
Raras mulheres em Portugal, conhecendo as regras provocatórias desta entrevista, aceitam dá-la. Paula Bobone, apaixonada pelo Porto, cidade que visita cada vez mais vezes, respondeu a tudo com fairplay. Com humor e inteligência - a sua arma escondida que, diz, não mostra para não aterrorizar as pessoas.
Publicou recentemente o livro “Manual de Instruções para homens de sucesso”. Porque é que os homens hão-de dar-lhe ouvidos?
Porque parto do princípio que ainda há uma pequena camada de portugueses que tem a noção de que ainda tem que aprender algumas coisas para ser gente civilizada. E para mudar de classe social, para ascender socialmente. As pessoas às vezes têm dinheiro, têm posição e comportam-se que nem uns javardos. Com aquele manual, se me derem ouvidos, não se arrependem. Eu prego bem [Risos]. Sou uma excelente superior lá da paróquia.
É um livro para José Sócrates ler?
Porque não? Só lhe fazia bem! Mas ele se calhar não precisa, deve ter imensos consultores de imagem que sabem o mesmo que eu. Mesmo assim é sempre um livrinho bom para ler nas horas vagas. Não sei é se ele tem horas vagas, tem vagas horas, não sei se tem horas vagas [Risos].
Tornou-se mais conhecida através da sua vida social, mas tem uma extensa carreira nos bastidores da política, sobretudo o Ministério da Cultura e na Assembleia da República. Com quantos ministros da Cultura trabalhou?
Nunca fiz política partidária, era funcionária pública. Fui dirigente do Ministério da Cultura durante 36 anos. Trabalhei com todos os ministros da Cultura. O primeiro não era ministro, era secretário de Estado, era o Eduardo Prado Coelho, que já morreu. Depois, foi o Vasco Pulido Valente, de quem tenho óptimas memórias. É talvez o homem que mais admiro em Portugal, pela sua inteligência, cultura, frontalidade e pela sua capacidade de expressão. E depois trabalhei com outros, David Mourão Ferreira duas vezes, Hélder Macedo, Manuel Maria Carrilho, Teresa Patrício Gouveia, Coimbra Martins, Lucas Pires, tantos, tantos. Uns muito interessantes, outros menos.
Consegue eleger o que terá feito mais pela Cultura em Portugal?
Pela Cultura nenhum. Mas pelo Ministério da Cultura foi o Vasco Pulido Valente. Foi ele que fez, no tempo do Sá Carneiro, a lei orgânica de um ministério que andava à deriva. Tinha sido formado recentemente, e o Vasco, no pouco tempo que lá esteve, fez qualquer coisa de marcante: determinou o destino do que é o ministério hoje em dia .
O que é mais postiço: os bastidores da vida social ou política?
O que é postiço é falsificar as aparências. E isso acontece nos dois lados. A essência e a aparência são coisas que não tem nada a ver uma com a outra. Nunca somos aquilo que parecemos nem nunca parecemos aquilo que somos. É evidente que o facto de ter trabalhado nos bastidores directamente com dirigentes políticos, deputados, intelectuais, de os ter conhecido por dentro diz-me que a fachada que eles mostram é diferente. Mas isso acontece com toda a gente. Eu própria tenho a minha vida privada e a minha vida pública, e não tem nada a ver uma com a outra. Todos temos um lado escondido. Grave, às vezes, é que a imagem pública seja abaixo das expectativas dos cargos. Há pessoas com muita responsabilidade social, com referências, e que infelizmente desiludem pela falta de valores, de civismo. Em todo o caso, também pelo seu papel. Os políticos ganham mal em Portugal e às tantas também não querem trabalhar muito, embora eu ache que eles trabalhem bastante. Admiro as pessoas, só que depois elas, coitadas, não têm culpa de as circunstâncias não lhes permitirem fazer certos trabalhos que queriam fazer. A vida não está fácil, há muitos obstáculos para saltar. É preciso ser-se muito sério. Mas, para mim, o maior problema dessa gente é levar-se demasiadamente a sério. Não têm sentido de humor, maleabilidadede, tomam-se por muito importantes e ao fim e ao cabo… enfim…
Essa sua experiência fê-a acreditar mais ou menos os políticos? Vota?
Não, não voto, Não vale a pena. Não votar é uma forma de votar, compreende? De facto, as pessoas votam para quê? Os votos não são todos iguais, embora a contagem o seja. Há pessoas cujo voto contém um valor que não é equivalente. Repare, é muito importante alfabetizar as pessoas, fazer com que não sejam manipuladas por partidos, que saibam bem o que querem, que tenham confiança nas pessoas em quem votam… Ora, nós votamos em pessoas que não conhecemos! Então, votar é o que? Eu sou um bocadinho anarquista, mas depois sou muito cumpridora e muito leal, muito patriótica e gosto muito do meu país. Portanto, tenho muito respeito pelas pessoas que estão no poder. Quem vota decide, e eu aceito. A democracia é mais ou menos isto: é a ditadura da maioria. Há uma maioriazinha de 51% que manda. Eu não pertenço a nenhum grupo: nem aos 51% nem aos 49%. Faço parte do grupo dos que não vota, mas que respeita toda a gente.
Manuela Ferreira Leite tem sido criticada mais ou menos por tudo e por nada. Se ela a contratasse como consultora de imagem, o que é que lhe diria?
Eu tenho a certeza de que ela nunca me contrataria, não vou perder tempo com isso. As pessoas que me contratam para assessoria de imagem sabem que lhes dou uma tal volta!… Manuela Ferreira Leite ficaria irreconhecível e o PSD era capaz de a expulsar [Risos].
Diz sempre o que pensa ou também sabe calar?
Não. Eu sou muito repentista. Digo coisas, às vezes inteligentíssimas, e depois penso: com é que eu disse aquilo? Um dia perguntei a um psiquiatra e ele disse que tenho outra pessoa dentro de mim. Portanto, devo ter uma pessoa dentro de mim que não conheço. São os mistérios insondáveis do ser humano.
Tem sete livros publicados, o mais conhecido ainda é o “Socialmente correcto”. Num país como Portugal, esse êxito de vendas significa o quê?
É o náugrafo que precisa de uma tábua de salvação. As pessoas andam perdidas, não sabem como comportar-se, não têm referências públicas, não têm cultura, têm um imenso vazio interior. Estou a falar da maioria, mas não da totalidade da população. Por isso eu tive a ousadia de pôr por escrito as regras não escritas da sociedade. Porque, repare, há regras escritas na sociedade: a Constituição, o Código da Estrada e os outros, e as pessoas que não cumprem pagam multa ou vão presas. Quem não cumpre as regras do comportamento social fica simplesmente ridículo e mal visto. Agora, eu fiz isso com boa intenção. Mas não fui a única, não fui original. O livro teve sucesso por coisas que cá sei, mas que agora não vou dizer porque não vou ensinar o meu segredo [Risos].
A etiqueta é sempre sinal de de boa educação?
Não, é possidoneira. Repare, a etiqueta é um conjunto de regras que a sociedade convencionou como boas para serem adoptadas por determinados grupos sociais. Os excluídos sociais, por exemplo, não têm nada que saber as regras das classe A nem pô-las em prática, está a perceber? Cada classe tem as suas convenções. Quando as pessoas querem subir de classe imitam as regras da classe acima da sua, são os chamados snobs, alpinistas sociais. Aliás, alguém, um simpático cronista social, escreveu sobre isso, mas eu não li . Só leio as coisas com que aprendo. Não ia aprender nada com ele. Mas a ideia de alpinistas ou trepadores sociais é uma coisa já muito antiga, muito conhecida, que vem do Brasil. E as pessoas que querem subir socialmente julgam que o conseguem fazer aprendendo as regras. Mas não é por aí. Porque depois é preciso patine, naturalidade, é preciso que pareça inato aquilo que afinal foi adquirido. Temos que nascer num berço com coisas lá dentro que nos possam dar valor, percebe? E isso é o que não está a acontecer. Por isso é que as pessoas estão vazias angustiadas, solitárias infelizes. Porque a vida às vezes também está difícil, o país está nesta crise financeira, ainda mais do que os outros lá for a. E as pessoas às tantas têm um sonho, o sonho de serem felizes, mas a felicidade não se aprende por livro. A sociedade é uma coisa posicional: eu tenho tudo o que quero, mas a partir do momento em que vejo outra pessoa que tem mais do que eu já me sinto infeliz, porque quero ter não aquilo que eu tenho e quero mas aquilo que a outra pessoa tem. De maneira que isto é tudo muito relativo. Mas eu ensino às pessoas regras de comportamento. Ou melhor, não ensino, transmito os ensinamentos que a herança civilizacional trouxe até hoje e que são adoptados pelas classes dominantes. Eu observo, estudo, leio, não só em Portugal mas também no estrangeiro e chego a conclusões. Quem quer seguir segue, quem não quiser não segue. O problema é deles.
Prefere o povo na sua humildade, na sua simplicidade ou o rigoroso cumprimento dessa etiqueta mesmo quando é hipócrita?
Ah, eu prefiro todos. Eu gosto de pessoas. Tenho uma pancada enorme, gosto imenso de conhecer gente, seja de que classe for. A autenticidade é que me fascina. Agora, a hipocrisia da hipocrisia é uma coisa desgraçada. As pessoas que se imitam a elas próprias, como a Lili Caneças ou o José Castelo Branco, que são a caricatura da caricatura. Eles até têm graça, têm uma função, mas são uns maus ícones que a sociedade portuguesa cultiva e que não enobrecem nada os padrões que devíamos ter. Conheço pessoas muito mais interessantes noutros países e que são muito mais icónicas e que não se comportam daquela forma. Nota-se sobretudo quando a cultura anda por ali...
Quando era funcionária dos CTT já sonhava com o dia em que seria a rainha da festa?
[Risos] Ó minha amiga, prove-me o que está a dizer! Vá aos CTT e pergunte se eu alguma vez fui lá funcionária. Isso é uma invenção de alguém muito divertido e com um grande poder de expansão da calúnia, ainda que eu não me sinta caluniada. Comecei a trabalhar pela primeira vez na vida na TAP como dirigente de um serviço de charters em 1968. Depois fui para Angola com o meu marido. Regressei e comecei a trabalhar no Ministério da Cultura. A única coisa que fiz nos CTT foi mandar cartas, comprar selos, lamber os selos, colá-los na carta e mandá-los para vários sítios. Nunca trabalhei nos CTT. A pessoa que inventou isso tem a maior graça, mas essa história é uma bola de neve. Nunca fui e nunca irei ser, suponho, funcionária dos CTT, que não me devem querer lá agora. Mas foi uma bela invenção.
Fica o desmentido, desfeito o equívoco…
Estou-me nas tintas. Eu sei que isso está na net. Não se preocupe, não é grave. Faz parte de um pacote de coisas que circulam a meu respeito, porque a internet, com essa coisa de as pessoas não se identificarem, permite espalhar calúnias escandalosas que prejudicam os outros. Eu farto-me de rir com o que leio na net sobre mim e que não corresponde à realidade. Tenho verdadeiros ataques de riso. Porque vejo que não estão a falar de mim, estão a falar de outra pessoa.
Já disse que não se importa minimamente que falem mal de si. Mesmo quando dizem que é uma pessoa vazia com a pretensão de parecer cheia?
Isso é mais uma estupidez. Eu devo ser das pessoas menos vazias deste país. E você bem vê pela entrevista que lhe estou a dar que eu tenho um cabedal cultural, tirei um curso de letras, com uma nota baixa, fiz germânicas com 12 valores. Mas na vida uso este princípio: diz-me que biblioteca tens, dir-te-ei quem és. Vejam os livros que eu li, os que eu aproveitei, os que eu já escrevi e depois digam-se se sou vazia. Eu sou é uma pessoa muito bem disposta e sou muito lúdica. E tenho uma aparência social que não corresponde à minha parte intelectual. Não mostro nem exibo essa parte de mim porque a minha vida não é o big brother, mas eu sou basicamente, de facto, uma mulher de cultura. E tenho projectos muito sérios. Amo o meu país e quero fazer coisas por nós. Mas, infelizmente, a única oportunidade que eu tenho de ser mediática é através de uma via um bocadinho histriónica, mas que não me rala nada, porque os que não me gramam têm que me aguentar e é também isso que me faz crescer. Se as calúnias tivessem a ver com a minha honra seria diferente, agora dizerem que sou vazia, ah, quero lá saber! Tenho 65 quilos, não posso ser vazia [Risos]. As coisas que eu mais odeio são pessoas vazias, imagine você! Não estou a dizer que sou a maior, está a compreender? Agora, se me perguntar quem são as pessoas que mais admiro, os meus ídolos são sempre professores universitários, investigadores, historiadores e nunca políticos ou vedetas de televisão.
É por isso que diz que esconde a sua inteligência, para não assustar ninguém?
[Risos]. Sim, sim. Para não aterrorizar as pessoas.
Qual é a sua defesa, o seu escudo?
Tenho um background organizado, as contas em dia, uma família organizada, a casa arrumada e pouco tempo para ler. Os livros que ainda não li determinam a minha esperança de vida, ela mede-se pelos livros que eu tenho para ler lá em casa. Só posso morrer depois de os ler. E a defesa é também o ataque: na cultura, na leitura, as viagens maravilhosas, nos meios sociais internacionais com pessoas interessantíssimas que gostam mesmo de mim. Cá em Portugal também tenho um grupo de amigos sólido. O que é que eu quero mais? Saúde. A saúde é o mais importante.
Andou a fotografar as ruínas do Porto e de Lisboa. Fotografar é um hobbie?
É um vício do qual não me livro. Os portugueses têm muito pouco respeito pelo passado, não só em relação aos monumentos, que estão todos a cair, como também pelo seu passado urbanístico e arquitectónico. Eu não quero dizer nada com isso, só deixar registado, porque essa ruínas têm mais estética do que os prédios modernaços que fazem agora nas periferias. Os portugueses tem pouco respeito pelo património, não se vê isto em nenhum sítio senão cá. Há uma total falta de sentido das prioridades. Lisboa e Porto estão a cair aos bocados, a zona história está a cair peça-a-peça. Uma casa que cai é o primeiro passo para outra que se constrói. E eles, os tipos das Câmaras, querem sempre construir coisas novas.
Gosta mais de fotografar ou de ser fotografada?
Boa pergunta. Eu sou narcisista, já deve ter percebido. E gosto de dar entrevistas. As entrevistas para mim são duas coisas: narcisismo e terapia. Em vez de ir ao psicólogo estou aqui agora a fazer a minha terapiazinha consigo. E depois é narcisismo, estou a falar bem de mim, estou a defender-me, é diferente. Dou uma entrevista por dia, qualquer dia começo a cobrar [Risos].
Ainda gosta de enfeitar-se como “uma árvore de Natal”?
Gosto de me decorar, sou muito barroca, tenho horror do vazio, sou consumista, faço o que posso para me caracterizar como um certo personagem. Hoje vou a um jantar, daqui a nada vou para casa, vou-me enfeitar, não como uma árvore de Natal, mas vou-me divertir. Ouça, divirto-me. Se fosse cantora de ópera teria a sorte de ter roupas magníficas; assim vou ao meu guarda-roupa, escolho lá umas coisas e faço umas composições e faço o possível para variar. É a parte lúdica, quase infantil. Sou um bocado infantil. Gosto de me divertir com pequenas coisas e isto é uma coisa pequena que me diverte para compensar a minha luta pela vida que não é fácil, às vezes.
Tem três livros no prelo. Que diferença há entre os livros que lê e os livros que escreve?
Tenho sorte, porque os livros que leio são sempre melhores do que os livros que escrevo. Não leio porcarias, não leio livros maus. Vou a muitos lançamentos de livros, de pessoas que estimo e admito, mas que não leio porque só leio para aprender. Não leio por evasão, mas por valorização e aumento dos meus conhecimentos. Só me interessa aquilo que me engrandece. Quando morrer não me poderei queixar. Não passei pela vida com indiferença. Percebi que há uma coisa chamada cultura que me fascina. Nem é a estética, embora também seja importante; são os valores, é percebermos que o homem anda na terra para se tornar melhor e houve grandes homens que deixaram grandes heranças. Modestamente, faço o que está ao meu alcance, enquanto tiver poder económico para comprar livros e viajar. Gosto muito de museus também, tenho muitos livros sobre arte, mas não compro arte. Decoro a minha casa com outras coisas mais modestas.
Helena Teixeira da Silva