domingo, 17 de Maio de 2009 3:56
jnonlineadmin
Ana Anes: "Pinto da Costa poderia ter escrito dez livros iguais ao meu"
Cláudia Jacques disse que todas as mulheres desejaram um dia, ainda que secretamente, ser capa daquela publicação. É o seu desejo também?
Claro que sim! [Risos]
Há mulheres que já começaram a preparar o corpo para a eventualidade de um convite. É o seu caso?
É. Acabei de fazer uma cirurgia plástica. Uma mamoplastia [Risos].
Colecciona uma invejável lista de colaborações na imprensa portuguesa. O sexo vende sempre?
Sim, é quase garantido que vende. A forma; o conteúdo menos.
No Independente escreveu uma controversa crónica que intitulou: “Os homens e os minetes”. E recebeu, supostamente, uma resposta feroz de Miguel Sousa Tavares. Era realmente dele?
Não sei, porque não é uma pessoa que eu aprecie. Se me interessasse, com certeza que gostaria de saber. Assim, só li metade da carta e depois desisti. Era tão estúpida.
E de Paulo Portas, que reacção recebeu quando escreveu ‘O rabiosque do Dr. Portas’?
Ah, ele não ficou nada zangado, pelo que soube. Acho que se riu imenso. Aliás, não esperava outra coisa dele.
Há mais algum rabiosque na política que lhe mereça atenção?
Não. Devem ser todos muito peludos, feios e descaídos. Mas talvez o do Pedro Passos Coelho, talvez esse gostasse de ver [Risos].
Foi assessora na Câmara Municipal de Sintra, a autarquia que Manuel Luís Goucha jura um dia querer liderar. É ele o homem que te faria voltar ali?
Depende de quanto me pagasse e depende do cargo. Mas sim, ele era homem para me fazer voltar.
O seu pai cortou relações consigo quando deixou as licenciaturas, duas, a meio, por não levar a faculdade a sério...
Não, não, não. Deixe-me interromper. Ele começou por deixar de me falar quando troquei, no último ano, Engenharia de Materiais por Relações Públicas. Na altura, esta licenciatura não era nada conhecida. Ele disse que eu iria acabar a arrumar prateleiras num supermercado. Então, ficou três semanas sem me falar. Ou seja, eu levo a faculdade muito a sério, mas terminar alguma coisa deveria ter sido na área de ciências. Mas depois isso obrigava-me a sair de Portugal, e eu não queria sair porque não queria muito deixar o meu pai. Sobretudo o meu pai, porque a minha mão não vive cá.
Ainda assim, o seu pai, que cortou relações consigo quando trocou de licenciatura, que reacção teve quando publicou o livro “Sete anos de mau sexo”?
Adorou, adorou, adorou. Quando mostro as maminhas ele fica completamente em choque, mas depois adora as crónicas. No meio disto tudo, temos uma cumplicidade enorme.
Nem os amigos dele da maçonaria tentam convencê-la a ser mais contida?
Ninguém me convence de nada, muito menos a maçonaria [Risos]. Nem sequer se atrevem. Sabem que só sou alvo da minha própria vontade.
Mesmo sendo o seu pai, José Manuel Anes, grão mestre da maçonaria regular?
Isso é uma opção dele, que respeito. Mas não tenho nada a ver com a maçonaria em geral.
Quem a conhece, garante que é uma menina romântica, quase tímida. Não é nada do que parece nas crónicas?
É isso mesmo: nada!
Criou uma personagem?
Criei uma defesa.
Porquê? É preciso uma certa dose de irresponsabilidade para brincar com o sexo em Portugal?
Irresponsabilidade não é algo que norteie a minha vida. Sou muito racional, calculista até. Mas as pessoas gostam de subestimar-nos, vêem-nos sempre como estouvadas ou louras ou coisa assim. Criei uma defesa por ser filha do meu pai, por ter que provar a dobrar que não tenho cunhas de ninguém. Sigo apenas o meu caminho.
Nunca teve medo de não ser levada a sério na escrita?
A principal pessoa que não se leva a sério na escrita sou eu. Há muito boa gente que se leva demasiado a sério na escrita e na verdade devia ver-se melhor ao espelho.
Há quem diga que a Ana e a Margarida Rebelo Pinto são as únicas cronistas a escrever para os homens. Tenho dificuldade em encontrar semelhanças, mas existem ou são coincidência?
Não temos rigorosamente nenhuma semelhança, e graças a Deus.
José de Pina escreveu que se o seu livro tivesse saído mais cedo, “Pinto da Costa não teria cometido tantos disparates e o Calor da Noite não teria perdido uma das suas melhores alternadeiras”. O que é que Pinto da Costa poderia ter aprendido com o seu livro?
Nada. Mesmo. Pinto da Costa poderia ter escrito dez livros destes. E de uma penada só [Risos].
Onde gostava mais de ver o livro: a ser lido a socapa no Parlamento ou à venda numa sex shop?
Gostava muito de o ver nos dois sítios. Imagino perfeitamente o Francisco Louça a ler o livro por baixo da bancada do Parlamento.
Quem se esconde atrás da personagem? Se não é o que parece, quem é?
Sou uma pessoa como as outras, mas com sentido de humor e com espírito crítico. No meu mundo só entra quem eu deixo.
Helena Teixeira da Silva
Tags: ANA ANES/