domingo, 12 de Abril de 2009 13:34
jnonlineadmin
Tiago Azevedo Fernandes: "Rui Rio quer ir para o Parlamento Europeu"
Há cinco anos, na véspera do 25 de Abril, cansado de “esperar por algo melhor”, Tiago Azevedo Fernandes, 42 anos, lançou um desafio aos portuenses na internet: discutir a cidade. “A Baixa do Porto”, que fundou e modera, é hoje um dos espaços mais dinâmicos e inclusivos da blogosfera. Ali dá-se o exemplo: faz-se Política.
Quem diz: “A Internet é o futuro” já está anacrónico?
Há pelo menos 10 anos que a Internet já é essencial para mesmo muita gente; para mim há mais de 20. Mas a Internet do passado não é igual à Internet do futuro: as várias formas de comunicação tendem a fundir-se e complementar-se, sendo todas necessárias.
A internet é agora e quase ninguém se imagina sem ela. Acha que um dia poder-se-á perceber que afinal ela tirou mais do que deu: por exemplo, a memória?
Se se perder memória a culpa não terá sido da Internet, mas da deficiente educação.
O Twitter é o novo ícone da Era do Vazio, profético título do livro de Lipovetsky, publicado em 1988?
O Twitter é apenas uma ferramenta. Como qualquer outra, pode ser usada de forma produtiva ou apenas para perder tempo. Eu criei a minha conta http://twitter.com/taf em 2007. Esteve ano e meio parada mas a partir de certa altura tornou-se útil. O facto de 95% do tráfego total do Twitter ser pouco mais do que lixo não tira valor aos restantes 5%. Como se pode seleccionar o que se recebe e decidir o que se publica, recomendo que experimentem.
Assistir a tantos jornalistas e directores de jornais a twittar o dia inteiro como se estivessem num chat é bom sinal ou sinal dos tempos?
É preocupante que dediquem tanto tempo a twittar. O trabalho de qualidade exige períodos de concentração que não são compatíveis com tanta "twittagem". Mas não é diferente se em vez disso estiverem constantemente ao telemóvel ou em reuniões inúteis.
Vai ter saudades de ler jornais em papel?
Não, porque não vão acabar. Vão talvez ser diferentes.
Os novos cronistas saltam dos blogues para os jornais. O caminho não devia ser o inverso?
Os blogues vierem dar visibilidade a quem não era divulgado pelos jornais. A imprensa era um pequeno mundo que foi abalroado pela blogosfera (um "grande mundo", comparativamente), e com isso acabou por ganhar bastante. Há bons exemplos de colaboração mútua, e frequentemente apenas tácita e informal, entre blogues e jornais.
Ser citado no Abrupto de Pacheco Pereira, rei da blogosfera, mesmo que seja como “responsável” por uma cabala contra Manuela Ferreira Leite, é motivo de orgulho para um blogger?
É principalmente motivo de divertimento perante tal disparate! Pacheco Pereira teve (e tem) mérito na utilização e divulgação da blogosfera, mas os seus tempos de "rei" já terminaram há muito. É aliás sinal de que a blogosfera evoluiu também com o contributo dele.
Para quem fundou o mais mediático e inclusivo blogue do Porto, “A Baixa do Porto”, mantém o seu blogue individual, “TAF”, e não resiste a participar numa discussão, sobretudo se for suficientemente polémica, ser blogger é uma espécie de profissão, um vício, puro exercício de cidadania…?
É principalmente um exercício de cidadania já semi-profissionalizado, se bem que sem as compensações financeiras que seriam normais numa profissão...
Alguma vez sofreu pressões políticas n”A Baixa do Porto”?
Não sei bem o que são "pressões políticas". Já tive fortes manifestações a favor e contra opções editoriais ou opiniões minhas. Ouço-as a todas e medito sobre elas. Ao fim, chego a uma conclusão pessoal e actuo de acordo com ela. As pressões a mim não fazem mal nenhum. :-)
E ao contrário, sente que usa os seus blogues para fazer política?
Sim, seguramente. A razão para eu gerir e participar em blogues é tentar melhorar um bocadinho o mundo. Isso é certamente Política. Foi por isso também que aceitei o recente convite para "blogar" em http://blogs.publico.pt/eleicoes2009/.
J. M. Coetzee escreveu em “Diário de um ano mau” que “a política é como a poluição, está toda à nossa volta. O melhor é ignorá-la ou simplesmente habituarmo-nos a ela, adaptarmo-nos.” Como claramente não a ignora, rendeu-se ou gosta mesmo de política?
"Política", em Democracia e entre cidadãos minimamente decentes, é a forma que as pessoas têm de expressar a sua opinião e tentar orientar o progresso do mundo no sentido que lhes parece mais benéfico. Como se pode ignorá-la?
Elisa Ferreira diz que dá tudo pelo Porto, mas não prescinde da candidatura a Bruxelas. Isso é um erro político ou de carácter?
É uma opção legítima de que os eleitores estão conscientes. Eu no caso dela possivelmente não a tomaria, mas também não encontro razões fortes para que um candidato tenha de arriscar, com sacrifício pessoal (porque é mesmo pessoal), a possibilidade de ficar sem ocupação profissional sem qualquer pré-aviso, pois o desenlace só se conhece no dia da eleição. Ver o cargo como um prémio (e não um serviço) é que justificaria o "risco"; não é essa a postura recomendável. Pior: caso perca a eleição autárquica, perder-se-ia também, eventualmente, um bom deputado europeu.
E é para Rui Rio usar ou ignorar?
Dada a minha opinião expressa acima, deveria ignorar pois não é relevante. Discutam-se antes os projectos para a cidade.
Porque é que sentiu necessidade de se tornar militante do PSD?
Porque não é nada saudável que, num país com cerca de 9 milhões de eleitores, o Primeiro-Ministro e o líder da Oposição sejam escolhidos (cada um deles) por um universo de menos de 40 mil pessoas: os militantes que votam internamente para escolher os dirigentes do seu partido. No total é menos de 1% da população! Os restantes 99% limitam-se a escolher entre esses dois, num jogo viciado à partida. Assim ao menos é mais um voto nessa escolha, cumpro o meu dever.
Essa militância significa apoiar Rui Rio no presente e votar nele daqui a uns meses?
Eu não apoio pessoas. Voto em função dos programas e da capacidade que os candidatos têm para os implantar. Não se conhecem ainda os programas dos candidatos para o Porto. Rui Rio tem grandes qualidades que são muito prejudicadas pelos grandes defeitos que também tem. O Porto precisa de alguém capaz de unir os munícipes e de criar sinergias com os municípios vizinhos. Nenhum dos candidatos ou potenciais candidatos conhecidos me parece em boas condições para o fazer. De qualquer modo estou convencido de que Rui Rio quer ir para o Parlamento Europeu, e por isso daqui a uns dias já se vai ver se este meu palpite se confirma ou não. ;-)
Comparar o moral política de Sócrates com a defesa de monogamia de Cicciolina parece-lhe uma comparação insultuosa ou, dada a ameaça de processo, um exagero de intolerância do primeiro ministro?
Como já tem sido dito, será provavelmente insultuoso para Cicciolina.
O que é mais grave, a poucos dias de se celebrar os 35 anos do 25 de Abril: não saber usar a liberdade de expressão ou não a saber respeitar?
Não a saber respeitar.
Pirateou o site de José Sócrates, socrates2009.com. Fê-lo porque o primeiro ministro tem demasiados episódios apetecíveis para fazer humor ou porque não gosta mesmo dele?
Eu não pirateei o site. O que fiz foi registar o endereço sócrates2009.com (com acento) por Sócrates ter prescindido dele em favor do oficial escrito em "português técnico", sem acento. A pessoa de José Sócrates não me interessa, mas aquilo que o Primeiro Ministro faz já é relevante. A cidadania também se pode exercer com humor, e foi o que eu tentei fazer: intervenção política com uma vertente lúdica.
O que imagina que contém o ipod que Obama ofereceu a Isabel II?
Boa pergunta... Ou está vazio, ou tem uma saudação formal qb. de Obama. Admito que não tenha o último álbum dos U2. :-)
Berlusconi, que pediu aos 20 mil desalojados de Aquila para fazerem de conta que estão num fim-de-semana de campismo, é o último romântico dos políticos ou um idiota ao nível de Bush?
Acho que pegam com ele por tudo e mais alguma coisa (mesmo que muitas vezes com razão). Eu não atribuo significado especial a essa afirmação. Não a tendo ouvido, admito que possa revelar boa intenção expressa ao estilo dele. Dar atenção a este episódio menor serve objectivamente apenas para desviar o foco de outros aspectos (esses sim bem graves) da sua actuação.
Evo Morales, presidente da Bolívia, entrou ontem em greve de fome. Em democracia, isto significa o quê?
Em Democracia, o poder que se tem é dado (ou melhor: emprestado) pelo povo. Se o povo for sensível à greve de fome e não às propostas que estão em discussão, o povo terá o que merece.
Helena Teixeira da Silva
Tags: TIAGO AZEVEDO FERNANDES /