Não é possível falar de rádio em Portugal sem falar de Francisco Amaral. Nos Estados Unidos seria considerado um guru; aqui é um resistente. Mas é também um caso sério: a Íntima Fracção começou na RDP, passou pela TSF, pela RUC, pela RUM, e mais. E celebra este mês 25 anos de existência. Os ouvintes aceitam que vá mudando de porto; o que não aceitam é deixar de o ouvir. Alguma vez conheceu uma história assim?
Ouve música para não ouvir o resto do mundo?
Não. Ouço música para compreender o resto do mundo.
A música ainda pode ser uma arma de arremesso?
Pode. E está a ser agora com a tão falada música dos Xutos & Pontapés.
Também ouve a canção “Sem eira nem beira” como um manifesto anti-Sócrates?
Não. As coisas estão ditas pelos nomes, mas como música não tem grande força.
35 anos depois do 25 de Abril, recorrer à música para criticar significa que a liberdade de expressão adquirida é uma ilusão de óptica?
Existe liberdade de expressão. O que cada vez existe menos é espaço para exercer essa liberdade. Ou até pode existir espaço, mas não existe a ideia de que o que se diz vá mudar alguma coisa. Temos a liberdade de dizer o que queremos, mas parece nunca haver resultados disso.
Pode traçar-se o perfil de um político se se souber o que ele ouve? Sócrates, por exemplo, chega atrasado, mas aparentemente gosta de ópera...
Acho que sim. Ao falarmos dos outros falamos de nós, ao ouvirmos a música dos outros é de nós que estamos a falar também.
Consegue imaginar o slogan da sua Íntima Fracção [IF] - Pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir – num outdoor de campanha política?
A intenção do slogan era completamente diferente, anunciava um espaço íntimo da programação da rádio. Julgo que os políticos não o quereriam usar.
Porquê? Seria surpreendente um político a manifestar desejo de escutar?
Seria extraordinário. Os políticos sabem escutar muito pouco.
Lembra-se do nome do director da TSF em 2003?
O Carlos Andrade até Julho. Depois, foi o José Fragoso.
Paulo Rangel, cabeça de lista do PSD às europeias, reactivou esta semana a palavra "mordaça" para dizer que não se inibiria de trazer assuntos nacionais para a campanha. Vital Moreira protestou: “Eu é que sei o que é suportar mordaça”, disse. A mordaça que a TSF lhe impôs nessa altura, em 2003, foi democrata, como a de Rangel ou à Estado Novo, como a de Vital?
[Risos] Foi uma mordaça neoliberal. Uma mordaça pura e simplesmente de ordem económica e de estratégia, e que não me foi só aplicada a mim. Tarde ou cedo sabiamos que essas mordaças teriam consequências. Traduziram-se na venda na TSF.
Nessa altura, escreveu no seu blogue: “Por favor, digam-me que eu existo”. Tinha dúvidas?
Tinha. Pouco depois, numa entrevista a “O Independente”, o José Fragoso disse que o programa de rádio que eu fazia não se sustentava com mil ouvintes. Mais tarde, com a distribuição da IF na internet, constatei que havia mais de mil pessoas. Das duas uma: ou a net tinha ultrapassado largamente a TSF ou eu, de facto, não existia.
Tanto existia que houve quem sugerisse uma concentração de protesto à porta da TSF quando saiu da rádio. Para que serve a opinião dos ouvintes, sabe?
Conta para muito pouco ou nada. Essa opinião está previamente definida pelos programadores das estações de rádio. Definem o que interessa às pessoas - pela banalidade e pela equalização, que é um termo muito radiofónico.
Qual é a diferença entre a rádio que se faz hoje e uma Jukebox?
Não é justo dizê-lo sobre todas as rádos, mas há pouca diferença. Você pode programar uma jukebox dentro do que ela dispõe. A jukeradio é controlada por uma pessoa que impôe aquele circuito: os discos repetem-se durante semanas.
Foi por não ser querer ser controlado por uma pessoa que decidiu montar um estúdio em sua casa?
Não. O estúdio foi montado em 1995, com o apoio da própria TSF. Foi um opção logística. Os estúdios de Coimbra foram vendidos e para não ter que me deslocar a Lisboa, passei a usar o meu próprio estúdio. Sempre aspirei a ter um estúdio íntimo.
Na América, o Francisco seria considerado uma espécie de guru. Aqui, parece ser apenas um resistente. Incomoda-o ou orgulha-o?
É motivo de orgulho perante mim próprio. E perante o número de ouvintes que, a partir da última emissão da IF na TSF, tive consciência que tinha. Foram 20 anos. Isso deixa um lastro imenso de pessoas, mesmo que seja um programa chamado de culto. A IF sempre foi muito mais conhecida do que eu.
A obra tornou-se maior que o autor?
Muito mais. E eu também nunca procurei popularidade. Sinto orgulho pela resistência dela, é louvavel. Por outro lado, sinto alguma mágoa porque, na prática, não sei se temos retorno dessa resistência. E há outras pessoas dentro da rádio cuja resistência pode não ser ao nível de um programa, mas é delas próprias enquanto profissionais, como forma de sobrevivência. Há gente excelente na rádio a ser estrangulada por estes processos novos. Há um radialista importantíssimo da Rádio Portuguesa - passou pela Comercial, pela XFM, e agora está na TSF - que é o Aníbal Cabrita, e que hoje é apenas um mero disparador de discos e publicidade. É absolutamente lamentável.
Perante esse cenário, o que diz aos seus alunos em Coimbra?
O jornalista não vai desaparecer. Ensino sobretudo aquilo a que hoje se chama a convergência. Tento que eles percebam que as diferenças entre Rádio, Televisão e Imprensa não estão tão esbatidas como antes. Custa constatar que os cursos dificilmente estão a adaptar-se a essa realidade. Tento que eles tenham consciência dela. Não estamos a iniciar um novo paradigma; já estamos dentro dele. A palavra chave é: convergência. É preciso saber lidar com ela, saber trabalhar com ela. Sem isso, nunca poderá fazer-se nada de correcto e suficientemte interessante dentro dessas novas formas de comunicação.
Pode dizer-se que, depois do fim da IF na TSF, foi salvo pela Internet?
Sem dúvida. Absolutamente. Se não fosse a Internet tinha que me ter sujeitado a fazer aquilo que o mercado poderia proporcionar para eu fazer, outras coisas que não a IF. Mas foi a internet, de facto, que me salvou. A Net e algumas pessoas que, através do meio, conseguiram puxar a própria IF. Desencadeou-se, nessa altura, um movimento de pessoas que ainda hoje não conheço pessoalmente. E já passaram seis anos.
Está no Expresso há precisamente um ano. É preciso coragem ou sapiência para colocar um programa de rádio num jornal?
As duas. Para avançar num meio tradicionalmente estanque com conteúdos provenientes de outro meio é preciso coragem. Mas também sabedoria. Dentro do grupo Impresa há uma consciência muito forte da tal convergência. Existe uma formação obrigatória – obrigatória, não opcional -, que tem a ver com a convergência, e que é feita a partir da Universidade da Carolina do Sul. Saber farejar do futuro dos media demonstra sabedoria.
O PS voltou a aprovar sozinho a lei do Pluralismo. Tem pernas para andar?
A poucos meses das eleições parece-me que é uma disposição que corresponde mais a uma intenção do que ao que vai acabar por se efectivar, devido a pressões não só políticas, mas também económicas. A partir do próximo Verão será diferente.
Ainda há margem para piorar?
[Risos] Não me admiro.
Os Divine Comedy têm uma canção chamada If, que acaba a dizer: “Se fosses um cão serias o meu amigo mais leal e ficaríamos juntos até ao fim”. A IF, a sua, para si, é isto?
Tive um cão, só tive um, o Lak, que esteve comigo até ao fim dele próprio. Aprendi com ele que os animais são realmente mais fiéis do que as pessoas. Nesse sentido, trasformei-me, também eu, num cão. Os 25 anos da IF são bons, mas também são terríveis. No outro dia, o Nuno Santos [director de programas da Sic] enviou-me uma mensagem a dizer: “A IF és tu”. Começo a ter receio. Se acabar com a IF acabo comigo? Há quem me peça mais 25 anos e eu não sei se posso ficar com a IF até ao fim da minha própria vida.
O que o assusta nisso?
Seria óptimo se, nessa altura, estivesse lúcido, capaz de acompanhar o que vai aparecendo sem esquecer o que passou. Mas existe a possibilidade de ficar com falta de memória e com pouca abertura para o que aparecer de novo. Se não estiver lúcido é mais complicado. Para desfazer a IF completamente é melhor não fazer.
Numa altura em que tudo dura tão pouco, a IF – indissociável de quem a criou –, ao fim de 25 anos parece ainda demasiado longe do fim que descreve dessa forma...
As coisas duram pouco porque são feitas para durar pocuo. Aquela ideia que tínhamos de que uma boa marca dura para sempre foi substituída pela ideia de que as coisas são bonitas e atractivas para serem consumidas de forma rápida. É a lei da economia. No que diz respeito aos afectos pode não ser assim. E a IF é algo que está no domínio dos afectos. O segredo da IF é seguramente a relação que se estabeleceu com os ouvintes. No último programa da RDP usei uma canção de um crooner francês chamada “Au revoir”, em que ele diz que basta haver um contacto íntimo do coração com a audiência para valer a pena. Com a IF houve isso. Nunca disse “Boa noite”, nunca disse a temperatura, mas por trás do textos, dos sons, dos extractos de filmes, dos sectores mais variados, há afecto. É no domínio dos afectos que as coisas podem efectivamente durar. Por muito que digam que os afectos não duram. O que não dura são as relações; os afectos duram. O afecto que tenho pela rádio, pela IF, pelos ouvintes, e os ouvintes pela IF, não acaba. Agora, na internet, há pessoas que me dizem que me ouvem desde 1984.
Antes da Internet, andava às escuras em relação à audiência?
Não. No máximo, andei seis, sete meses. Foi tudo muito rápido. A primeira pessoa que falou da IF foi o Miguel Esteves Cardoso no Expresso. E isso potenciou imediatamente o interesse pelo programa. Sem internet, logo no início de 1985, comecei a receber cartas. Não sabia caracterizar o público – julgo que ainda hoje não sei -, nem quantificá-lo, mas que existia um outro lado, disso tinha absoluta consciência.
“Quando sonhamos chegar às estrelas somos crentes ou ingénuos?” A pergunta é sua, devolvo-a.
[Risos] Pois é. Os crentes são sempre ingénuos, sinceramente. Se não fossem ingénuos não seriam crentes. Crer tem a ver com o conceito de esperança. É quase do domínio da fé, embora não religiosa. Quem crê, espera. Quem não é ingénuo concretiza imediatamente. As pessoas que são seguras de si não precisam de ter esperança. Os esperançosos vão para além do imediatismo, são aqueles que estão de boa fé, é quase o conceito católico dos bem aventurados.
Helena Teixeira da Silva