticas para a indústria farmacêutica, logo, para a empresa a que presido. As coisas têm evoluído favoravelmente. Se foi, ou não, bem dispensado, custa-me a crer. Às vezes, as pessoas são muito exigentes. E na área da saúde há sempre um nível de exigência muito grande. Nós temos classificações a nível mundial muito boas, estamos em 12º lugar. Em que outra área ocupamos o 12º lugar? Apesar disso, as pessoas sempre se queixam. Por isso, talvez tenha havido alguma injustiça na avaliação que fizeram dele. Por outro lado talvez o senhor ministro tenha tomado algumas atitudes de menor diálogo. Por exemplo, no caso das maternidades ou das urgências era imprescindível ir junto das populações das autarquias, das entidades hospitalares locais, dialogar, ouvir, montar com eles uma nova directriz. E não impor a medida assim. Talvez aí tenha estado o ónus da questão. Foi a falta de diálogo que levou a uma certa rejeição por parte de algumas entidades, que terminou com a sua saída.
 

O principal problema deste governo é de comunicação?

Não sei, não diria isso. O primeiro-ministro passa bem as suas mensagens. Talvez por isso consiga os níveis de popularidade que tem, embora em momentos tão difíceis.

Disse que as pessoas acabam sempre por se queixarem. Achas que estão mal habituadas, nomeadamente pelo facto de terem saúde de graça?

Não direi mal habituadas, mas usam de uma forma menos apropriada aquilo que está ao seu dispor. Primeiro, as pessoas iam às urgências com gripes e dores de dentes… estava tudo aberto, era tudo gratuito. Acho muito bem que haja alguém que lembre às pessoas que aquele não é o melhor sítio para irem nessas circunstâncias. Os recursos são relativamente escassos.
 

Alguma vez consumiu um genérico?

[Risos] Que me lembre não, mas pode vir a acontecer.
 

Não teria pruridos em comprar uma embalagem de um fármaco genérico?

Se tiver oportunidade de usar o produto de marca, é esse que uso. Mas não é só nos medicamentos. Quando acompanho a minha mulher ao supermercado, também compro um detergente de marca. E de forma geral, compro tudo de marca. As marcas transmitem-me confiança, têm imagem de qualidade.
 

Teixeira dos Santos reconheceu esta semana que o défice pode derrapar para os  3%. Mantém o que disse sobre “o belíssimo esforço de governação” deste governo?

[Silêncio] Mantenho. Os tempos são muito difíceis. Alguns governos de grandes países, alguns gestores de grandes bancos, em quem as pessoas confiavam, geriram mal. Portanto muita gente tem falhado e, hoje em dia, as coisas acontecem muito depressa. Aquilo que parecia estar óptimo desmoronou, caiu. Quando comparamos o exercício de gestão de alguns governos, mesmo de grandes países, ou exercício de gestão de grandes empresas com orçamentos superiores ao estado português, continuo a pensar que este governo está a fazer globalmente um bom esforço de governação. Nalgumas coisas menos bem conseguidas, naturalmente ninguém é perfeito, mas continua a merecer sinal positivo. As sondagens indicam que a generalidade dos portugueses tem uma ideia semelhante à minha. 

Helena Teixeira da Silva

Premiado com o Globo de Ouro em 2006, Nuno Lopes, 30 anos, nem precisava do galardão para ser consensualmente considerado o melhor actor português da sua geração. Basta ver o filme "Alice" de Marco Martins, ou, num outro registo, a série de humor da RTP "Os Contemporâneos".

 

Em tempos de crise, o bobo é o que diz sempre as verdades?

Depende do bobo. No caso de “Os Contemporâneos”, mais do que dizer as verdades, tentamos apontar as mentiras.  

Dizer a verdade na RTP ainda é fazer serviço público ou é um desporto radical?

Felizmente, não temos tido qualquer tipo de censura… 

O seu personagem de “Os Contemporâneos” diz sempre o mesmo: “Vai mas é trabalhar”. Essa é a verdade para o país?

A crítica é para aquelas pessoas que mandam os outros trabalhar quando elas próprias não fazem nenhum. E sim, existe muito disso no país.

Esta semana faltaram quase 50 deputados na Assembleia da República, 30 dos quais eram do PSD. O parlamento seria um bom lugar para esse seu sketch?

Não, porque eu mando trabalhar aquelas pessoas que nós, sociedade em geral, achamos que não merecem ser mandadas trabalhar. No Parlamento, eu teria dificuldade em  encontrar pessoas que não quisesse mandar trabalhar.  

Nesse caso, conseguiria elegir alguém como alvo?

Teria que ser alguém que realmente trabalhasse, o que seria difícil. Mas tenho esperança de que haja três ou quatro. Serão seguramente menos conhecidos.

Se os deputados não tivessem faltado, poderia ter sido aprovado o projecto do CDS-PP que recomendava ao Governo a suspensão da avaliação dos professores. É solidário com a luta dos docentes?

Sou solidário porque não considero que o método de avaliação proposto seja bom.  

Mas os professores são os úncos profissionais que conhece que têm que ser avaliados, que levam trabalho para casa e cuja progressão poderá deixar de acontecer por mera antiguidade?

Aí é que está. Sou contra este método de avaliação; não sou contra a que avaliem os professores. Não se podem dar ao luxo de não serem avaliados, era o que mais faltava! 

Nunca teve vontade de lhes dizer para irem trabalhar em vez de fazerem suceder greves às greves?

A greve é um direito. Só seria contra a greve se os professores não quisessem ser avaliados.  

É DJ nas horas vagas. Também está solidário com os comerciantes do Bairro Alto, que agora fecha às duas horas, ou é mais sensível ao descanso das pessoas que vivem ali?

Moro no Bairro Alto e acho ridículo que os bares fechem às duas da manhã para descanso das pessoas. Isto é assim há anos e anos, quem vem para aqui sabe para onde vem 

António Costa será tramado por causa dessa decisão?

Isso não, porque infelizmente não vejo nenhum candidato da Oposição que seja melhor do que ele. Agora, é sem dúvida uma má decisão.  

Quem seria uma mais-valia para Lisboa: Roseta ou Santana?

Aí está, nenhum dos dois [risos]. Mas ninguém será pior do que o Santana Lopes.  

E no país: há substituto para José Sócrates?

Tem que haver alguém melhor do que ele para liderar o país, mas ele não tem Oposição. Infelizmente, nenhum partido parece ter um candidato a primeiro-ministro que seja digno, credível e melhor. Mas quero acreditar que existe. 

O “Contemporâneos” desceu em audiência e subiu em qualidade. Tem que ser sempre assim?

Eu não acredito nada  nas audiências. A maior parte dos programas que têm grandes audiências, eu não não gosto. Portanto, a minha única preocupação é mostrar ao público um programa que eu considero ser de qualidade.  

Para o país que temos o “Contemporâneos” é, como alguém disse, um programa extemporâneo?

É um programa que não atinge o público todo, mas também não quer atingir. É o nosso tipo de humor, a nossa visão sobre a sociedade. Se as pessoas conseguirem identificar-se com essa visão muito bem; se não conseguirem, não faz mal. Têm  outras coisas. 

O que o embaraça mais quando o abordam na rua: que lhe peçam para fazer um número qualquer ou que façam o número por si?

Embaraçado fico sempre, sou incapaz de fazer o que seja. Tenho vergonha. Normalmente são as pessoas que fazem.  

Quantas vezes por dia ouve: “vai mas é trabalhar”?

[Risos] Várias.  

Não o chateia ser um actor consensual no teatro, cinema e televisão?

Não acho nada que seja consensual, pelo contrário. Há muita gente que me odeia.

 Helena Teixeira da Silva