É mais do que aparenta: divertida, inteligente, frontal, simples. Fátima Lopes, 44 anos completados hoje, voltou a render Paris, na Semana Prêt-a-Porter. Não se perde na euforia, mas confessa: "Não trocava isto por nada".
Partindo do seu showroom, em Paris, baptizado “*** the crisis”, pergunto-lhe se a crise está mais na moda do que a moda em crise?
[Risos] A crise de moda não tem nada, mas está na moda falar da crise. Acho que podemos brincar com a situação, de forma positiva, porque a crise é real, mas ninguém pode dizer que tem a solução. A solução é ser positivo, acreditar e trabalhar. Não é ficar à espera que passe, porque a crise não passa. Só passa se fizermos alguma coisa por isso. Portanto, a minha ideia é: que se lixe a crise! Não vou chorar, não vou lamentar-me; vou fazer alguma coisa para mudar a situação. A minha mensagem é sempre positiva.
Vai reduzir o preço da sua colecção?
Não, de forma nenhuma! Pelo contrário. Esta uma colecção é muito exuberante, tem materiais nobres. Fiz é o que toda a gente está a fazer: tenho um bocadinho de tudo, adaptei-me aos vários mercados e às várias carteiras. Tenho quase todos os modelos à venda em duas versões: quem não pode comprar a camisa de seda tem a mesma camisa em algodão; quem não pode ter o casaco de caxemira tem o casaco em lã normal. Temos que ser mais criativos, mais inteligentes para contornar a crise. Neste momento, é possível comprar peças de criador a variadíssimos preços. Muda-se o material, torna-se o modelo mais fácil de produzir, e uma peça passa num instante de elitista a comercial.
Aceitaria desenhar uma colecção para a barata cadeia sueca de roupa H&M?
A H&M é uma loja onde nunca entrei, mas há criadores muito conceituados que já desenharam colecções para a marca, como o Karl Lagerfeld. E tenho a certeza de que ele, para o fazer, tem que ter ganho muito, muito dinheiro [risos]. Se me pagassem o mesmo, nem pensava duas vezes. Até porque a própria H&M, quando faz uma colecção de criador, tem um cuidado diferente. A dupla Victor & Rolf desenhou para lá uma colecção fantástica que foi um sucesso mundial. Depende sempre da forma como se fazem as coisas: ali foi uma colecção de autor, numerada, com determinados cuidados. As pessoas do mundo inteiro matam-se para a ter. Não acho mal nenhum e, se fosse convidada, claro que aceitava.
Tem a ver com a idade ter desenhado a colecção mais discreta de sempre para o próximo inverno?
Tem a ver comigo: há uma evolução natural. Quando comecei era muito miúda, vinha da Madeira, estava habituada a andar de bikini e mini-saia todos os dias. O corpo nunca foi tabu. Sempre fiz as colecções para mim e eu era assim naquela altura - agora não sou. Sou diferente, cresci, os anos passaram e já não sou uma miúda; sou uma mulher. Em Paris, durante estes anos todos, essa evolução foi sempre reconhecida. Desenho sempre para mim e foi essa personalização do que me fez entrar no mundo da moda em Paris e ser respeitada. Nunca fiz uma cópia de ninguém, sempre tive o meu estilo próprio e estou sempre a renovar. Cada colecção é completamente diferente da anterior. Respeitam-me por isso. Estava a ler o que saiu há pouquinho no “Fashion Insider”. Escrevem: “Conseguiu surpreender todos outra vez”. Tenho que surpreendê-los porque estão à espera que eu o faça. No dia em que não o fizer, a imprensa que lá estava, especializada de moda, vai dizê-lo. Mão se engana a imprensa de moda em Paris: ou se faz bem, sendo criativa, inovadora, surpreendendo, ou não se faz. A imprensa em paris tem que dizer, como agora: “Uau!” Numa semana em que há 90 desfiles, nenhum jornalista tem paciência para ir a todos. A ideia é conseguir sempre surpreendê-lospara que voltem na próxima estação. Isto é bom e ao mesmo tempo um desafio, uma dificuldade. Tenho consciencia que daqui a seis meses tenho que fazer melhor do que isto. O que é que eu tenho que inventar? [risos]
Desta vez, não mostrou peles verdadeiroas. A sua posição sobre isso também evoluiu?
Não mostrei porque deixei de ter paciência para polémicas hipócritas. Mas usei cabedal e camurças. Só os pêlos não são verdadeiros. Nunca disse que defendia as peles. Criou-se uma falta polémica de uma associação chamada “Animal”, que quis promover-se às minhas custas. Eles tinham um vídeo de animais a serem esfolados na China, já lá estava há anos e nunca ninguém o tinha visto. Fizeram uma montagem alternado imagens: um animal a ser esfolado e depois uma foto minha a brincar; ouyro animal e eu a dizer só uso peles verdadeiras. Foi uma coisa surreal. Tão bem feito que foi o vídeo mais visto na net naquele ano. De repente, a associação ficou conhecida. Foi muita má fé. Uma coisa era eu assumir que gosto de peles verdadeiras, como gosto muito de carne, de um bom bife, de usar cabedal, peles. As minhas peles são compradas em Itália com certificação. Quando se vai falar de animais esfolados na China estamos a falar de um país que come cães e gatos, tem uma cultutra completamente diferente. Para eles, se calhar, aquilo é normal. Não consegui ver o vídeo, é horrível, chocante. Como é que eu poderia apoiar uma coisa daquelas? Uso o que todo o mundo da moda usa. Na altura houve uma hipocrisia muito grande porque houve colegas meus que falaram a dizer que não usavam peles. Aquilo deu muito jeito a muita gente na altura. Dizer mal da Fátima Lopes dá sempre jeito, porque é sempre notícia. Quem disser mal de mim é notícia. Não tenho mais paciência para hipocrisias, foi só por isso que não usei. De resto, penso o mesmo. Não sou vegetariana. Para dizer que nunca usaria peles, teria que não comer carne (nem peixe porque também são sufocados na rede), não usava relógios e sapatos de pele. Só usava plástico e comia verduras.
Maria Cavaco Silva também despoletou esta semana, na Alemanha, uma polémica por causa do casaco que vestia...
Usou um vison e fez muito bem. Deve estar um gelo em Berlim...
Fátima Lopes e Ana Salazar foram, em algum momento, rivais?
Gosto muito da Ana, é a colega que mais respeito. Sempre foi a pessoa mais correcta do mundo comigo. Nunca, nunca nunca fomos rivais. Abri a primeira loja na Av. de Roma e ela já tinha loja lá; vim para Paris quando ela saiu e nunca houve rivalidade. Ela é mesmo muito boa pessoa, foi ao meu casamento. Gosto muito dela, respeito-a muito. Construiu a sua carreira, é uma pessoa correcta e é uma referência. Será sempre indubitavelmente a primeira criadora portuguesa. Aliás, quando me perguntam qual é a minha referência na moda em Portugal, digo Ana Salazar. Sem dúvida nenhuma. Quando eu era miúda, os únicos sapatos giros à venda na Madeira eram dela. E calçava sempre sapatos dela.
Foi mais difícil ir de Lisboa para Paris do que da Madeira para Lisboa?
É um boa pergunta, nunca ma tinham feito. Quando cheguei a Lisboa era um miúda que de moda percebia zero. Tinha o sonho da moda mas não perceia nada e tinha essa consciência. Não comecei logo a desenhar, estive dois anos com uma loja multimarcas a tentar perceber como funcionava o mundo da moda, viajei muito, comprei, vendi. E sempre fui muito consciente em relação àquilo de que sou capaz e não sou. Sabia desenhar, tinha imaginação, toda a vida tive. Agora, perceber de tecidos, de formas, saber como se constrói uma colecção, isso não sabia. É preciso ver, ter prática. Quando cheguei a Lisboa, tinha todos os sonhos do mundo, uma vontade enorme de trabalhar e fazer coisas. E as coisas aconteceram. Mas nunca nada foi fácil. Também não acredito em coisas fáceis. Não tenho medo de desafios, nem de ir à luta, nem de trabalhar dia e noite sete dias por semana. É preciso fazer? Eu faço e faço com muito gosto. Quando chegue a Paris pela primeira vez, estava mais assustada do que quando cheguei a Lisboa. Aliás, fiquei com uma alergia na pele no primeiro desfile, parecia uma criança com acne de sterss. No dia seguinte tinha passado. Chegar a Paris pela primeira vez é assustador. Desfilar para o mundo da moda sem saber qual será a reacção. Sim, agora que penso nisso, foi muito mais dificil chegar a Paris do que a Lisboa, não tem comparação. Ao fim de 21 anos, já não me assusta. O que pode correr mal?
Em qual das cidade é melhor tratada pela imprensa?
É completamente diferente. Ler a “Fashion insider” é fantástico, é muito bom em termos profissionais, faz-me sentir que estou no caminho certo, que tenho que continuar exactamente assim. Em portugal tenho os amigos, os clientes, é completamente diferente. Em Paris dão-me confiança para continuar; em Portugal dão-me calor humano. É diferente. Há dez anos, quando fiz o meu primeiro desfile em Paris, não fazia parte do calendário e foi um stress: não sabia se iria ter uma pessoa a assistir ou mais. Estava a chegar, não era conhecida. Tinha uma loja em Paris, mas ninguém sabia quem eu era. Hoje, Três semanas antes do desfile já sei quem é a imprensa que vai estar presente porque pedem as acreditações, porque já tenho os nomes todos, tenho algumas figuras públicas, tudo. A imprensa escreveu que estava lá a bela Emma e que ela elogiou os “esplêndidos vestidos” que eu faço. Dizem que estava vestida por mim. Não tenho esta noção, até porque não conhecemos tão bem as estrelas francesas como as americanas. A verdade é que sempre me senti bem em Paris, desde o início.
O seu casamento como Portugal Fashion [responsável pelos seus desfiles em Paris] é o casamento perfeito?
Casei com a Moda Lisboa, depois divorciei-me para casar com o Portugal Fashion (PF). Já desfilava em Paris, sozinha (fui o único criador a fazê-lo sem apoio de ninguém), às minhas custas, um investimento muito grande, quando o PF fez a proposta irrecusável: apoiar os meus desfiles. Seria demente se não aceitasse. É assim há cinco anos e tem sido incrível. Só posso agradecer. Não tenho uma palavra negativa a dizer. Também não tenho nada a dizer da Moda Lisboa. A opção que fiz foi uma questão estratégica, de negócio. A Moda Lisboa é nacional; o Portugal Fashion é internacional. Fazia muito mais sentido ficar num projecto de cariz internacional. O nacional para mim está feito.
É um casamento equilibrado?
É. Chegar a Paris não é fácil, mas mantermo-nos lá é mais difícil. É muito caro. Levo o nome de Portugal lá fora, como o PF pretende, sou “a portuguesa”; em troca, tenho um apoio que é fundamental. Manter uma carreira durante anos e anos, com dois desfiles por ano, não é fácil. Em Paris sou a criadora portuguesa, “the portuguese”. Na véspera do desfile houve um programa de televisão o Paris Fashion Week e deram dois minutos ao meu desfile, diziam: “a portuguesa Fátima Lopes”. A palavra Portugal está lá sempre. É importante para a minha marca, mas também é importante para o país. Quando o ministro da Econpomia veio cá, há ano e meio, também se apercebeu disso. O ministério não tinha muita noção disto: a Fátima Lopes sozinha é a Fátima Lopes; a Fátima Lopes com o Portugal Fashion é a portuguesa - e isso muda tudo. Tenho o maior orgulho nisto.
Mas não seria mais justo se o PF investisse também noutros criadores?
Não. O PF já apostou em muitos criadores. O PF está há quase tanto tempo em Paris como eu. Quando desfilava sozinha, o PF estava cá em paralelo com um grupo de criadores, ora trazia um ora trazia outro. Em Paris é preciso chegar, ficar e manter. Só assim são respeitados, e isso só acontece ao fim de muitos anos. Para vir uma vez e desaparecer mais vale não vir. Basta desaparecer uma estação para já não valer a pena voltar. Aqui não há lugar para amadores. Isto é a capital da moda, é preciso ser o mais profissional que é possível ser. Um desfile representa muitta coisa, investem-se milhões em imagem. Nunca fiz publicidade porque não tenho possibilidades para isso. Por isso, a minha persistencia é nos desfiles. Mas imagine que eu desistia uma estação, já não tinha lugar no calendário oficial a seguir. E esses criadores que vinham com o PF nunca fizeram parte do calendário oficial. Ora, se não faz parte desse calendário não vale a pena. O PF não me deu o acesso ao calendário oficial e eles têm consciência disso. Pensaram: é preciso levar o nome de Portugal lá fora, então vamos pegar naquela pessoa que o faz. Porque eles tentaram fazê-lo com outros criadores antes de mim, ninguém os pode acusar de não terem tentado! Tentaram muita gente, muitas vezes. Até em Nova Iorque e em São Paulo! Agora, é preciso criar uma marca, um nome que seja estável e no qual as pessoas acreditem. Quando isso acontece é preciso saber agarrar. O PF agarrou-me, foi inteligente. Já que não há muitos nomes, que haja um forte.
Isso cria uma relação difícil com os criadores nacionais quando se encontram no PF em Portugal?
[Risos] Não. Dou-me bem com toda a gente. Não sou melhor do que ninguém. Só que fui à luta, nunca me deixei ficar parada. Não entrei na moda para comprar casas e carros nem quero dinheiro no banco; quero um grande desfile. Tudo o que ganhei na vida investi aqui. E não trocava isto por nada deste mundo; é a minha paixão. Tenho estado a construir uma marca e ele é real. Estou a avaliá-la para saber o seu real valor, porque ela já não é apenas uma marca portuguesa e o meu objectivo é a internacionalização séria. Mas uma marca demora muitos anos a fazer. A minha tem, dez anos, para eles eu sou uma “young designer”. Saiu agora um livro americano da Tashen, “Young Fashion Designers”, sobre a nova geração de criadores e eu estou lá. Uma marca com dez anos é nova. A Sónia Rykiel acabou de fazer 50 anos. O Jean Paul Gaultier ganhou notoriedade ao fim de 20 anos. Agora, é preciso fazer tudo o resto que os outros conseguem fazer, e as grandes marcas pertencem a grandes grupos, são multinacionais. Depois, há outra coisa de que em Portugal as pessoas não tem noção: a moda pode ser um negócio de milhões. Em Portugal olham para os criadores como artistas lunáticos, mas a verdade é que um espectáculo tem que ter um negócio por trás. Se é só espectáculo é difícil levá-lo a sério. Apenas 10% é espectáculo, o resto é negócio.
Quantos postos de trabalho criou?
Ordenados fixos são 25. Depois há as fábricas com quem trabalho de tudo e mais alguma coisa, a agência que tem centenas de manequins e trabalho com muitos colaboradores. Sou responsável por muitos postos de trabalho. E tenho todo o tipo de acessórios; ourivesaria, óptica, porcelanas, cutelaria, cristais, azulejos, canetas, tapeçarias... É um negócio que movimenta dezenas e dezenas de pessoas. Não estou a inventar nada, estou só a seguir os bons exemplos do que se faz lá fora. Tenho muitas parcerias com indústria. É esse o segredo: os criadores devem juntar o design à indústria, criar sinergias, é bom para todos.
Enquanto madeirense, é mais solidária com Alberto João Jardim ou com quem o critica?
Com ele. A 100%. Não comento a forma como às vezes diz as coisas, mas fez um trabalho do outro mundo. Há uma coisa indiscutível: entre a Madeira onde nasci há 44 anos, a Madeira de onde saí há 20 anos, e a Madeira de agora não há comparação possível. Ele fez de uma terra atrasada, sem nada, uma terra de prosperidade. A Madeira tem uma qualidade de vida que não se encontrra praticamente em mais nenhum sítio do país. E isso os madeirenses vão agradecer-lhe eternamente. E quem não disser isto é muito injusto. Políticas à parte, porque não me meto em políticas nunca, ele fez muito pela Madeira. E toda a gente sabe que ele é um homem simples, toda a vida viveu um vida muito simples. Portanto, fez o que fez pela ilha e não em proveito próprio.
Gostava de votar na Madeira?
Não. Saí da madeira há 20 anos, é muito tempo. Já estou há mais tempo em Lisboa e isso representa toda a minha vida adulta. As minhas raízes estão na Madeira, adoro ir lá passar o Natal, a passagem-de-ano, é o melhor sítio do mundo para ir. Mas tudo o que construí está em Lisboa.
E é lá que vota. Em Santana Lopes, que há anos fechou-lhe um bar noBairro Alto (BA), ou em AntónioCosta, que fechou os bares todos às duas da manhã?
[Risos] A votar em alguém, será é no António Costa. O meu prédio acabou de ser pintado e está maravilhoso. Ele está a tentar limpar aquela zona, a libertá-la dos grafitis, mas as pessoas são selvagens e o prédio já teve que ser repintado. Falta civismo. O Bairro Alto é um ex libris. Em Paris, acham que o Bairro Alto é o máximo. Bem explorado é uma referência para o mundo e não se pode perder isso. Fechar às duas da manhã para proteger meia dúzia de pessoas não faz sentido. Sobretudo se depois há milhares de pessoas do mundo todo que vão para lá. Isso é mais importante do que essa meia dúzia. Não vão gostar que diga isto, mas é verdade. Deviam repensar o assunto, porque desta forma estão a matar o o negócio aos restaurantes e a todos os outros estabelecimentos que lá existem. Numa altura de crise era importante promover as coisas e não cortar-lhes as pernas.
Helena Teixeira da Silva