domingo, 1 de Março de 2009 1:00 jnonlineadmin

Raquel Freire: "Rui Rio quis controlar o meu filme"


Ela filma, fotografa, escreve. Estudou música, dança, teatro, pintura. Mas Raquel Freire, 35 anos, é essencialmente uma activista. Onde houver mundo para mudar, ela vai lá dar a mão. Vai provocar.

Devolvo as perguntas do filme que estreou este ano, “Veneno Cura”: “Quando perde tudo o que há para perder, o que a faz continuar?”

O amor pelas pessoas.

“O que faz para sobreviver à mais terrível das dores?”

Como se sobrevive? Com dor.

O que cura o veneno de que fala?

A dor.

Vê-se como “cineasta obscena”?

Vejo-me como uma artista que provoca os outros.

Tem um fetiche com o Porto ou filma quase sempre no Porto só porque em Lisboa é mais caro?
Tenho fetiches com pessoas como tenho com espaços. Com o rio, a cor, as casas, a luz do Porto. É a minha memória afectiva.

É mais fácil filmar no Porto do que viver no Porto?

[Risos] Não é fácil filmar no Porto, mas apesar de tudo é mais fácil filmar do que viver.

 

Vivendo para o cinema, viveria numa cidade sem Cinemateca?

Já vivi muito tempo. O cinema, hoje, chega por outras formas: há Internet, DVD. Dramático foi ter vivido, como vivi até aos 23 anos, em cidades que não tinham Cinemateca nem nada. Mas isto não retira a legitimidade ao Porto de querer ter uma Cinemateca.

Teve ajuda da Câmara para filmar?

Tive uma reunião com a minha directora de produção e fui recebida por uma coisa chamada Porto Film Comission. Deram-nos alguma ajuda logística, sim. Depois, o presidente da Câmara quis controlar o resultado do filme, saber se falava bem ou mal da cidade...

E o que fez?

Disse que, obviamente, o filme não estava disponível para nenhum tipo de censura.

Apesar disso, sente-se privilegiada por ter tido atenção de um autarca que diz pegar logo na máquina de calcular quando lhe falam de cultura?

Rui Rio deve ser muito infeliz. Vamos fazer um exercício: consegue imaginar a vida sem contar histórias aos outros, sem música, sem teatro, sem livros, sem desenhos, sem nenhuma manifestação cultural? É uma vida de escravatura.

A Porto 2001 continua a dever-lhe cinco mil euros?

[Risos] Continua. Mas não são euros, são contos: cinco mil contos. Tive que fechar a produtora.

Em Outubro do ano passado casou com uma mulher em frente ao Parlamento. Foi uma encenação ou uma declaração de interesses?

Foi uma acção política contra a homofobia. Espero que seja finalmente legitimada. Daqui a uns anos, isso vai ser tão ridículo como discriminar raças diferentes. O racismo hoje é crime.

Na sequência dessa acção política, disse que imaginou o seu pai a dizer:  “No meio desta crise económica como é que vêm defender os gays?” É isso que pensa a esmagadora maioria dos portugueses?

O meu pai nunca disse isso [Risos]. Houve um equívoco. Quem o disse foi uma pessoa da idade dele que estava lá.  Há uma certa Esquerda bem pensante que acha que os direitos fundamentais são só para nós. E não são. São fundamentais porque são para todos.
Se um homem vai na rua e é apedrejado porque gosta de homens e não de mulheres, se perde o emprego por causa disso, isto é fundamental, é para a vida dele, é para a sobrevivência.

A José Sócrates basta-lhe propor a legalização do casamento homossexual para ter o seu voto; votaria nele independentemente disso; ou nem isso chega para votar nele?

Ainda não decidi. Mesmo.

“Querem-nos precários, descartáveis e fáceis de despedir”. A frase é sua. É o que melhor define a sua geração?

Não. Define a forma como o sistema nos vê. Somos uma geração de sobreviventes, estamos a ganhar um lado de baratas, que é o bicho que sobrevive a tudo: ao terrorismo, à crise, à precariedade, ao desemprego, às doenças...

Disse que ainda temos aquela visão judaico-cristã que coloca de um lado Maria, a virgem santa; e do outro Madalena, a pecadora, a sexual. Quem representa melhor estes dois lados em Portugal?

[Silêncio] Maria será a Manuela Ferreira Leite; Madalena é o Francisco Louçã. Vêem o mundo de formas completamente opostas.

Ainda tem tiques de “generala vermelha”, como diziam na Universidade de Coimbra?

Deixou de ser defeito para passar a ser feitio.

Continua a viver sem saber como vai sobreviver no próximo mês?

Não sei como vou pagar a escola do meu filho este mês.

Fez Direito para "entender as regras do mundo". Entende estas regras?

Entendo as regras humanas, mas não as quero seguir. Conscientemente. Em Portugal há esta ideia:  “Se não tens dinheiro, não gastas”. Eu não tenho, mas acho que devo dar a melhor educação ao meu filho, que custa dinheiro. Não sou a única a ter salários em atraso.

Helena Teixeira da Silva

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RibeiroSoares // sábado, 7 de Março de 2009 17:36

Casa sem solidão para deficientes

2009-02-22

O conceito "open space" esteve subjacente ao projecto de arquitectura do futuro complexo residencial da Maia para acolher 29 pessoas portadoras de deficiência. O investimento será de 870 mil euros ficará pronto em 2010.

Foi graças ao Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (Pares) lançado pelo Ministério do Emprego e da Segurança Social que a Misericórdia do Porto irá iniciar, a partir de Maio, a construção do Lar Residencial Engº Pacheco de Almada (falecido mesário da Irmandade) na Rua do Mosteiro, em Águas Santas, Maia. O projecto da autoria do arquitecto José Manuel Soares já foi concluído e espera, apenas, a aprovação da Câmara Municipal da Maia para arrancar.

Segundo contou ao JN o autor do projecto, a empreitada terá duas zonas espaciais distintas, mas interligadas e direccionadas para o jardim circundante ao complexo. Além de permitir o acolhimento para 24 pessoas portadoras de várias deficiências, será edificada uma residência autónoma para cinco utentes, também com deficiências, mas com alguma autonomia de movimentos. A visão integrada do conjunto visa promover a interactividade e actividades ligadas ao bem estar físico, motor e ocupacional de forma a por exemplo, incentivar os utentes a fazer coisas aparentemente banais como cozinhar ou lavar a loiça.

"A geometria dos espaços irá permitir o contacto entre as pessoas e em vez do isolamento, como acontece em muitos lares de idosos, vamos incidir muito na vertente ocupacional. Não podemos deixar uma pessoa deficiente numa cadeira de rodas a olhar para a televisão todo o dia ou deitada numa cama", lembrou, ao JN, José Manuel Soares.

O mesário da Misericórdia do Porto, Álvaro Rodrigues, elogiou o "feliz programa" do projectista e realçou a "longa tradição" da Irmandade no apoio e construção de instalações deste tipo: "Não podemos construir na terra o que existe no Paraíso, mas podemos dar o mais possível em termos de felicidade às pessoas", concluiu.

Será  interessante de acompanhar se realmente um projecto que aparentemente é usurpado em termos de autoria de projecto será executado ou não .... Vamos aguardar por novos desenvolvidos.

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