Maio 2009 - Posts



Raras mulheres em Portugal, conhecendo as regras provocatórias desta entrevista, aceitam dá-la. Paula Bobone, apaixonada pelo Porto, cidade que visita cada vez mais vezes, respondeu a tudo com fairplay. Com humor e inteligência - a sua arma escondida que, diz, não mostra para não aterrorizar as pessoas.

Publicou recentemente o livro “Manual de Instruções para homens de sucesso”. Porque é que os homens hão-de dar-lhe ouvidos?

Porque parto do princípio que ainda há uma pequena camada de portugueses que tem a noção de que ainda tem que aprender algumas coisas para ser gente civilizada. E para mudar de classe social, para ascender socialmente. As pessoas às vezes têm dinheiro, têm posição e comportam-se que nem uns javardos. Com aquele manual, se me derem ouvidos, não se arrependem. Eu prego bem [Risos]. Sou uma excelente superior lá da paróquia.

É um livro para José Sócrates ler?

Porque não? Só lhe fazia bem! Mas ele se calhar não precisa, deve ter imensos consultores de imagem que sabem o mesmo que eu. Mesmo assim é sempre um livrinho bom para ler nas horas vagas. Não sei é se ele tem horas vagas, tem vagas horas, não sei se tem horas vagas [Risos].

Tornou-se mais conhecida através da sua vida social, mas tem uma extensa carreira nos bastidores da política, sobretudo o Ministério da Cultura e na Assembleia da República. Com quantos ministros da Cultura trabalhou?

Nunca fiz política partidária, era funcionária pública. Fui dirigente do Ministério da Cultura durante 36 anos. Trabalhei com todos os ministros da Cultura. O primeiro não era ministro, era secretário de Estado, era o Eduardo Prado Coelho, que já morreu. Depois, foi o Vasco Pulido Valente, de quem tenho óptimas memórias. É talvez o homem que mais admiro em Portugal, pela sua inteligência, cultura, frontalidade e pela sua capacidade de expressão. E depois trabalhei com outros, David Mourão Ferreira duas vezes, Hélder Macedo, Manuel Maria Carrilho, Teresa Patrício Gouveia, Coimbra Martins, Lucas Pires, tantos, tantos. Uns muito interessantes, outros menos.

Consegue eleger o que terá feito mais pela Cultura em Portugal?

Pela Cultura nenhum. Mas pelo Ministério da Cultura foi o Vasco Pulido Valente. Foi ele que fez, no tempo do Sá Carneiro, a lei orgânica de um ministério que andava à deriva. Tinha sido formado recentemente, e o Vasco, no pouco tempo que lá esteve, fez qualquer coisa de marcante: determinou o destino do que é o ministério hoje em dia .

O que é mais postiço: os bastidores da vida social ou política?

O que é postiço é falsificar as aparências. E isso acontece nos dois lados. A essência e a aparência são coisas que não tem nada a ver uma com a outra. Nunca somos aquilo que parecemos nem nunca parecemos aquilo que somos. É evidente que o facto de ter trabalhado nos bastidores directamente com dirigentes políticos, deputados, intelectuais, de os ter conhecido por dentro diz-me que a fachada que eles mostram é diferente. Mas isso acontece com toda a gente. Eu própria tenho a minha vida privada e a minha vida pública, e não tem nada a ver uma com a outra. Todos temos um lado escondido. Grave, às vezes, é que a imagem pública seja abaixo das expectativas dos cargos. Há pessoas com muita responsabilidade social, com referências, e que infelizmente desiludem pela falta de valores, de civismo. Em todo o caso, também pelo seu papel. Os políticos ganham mal em Portugal e às tantas também não querem trabalhar muito, embora eu ache que eles trabalhem bastante. Admiro as pessoas, só que depois elas, coitadas, não têm culpa de as circunstâncias não lhes permitirem fazer certos trabalhos que queriam fazer. A vida não está fácil, há muitos obstáculos para saltar. É preciso ser-se muito sério. Mas, para mim, o maior problema dessa gente é levar-se demasiadamente a sério. Não têm sentido de humor, maleabilidadede, tomam-se por muito importantes e ao fim e ao cabo… enfim…

Essa sua experiência fê-a acreditar mais ou menos os políticos? Vota?

Não, não voto, Não vale a pena. Não votar é uma forma de votar, compreende? De facto, as pessoas votam para quê? Os votos não são todos iguais, embora a contagem o seja. Há pessoas cujo voto contém um valor que não é equivalente. Repare, é muito importante alfabetizar as pessoas, fazer com que não sejam manipuladas por partidos, que saibam bem o que querem, que tenham confiança nas pessoas em quem votam… Ora, nós votamos em pessoas que não conhecemos! Então, votar é o que? Eu sou um bocadinho anarquista, mas depois sou muito cumpridora e muito leal, muito patriótica e gosto muito do meu país. Portanto, tenho muito respeito pelas pessoas que estão no poder. Quem vota decide, e eu aceito. A democracia é mais ou menos isto: é a ditadura da maioria. Há uma maioriazinha de 51% que manda. Eu não pertenço a nenhum grupo: nem aos 51% nem aos 49%. Faço parte do grupo dos que não vota, mas que respeita toda a gente.

Manuela Ferreira Leite tem sido criticada mais ou menos por tudo e por nada. Se ela a contratasse como consultora de imagem, o que é que lhe diria?

Eu tenho a certeza de que ela nunca me contrataria, não vou perder tempo com isso. As pessoas que me contratam para assessoria de imagem sabem que lhes dou uma tal volta!… Manuela Ferreira Leite ficaria irreconhecível e o PSD era capaz de a expulsar [Risos].

Diz sempre o que pensa ou também sabe calar?

Não. Eu sou muito repentista. Digo coisas, às vezes inteligentíssimas, e depois penso: com é que eu disse aquilo? Um dia perguntei a um psiquiatra e ele disse que tenho outra pessoa dentro de mim. Portanto, devo ter uma pessoa dentro de mim que não conheço. São os mistérios insondáveis do ser humano.

Tem sete livros publicados, o mais conhecido ainda é o “Socialmente correcto”. Num país como Portugal, esse êxito de vendas significa o quê?

É o náugrafo que precisa de uma tábua de salvação. As pessoas andam perdidas, não sabem como comportar-se, não têm referências públicas, não têm cultura, têm um imenso vazio interior. Estou a falar da maioria, mas não da totalidade da população. Por isso eu tive a ousadia de pôr por escrito as regras não escritas da sociedade. Porque, repare, há regras escritas na sociedade: a Constituição, o Código da Estrada e os outros, e as pessoas que não cumprem pagam multa ou vão presas. Quem não cumpre as regras do comportamento social fica simplesmente ridículo e mal visto. Agora, eu fiz isso com boa intenção. Mas não fui a única, não fui original. O livro teve sucesso por coisas que cá sei, mas que agora não vou dizer porque não vou ensinar o meu segredo [Risos].

A etiqueta é sempre sinal de de boa educação?

Não, é possidoneira. Repare, a etiqueta é um conjunto de regras que a sociedade convencionou como boas para serem adoptadas por determinados grupos sociais. Os excluídos sociais, por exemplo, não têm nada que saber as regras das classe A nem pô-las em prática, está a perceber? Cada classe tem as suas convenções. Quando as pessoas querem subir de classe imitam as regras da classe acima da sua, são os chamados snobs, alpinistas sociais. Aliás, alguém, um simpático cronista social, escreveu sobre isso, mas eu não li . Só leio as coisas com que aprendo. Não ia aprender nada com ele. Mas a ideia de alpinistas ou trepadores sociais é uma coisa já muito antiga, muito conhecida, que vem do Brasil. E as pessoas que querem subir socialmente julgam que o conseguem fazer aprendendo as regras. Mas não é por aí. Porque depois é preciso patine, naturalidade, é preciso que pareça inato aquilo que afinal foi adquirido. Temos que nascer num berço com coisas lá dentro que nos possam dar valor, percebe? E isso é o que não está a acontecer. Por isso é que as pessoas estão vazias angustiadas, solitárias infelizes. Porque a vida às vezes também está difícil, o país está nesta crise financeira, ainda mais do que os outros lá for a. E as pessoas às tantas têm um sonho, o sonho de serem felizes, mas a felicidade não se aprende por livro. A sociedade é uma coisa posicional: eu tenho tudo o que quero, mas a partir do momento em que vejo outra pessoa que tem mais do que eu já me sinto infeliz, porque quero ter não aquilo que eu tenho e quero mas aquilo que a outra pessoa tem. De maneira que isto é tudo muito relativo. Mas eu ensino às pessoas regras de comportamento. Ou melhor, não ensino, transmito os ensinamentos que a herança civilizacional trouxe até hoje e que são adoptados pelas classes dominantes. Eu observo, estudo, leio, não só em Portugal mas também no estrangeiro e chego a conclusões. Quem quer seguir segue, quem não quiser não segue. O problema é deles.

Prefere o povo na sua humildade, na sua simplicidade ou o rigoroso cumprimento dessa etiqueta mesmo quando é hipócrita?

Ah, eu prefiro todos. Eu gosto de pessoas. Tenho uma pancada enorme, gosto imenso de conhecer gente, seja de que classe for. A autenticidade é que me fascina. Agora, a hipocrisia da hipocrisia é uma coisa desgraçada. As pessoas que se imitam a elas próprias, como a Lili Caneças ou o José Castelo Branco, que são a caricatura da caricatura. Eles até têm graça, têm uma função, mas são uns maus ícones que a sociedade portuguesa cultiva e que não enobrecem nada os padrões que devíamos ter. Conheço pessoas muito mais interessantes noutros países e que são muito mais icónicas e que não se comportam daquela forma. Nota-se sobretudo quando a cultura anda por ali...

Quando era funcionária dos CTT já sonhava com o dia em que seria a rainha da festa?

[Risos] Ó minha amiga, prove-me o que está a dizer! Vá aos CTT e pergunte se eu alguma vez fui lá funcionária. Isso é uma invenção de alguém muito divertido e com um grande poder de expansão da calúnia, ainda que eu não me sinta caluniada. Comecei a trabalhar pela primeira vez na vida na TAP como dirigente de um serviço de charters em 1968. Depois fui para Angola com o meu marido. Regressei e comecei a trabalhar no Ministério da Cultura. A única coisa que fiz nos CTT foi mandar cartas, comprar selos, lamber os selos, colá-los na carta e mandá-los para vários sítios. Nunca trabalhei nos CTT. A pessoa que inventou isso tem a maior graça, mas essa história é uma bola de neve. Nunca fui e nunca irei ser, suponho, funcionária dos CTT, que não me devem querer lá agora. Mas foi uma bela invenção.

Fica o desmentido, desfeito o equívoco…

Estou-me nas tintas. Eu sei que isso está na net. Não se preocupe, não é grave. Faz parte de um pacote de coisas que circulam a meu respeito, porque a internet, com essa coisa de as pessoas não se identificarem, permite espalhar calúnias escandalosas que prejudicam os outros. Eu farto-me de rir com o que leio na net sobre mim e que não corresponde à realidade. Tenho verdadeiros ataques de riso. Porque vejo que não estão a falar de mim, estão a falar de outra pessoa.

Já disse que não se importa minimamente que falem mal de si. Mesmo quando dizem que é uma pessoa vazia com a pretensão de parecer cheia?

Isso é mais uma estupidez. Eu devo ser das pessoas menos vazias deste país. E você bem vê pela entrevista que lhe estou a dar que eu tenho um cabedal cultural, tirei um curso de letras, com uma nota baixa, fiz germânicas com 12 valores. Mas na vida uso este princípio: diz-me que biblioteca tens, dir-te-ei quem és. Vejam os livros que eu li, os que eu aproveitei, os que eu já escrevi e depois digam-se se sou vazia. Eu sou é uma pessoa muito bem disposta e sou muito lúdica. E tenho uma aparência social que não corresponde à minha parte intelectual. Não mostro nem exibo essa parte de mim porque a minha vida não é o big brother, mas eu sou basicamente, de facto, uma mulher de cultura. E tenho projectos muito sérios. Amo o meu país e quero fazer coisas por nós. Mas, infelizmente, a única oportunidade que eu tenho de ser mediática é através de uma via um bocadinho histriónica, mas que não me rala nada, porque os que não me gramam têm que me aguentar e é também isso que me faz crescer. Se as calúnias tivessem a ver com a minha honra seria diferente, agora dizerem que sou vazia, ah, quero lá saber! Tenho 65 quilos, não posso ser vazia [Risos]. As coisas que eu mais odeio são pessoas vazias, imagine você! Não estou a dizer que sou a maior, está a compreender? Agora, se me perguntar quem são as pessoas que mais admiro, os meus ídolos são sempre professores universitários, investigadores, historiadores e nunca políticos ou vedetas de televisão.

É por isso que diz que esconde a sua inteligência, para não assustar ninguém?

[Risos]. Sim, sim. Para não aterrorizar as pessoas.

Qual é a sua defesa, o seu escudo?

Tenho um background organizado, as contas em dia, uma família organizada, a casa arrumada e pouco tempo para ler. Os livros que ainda não li determinam a minha esperança de vida, ela mede-se pelos livros que eu tenho para ler lá em casa. Só posso morrer depois de os ler. E a defesa é também o ataque: na cultura, na leitura, as viagens maravilhosas, nos meios sociais internacionais com pessoas interessantíssimas que gostam mesmo de mim. Cá em Portugal também tenho um grupo de amigos sólido. O que é que eu quero mais? Saúde. A saúde é o mais importante.

Andou a fotografar as ruínas do Porto e de Lisboa. Fotografar é um hobbie?

É um vício do qual não me livro. Os portugueses têm muito pouco respeito pelo passado, não só em relação aos monumentos, que estão todos a cair, como também pelo seu passado urbanístico e arquitectónico. Eu não quero dizer nada com isso, só deixar registado, porque essa ruínas têm mais estética do que os prédios modernaços que fazem agora nas periferias. Os portugueses tem pouco respeito pelo património, não se vê isto em nenhum sítio senão cá. Há uma total falta de sentido das prioridades. Lisboa e Porto estão a cair aos bocados, a zona história está a cair peça-a-peça. Uma casa que cai é o primeiro passo para outra que se constrói. E eles, os tipos das Câmaras, querem sempre construir coisas novas.

Gosta mais de fotografar ou de ser fotografada?

Boa pergunta. Eu sou narcisista, já deve ter percebido. E gosto de dar entrevistas. As entrevistas para mim são duas coisas: narcisismo e terapia. Em vez de ir ao psicólogo estou aqui agora a fazer a minha terapiazinha consigo. E depois é narcisismo, estou a falar bem de mim, estou a defender-me, é diferente. Dou uma entrevista por dia, qualquer dia começo a cobrar [Risos].

Ainda gosta de enfeitar-se como “uma árvore de Natal”?

Gosto de me decorar, sou muito barroca, tenho horror do vazio, sou consumista, faço o que posso para me caracterizar como um certo personagem. Hoje vou a um jantar, daqui a nada vou para casa, vou-me enfeitar, não como uma árvore de Natal, mas vou-me divertir. Ouça, divirto-me. Se fosse cantora de ópera teria a sorte de ter roupas magníficas; assim vou ao meu guarda-roupa, escolho lá umas coisas e faço umas composições e faço o possível para variar. É a parte lúdica, quase infantil. Sou um bocado infantil. Gosto de me divertir com pequenas coisas e isto é uma coisa pequena que me diverte para compensar a minha luta pela vida que não é fácil, às vezes.

Tem três livros no prelo. Que diferença há entre os livros que lê e os livros que escreve?

Tenho sorte, porque os livros que leio são sempre melhores do que os livros que escrevo. Não leio porcarias, não leio livros maus. Vou a muitos lançamentos de livros, de pessoas que estimo e admito, mas que não leio porque só leio para aprender. Não leio por evasão, mas por valorização e aumento dos meus conhecimentos. Só me interessa aquilo que me engrandece. Quando morrer não me poderei queixar. Não passei pela vida com indiferença. Percebi que há uma coisa chamada cultura que me fascina. Nem é a estética, embora também seja importante; são os valores, é percebermos que o homem anda na terra para se tornar melhor e houve grandes homens que deixaram grandes heranças. Modestamente, faço o que está ao meu alcance, enquanto tiver poder económico para comprar livros e viajar. Gosto muito de museus também, tenho muitos livros sobre arte, mas não compro arte. Decoro a minha casa com outras coisas mais modestas.

Helena Teixeira da Silva

Não há resposta sem gargalhada larga. Ana Anes, 34 anos, é uma lufada de ar fresco num país onde ninguém arrisca desviar-se do politicamente correcto. Atrás do que esbanja no que escreve, quase sempre sobre sexo, quem pode saber quem ela realmente é?
 
É a única colunista portuguesa cujo texto apareceu acompanhado por uma fotografia sua nua. Foi por ser para a Playboy?
Não, foi por ser vontade minha. Por mim já me tinha despido há mais tempo [Risos].

Cláudia Jacques disse que todas as mulheres desejaram um dia, ainda que secretamente, ser capa daquela publicação. É o seu desejo também?
Claro que sim! [Risos]

Há mulheres que já começaram a preparar o corpo para a eventualidade de um convite. É o seu caso?
É. Acabei de fazer uma cirurgia plástica. Uma mamoplastia [Risos].

Colecciona uma invejável lista de colaborações na imprensa portuguesa. O sexo vende sempre?
Sim, é quase garantido que vende. A forma; o conteúdo menos.

No Independente escreveu uma controversa crónica que intitulou: “Os homens e os minetes”. E recebeu, supostamente, uma resposta feroz de Miguel Sousa Tavares. Era realmente dele?
Não sei, porque não é uma pessoa que eu aprecie. Se me interessasse, com certeza que gostaria de saber. Assim, só li metade da carta e depois desisti. Era tão estúpida.

E de Paulo Portas, que reacção recebeu quando escreveu ‘O rabiosque do Dr. Portas’?
Ah, ele não ficou nada zangado, pelo que soube. Acho que se riu imenso. Aliás, não esperava outra coisa dele.

Há mais algum rabiosque na política que lhe mereça atenção?
Não. Devem ser todos muito peludos, feios e descaídos. Mas talvez o do Pedro Passos Coelho, talvez esse gostasse de ver [Risos].
 
Foi assessora na Câmara Municipal de Sintra, a autarquia que Manuel Luís Goucha jura um dia querer liderar. É ele o homem que te faria voltar ali?
Depende de quanto me pagasse e depende do cargo. Mas sim, ele era homem para me fazer voltar.
 
O seu pai cortou relações consigo quando deixou as licenciaturas, duas, a meio, por não levar a faculdade a sério...
Não, não, não. Deixe-me interromper. Ele começou por deixar de me falar quando troquei, no último ano, Engenharia de Materiais por Relações Públicas. Na altura, esta licenciatura não era nada conhecida. Ele disse que eu iria acabar a arrumar prateleiras num supermercado. Então, ficou três semanas sem me falar. Ou seja, eu levo a faculdade muito a sério, mas terminar alguma coisa deveria ter sido na área de ciências. Mas depois isso obrigava-me a sair de Portugal, e eu não queria sair porque não queria muito deixar o meu pai. Sobretudo o meu pai, porque a minha mão não vive cá.

Ainda assim, o seu pai, que cortou relações consigo quando trocou de licenciatura, que reacção teve quando publicou o livro “Sete anos de mau sexo”?
Adorou, adorou, adorou. Quando mostro as maminhas ele fica completamente em choque, mas depois adora as crónicas. No meio disto tudo, temos uma cumplicidade enorme.

Nem os amigos dele da maçonaria tentam convencê-la a ser mais contida?
Ninguém me convence de nada, muito menos a maçonaria [Risos]. Nem sequer se atrevem. Sabem que só sou alvo da minha própria vontade.

Mesmo sendo o seu pai, José Manuel Anes, grão mestre da maçonaria regular?
Isso é uma opção dele, que respeito. Mas não tenho nada a ver com a maçonaria em geral.

Quem a conhece, garante que é uma menina romântica, quase tímida. Não é nada do que parece nas crónicas?
É isso mesmo: nada!

Criou uma personagem?
Criei uma defesa.

Porquê? É preciso uma certa dose de irresponsabilidade para brincar com o sexo em Portugal?
Irresponsabilidade não é algo que norteie a minha vida. Sou muito racional, calculista até. Mas as pessoas gostam de subestimar-nos, vêem-nos sempre como estouvadas ou louras ou coisa assim. Criei uma defesa por ser filha do meu pai, por ter que provar a dobrar que não tenho cunhas de ninguém. Sigo apenas o meu caminho.

Nunca teve medo de não ser levada a sério na escrita?
A principal pessoa que não se leva a sério na escrita sou eu. Há muito boa gente que se leva demasiado a sério na escrita e na verdade devia ver-se melhor ao espelho.

Há quem diga que  a Ana e a Margarida Rebelo Pinto são as únicas cronistas a escrever para os homens. Tenho dificuldade em encontrar semelhanças, mas existem ou são coincidência?
Não temos rigorosamente nenhuma semelhança, e graças a Deus.

José de Pina escreveu que se o seu livro tivesse saído mais cedo, “Pinto da Costa não teria cometido tantos disparates e o Calor da Noite não teria perdido uma das suas melhores alternadeiras”. O que é que Pinto da Costa poderia ter aprendido com o seu livro?
Nada. Mesmo. Pinto da Costa poderia ter escrito dez livros destes. E de uma penada só [Risos].

Onde gostava mais de ver o livro: a ser lido a socapa no Parlamento ou à venda numa sex shop?
Gostava muito de o ver nos dois sítios. Imagino perfeitamente o Francisco Louça a ler o livro por baixo da bancada do Parlamento.

Quem se esconde atrás da personagem? Se não é o que parece, quem é?
Sou uma pessoa como as outras, mas com sentido de humor e com espírito crítico. No meu mundo só entra quem eu deixo.
 
Helena Teixeira da Silva

No Parlamento Europeu fala-se do “acervo Silva Peneda”. Da Direita à Esquerda, os deputados (incluindo Ana Gomes e Miguel Portas) lamentaram publicamente que o PSD não tenha permitido que Silva Peneda, 59 anos, dê continuidade ao seu trabalho, sobretudo na área social. Ele, homem do Norte, emociona-se, confessa que até fica vaidoso com as manifestações, mas não comenta a decisão de Manuela Ferreira Leite. "Acato-a e respeito-a".

Paulo Rangel é um bom cabeça de lista às europeias ou precisa mesmo de mais papas Maizena?
[Risos] É um bom cabeça de lista. Não o conheço em detalhe, mas é um homem acima da média.


Não há política sem a política da agressão verbal, como ele disse?
A minha experiência tem sido sobretudo no Parlamento Europeu onde não há a agressividade e emotividade que dominam o parlamento nacional.Mas a agressão verbal é sempre má, até porque Portugal tem coisas mais importantes para discutir...


Está agora a discutir a lei do financiamento aos partidos. Concorda com João Cravinho quando ele diz que está “aberto o leilão à corrupção”?
Completamente. Os políticos deviam dedicar-se exclusivamente à política. Seria uma manobra higiénica se no próximo mandato os deputados renunciassem  a qualquer tipo de negócio. 


Cavaco Silva deixa passar a proposta ou soma mais um veto?
[Risos] Não faço a mínima ideia.


Mas continua a ser cavaquista?
Continuo. É o tipo de político que gostaria de ver generalizado: homem honrado, sério, competente, com convicções, sem rodriguinhos. É o exemplo máximo.


A propósito de corrupção e Cavaco Silva, posso pedir-lhe uma posição sobre a permanência de Dias Loureiro no Conselho de Estado?
Se estivesse na posição dele propor-me-ia a sair até o assunto ficar resolvido. Era mais transparente. Mas só ele pode decidir.


O PSD celebrou agora 35 anos. O partido de Francisco Sá Carneiro ainda é o mesmo?
Não, não é. O país também não é o mesmo. O PSD nasceu com uma componente de ruralidade, era o partido dos homens bons da terra que estavam ali para servir, eram respeitados pelas suas posições, eram homens de bem.


Quem são os homens que hoje fazem o PSD?
A componente rural perdeu-se.  O PSD nasceu no Porto, não nasceu em Lisboa. Ao contrário do PS, era o partido das lutas e das reformas. Mas hoje é tudo diferente...


Se não se não sair das legislativas nenhuma solução evidente de governabilidade, Cavaco Silva deve apelar aos dois maiores partidos para formarem um bloco central com capacidade para gerar consensos para combater a crise?
Não sei o que vai acontecer, mas o país está numa situação muito difícil e ainda vai piorar. Portugal tem que começar a falar muito seriamente sobre as questões que têm a ver com a política europeia, decidir como quer posicionar-se. Há questões fundamentais que não vejo serem discutidas e que são as que nos podem ajudar a sair da situação em que estamos.


Mas o bloco central pode ou não ser uma solução possível?
Todas as soluções são possíveis. Depende muito dos resultados eleitorais para depois se poder considerar esse tipo de cenário. Mas o país não pode ficar numa situação de impasse e de instabilidade. Depois das eleições, as pessoas que estão à frente dos partidos têm que assumir a sua responsabilidade e tirar consequências dos seus resultados eleitorais.


Em 35 anos votou sempre PSD?
Sempre.


Mas o PSD deixou-o agora de lado nas europeias quando era sabido que tinha vontade de continuar...
Fiz um mandato, gostei muito, mas não faço comentários em causa própria. Só posso dizer que fiquei emocionado com as manifestações dos colegas, da esquerda à direita, que ficaram surpreendidos pela minha saída.


A lista é a única decisão de Ferreira Leite com a qual discorda?
Eu não disse que discordava da doutora Manuela Ferreira Leite. Acato e respeito a decisão dela. Se fiquei desiludido num primeiro momento? Fiquei.


É o fim da possibilidade de ser coordenador da área social na próxima legislatura pelo PPE?
É, claro. Para isso tinha que ser deputado. Tinha expectativa de ser coordenador, estava tudo preparado, e estava muito empenhado.  Agora, será o colega húngaro.

Helena Teixeira da Silva



A alegria dela tem asas. A voz é inconfundível. Ana Galvão, 34 anos, sangue espanhol nas veias, no ventre filho português, contagia diariamente o país com a sua energia. Que outro dia senão este, que é simultaneamente da Mãe e do Riso, poderia ser melhor para a entrevistar?

É mito ou Leonor, a personagem que se despe em “As bodas de Deus” de João César Monteiro, é mesmo a Ana?
Sou sim senhor. Mas gosto que se mantenha mito.

Então, por que razão assinou Ana Velasquez?
Quando escolhi o nome não tinha sequer ideia que iria fazer de Leonor, já que o César Monteiro iria dar-me outro papel, que acabou por não existir no filme. Leonor apareceu depois. Ana Velasquez porque era um desvio à minha profissão e porque é o meu pintor ibérico preferido.

Isso foi em 1998. Perdeu-se uma actriz?
Perdeu-se foi um papel que poderia ter sido desempenhado por alguém profissional. Na altura achei que poderia fazer, hoje vejo que é medíocre.

No contexto do cinema que se faz em Portugal, César Monteiro era um louco, um pervertido ou um génio?
Um louco com rasgos de génio e  com muitas tendências pervertidas.

Depois dessa experiência, aceitaria posar nua para a Playboy?
Só se fosse agora, a gravidez deu-me um peito digno de Playboy. O problema é a barriga não ser a mais adequada.

Nasceu em Madrid e veio para cá em 1988. Nesse ano, Dora ganhava o Festival da Canção com “Voltarei”, Rosa Mota emocionava o país com a medalha de ouro em Seul, Lisboa chorava o incêncio dos armazéns do Chiado, a Olá lançava o gelado Calipo, os Ban cantavam “Dá-me um ideal social...”. Tudo somado, era cartão de visita para ficar ou para fugir?
Tendo em conta que fugi de uma Espanha onde nos serões reinava o Um dois três e no top estava, sem dar tréguas, Julio Iglesias, penso que a opção era ficar.  Quanto ao Calipo, continua a ser um dos meus preferidos.

Qual foi a primeira imagem do país que ficou na memória dessa menina de 13 anos?
Tinha 14, vim cá parar no Verão. A imagem mais forte que tenho é a do incêndio do Chiado e de ver o fumo ao longe, nunca mais esqueci que foi em 88. Também me marcou muito o disco '88' dos Xutos & Pontapés que cheguei a enviar gravado em cassete a amigas minhas espanholas.
 
O que havia em Espanha nessa altura que ainda não tinha chegado cá e da qual sentiu falta?
O maravilhoso tomate frito pronto a servir que ainda hoje trago de Espanha. Senti muita falta de ver televisão traduzida, fez-me confusão acostumar-me a ver e a ler ao mesmo tempo, achei que em Portugal as pessoas eram muito inteligentes por conseguirem fazâ-lo.

Hoje faz todos os dias as Manhãs da Antena 3 [10h-13h]. É uma responsabilidade ser sempre o alegre despertador dos portugueses?

Sim, é uma responsabilidade oferecer  na rádio o que de melhor temos e sermos honestos com os ouvintes e  sei que a minha energia e a alegria são das melhores coisas que posso oferecer. Não me custa nada, custar-me-ia sim, e muito, ser diferente.

Quem é o seu Chanel nº 5 da rádio?
Sei que é óbvio, mas é avassaladoramente verdade: o Nuno Markl. Sempre foi, admiro o seu dom de criatividade  e de palavra. Numa gama Christian Dior, escolho o Sena Santos na informação e o Ricardo Portulez na animação.

E quem lhe desperta um espírito de serial killer?
Serei amputada por isto? Vamos dizê-lo sem medo: irritam-me todos os locutores que colocam muito a voz e dizem sem parar  frases que incluem as fórmulas : “Venha daí Comigo”; “Boa disposição”; “Para uma tarde muito divertida”, e  “Há quanto tempo não sorri a ninguém? Vá lá, sorria!”. 

Incomoda-a o número de abordagens sobre a união Markl-Galvão, como se Markl-Galvão fosse uma marca?
Já me incomodou mais, mas  como sei que não é uma marca das fortes , uma Sinca no mundo dos carros, e não me incomodam muito, acabo por não me angustiar com isso.

Depois de ter reencontrado o amor via Galvão, Markl disse sentir-se como Jack Lemmon no filme “Apartamento” [1960] de Billy Wilder. Se a vossa casa falasse, o que diria?
“E estas duas pessoas tão infantis que fazem desenhos um ao outro e os espalham pela casa preparam-se para  ter um filho? Deixa-me cá esconder as tomadas.”

Está a correr uma petição na internet para “forçar o Markl a deixar crescer a barba”, que ele cortou por amor. “Se achas que a barba dava um ar cool ao senhor Markl assina esta petição. Não deixes que o Markl se pareça finalmente com o geek que sempre imaginou ser” é a alegação. Está na disposição de o deixar ceder?
Façam justiça. Eu tinha dito que gostaria de o ver sem barba mas  a ideia de a tirar foi dele. Há quem me acuse de pretender transformar o velho Markl em alguém diferente. Quem tem de ceder  à petição é o senhor, embora aqui para nós, ele pica bem menos!
 
Markl tem dois sonhos: escrever o primeiro filme pornográfico português com genuínas inquitações existenciais, e escrever fábulas adultos com pouca vontade de crescer. Enquanto musa inspiradora, para qual poderia dar um contributo maior?
Sem dúvida para o segundo, eu própria sou uma adulta que às vezes tem pouca  vontade de crescer.

Desde que engravidou, diz que ganhou lágrima fácil. De que situações se envergonha de ter chorado?
Com filmes tontos como o Kung-Fu Panda (quando morre uma tartaruga), e por me ter caído há pouco tempo uma colcha macia na cabeça.

No seio de uma família assumidamente simpsónica, o ser markliano que aguarda poderá transformar-se num Bart Simpson?
Ao contrário das aparências, o Markl tem muito pouco de Homer, pois já nem barriga possui. Por isso é pouco provável que venha um Bart.

Têm-lhe pedido coisas improváveis como dirigir o Metro por um dia. Há alguma coisa que gostasse particularmente de experimentar e para a qual ainda não tenha sido desafiada?
Adorava que me convidassem para cantar. Embora tenha  uma péssima voz poderia apenas sussurrar como faz o Pedro Abrunhosa.

Hoje celebra-se o Dia da Mãe, o Dia Mundial do Riso e o dia do regresso de “Os Contemporâneos”. A Ana está a menos de um mês de ser mãe pela primeira vez, é conhecida pela sua voz contagiantemente alegre e suponho que não vá faltar à estreia da terceira temporada da série escrita por Nuno Markl. Se as pessoas fossem um dia, este seria realmente o seu?
Essa conjunção de factos farão com que seja um dia importante,  mas  o meu dia será quando tiver o Pedro.  Serei mãe pela primeira vez e será o primeiro dia para uma nova vida.

Helena Teixeira da Silva