Abril 2009 - Posts

Está sempre na linha da frente para dar a cara, a voz e o corpo pela cidade onde nasceu há 64 anos. Mas António Reis sabe que nem em todas as batalhas há vitórias: este ano talvez tenha que assistir à morte do Boavista.

Conhece pessoalmente o ministro da Cultura, António Pinto Ribeiro?

Conheci-o há pouco tempo...

Desde que ele, advogado, assumiu a pasta da cultura, persiste o boato de que foi nomeado por engano em vez de Pinto Ribeiro, ex-director da Culturgest. Também lhe parece ter sido um equívoco?

Conheço a história. Dizem que foi o primeiro-ministro que os confundiu por terem nomes iguais. Não sei se é boato ou equívoco. Mas Pinto Ribeiro, agora ministro, já o deveria ter esclarecido.

Consta que uma companhia de teatro do Porto ficou sem subsídio depois de ter denunciado o tal suposto engano. E esta história, sabe a boato ou a equívoco?

Essa história já não conheço. Se isso aconteceu já depois de o subsídio ter sido aprovado, e se aconteceu com base num comentário qualquer, coloca-nos num cenário anterior ao 25 de Abril.

A sua liberdade artística está como a economia, em recessão, ou tem balões de oxigénio como a banca?

A minha liberdade não émuito cerceada, mas também – reconheço – há poucos momentos em que pode ser exprimida plenamente.

É por isso que está na Galiza?

Não. O trabalho que estou a fazer lá [apresentação da peça ”Kvetch”, de Steven Berkoff] corresponde ao que faço cá.

O Porto deixou de discutir estado da cultura. Os agentes desistiram, morreram ou emigraram, sabe?

Individualmente, muitos emigraram, sim. Mas as estruturas estão cá todas. É verdade que nos entregámos todos – e eu incluo-me – a um “deixa andar”, que é grave.

É impossível não haver crise na cultura numa crise económica?

A cultura está em crise porque tem sido muito mal tratada por este governo.Há anos que se fala de uma execução orçamental de 1% e o que se conseguiu foi a maior redução de sempre, a verba não chega a 0,3%. Tenho medo de um país assim.

O Rivoli, entregue a La Féria, custa por ano à Câmara 600 mil euros. Quanto custa a sua Seiva Trupe?

Ao Estado português, e não à Câmara, custa 375 mil euros. Recebemos o mesmo valor há cinco anos.

Rui Rio apresentou esta semana a candidatura à Câmara do Porto. Significa que, se ganhar, a cidade ficará 12 anos sob a alçada dele. Já consegue reconhecer-lhe valor?

Tenho dificuldade em reconhecer-lhe algo que não seja o clima de conflitualidade que criou com várias instituições da cidade. E mesmo com o Governo. Quando o PSD estava no poder, Rui Rio chamava parolos e provincianos aos que reivindicavam poder em relação à capital. Hoje é ele quem o faz de forma feroz e intensa. Mas sem que haja resultados palpáveis dessa mudança de atitude.

Não salva nada destes oito anos?

Não lhe atribuo uma única obra de referência. A cidade está de luto pesado. Há uma desmotivação clara e generalizada.

Há sempre a possibilidade de Rui Rio poder liderar o PSD e, quem sabe, tornar-se primeiro-ministro. Fazia bem ao país um homem com o perfil do presidente da Câmara?

Deus nos livre de Rui Rio ser primeiro-ministro deste país! Privatizaria logo o Teatro Nacional D. Maria II e o S. Carlos. E isto é apenas um exemplo.

Pode depreender-se que irá votar em Elisa Ferreira?

Convictamente. Só tenho pena que ela não tenha sido candidata há quatro anos.

Vota nela mesmo sabendo que não será vereadora se não vencer?

Sabendo isso e mesmo não concordando com o facto de ser simultaneamente candidata ao Parlamento Europeu. Não tenho alternativa.

E para evitar a morte do seu clube, o Boavista, tem alternativa?

O actual presidente Álvaro Braga Jr. diz que a culpa não pode morrer solteira, mas temo que vá morrer. Todos sabemos que a gestão de João Loureiro, se não foi danosa, foi pelo menos muito má.

A culpa morre solteira mas consegue salvar-se o clube?

A culpa morre solteira e eu desejo ardentemente que o Boavista se salve, mas será quase impossível.

Helena Teixeira da Silva

Não é possível falar de rádio em Portugal sem falar de Francisco Amaral. Nos Estados Unidos seria considerado um guru; aqui é um resistente. Mas é também um caso sério: a Íntima Fracção começou na RDP, passou pela TSF, pela RUC, pela RUM, e mais. E celebra este mês 25 anos de existência. Os ouvintes aceitam que vá mudando de porto; o que não aceitam é deixar de o ouvir. Alguma vez conheceu uma história assim?

Ouve música para não ouvir o resto do mundo?

Não. Ouço música para compreender o resto do mundo.

A música ainda pode ser uma arma de arremesso?

Pode. E está a ser agora com a tão falada música dos Xutos & Pontapés.

Também ouve a canção “Sem eira nem beira” como um manifesto anti-Sócrates?

Não. As coisas estão ditas pelos nomes, mas como música não tem grande força.

35 anos depois do 25 de Abril, recorrer à música para criticar significa que a liberdade de expressão adquirida é uma ilusão de óptica?

Existe liberdade de expressão. O que cada vez existe menos é espaço para exercer essa liberdade. Ou até pode existir espaço, mas não existe a ideia de que o que se diz vá mudar alguma coisa. Temos a liberdade de dizer o que queremos, mas parece nunca haver resultados disso.

Pode traçar-se o perfil de um político se se souber o que ele ouve? Sócrates, por exemplo, chega atrasado, mas aparentemente gosta de ópera...

Acho que sim. Ao falarmos dos outros falamos de nós, ao ouvirmos a música dos outros é de nós que estamos a falar também.

Consegue imaginar o slogan da sua Íntima Fracção [IF] - Pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir – num outdoor de campanha política?

A intenção do slogan era completamente diferente, anunciava um espaço íntimo da programação da rádio. Julgo que os políticos não o quereriam usar.

Porquê? Seria surpreendente um político a manifestar desejo de escutar?

Seria extraordinário. Os políticos sabem escutar muito pouco.

Lembra-se do nome do director da TSF em 2003?

O Carlos Andrade até Julho. Depois, foi o José Fragoso.

Paulo Rangel, cabeça de lista do PSD às europeias, reactivou esta semana a palavra "mordaça" para dizer que não se inibiria de trazer assuntos nacionais para a campanha. Vital Moreira protestou: “Eu é que sei o que é suportar mordaça”, disse. A mordaça que a TSF lhe impôs nessa altura, em 2003, foi democrata, como a de Rangel ou à Estado Novo, como a de Vital?

[Risos] Foi uma mordaça neoliberal. Uma mordaça pura e simplesmente de ordem económica e de estratégia, e que não me foi só aplicada a mim. Tarde ou cedo sabiamos que essas mordaças teriam consequências. Traduziram-se na venda na TSF.

Nessa altura, escreveu no seu blogue: “Por favor, digam-me que eu existo”. Tinha dúvidas?

Tinha. Pouco depois, numa entrevista a “O Independente”, o José Fragoso disse que o programa de rádio que eu fazia não se sustentava com mil ouvintes. Mais tarde, com a distribuição da IF na internet, constatei que havia mais de mil pessoas. Das duas uma: ou a net tinha ultrapassado largamente a TSF ou eu, de facto, não existia.

Tanto existia que houve quem sugerisse uma concentração de protesto à porta da TSF quando saiu da rádio. Para que serve a opinião dos ouvintes, sabe?

Conta para muito pouco ou nada. Essa opinião está previamente definida pelos programadores das estações de rádio. Definem o que interessa às pessoas - pela banalidade e pela equalização, que é um termo muito radiofónico.

Qual é a diferença entre a rádio que se faz hoje e uma Jukebox?

Não é justo dizê-lo sobre todas as rádos, mas há pouca diferença. Você pode programar uma jukebox dentro do que ela dispõe. A jukeradio é controlada por uma pessoa que impôe aquele circuito: os discos repetem-se durante semanas.

Foi por não ser querer ser controlado por uma pessoa que decidiu montar um estúdio em sua casa?

Não. O estúdio foi montado em 1995, com o apoio da própria TSF. Foi um opção logística. Os estúdios de Coimbra foram vendidos e para não ter que me deslocar a Lisboa, passei a usar o meu próprio estúdio. Sempre aspirei a ter um estúdio íntimo.

Na América, o Francisco seria considerado uma espécie de guru. Aqui, parece ser apenas um resistente. Incomoda-o ou orgulha-o?

É motivo de orgulho perante mim próprio. E perante o número de ouvintes que, a partir da última emissão da IF na TSF, tive consciência que tinha. Foram 20 anos. Isso deixa um lastro imenso de pessoas, mesmo que seja um programa chamado de culto. A IF sempre foi muito mais conhecida do que eu.

A obra tornou-se maior que o autor?

Muito mais. E eu também nunca procurei popularidade. Sinto orgulho pela resistência dela, é louvavel. Por outro lado, sinto alguma mágoa porque, na prática, não sei se temos retorno dessa resistência. E há outras pessoas dentro da rádio cuja resistência pode não ser ao nível de um programa, mas é delas próprias enquanto profissionais, como forma de sobrevivência. Há gente excelente na rádio a ser estrangulada por estes processos novos. Há um radialista importantíssimo da Rádio Portuguesa - passou pela Comercial, pela XFM, e agora está na TSF - que é o Aníbal Cabrita, e que hoje é apenas um mero disparador de discos e publicidade. É absolutamente lamentável.

Perante esse cenário, o que diz aos seus alunos em Coimbra?

O jornalista não vai desaparecer. Ensino sobretudo aquilo a que hoje se chama a convergência. Tento que eles percebam que as diferenças entre Rádio, Televisão e Imprensa não estão tão esbatidas como antes. Custa constatar que os cursos dificilmente estão a adaptar-se a essa realidade. Tento que eles tenham consciência dela. Não estamos a iniciar um novo paradigma; já estamos dentro dele. A palavra chave é: convergência. É preciso saber lidar com ela, saber trabalhar com ela. Sem isso, nunca poderá fazer-se nada de correcto e suficientemte interessante dentro dessas novas formas de comunicação.

Pode dizer-se que, depois do fim da IF na TSF, foi salvo pela Internet?

Sem dúvida. Absolutamente. Se não fosse a Internet tinha que me ter sujeitado a fazer aquilo que o mercado poderia proporcionar para eu fazer, outras coisas que não a IF. Mas foi a internet, de facto, que me salvou. A Net e algumas pessoas que, através do meio, conseguiram puxar a própria IF. Desencadeou-se, nessa altura, um movimento de pessoas que ainda hoje não conheço pessoalmente. E já passaram seis anos.

Está no Expresso há precisamente um ano. É preciso coragem ou sapiência para colocar um programa de rádio num jornal?

As duas. Para avançar num meio tradicionalmente estanque com conteúdos provenientes de outro meio é preciso coragem. Mas também sabedoria. Dentro do grupo Impresa há uma consciência muito forte da tal convergência. Existe uma formação obrigatória – obrigatória, não opcional -, que tem a ver com a convergência, e que é feita a partir da Universidade da Carolina do Sul. Saber farejar do futuro dos media demonstra sabedoria.

O PS voltou a aprovar sozinho a lei do Pluralismo. Tem pernas para andar?

A poucos meses das eleições parece-me que é uma disposição que corresponde mais a uma intenção do que ao que vai acabar por se efectivar, devido a pressões não só políticas, mas também económicas. A partir do próximo Verão será diferente.


Ainda há margem para piorar?

[Risos] Não me admiro.

Os Divine Comedy têm uma canção chamada If, que acaba a dizer: “Se fosses um cão serias o meu amigo mais leal e ficaríamos juntos até ao fim”. A IF, a sua, para si, é isto?

Tive um cão, só tive um, o Lak, que esteve comigo até ao fim dele próprio. Aprendi com ele que os animais são realmente mais fiéis do que as pessoas. Nesse sentido, trasformei-me, também eu, num cão. Os 25 anos da IF são bons, mas também são terríveis. No outro dia, o Nuno Santos [director de programas da Sic] enviou-me uma mensagem a dizer: “A IF és tu”. Começo a ter receio. Se acabar com a IF acabo comigo? Há quem me peça mais 25 anos e eu não sei se posso ficar com a IF até ao fim da minha própria vida.

O que o assusta nisso?

Seria óptimo se, nessa altura, estivesse lúcido, capaz de acompanhar o que vai aparecendo sem esquecer o que passou. Mas existe a possibilidade de ficar com falta de memória e com pouca abertura para o que aparecer de novo. Se não estiver lúcido é mais complicado. Para desfazer a IF completamente é melhor não fazer.

Numa altura em que tudo dura tão pouco, a IF – indissociável de quem a criou –, ao fim de 25 anos parece ainda demasiado longe do fim que descreve dessa forma...

As coisas duram pouco porque são feitas para durar pocuo. Aquela ideia que tínhamos de que uma boa marca dura para sempre foi substituída pela ideia de que as coisas são bonitas e atractivas para serem consumidas de forma rápida. É a lei da economia. No que diz respeito aos afectos pode não ser assim. E a IF é algo que está no domínio dos afectos. O segredo da IF é seguramente a relação que se estabeleceu com os ouvintes. No último programa da RDP usei uma canção de um crooner francês chamada “Au revoir”, em que ele diz que basta haver um contacto íntimo do coração com a audiência para valer a pena. Com a IF houve isso. Nunca disse “Boa noite”, nunca disse a temperatura, mas por trás do textos, dos sons, dos extractos de filmes, dos sectores mais variados, há afecto. É no domínio dos afectos que as coisas podem efectivamente durar. Por muito que digam que os afectos não duram. O que não dura são as relações; os afectos duram. O afecto que tenho pela rádio, pela IF, pelos ouvintes, e os ouvintes pela IF, não acaba. Agora, na internet, há pessoas que me dizem que me ouvem desde 1984.

Antes da Internet, andava às escuras em relação à audiência?

Não. No máximo, andei seis, sete meses. Foi tudo muito rápido. A primeira pessoa que falou da IF foi o Miguel Esteves Cardoso no Expresso. E isso potenciou imediatamente o interesse pelo programa. Sem internet, logo no início de 1985, comecei a receber cartas. Não sabia caracterizar o público – julgo que ainda hoje não sei -, nem quantificá-lo, mas que existia um outro lado, disso tinha absoluta consciência.

Quando sonhamos chegar às estrelas somos crentes ou ingénuos?” A pergunta é sua, devolvo-a.

[Risos] Pois é. Os crentes são sempre ingénuos, sinceramente. Se não fossem ingénuos não seriam crentes. Crer tem a ver com o conceito de esperança. É quase do domínio da fé, embora não religiosa. Quem crê, espera. Quem não é ingénuo concretiza imediatamente. As pessoas que são seguras de si não precisam de ter esperança. Os esperançosos vão para além do imediatismo, são aqueles que estão de boa fé, é quase o conceito católico dos bem aventurados.

 Helena Teixeira da Silva

 

Há cinco anos, na véspera do 25 de Abril, cansado de “esperar por algo melhor”, Tiago Azevedo Fernandes, 42 anos, lançou um desafio aos portuenses na internet: discutir a cidade. “A Baixa do Porto”, que fundou e modera, é hoje um dos espaços mais dinâmicos e inclusivos da blogosfera. Ali dá-se o exemplo: faz-se Política.

Quem diz: “A Internet é o futuro” já está anacrónico?

Há pelo menos 10 anos que a Internet já é essencial para mesmo muita gente; para mim há mais de 20. Mas a Internet do passado não é igual à Internet do futuro: as várias formas de comunicação tendem a fundir-se e complementar-se, sendo todas necessárias.

A internet é agora e quase ninguém se imagina sem ela. Acha que um dia poder-se-á perceber que afinal ela tirou mais do que deu: por exemplo, a memória?

Se se perder memória a culpa não terá sido da Internet, mas da deficiente educação.

O Twitter é o novo ícone da Era do Vazio, profético título do livro de Lipovetsky, publicado em 1988?

O Twitter é apenas uma ferramenta. Como qualquer outra, pode ser usada de forma produtiva ou apenas para perder tempo. Eu criei a minha conta http://twitter.com/taf em 2007. Esteve ano e meio parada mas a partir de certa altura tornou-se útil. O facto de 95% do tráfego total do Twitter ser pouco mais do que lixo não tira valor aos restantes 5%. Como se pode seleccionar o que se recebe e decidir o que se publica, recomendo que experimentem.

Assistir a tantos jornalistas e directores de jornais a twittar o dia inteiro como se estivessem num chat é bom sinal ou sinal dos tempos?

É preocupante que dediquem tanto tempo a twittar. O trabalho de qualidade exige períodos de concentração que não são compatíveis com tanta "twittagem". Mas não é diferente se em vez disso estiverem constantemente ao telemóvel ou em reuniões inúteis.

Vai ter saudades de ler jornais em papel?

Não, porque não vão acabar. Vão talvez ser diferentes.

Os novos cronistas saltam dos blogues para os jornais. O caminho não devia ser o inverso?

Os blogues vierem dar visibilidade a quem não era divulgado pelos jornais. A imprensa era um pequeno mundo que foi abalroado pela blogosfera (um "grande mundo", comparativamente), e com isso acabou por ganhar bastante. Há bons exemplos de colaboração mútua, e frequentemente apenas tácita e informal, entre blogues e jornais.

Ser citado no Abrupto de Pacheco Pereira, rei da blogosfera, mesmo que seja como “responsável” por uma cabala contra Manuela Ferreira Leite, é motivo de orgulho para um blogger?

É principalmente motivo de divertimento perante tal disparate! Pacheco Pereira teve (e tem) mérito na utilização e divulgação da blogosfera, mas os seus tempos de "rei" já terminaram há muito. É aliás sinal de que a blogosfera evoluiu também com o contributo dele.

Para quem fundou o mais mediático e inclusivo blogue do Porto, “A Baixa do Porto”, mantém o seu blogue individual, “TAF”, e não resiste a participar numa discussão, sobretudo se for suficientemente polémica, ser blogger é uma espécie de profissão, um vício, puro exercício de cidadania…?

É principalmente um exercício de cidadania já semi-profissionalizado, se bem que sem as compensações financeiras que seriam normais numa profissão...

Alguma vez sofreu pressões políticas n”A Baixa do Porto”?

Não sei bem o que são "pressões políticas". Já tive fortes manifestações a favor e contra opções editoriais ou opiniões minhas. Ouço-as a todas e medito sobre elas. Ao fim, chego a uma conclusão pessoal e actuo de acordo com ela. As pressões a mim não fazem mal nenhum. :-)

E ao contrário, sente que usa os seus blogues para fazer política?

Sim, seguramente. A razão para eu gerir e participar em blogues é tentar melhorar um bocadinho o mundo. Isso é certamente Política. Foi por isso também que aceitei o recente convite para "blogar" em http://blogs.publico.pt/eleicoes2009/.

J. M. Coetzee escreveu em “Diário de um ano mau” que “a política é como a poluição, está toda à nossa volta. O melhor é ignorá-la ou simplesmente habituarmo-nos a ela, adaptarmo-nos.” Como claramente não a ignora, rendeu-se ou gosta mesmo de política?

"Política", em Democracia e entre cidadãos minimamente decentes, é a forma que as pessoas têm de expressar a sua opinião e tentar orientar o progresso do mundo no sentido que lhes parece mais benéfico. Como se pode ignorá-la?
 

Elisa Ferreira diz que dá tudo pelo Porto, mas não prescinde da candidatura a Bruxelas. Isso é um erro político ou de carácter?

É uma opção legítima de que os eleitores estão conscientes. Eu no caso dela possivelmente não a tomaria, mas também não encontro razões fortes para que um candidato tenha de arriscar, com sacrifício pessoal (porque é mesmo pessoal), a possibilidade de ficar sem ocupação profissional sem qualquer pré-aviso, pois o desenlace só se conhece no dia da eleição. Ver o cargo como um prémio (e não um serviço) é que justificaria o "risco"; não é essa a postura recomendável. Pior: caso perca a eleição autárquica, perder-se-ia também, eventualmente, um bom deputado europeu.

E é para Rui Rio usar ou ignorar?

Dada a minha opinião expressa acima, deveria ignorar pois não é relevante. Discutam-se antes os projectos para a cidade.

Porque é que sentiu necessidade de se tornar militante do PSD?

Porque não é nada saudável que, num país com cerca de 9 milhões de eleitores, o Primeiro-Ministro e o líder da Oposição sejam escolhidos (cada um deles) por um universo de menos de 40 mil pessoas: os militantes que votam internamente para escolher os dirigentes do seu partido. No total é menos de 1% da população! Os restantes 99% limitam-se a escolher entre esses dois, num jogo viciado à partida. Assim ao menos é mais um voto nessa escolha, cumpro o meu dever.

Essa militância significa apoiar Rui Rio no presente e votar nele daqui a uns meses?

Eu não apoio pessoas. Voto em função dos programas e da capacidade que os candidatos têm para os implantar. Não se conhecem ainda os programas dos candidatos para o Porto. Rui Rio tem grandes qualidades que são muito prejudicadas pelos grandes defeitos que também tem. O Porto precisa de alguém capaz de unir os munícipes e de criar sinergias com os municípios vizinhos. Nenhum dos candidatos ou potenciais candidatos conhecidos me parece em boas condições para o fazer. De qualquer modo estou convencido de que Rui Rio quer ir para o Parlamento Europeu, e por isso daqui a uns dias já se vai ver se este meu palpite se confirma ou não. ;-)

Comparar o moral política de Sócrates com a defesa de monogamia de Cicciolina parece-lhe uma comparação insultuosa ou, dada a ameaça de processo, um exagero de intolerância do primeiro ministro?

Como já tem sido dito, será provavelmente insultuoso para Cicciolina.

O que é mais grave, a poucos dias de se celebrar os 35 anos do 25 de Abril: não saber usar a liberdade de expressão ou não a saber respeitar?

Não a saber respeitar.

Pirateou o site de José Sócrates, socrates2009.com. Fê-lo porque o primeiro ministro tem demasiados episódios apetecíveis para fazer humor ou porque não gosta mesmo dele?

Eu não pirateei o site. O que fiz foi registar o endereço sócrates2009.com (com acento) por Sócrates ter prescindido dele em favor do oficial escrito em "português técnico", sem acento. A pessoa de José Sócrates não me interessa, mas aquilo que o Primeiro Ministro faz já é relevante. A cidadania também se pode exercer com humor, e foi o que eu tentei fazer: intervenção política com uma vertente lúdica.

O que imagina que contém o ipod que Obama ofereceu a Isabel II?

Boa pergunta... Ou está vazio, ou tem uma saudação formal qb. de Obama. Admito que não tenha o último álbum dos U2. :-)

Berlusconi, que pediu aos 20 mil desalojados de Aquila para fazerem de conta que estão num fim-de-semana de campismo, é o último romântico dos políticos ou um idiota ao nível de Bush?

Acho que pegam com ele por tudo e mais alguma coisa (mesmo que muitas vezes com razão). Eu não atribuo significado especial a essa afirmação. Não a tendo ouvido, admito que possa revelar boa intenção expressa ao estilo dele. Dar atenção a este episódio menor serve objectivamente apenas para desviar o foco de outros aspectos (esses sim bem graves) da sua actuação.

Evo Morales, presidente da Bolívia, entrou ontem em greve de fome. Em democracia, isto significa o quê?

Em Democracia, o poder que se tem é dado (ou melhor: emprestado) pelo povo. Se o povo for sensível à greve de fome e não às propostas que estão em discussão, o povo terá o que merece.

Helena Teixeira da Silva

Se ser gato é, como diz, “a liberdade-livre” – e ele sabe porque vive com oito –, o que é Manuel Pina senão um felino também? O homem que todos os dias habita esta página é poeta. Chamem-lhe amigo.

"Ainda não é o fim nem o princípio do mundo. Calma, é apenas um pouco tarde". Diria que o seu título de 1974 nunca definiu tão bem o estado mundial das coisas?

Diria, mas não digo. Hoje sou mais céptico do que em 1974.

As suas crónicas são cartoons sem desenhos ou a realidade, neste momento, supera a sátira?

Acho que qualquer português minimamente lúcido não consegue distinguir hoje entre realidade e tragicomédia (comédia por conta da realidade política e tragédia por conta da social).

Se, como escreveu, "a RTP é a lavandaria do regime", a TVI que Sócrates ameaçou processar é o quê? Uma espécie de jornalista iraquiano que atirou os sapatos a George W. Bush?

TVI e RTP completam-se, uma expõe as nódoas, outra limpa-as. Como também escrevi há pouco, o jornalismo é uma actividade do sector do tratamento do lixo. Se o jornalismo fosse despejado nos nossos rios há muito que os rios teriam morrido de poluição e de vergonha.

Na Quadratura do Círculo, Pacheco Pereira chamou-lhe "ruído"; Lobo Xavier disse "conspiração". Que termo usa para definir o caso Freeport e o desempenho da justiça nesta matéria?

O caso Freeport é um sintoma. Há algures, não sei onde, um cancro em estado muito avançado na sociedade portuguesa.

Sendo licenciado em Direito, a justiça é coisa que o envergonha ou, apesar de tudo, o jornalismo embaraça-o mais?

Os problemas na justiça e no jornalismo são a erupção que fica à vista de males anteriores e muito maiores. Os tribunais não fazem as leis, aplicam-nas. E os jornalistas só dançam (os que têm pé para a dança) conforme música do tempo.

Mário Soares afirmou esta semana, no Porto, que "os patrões do jornalistas" são os responsáveis pela "falta de escrúpulos" daquilo que tem sido publicado em relação ao Freeport. Tendo dito uma vez que "nunca como hoje houve tanta canalhice e tanta impunidade nos jornais", significa que concorda globalmente com o ex-presidente da República?

O que Mário Soares omite é que os patrões dos jornalistas e os patrões dos políticos são os mesmos. Com uma diferença: enquanto os jornalistas são seus empregados (alguns, deve ser dito, empregados recalcitrantes), os políticos são seus sócios.

Está ao lado dos professores na luta contra o Ministério da Educação. Agora a tutela desafiou-o a dizer quando e qual o secretário de Estado que chamou "professorzecos" aos docentes. Vai ceder ou fazer ouvidos moucos?

A notícia veio nos jornais e o ME não a desmentiu. Deu-me a duvidosa honra (atendendo aos protagonistas) de me desmentir a mim. Não sei, pois não estive na AR, qual dos dois “secretariozecos” terá chamado “professorzecos” aos docentes porque a notícia (repito: não desmentida) não o esclarece. Mas, de qualquer modo, apesar de tudo, dou mais crédito aos jornais, a alguns jornais, do que ao actual Ministério da Educação e seus “desmentidos”.

Ainda no rescaldo do primeiro dia de Abril, que mentira sobre Maria de Lurdes Rodrigues, se publicada, passaria tranquilamente por verdade?

A de que ela teria reconhecido a sua impotência – não a sua incompetência, que nisso ninguém acreditaria já que faz parte dessa incompetência não reconhecer que é incompetente – e se teria demitido

Quem o tem feito sofrer mais: o treinador do Sporting, Paulo Bento, ou o seleccionador nacional, Carlos Queiroz?

A selecção “nacional” diz-me pouco. A pátria do adepto é o seu clube e, por isso, Paulo Bento dói-me mais (ou antes, dói-me o Sporting, pois tenho alguma simpatia pelo trabalho que ele tem feito no clube) que o tal Queiroz

Cristiano Ronaldo, depois do Portugal-Suécia (0-0), explicou: "A bola não quis entrar. Futebol é assim: por vezes a bola não entra." Isto pode ser considerado poesia?

Ronaldo é um excelente futebolista, não tão excelente quanto Messi, mas mesmo assim excelente. E um notável filósofo fenomenologista, não tão notável como o célebre João Pinto dos prognósticos, mas mesmo assim notável. “Por vezes a bola não entra” é bom, embora “às vezes a bola entra” também não fosse mau e, se calhar, para os adeptos, fosse preferível.

Pode revelar qual o segredo que torna os gatos tão especiais e definitivos na vida dos poetas? Há o seu caso, o de Cesariny, o de Eugénio de Andrade...

Um amigo meu, já morto, dizia que gostava mais de gatos do que de cães porque não há gatos-polícia. Eu gosto de cães (e, com excepção de alguns de duas patas, de todos os outros animais), mas julgo que os gatos seduzem os poetas porque os gatos – como a poesia, que é liberdade-livre – são seres livres. A sua domesticidade é aparente, a suficiente para poderem assegurar-se a liberdade. Pode ensinar-se tudo a um gato, menos a não ser gato. Já viu algum gato deixar-se humilhar a fazer exercícios de circo?

Um poeta tem medo de quê?

De tudo, principalmente da poesia. Por isso é que, como diz Holderlin (acho que é Holderlin), incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

A poesia cura-o de todas as dores ou inflama-as?

A poesia é, tanto quanto das palavras, uma arte da memória. A dor, na poesia, é memória da dor. Nesse sentido, é construção, “fingimento”. Fingimento que, como diz Pessoa, chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente. Uma vez ouvi, numa feira, um vendedor de banha de cobra dizer uma coisa espantosa: “O dente não dói, o que dói é a cavidade dentária”. Eu diria o mesmo da poesia, o que dói é a “cavidade poética”, aquilo que, nela, é vazio.

Se, como diz, “o homem é uma criança eterna” que “só se torna adulto na morte”, parte da sua literatura infantil devia ser lida por adultos também?

A literatura não é “para crianças” nem “para adultos”. É ou não é (e, nos melhores casos, é e não é ao mesmo tempo).

Ontem, na homenagem que lhe foi prestada em casa, no Sabugal, o Teatro Pé de Vento apresentou a peça “O sábio fechado na sua biblioteca”. Revê-se nesta imagem?

Não, nem sou sábio (a não ser que saber isso seja uma forma de sabedoria) nem estou fechado numa biblioteca, embora não saiba (lá está: não sou sábio) onde é que estou fechado. Os livros que amo são os que libertam, não os que fecham. Talvez por isso, a maior parte deles é de poesia.

O tempo das homenagens fá-lo sentir que o tempo está mais perto do fim ou que só agora começa a fazer sentido?

Entendo as “homenagens” (acho que se quer referir à do Sabugal) como gestos de estima que, mesmo que excessivos, seria arrogante e descortês enjeitar. Foi com esse espírito que aceitei um dia uma condecoração e tenho aceitado alguns prémios. As homenagens ou os prémios não nos fazem melhores nem piores.

"Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo", disse Jorge Luís Borges. A intenção dele serve a sua também?

Sim, a única salvação (estranha palavra) é pelo amor. A melhor literatura é sempre, de algum modo, um acto de deslumbramento e amor (ou de amizade, que é a mais alta forma do amor), mesmo quando é – e, às vezes, justamente porque o é – assassina ou suicidária. E, se quer que lhe diga uma coisa surpreendente, acho que o melhor jornalismo também.

Helena Teixeira da Silva