Março 2009 - Posts

É o psicanalista mais conhecido em Portugal. Carlos Amaral Dias, 63 anos, presença semanal na rádio, entende que o país ainda não fez o luto pelo salazarismo. 35 anos depois de ganha a democracia, diz, "isso é perigoso".

Quem deitaria no seu divã: o árbitro Lucílio Baptista ou o presidente da Liga Hermínio Loureiro?
Aquele que precisasse mais. Teriam que ser eles a procurar. Mas nenhum nem qualquer contraindicação. Portanto, deitaria os dois.

A psicanálise pode salvar o futebol português?
Não.

E a política? Pode ser salva através desse exercício de livre associação de ideias?
A psicanálise pode ajudar a política a perceber-se melhor. Tudo depende do que os políticos querem fazer connosco. Em 2001, nos EUA, muitos foram os psicanalistas chamados à Casa Branca.

Abdicaria de cobrar consulta a que político, só para tentar entendê-lo?
Dos vivos? Cavaco Silva.

Num país civilizado, a carta que Manuel Maria Carrilho divulgou esta semana sobre a “refundação das políticas culturais”, teria provocado o quê?
No mínimo, uma reacção objectiva do actual ministro da Cultura. Mas nós somos um país que facilmente se remete ao silêncio. Por isso, não me espanta que não aconteça nada.

E a carta do bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, a denunciar o envolvimento da Polícia Judiciária na carta que envolve José Sócrates no caso Freeport?
Não trouxe nada de novo. Nem sequer percebo por que razão houve reacções tão bombásticas. A única coisa nova foi a popularidade que deu ao Boletim da Ordem dos Advogados por ter sido lá publicada.

Acontece-lhe pensar que o inconsciente das pessoas é mais interessante do que o consciente?
Sempre. Obrigatoriamente. Interessa-me muito mais o não-dito do outro do que aquilo que ele diz. Conversas sobre o tempo definitivamente não me interessam.

Alguma vez consultou um psicanalista?
Fiz duas análises de personagem e fiz psicodrama durante 17 anos.

Disse que gostava de conseguir arranjar o seu inconsciente. Está sempre a psicanalisar-se?
Sim, claro. De manhã, quando faço a barba, analiso sempre os meus sonhos. Às vezes, acontece-me acordar a meio da noite, perceber o sonho, e de manhã lembrar-me do seu significado, mas não do sonho.

Vale a pena interpretar os sonhos?
Quando se tem uma mina de ouro, às vezes, abrimos pistas e não encontramos nada; mas há um dia em pode valer a pena.

Um homem está preparado para deixar de ter nome próprio para passar a ser apenas o pai de alguém? Ou acha que isso não lhe aconteceu?
Está a falar da Joana [deputada do Bloco de Esquerda (BE)]? Acho que isso não me aconteceu, mas se me tivesse acontecido, teria muito orgulho na minha filha.

Enquanto pai, fica mais afectado quando recorrentemente elogiam a beleza da sua filha, ou quando a viu ser afastada dos órgãos do BE?
Tenho muito orgulho na Joana porque é uma mulher corajosa, inteligente e que pensa pela própria cabeça. Ser bonita é uma vantagem, mas se não tivesse os outros atributos que referi, não seria vantagem nenhuma. Se o BE decidiu afastá-la tanto pior para o partido.

Alguma vez teve a tentação de a defender em público?
Tentação posso já ter tido, mas ela não precisa que eu a defenda.

Tem mais discussões políticas com ela ou sobre teorias da psicologia?
Eu e os meus filhos gostamos de falar de tudo. Desde crianças, incuti-lhes a ideia de que o conhecimento, o saber é tão importante como respirar ou comer. Portanto, todos eles têm o hábito de questionar a vida – o hábito e a condenação.

Situa-se no mesmo campo político dela?
Sou liberal do ponto de vista social. As causas fracturantes do BE são todas minhas. Mas também sou liberal do ponto de vista económico – e ela não.

Mantém há vários anos uma parceria radiofónica – primeiro na TSF; agora, na Antena 1 - com Carlos Magno. O segredo desse “casamento” é o facto de um dos dois ser psicanalista?
Todos os bons casamentos têm um segredo. Criámos uma cumplicidade, acontecimento raro, que para mim é um privilégio.

Numa entrevista, ele disse que o ensinou a ler Freud. 70 anos depois da morte dele, qual é a regra para continuar a ser importante levá-lo em linha de conta?
As neurociências contemporâneas confirmam muitas coisas que Freud disse. Basta pensar no que o doutor António Damásio anda a investigar para percebermos que a questão do insconsciente é hoje incontornável. Eu recomendaria que se começasse pelo mais fácil: “A psicopatologia da vida quotidiana”, de 1902.

Facebook, Hi5, Twitter, Myspace: o que diria Freud da necessidade das pessoas fazerem parte destas redes sociais?
Creio que não suportaria muito. Se isso tirasse capacidade reflexiva às pessoas, se fosse acompanhado, como disse Lipovetsky, de um neonarcisismo, se isso significar um vazio relacional que muitas vezes se estabelece, se isso corresponde a uma dificuldade de verdadeiro contacto emocional com o outro, é mau. Mas eu acho que tudo isto depende sempre do seu utilizador.

Faz parte de alguma destas redes?
Eu não.

Freud disse que seriamos mais felizes de voltassemos às condições primitivas. Abdicar dessas redes sociais é um caminho?
Não, isso é um disparate. A história é irreversível. Do ponto de vista conceptual, os novos meios de comunicação tornam-nos mais livres de escolher, mais iguais perante a escolha, com mais liberdade, igualdade e mais fraternidade. Mas como já tenho isso tudo, não preciso de acrescentar mais.

Francisco José Viegas diz que a Playboy contribuiu mais para a formação intelectual dele do que o cinema japonês. Também é leitor assíduo?
Fui quando tinha 20 e poucos anos. Mas lia também outras coisas. Há mais de 20 anos que não pego numa Playboy e não tenho particular curiosidade.

Portanto, não há ninguém que gostasse de ver na edição portuguesa?
Não, porque as mulheres portuguesas não são nem mais nem menos interessantes do que as brasileiras.

Prestes a celebrar 35 anos de democracia, Portugal ainda é um país que gosta de olhar através da fechadura?
É, definitivamente. É um país que ainda não fez o luto pelo salazarismo. Basta encontrarmos obstáculos para percebermos como muita gente ainda procura o protector, o salvador que nos livre de todos os males. É um pensamento perigoso que me preocupa muito.

Helena Teixeira da Silva

À terceira foi de vez. Aos 47 anos, Laurinda Alves, jornalista intimamete ligada a causas sociais, cedeu ao apelo político. Candidata independente à Europa, garante que não é o poder que a seduz.

Alçada Baptista escreveu que as mulheres não se sujeitam à política porque é “coisa pobre e redutora” para elas. O que a motivou?

Só é pobre quando os políticos a empobrecem. Não sinto o apelo dessa política politiqueira. O que me motiva é poder trabalhar num centro de decisão onde posso co-decidir, influenciar, concretizar.

Sentiu o apelo do poder?

O poder é afrodisíaco, mas não tenho essa tentação. Ao longo da vida tive muitas ofertas de cargos, alguns de poder, e nunca aceitei.

Ofertas à Esquerda e à Direita?

À Esquerda convencional, não. À Direita e ali numa zona de centro.

Considera-se conservadora?

Não, mas também não sou moderninha. Tenho valores e rejo-me por eles; defendo causas correndo o risco de ser rotulada de conservadora – mas não sou.

Mas votou contra a lei do aborto...

Votei contra uma lei que é injusta porque desprotege uma das partes. A lei é para calibrar as partes.

Também é contra o casamento homossexual?

As pessoas acham que no mesmo saco está o aborto, a eutanásia e o casamento homossexual. Já está a presumir que sou contra...

Estou a perguntar...

A questão desinteressa-me completamente. Tenho vários amigos homossexuais que constituem casais muito mais equilibrados do que os heterossexuais. Mas não faço activismo pró nem contra.

Costumam confundi-la com o que diz ser uma “jornalista boazinha” por empenhar-se em várias causas. E isso irrita-a. Porquê?

A jornalista boazinha é muito caridosa, doura a realidade, vê tudo cor-de-rosa. Abomino esse conceito. Sou tendencialmente generosa, mas não sou a contentinha para quem está sempre tudo bem.

O MEP funciona quase como uma causa também. Não acha que o Movimento cumpriria cabalmente a sua função sem ir a votos?

Ao contrário. O MEP funcionava com treinadores de bancada. Ir a votos é radical, é arriscar, é colocarmo-nos à prova.

Muitos projectos do partido prendem-se com causas sociais, tema escolhido por José Sócrates para o último debate quinzenal. Ele merece elogios nesta matéria?

Todos temos consciência de que a crise social que vivemos é profundíssima. Um político que não fizesse disto o tema central da sua performance seria muito leviano.

Há irresponsabilidade no optimismo do primeiro-ministro?

Acho que sim, na medida em que cria expectativas irrealistas nas pessoas. Manuela Ferreira Leite compreende isso; nunca dá um passo maior do que a perna.

É voluntária numa unidade de cuidados paliativos e noutra para deficientes. Voluntariado é a palavra que melhor a define?

Não. É serviço. A Xis [revista que dirigiu no jornalPúblico] também representava sentido de serviço.

Mesmo o MEP funciona dessa forma. Todos entregam dinheiro...

[Risos] Sim, todos. Este é o partido onde ninguém ganha nada; onde todos damos tudo: nós, tempo e dinheiro. É fantástico, de uma pureza, de gratuidade enorme.

Em 2005, Helena Roseta pediu um empréstimo para pagar a campanha à Câmara de Lisboa.Seria capaz de fazer o mesmo?

Não. Mas aceitei não só não ganhar dinheiro nenhum durante seis meses como usar o meu dinheiro para isto. E para isso vendi o meu carro. Com imensa alegria.

O MEP é o Bloco da Direita?

[Risos] Não, nem tem essa vocação.OBE é desconstrutivista, acrescentou coisas e protagonistas e tem imensas virtudes. OMEP acrescenta também, mas numa lógica mais construtiva.

Trabalhou com Paulo Portas no início do Independente. Ainda reconhece o jornalista no político?

Adorei trabalhar com ele. Foram tempos gloriosos. Sou amiga dele, mas politicamente estou em radical desacordo. Mudou imenso, há diferenças abissais na forma de conduzir a sua vida na política.

Helena Teixeira da Silva

O Clube dos Pensadores,que fundou há três anos, deu-lhe visibilidade. Agora, Joaquim Jorge, 52 anos, pondera candidatar-se a uma Câmara. Mas se fosse político, diz, seria assassinado como Olof Palm

Andy Warhol disse que no futuro todos teriam 15 minutos de fama.Está agora a viver os seus?

Acho que sim. Há quem tenha fama com facilidade; eu tive-a ao fim de três anos. Mas os portugueses são invejosos: confundem fama com trabalho.

Faz comentários sobre tudo.Acha que é uma espécie de Marcelo Rebelo de Sousa do Norte?

Não! Só falo daquilo que sei.

E acha que sabe das áreas todas?

Só falo de política; biologia, que é o meu curso; jornalismo; internacional – adoro Nelson Mandela; e percebi que tinha que falar de futebol para chegar a mais gente.

Pensa muito e faz pouco?

Acha? Tenho que passar à próxima fase. Se calhar, candidatar-me como independente à Câmara. Mas são precisos 250 mil euros...

Tem uma autarquia na cabeça?

Tenho três: Matosinhos, porque nasci em S.Mamede de Infesta; Maia, porque vivi lá, e Gaia, onde vivo agora. Mas nunca vou concorrer contra um amigo que prezo, que é Luís Filipe Menezes.

Essa disponibilidade para três câmaras dá a impressão de que está mais preocupado consigo do que com alguma dessas cidades...

Não é verdade. Nunca penso no que quero. Sairei disto na maior.

Mas não soa a déjà vu usar umprojecto como rampa de lançamento para uma candidatura política?

Não. Tenho o direito de concorrer como independente, não quer dizer que o faça. Nem tudo o que faço tem que ir a votos. Um partido cria-se na net; tirar as pessoas de casa não.E o Clube dos Pensadores está sempre cheio.

Já pagou a algum convidado para participar nos debates do Clube?

Nunca! Quem vem cá sabe que sai daqui com melhor imagem.

Já lhe meteram cunhas?

Já! Muitas! É evidente que não faço nada! Não peço para mim e ia pedir para os outros?

Diz que não pede nada a ninguém, mas só o blogue tem muitos patrocínios...

Muitos dizem que ajudam, mas não ajudam. Os portugueses não honram a palavra.

Bem, os ícones estão lá...

Aprendi uma coisa com Herman José: quando vamos a um sítio interessante, se vão todos de Rolls-Royce e nós não temos, alugamos. Temos que estar ao nível, viver de imagem, não dar ar de coitadinho.

Como pode ponderar incursar na política se defende o oposto da verdade, que é viver da imagem?

Não me fale mais em candidaturas; fale-me do Clube.

Muito bem. De todas os convidados do Clube, Manuel Alegre é a figura de quem é mais próximo?

Foi o único que me convidou para um lugar de prestígio. Fiz parte da comissão de honra da candidatura dele antes de haver o Clube.

Acha que ele devia desvincular-se do PS de uma vez por todas?

Não sei. Ele é que sabe.

Pedro Santana Lopes já esteve no Clube três vezes. É o político com que mais se identifica?

É um case study. É uma pessoa boa, devia ter mais cuidado com as companhias. Errar é humano. Nos EUA, há sempre uma segunda oportunidade.

Qual foi a segunda oportunidade de Bill Clinton?

Não se candidatou porque tinha um acordo com a mulher: ele saía e ficava ela. Teve a azar.

Politicamente, é o quê hoje?

Social-democrata. A minha linha é a de Olof Palm. Se fosse político podia morrer à saída do cinema.

Porquê?

Porque detesto excesso de cargos. É preciso dar o exemplo.

Não se aplica a si a máxima que diz: “Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”?

Não gosto de dizer que vou fazer. Faço primeiro e digo depois.

É vaidoso?

Para gostar dos outros tenho que gostar de mim.

E arrogante?

As pessoas confundem arrogância com personalidade forte.

Foi professor de Biologia. Nunca se apaixonou por uma aluna?

Não. Não sou cego, mas em Portugal há poucas mulheres bonitas.

Está desencantado?

Estou. Gosto de Portugal, mas o nosso país é mal frequentado.

 

Helena Teixeira da Silva

É mais do que aparenta: divertida, inteligente, frontal, simples. Fátima Lopes, 44 anos completados hoje, voltou a render Paris, na Semana Prêt-a-Porter. Não se perde na euforia, mas confessa: "Não trocava isto por nada".

Partindo do seu showroom, em Paris, baptizado “*** the crisis”, pergunto-lhe se a crise está mais na moda do que a moda em crise?

[Risos] A crise de moda não tem nada, mas está na moda falar da crise. Acho que podemos brincar com a situação, de forma positiva, porque a crise é real, mas ninguém pode dizer que tem a solução. A solução é ser positivo, acreditar e trabalhar. Não é ficar à espera que passe, porque a crise não passa. Só passa se fizermos alguma coisa por isso. Portanto, a minha ideia é: que se lixe a crise! Não vou chorar, não vou lamentar-me; vou fazer alguma coisa para mudar a situação. A minha mensagem é sempre positiva.

Vai reduzir o preço da sua colecção?

Não, de forma nenhuma! Pelo contrário. Esta uma colecção é muito exuberante, tem materiais nobres. Fiz é o que toda a gente está a fazer: tenho um bocadinho de tudo, adaptei-me aos vários mercados e às várias carteiras. Tenho quase todos os modelos à venda em duas versões: quem não pode comprar a camisa de seda tem a mesma camisa em algodão; quem não pode ter o casaco de caxemira tem o casaco em lã normal. Temos que ser mais criativos, mais inteligentes para contornar a crise. Neste momento, é possível comprar peças de criador a variadíssimos preços. Muda-se o material, torna-se o modelo mais fácil de produzir, e uma peça passa num instante de elitista a comercial.


Aceitaria desenhar uma colecção para a barata cadeia sueca de roupa H&M?

A H&M é uma loja onde nunca entrei, mas há criadores muito conceituados que já desenharam colecções para a marca, como o Karl Lagerfeld. E tenho a certeza de que ele, para o fazer, tem que ter ganho muito, muito dinheiro [risos]. Se me pagassem o mesmo, nem pensava duas vezes. Até porque a própria H&M, quando faz uma colecção de criador, tem um cuidado diferente. A dupla Victor & Rolf desenhou para lá uma colecção fantástica que foi um sucesso mundial. Depende sempre da forma como se fazem as coisas: ali foi uma colecção de autor, numerada, com determinados cuidados. As pessoas do mundo inteiro matam-se para a ter. Não acho mal nenhum e, se fosse convidada, claro que aceitava.


Tem a ver com a idade ter desenhado a colecção mais discreta de sempre para o próximo inverno?

Tem a ver comigo: há uma evolução natural. Quando comecei era muito miúda, vinha da Madeira, estava habituada a andar de bikini e mini-saia todos os dias. O corpo nunca foi tabu. Sempre fiz as colecções para mim e eu era assim naquela altura - agora não sou. Sou diferente, cresci, os anos passaram e já não sou uma miúda; sou uma mulher. Em Paris, durante estes anos todos, essa evolução foi sempre reconhecida. Desenho sempre para mim e foi essa personalização do que me fez entrar no mundo da moda em Paris e ser respeitada. Nunca fiz uma cópia de ninguém, sempre tive o meu estilo próprio e estou sempre a renovar. Cada colecção é completamente diferente da anterior. Respeitam-me por isso. Estava a ler o que saiu há pouquinho no “Fashion Insider”. Escrevem: “Conseguiu surpreender todos outra vez”. Tenho que surpreendê-los porque estão à espera que eu o faça. No dia em que não o fizer, a imprensa que lá estava, especializada de moda, vai dizê-lo. Mão se engana a imprensa de moda em Paris: ou se faz bem, sendo criativa, inovadora, surpreendendo, ou não se faz. A imprensa em paris tem que dizer, como agora: “Uau!” Numa semana em que há 90 desfiles, nenhum jornalista tem paciência para ir a todos. A ideia é conseguir sempre surpreendê-lospara que voltem na próxima estação. Isto é bom e ao mesmo tempo um desafio, uma dificuldade. Tenho consciencia que daqui a seis meses tenho que fazer melhor do que isto. O que é que eu tenho que inventar? [risos]


Desta vez, não mostrou peles verdadeiroas. A sua posição sobre isso também evoluiu?

Não mostrei porque deixei de ter paciência para polémicas hipócritas. Mas usei cabedal e camurças. Só os pêlos não são verdadeiros. Nunca disse que defendia as peles. Criou-se uma falta polémica de uma associação chamada “Animal”, que quis promover-se às minhas custas. Eles tinham um vídeo de animais a serem esfolados na China, já lá estava há anos e nunca ninguém o tinha visto. Fizeram uma montagem alternado imagens: um animal a ser esfolado e depois uma foto minha a brincar; ouyro animal e eu a dizer só uso peles verdadeiras. Foi uma coisa surreal. Tão bem feito que foi o vídeo mais visto na net naquele ano. De repente, a associação ficou conhecida. Foi muita má fé. Uma coisa era eu assumir que gosto de peles verdadeiras, como gosto muito de carne, de um bom bife, de usar cabedal, peles. As minhas peles são compradas em Itália com certificação. Quando se vai falar de animais esfolados na China estamos a falar de um país que come cães e gatos, tem uma cultutra completamente diferente. Para eles, se calhar, aquilo é normal. Não consegui ver o vídeo, é horrível, chocante. Como é que eu poderia apoiar uma coisa daquelas? Uso o que todo o mundo da moda usa. Na altura houve uma hipocrisia muito grande porque houve colegas meus que falaram a dizer que não usavam peles. Aquilo deu muito jeito a muita gente na altura. Dizer mal da Fátima Lopes dá sempre jeito, porque é sempre notícia. Quem disser mal de mim é notícia. Não tenho mais paciência para hipocrisias, foi só por isso que não usei. De resto, penso o mesmo. Não sou vegetariana. Para dizer que nunca usaria peles, teria que não comer carne (nem peixe porque também são sufocados na rede), não usava relógios e sapatos de pele. Só usava plástico e comia verduras.

Maria Cavaco Silva também despoletou esta semana, na Alemanha, uma polémica por causa do casaco que vestia...

Usou um vison e fez muito bem. Deve estar um gelo em Berlim...

Fátima Lopes e Ana Salazar foram, em algum momento, rivais?

Gosto muito da Ana, é a colega que mais respeito. Sempre foi a pessoa mais correcta do mundo comigo. Nunca, nunca nunca fomos rivais. Abri a primeira loja na Av. de Roma e ela já tinha loja lá; vim para Paris quando ela saiu e nunca houve rivalidade. Ela é mesmo muito boa pessoa, foi ao meu casamento. Gosto muito dela, respeito-a muito. Construiu a sua carreira, é uma pessoa correcta e é uma referência. Será sempre indubitavelmente a primeira criadora portuguesa. Aliás, quando me perguntam qual é a minha referência na moda em Portugal, digo Ana Salazar. Sem dúvida nenhuma. Quando eu era miúda, os únicos sapatos giros à venda na Madeira eram dela. E calçava sempre sapatos dela.


Foi mais difícil ir de Lisboa para Paris do que da Madeira para Lisboa?

É um boa pergunta, nunca ma tinham feito. Quando cheguei a Lisboa era um miúda que de moda percebia zero. Tinha o sonho da moda mas não perceia nada e tinha essa consciência. Não comecei logo a desenhar, estive dois anos com uma loja multimarcas a tentar perceber como funcionava o mundo da moda, viajei muito, comprei, vendi. E sempre fui muito consciente em relação àquilo de que sou capaz e não sou. Sabia desenhar, tinha imaginação, toda a vida tive. Agora, perceber de tecidos, de formas, saber como se constrói uma colecção, isso não sabia. É preciso ver, ter prática. Quando cheguei a Lisboa, tinha todos os sonhos do mundo, uma vontade enorme de trabalhar e fazer coisas. E as coisas aconteceram. Mas nunca nada foi fácil. Também não acredito em coisas fáceis. Não tenho medo de desafios, nem de ir à luta, nem de trabalhar dia e noite sete dias por semana. É preciso fazer? Eu faço e faço com muito gosto. Quando chegue a Paris pela primeira vez, estava mais assustada do que quando cheguei a Lisboa. Aliás, fiquei com uma alergia na pele no primeiro desfile, parecia uma criança com acne de sterss. No dia seguinte tinha passado. Chegar a Paris pela primeira vez é assustador. Desfilar para o mundo da moda sem saber qual será a reacção. Sim, agora que penso nisso, foi muito mais dificil chegar a Paris do que a Lisboa, não tem comparação. Ao fim de 21 anos, já não me assusta. O que pode correr mal?


Em qual das cidade é melhor tratada pela imprensa?

É completamente diferente. Ler a “Fashion insider” é fantástico, é muito bom em termos profissionais, faz-me sentir que estou no caminho certo, que tenho que continuar exactamente assim. Em portugal tenho os amigos, os clientes, é completamente diferente. Em Paris dão-me confiança para continuar; em Portugal dão-me calor humano. É diferente. Há dez anos, quando fiz o meu primeiro desfile em Paris, não fazia parte do calendário e foi um stress: não sabia se iria ter uma pessoa a assistir ou mais. Estava a chegar, não era conhecida. Tinha uma loja em Paris, mas ninguém sabia quem eu era. Hoje, Três semanas antes do desfile já sei quem é a imprensa que vai estar presente porque pedem as acreditações, porque já tenho os nomes todos, tenho algumas figuras públicas, tudo. A imprensa escreveu que estava lá a bela Emma e que ela elogiou os “esplêndidos vestidos” que eu faço. Dizem que estava vestida por mim. Não tenho esta noção, até porque não conhecemos tão bem as estrelas francesas como as americanas. A verdade é que sempre me senti bem em Paris, desde o início.


O seu casamento como Portugal Fashion [responsável pelos seus desfiles em Paris] é o casamento perfeito?

Casei com a Moda Lisboa, depois divorciei-me para casar com o Portugal Fashion (PF). Já desfilava em Paris, sozinha (fui o único criador a fazê-lo sem apoio de ninguém), às minhas custas, um investimento muito grande, quando o PF fez a proposta irrecusável: apoiar os meus desfiles. Seria demente se não aceitasse. É assim há cinco anos e tem sido incrível. Só posso agradecer. Não tenho uma palavra negativa a dizer. Também não tenho nada a dizer da Moda Lisboa. A opção que fiz foi uma questão estratégica, de negócio. A Moda Lisboa é nacional; o Portugal Fashion é internacional. Fazia muito mais sentido ficar num projecto de cariz internacional. O nacional para mim está feito.

É um casamento equilibrado?

É. Chegar a Paris não é fácil, mas mantermo-nos lá é mais difícil. É muito caro. Levo o nome de Portugal lá fora, como o PF pretende, sou “a portuguesa”; em troca, tenho um apoio que é fundamental. Manter uma carreira durante anos e anos, com dois desfiles por ano, não é fácil. Em Paris sou a criadora portuguesa, “the portuguese”. Na véspera do desfile houve um programa de televisão o Paris Fashion Week e deram dois minutos ao meu desfile, diziam: “a portuguesa Fátima Lopes”. A palavra Portugal está lá sempre. É importante para a minha marca, mas também é importante para o país. Quando o ministro da Econpomia veio cá, há ano e meio, também se apercebeu disso. O ministério não tinha muita noção disto: a Fátima Lopes sozinha é a Fátima Lopes; a Fátima Lopes com o Portugal Fashion é a portuguesa - e isso muda tudo. Tenho o maior orgulho nisto.

Mas não seria mais justo se o PF investisse também noutros criadores?

Não. O PF já apostou em muitos criadores. O PF está há quase tanto tempo em Paris como eu. Quando desfilava sozinha, o PF estava cá em paralelo com um grupo de criadores, ora trazia um ora trazia outro. Em Paris é preciso chegar, ficar e manter. Só assim são respeitados, e isso só acontece ao fim de muitos anos. Para vir uma vez e desaparecer mais vale não vir. Basta desaparecer uma estação para já não valer a pena voltar. Aqui não há lugar para amadores. Isto é a capital da moda, é preciso ser o mais profissional que é possível ser. Um desfile representa muitta coisa, investem-se milhões em imagem. Nunca fiz publicidade porque não tenho possibilidades para isso. Por isso, a minha persistencia é nos desfiles. Mas imagine que eu desistia uma estação, já não tinha lugar no calendário oficial a seguir. E esses criadores que vinham com o PF nunca fizeram parte do calendário oficial. Ora, se não faz parte desse calendário não vale a pena. O PF não me deu o acesso ao calendário oficial e eles têm consciência disso. Pensaram: é preciso levar o nome de Portugal lá fora, então vamos pegar naquela pessoa que o faz. Porque eles tentaram fazê-lo com outros criadores antes de mim, ninguém os pode acusar de não terem tentado! Tentaram muita gente, muitas vezes. Até em Nova Iorque e em São Paulo! Agora, é preciso criar uma marca, um nome que seja estável e no qual as pessoas acreditem. Quando isso acontece é preciso saber agarrar. O PF agarrou-me, foi inteligente. Já que não há muitos nomes, que haja um forte.

Isso cria uma relação difícil com os criadores nacionais quando se encontram no PF em Portugal?

[Risos] Não. Dou-me bem com toda a gente. Não sou melhor do que ninguém. Só que fui à luta, nunca me deixei ficar parada. Não entrei na moda para comprar casas e carros nem quero dinheiro no banco; quero um grande desfile. Tudo o que ganhei na vida investi aqui. E não trocava isto por nada deste mundo; é a minha paixão. Tenho estado a construir uma marca e ele é real. Estou a avaliá-la para saber o seu real valor, porque ela já não é apenas uma marca portuguesa e o meu objectivo é a internacionalização séria. Mas uma marca demora muitos anos a fazer. A minha tem, dez anos, para eles eu sou uma “young designer”. Saiu agora um livro americano da Tashen, “Young Fashion Designers”, sobre a nova geração de criadores e eu estou lá. Uma marca com dez anos é nova. A Sónia Rykiel acabou de fazer 50 anos. O Jean Paul Gaultier ganhou notoriedade ao fim de 20 anos. Agora, é preciso fazer tudo o resto que os outros conseguem fazer, e as grandes marcas pertencem a grandes grupos, são multinacionais. Depois, há outra coisa de que em Portugal as pessoas não tem noção: a moda pode ser um negócio de milhões. Em Portugal olham para os criadores como artistas lunáticos, mas a verdade é que um espectáculo tem que ter um negócio por trás. Se é só espectáculo é difícil levá-lo a sério. Apenas 10% é espectáculo, o resto é negócio.

Quantos postos de trabalho criou?

Ordenados fixos são 25. Depois há as fábricas com quem trabalho de tudo e mais alguma coisa, a agência que tem centenas de manequins e trabalho com muitos colaboradores. Sou responsável por muitos postos de trabalho. E tenho todo o tipo de acessórios; ourivesaria, óptica, porcelanas, cutelaria, cristais, azulejos, canetas, tapeçarias... É um negócio que movimenta dezenas e dezenas de pessoas. Não estou a inventar nada, estou só a seguir os bons exemplos do que se faz lá fora. Tenho muitas parcerias com indústria. É esse o segredo: os criadores devem juntar o design à indústria, criar sinergias, é bom para todos.

Enquanto madeirense, é mais solidária com Alberto João Jardim ou com quem o critica?

Com ele. A 100%. Não comento a forma como às vezes diz as coisas, mas fez um trabalho do outro mundo. Há uma coisa indiscutível: entre a Madeira onde nasci há 44 anos, a Madeira de onde saí há 20 anos, e a Madeira de agora não há comparação possível. Ele fez de uma terra atrasada, sem nada, uma terra de prosperidade. A Madeira tem uma qualidade de vida que não se encontrra praticamente em mais nenhum sítio do país. E isso os madeirenses vão agradecer-lhe eternamente. E quem não disser isto é muito injusto. Políticas à parte, porque não me meto em políticas nunca, ele fez muito pela Madeira. E toda a gente sabe que ele é um homem simples, toda a vida viveu um vida muito simples. Portanto, fez o que fez pela ilha e não em proveito próprio.

Gostava de votar na Madeira?

Não. Saí da madeira há 20 anos, é muito tempo. Já estou há mais tempo em Lisboa e isso representa toda a minha vida adulta. As minhas raízes estão na Madeira, adoro ir lá passar o Natal, a passagem-de-ano, é o melhor sítio do mundo para ir. Mas tudo o que construí está em Lisboa.

E é lá que vota. Em Santana Lopes, que há anos fechou-lhe um bar noBairro Alto (BA), ou em AntónioCosta, que fechou os bares todos às duas da manhã?

[Risos] A votar em alguém, será é no António Costa. O meu prédio acabou de ser pintado e está maravilhoso. Ele está a tentar limpar aquela zona, a libertá-la dos grafitis, mas as pessoas são selvagens e o prédio já teve que ser repintado. Falta civismo. O Bairro Alto é um ex libris. Em Paris, acham que o Bairro Alto é o máximo. Bem explorado é uma referência para o mundo e não se pode perder isso. Fechar às duas da manhã para proteger meia dúzia de pessoas não faz sentido. Sobretudo se depois há milhares de pessoas do mundo todo que vão para lá. Isso é mais importante do que essa meia dúzia. Não vão gostar que diga isto, mas é verdade. Deviam repensar o assunto, porque desta forma estão a matar o o negócio aos restaurantes e a todos os outros estabelecimentos que lá existem. Numa altura de crise era importante promover as coisas e não cortar-lhes as pernas.


Helena Teixeira da Silva


Ela filma, fotografa, escreve. Estudou música, dança, teatro, pintura. Mas Raquel Freire, 35 anos, é essencialmente uma activista. Onde houver mundo para mudar, ela vai lá dar a mão. Vai provocar.

Devolvo as perguntas do filme que estreou este ano, “Veneno Cura”: “Quando perde tudo o que há para perder, o que a faz continuar?”

O amor pelas pessoas.

“O que faz para sobreviver à mais terrível das dores?”

Como se sobrevive? Com dor.

O que cura o veneno de que fala?

A dor.

Vê-se como “cineasta obscena”?

Vejo-me como uma artista que provoca os outros.

Tem um fetiche com o Porto ou filma quase sempre no Porto só porque em Lisboa é mais caro?
Tenho fetiches com pessoas como tenho com espaços. Com o rio, a cor, as casas, a luz do Porto. É a minha memória afectiva.

É mais fácil filmar no Porto do que viver no Porto?

[Risos] Não é fácil filmar no Porto, mas apesar de tudo é mais fácil filmar do que viver.

 

Vivendo para o cinema, viveria numa cidade sem Cinemateca?

Já vivi muito tempo. O cinema, hoje, chega por outras formas: há Internet, DVD. Dramático foi ter vivido, como vivi até aos 23 anos, em cidades que não tinham Cinemateca nem nada. Mas isto não retira a legitimidade ao Porto de querer ter uma Cinemateca.

Teve ajuda da Câmara para filmar?

Tive uma reunião com a minha directora de produção e fui recebida por uma coisa chamada Porto Film Comission. Deram-nos alguma ajuda logística, sim. Depois, o presidente da Câmara quis controlar o resultado do filme, saber se falava bem ou mal da cidade...

E o que fez?

Disse que, obviamente, o filme não estava disponível para nenhum tipo de censura.

Apesar disso, sente-se privilegiada por ter tido atenção de um autarca que diz pegar logo na máquina de calcular quando lhe falam de cultura?

Rui Rio deve ser muito infeliz. Vamos fazer um exercício: consegue imaginar a vida sem contar histórias aos outros, sem música, sem teatro, sem livros, sem desenhos, sem nenhuma manifestação cultural? É uma vida de escravatura.

A Porto 2001 continua a dever-lhe cinco mil euros?

[Risos] Continua. Mas não são euros, são contos: cinco mil contos. Tive que fechar a produtora.

Em Outubro do ano passado casou com uma mulher em frente ao Parlamento. Foi uma encenação ou uma declaração de interesses?

Foi uma acção política contra a homofobia. Espero que seja finalmente legitimada. Daqui a uns anos, isso vai ser tão ridículo como discriminar raças diferentes. O racismo hoje é crime.

Na sequência dessa acção política, disse que imaginou o seu pai a dizer:  “No meio desta crise económica como é que vêm defender os gays?” É isso que pensa a esmagadora maioria dos portugueses?

O meu pai nunca disse isso [Risos]. Houve um equívoco. Quem o disse foi uma pessoa da idade dele que estava lá.  Há uma certa Esquerda bem pensante que acha que os direitos fundamentais são só para nós. E não são. São fundamentais porque são para todos.
Se um homem vai na rua e é apedrejado porque gosta de homens e não de mulheres, se perde o emprego por causa disso, isto é fundamental, é para a vida dele, é para a sobrevivência.

A José Sócrates basta-lhe propor a legalização do casamento homossexual para ter o seu voto; votaria nele independentemente disso; ou nem isso chega para votar nele?

Ainda não decidi. Mesmo.

“Querem-nos precários, descartáveis e fáceis de despedir”. A frase é sua. É o que melhor define a sua geração?

Não. Define a forma como o sistema nos vê. Somos uma geração de sobreviventes, estamos a ganhar um lado de baratas, que é o bicho que sobrevive a tudo: ao terrorismo, à crise, à precariedade, ao desemprego, às doenças...

Disse que ainda temos aquela visão judaico-cristã que coloca de um lado Maria, a virgem santa; e do outro Madalena, a pecadora, a sexual. Quem representa melhor estes dois lados em Portugal?

[Silêncio] Maria será a Manuela Ferreira Leite; Madalena é o Francisco Louçã. Vêem o mundo de formas completamente opostas.

Ainda tem tiques de “generala vermelha”, como diziam na Universidade de Coimbra?

Deixou de ser defeito para passar a ser feitio.

Continua a viver sem saber como vai sobreviver no próximo mês?

Não sei como vou pagar a escola do meu filho este mês.

Fez Direito para "entender as regras do mundo". Entende estas regras?

Entendo as regras humanas, mas não as quero seguir. Conscientemente. Em Portugal há esta ideia:  “Se não tens dinheiro, não gastas”. Eu não tenho, mas acho que devo dar a melhor educação ao meu filho, que custa dinheiro. Não sou a única a ter salários em atraso.

Helena Teixeira da Silva