Julho 2009 - Posts

Guida Maria é uma montanha russa de emoções: apaixonada, frontal, destemida, viciante. Uma lição de vida, da vida que acaba de contar em livro. Sem pudor. Pisou o palco pela primeira vez aos sete anos. Aos 59, continua a ser das melhores actrizes do país.

Há quantos anos não vê um um político na plateia de teatro?
Nos meus espectáculos, com excepção do dr. Amaral Paes, nunca vi nenhum. Eles têm que ir ao futebol, não podem ir a todas, não é?

Num ano particular, com duas eleições, as suas expectativas centram-se nas legislativas ou nas autárquicas?
[Risos] Não me faça rir! Expectativas?! Mas os políticos são sempre os mesmos! Só as moscas é que mudam – mas só mudam de uns para os outros!

Não vai votar?
Eu?! Nem sei há quantos anos já deixei de votar! Sou uma mulher empreendedora, que se entusiasma com as coisas, mas não é possível entusiasmar-me durante 30 anos seguidos e não ver nada! Não acredito em nenhum político! Já nem os ouço e quando ouço começo a rir. É tudo uma vigarice!

A cultura não dá votos?
Não dá é dinheiro! E dá muitas chatices, muita dores de cabeça. E, claro, também não dá votos. Porque não se pode roubar muito na cultura. Roubar o quê?

Atingiu a maioridade em plena ditadura. A democracia com que terá sonhado é aquela que tem hoje?
Para ser totalmente honesta, estou farta da democracia! Farta que comandem a minha vida! Pensava que íamos ser todos mais felizes, viver melhor. A verdade é que vivia melhor na altura do outro senhor, esse chamado Salazar. Chamem-me lá o que quiserem, não me importo.Ganhava rios de dinheiro, com 18 anos ganhava 14 contos – em 1968 era uma fortuna.Tinha mais trabalho, os meus filhos levavam açoites quando precisavam e não ficavam traumatizados, fumava em todo o lado...

A liberdade que Portugal ganhou em Abril  de 1974 sufoca-a?
Mas qual liberdade?! Só sou livre dentro de minha casa, e só se não estiver a incomodar os vizinhos.

Na biografia que lançou recentemente – “Guida Maria: Uma vida” – diz que é do tempo do beija-mão. “Com tanta benção, sempre achei que a minha vida seria um mar de rosas”. O país também mudou por aí?
Sim, sim, completamente! Portugal está um país de gente mal educada, sem berço, selvagem. As pessoas hoje não dizem bom dia, quanto mais ir ao beija-mão. Talvez seja isto progresso, não sei.

Nesse livro, fala sem pudor das suas quedas amorosas: “eram casados ou bichas e ou andavam na droga.” Depois da experiência de Maria Filomena Mónica, criticada pelas revelações do foro íntimo, não pensou duas vezes antes de fazer as suas?
Então, se comecei a ser criticada aos 15 anos e não me importei, acha que é agora, aos 59, que me vou preocupar? Que falem, é sinal de que estou viva. Só disse o que queria dizer.

Quando descobriu que essa frontalidade lhe dava genuíno prazer?
Ah, sempre fui assim. Quando não devemos nada a ninguém nem temos telhados de vidro, somos assim. Estou tesa que nem um barrote, mas sou respeitada. Vou ao banco e tenho crédito, também pessoal. Quem trabalha comigo recebe sempre, nem que tenha que vender o carro. Se eu fosse de outra maneira talvez tivesse mais dinheiro, mas não seria tão feliz.

Termina hoje a temporada de “Monólogos da vagina”. Há nove anos, quando disse o texto pela primeira vez, pareceu-lhe excessivo para Portugal?
Nunca achei que estava a dar pérolas a porcos. Diziam-me que era maluca e que acabaria insultada. Não aconteceu nada disso. As pessoas não são todas burras nem todas idiotas. Ganhei essa batalha.

Se amanhã fosse o seu último dia, o que gostava de não deixar por dizer?
[Silêncio] Imensas coisas, e outras tantas que gostaria de não ter dito: não resolveram nada e só me cheteei. Mas para dizer era preciso que ouvissem e já ninguém ouve ninguém. As pessoas estão no teatro de telemóvel aberto no colo. Não estão interessadas em ouvir porra nenhuma, nem sequer quando pagam!

 Helena Teixeira da Silva

Não usa heterónimos, mas tem várias vidas. E asas. Miguel Guedes, 37 anos, é a voz nos Blind Zero há 15; a voz do Bloco de Esquerda em Gaia, até Outubro; a voz do FCP, sempre; e a voz dos direitos dos artistas intérpretes. Nesta entrevista, a voz oscila entre o sentido de humor e a militância pela arte e pela liberdade.

Está mesmo na moda convidar músicos para serem mandatários de campanhas políticas. É o mandatário do Bloco de Esquerda em Gaia. Porquê?

Não visto qualquer trapinho. Quando me convidaram, tive que perceber de que cor pintavam a roupa. Pintam de vermelho, cor de que até gosto bastante - exceptuando a cor clubística. Pareceu-me que a roupinha que me assentaria bem. Também é preciso saber quem cria a roupa. Mas tendo em conta as pessoas que estavam envolvidas, pessoas que gostava de convidar para minha casa, senti-me muito à vontade.

Artista que é artista é bloquista?

Não, não. Eu, antes de ser artista, não era bloquista, mas cheguei a estar no PSR. A actividade política sempre esteve comigo, até porque não podemos fugir dela. Em qualquer acção ou decisão ou opinião que tomamos, estamos sempre a ser animais políticos. Os artistas devem ter consciência social. E não querendo fazer da consciência social um património exclusivo da esquerda, parece-me que quando falamos de liberdades, de garantias e de arte, estamos muito mais de braço dado com a esquerda do que com a direita.

Aceitaria ser mandatário de algum candidato para as legislativas?

Se pudesse vestir a cor do fato da pessoa, com certeza. Mas eu tenho alguma dificuldade em lidar com a questão do mandatário, porque me parece uma figuração sempre algo alegórica à procissão. Mas também é uma forma de dar visibilidade à candidatura.

Está a dizer que é mais conhecido do que o BE em Gaia?

Não! Eu disse isso?! Não disse isso. Mas convidam os mandatários por serem pessoas conhecidas nas suas áreas de trabalho. Eu posso dar algum contributo pela visibilidade que tenho. Evidentemente, as pessoas não vão votar no mandatário e muito menos em mim.As pessoas votam no que acreditam. E eu acredito que o BE vai ter uma belíssima votação em Gaia, porque estamos fartos das mesmas políticas e das mesmas pessoas.

Alberto João Jardim defendeu esta semana uma revisão constitucional para proibir o comunismo. Se isto tivesse sugerido por um político do Continente, teria acontecido o quê, sabe?

Não sei, mas aconteceria certamente alguma coisa. Já percebemos há muito tempo que, seja o que for que saia da boca de Alberto João Jardim, não terá consequências práticas na forma como encaramos a política e na forma como a devíamos encarar, ou seja, enquanto acto saudável de democracia. É evidente que ele sabe do que fala, porque comunicou muito com a ditadura antes 1974. Certamente, saberá muito bem o que são proibições. Estou convencido de que ele seria um óptimo censor - e, à sua maneira, já é.

No Porto, Pinto da Costa, presidente do seu FCP, acaba de declarar apoio a Elisa Ferreira. Seguí-lo-ia, se votasse do lado de cá do rio?

Não, não poderia, embora tenha simpatia e estima pessoal por Elisa Ferreira. O meu voto iria para o João Teixeira Lopes, claramente. Mas isso tem a ver com o facto de eu acreditar na pessoa. O senhor Pinto da Costa é o presidente do meu clube, já me deu muitíssimas alegrias, tenho imenso respeito por ele, e considero que politicamente nem estou assim tão longe de algumas coisas que ele defende, porque ele é um democrata. Mas nunca poderia apoiar Elisa Ferreira, porque não compreendo como é possível candidatar-se simultaneamente a Bruxelas e ao Porto. Não gostaria de dizer que é uma falta de respeito pelos portuenses, porque acho que não é disso que se trata. Acho que estamos apenas a falar de uma enorme convicção que ela tem de que não vai ser eleita presidente da Câmara do Porto. Parte para esta prova de aferição já com uma enorme fraqueza, que é a falta de convicção na sua própria candidatura.

Lamenta ou sabe-lhe bem que Rui Rio não seja adepto do FCP?

[Risos] Sabe-me bem, sim. Encaro o Porto Clube como uma extensão do Porto cidade - cidade que sempre vi como sendo aberta, nada monolítica, de liberdade, de gente com o coração na boca, mas exigente, gente que cria e quer criar. Durante os consulados de Rui Rio temos assistido a uma cidade mais cinzenta e mais monolítica. Portanto, não estenderia a Rui Rio uma ficha de associado do FCP. Tenho pena que confunda o facto de não ser portista com a sua enorme animosidade contra o futebol enquanto espectáculo. E tenho pena que não perceba que é inevitável que a cidade esteja umbilicalmente ligada ao Porto Clube. Isso não significa nenhum beneplácito ou regalia especial, mas respeito. E nos últimos anos, ele não o tem feito. Logo, não tem respeitado a cidade.

Sendo advogado, defenderia Pinto da Costa no caso Apito Dourado?

Não estou a exercer [Risos]. Ele tem pessoas muito mais competentes para o defender. Até ao momento, não há qualquer prova das coisas pelas quais está acusado.

Portanto, não seria por falta de convicção na sua presunção de inocência...

[Risos] Com certeza que não. A presunção de inocência é um dos princípios elementares do Estado de Direito.

O FCP é um partido ou uma religião?

Claramente, não é uma religião, porque sou um agnóstico progressista, estou em vias de me tornar ateu, não professo qualquer religião. Tenho muita fé, mas é nas pessoas - não mais do que isso. O Porto é uma amor, uma paixão. É um dos meus casos de família, uma herança que me foi transmitida pelo meu avô, pelo meu pai e que eu abracei com imensa emoção desde que me conheço. E é um enorme espaço de prazer. E também de alguma irracionalidade, acho que é preciso alguma irracionalidade na vida.

Há concertos dos Blind Zero em dias de jogo do FCP?

Há. Houve um concerto, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, estava o Porto a jogar com o Sporting em Alvalade. Quando há jogo, temos sempre alguém dos bastidores que nos vai dando sempre informação up to date do que está a acontecer. E o Porto marcou um golo, que lhe deu o campeonato. Ganhou quando estávamos a cantar o Shine on. Foi um momento de grande euforia.

Um portista interroga-se sobre o destino que o FCP dá ao dinheiro auferido com as transferências de jogadores?

Interroga, claro. E procura respostas nos relatórios de contas. Até agora, não me tenho sentido mal esclarecido.

Dá-lhe particular prazer quando o FCP rouba jogadores ao Benfica?

[Risos] Tem alguma piada. Mas eles não são roubados, porque o Benfica não os adquiriu.

O Falcão foi roubado?

Ninguém rouba uma ave de rapina. Elas são selvagens e livres e assinam por quem bem entenderem. O problema é que normalmente o Benfica anuncia os seus jogadores antes de os contratar e depois isso presta-se a algumas teorias da conspiração. Evidentemente, o FCP só contrata jogadores livres. mas não posso deixar de reconhecer na situação alguma dose de comédia, que já me fez soltar algumas gargalhadas.

É com esta reformulação de plantel que o FCP vai chegar ao Penta?

O FCP vai chegar ao Penta independentemente da reformulação do plantel. Tem uma estrutura sólida, uma base programática escrita e sobretudo tem muita competência e gente que trabalha a sério. Gente que trabalha mais e fala menos.

Sente maior responsabilidade a cantar ou a “bitaitar” sobre futebol?

A cantar. Quando falamos de futebol, falamos de afeição, e de alguma irracionalidade que podemos incorporar no nosso discurso. O que eu faço enquanto artista é muito mais a representação de mim p´róprio num palco. Apesar de haver uma certa teatralização da existência - que há sempre -, há também a consciência daquilo que porventura é o espelho mais fiel dos vários personagens que me habitam a mim e às pessoas que fazem música comigo. Portanto, acho que a arte é mais responsável e menos irracional do que o futebol.

Quinze anos depois do início dos Blind Zero, ainda o acusam de imitar a voz de Eddie Vedder, dos Pearl Jam?

Já não, o que é bom. O relógio marca a hora - acho que era o Tony de Matos que dizia isto - e cada coisa tem o seu tempo. Nós surgimos integrados num espectro em que a comparação era a grande motivação da vida das pessoas, nomeadamente da crítica musical, que nos amava ou nos odiava. Evidentemente, houve coisas que doeram um bocadinho na altura, coisas de que hoje já ninguém fala. Há bandas a copiar bandas, artistas a copiar artistas, apropriações a torto e a direito e não me parece que isso seja visto como um crime de lesa-Pátria. Na altura, foi, mas isso fez-nos ser mais resistentes. E o que não mata cura, não é?

Ainda tem paciência para os arrufos da pianista Maria João Pires?

Normalmente, tenho paciência para arrufos. Gosto de conter situações de ebulição e depois ver saltar a tampa da panela. No caso dela, desconheço que tipo de fogo ateou a panela, mas tendo em consideração outros casos, ela é bem capaz de ter alguma razão.

Helena Teixeira da Silva

Foi o mais jovem autarca do país, em Amarante de 1989. Em 2005, o eurodeputado, 44 anos, disputou o Porto com Rui Rio – e perdeu. Ficaremos sempre sem saber que cidade teria construído.
 
O que mais o chocou: o gesto de Manuel Pinho, ex-ministro da economia, ou a morte de Michael Jackson?
A morte é sempre mais chocante, porque é definitiva. O gesto, mesmo quando é obsceno, é sempre uma manifestação de vida.

O deputado comunista Bernardino Soares passará a ser visto como o Demerol, a droga que terá ditado o fim da carreira de Michael Jackson?
[Risos] Não, acho que não. Isso foi apenas um momento que suscitou uma reacção inusitada por parte de um membro do Governo.

As sondagens são demolidoras para Elisa Ferreira, candidata à Câmara do Porto pelo PS. A cidade não está preparada para ter uma mulher autarca?
O desafio dela é precisamente o de superar as sondagens. No dia das eleições, o Porto mostrará que está preparado para a eleger.

A sua experiência diz-lhe que o melhor que lhe poderia acontecer seria  o aparelho do PS-Porto deixá-la sozinha a fazer a campanha à sua maneira?
O criminoso não deve voltar ao local do crime [risos]. Não tenho o distanciamento necessário para avaliar objectivamente a situação.

Mas fará campanha com Elisa Ferreira nas rua do Porto, se ela lho pedir?
Não tenho dúvidas de que ela mo irá pedir e eu responderei afirmativamente. E com  todo o gosto.

Não teme que quem votou em si em 2005 lhe atire algumas coisas à cara?
A mim?! Não vejo nenhuma razão para isso. Desde a última eleição, as pessoas são de uma simpatia absoluta e exprimem-na.

O PS proibiu candidaturas duplas e nem todos gostaram. Os seus últimos quatro anos entre Porto e Bruxelas não serão a prova evidente de que essa sobreposição de cargos é muito difícil?
É difícil, mas não é impossível. Assumi esse compromisso antes da noite eleitoral e cumpri. O estilo da oposição que fizemos foi definido desde o início: séria, construtiva e positiva. Só lamento não ter encontrado um presidente da Câmara à altura dessa uma oposição.

Sobra algum elogio para Rui Rio?
É um homem frontal, que habitualmente diz o que faz. E mostra preocupações de rigor na gestão financeira, mas não coloca esse rigor ao serviço de um projecto de desenvolvimento para a cidade.
 
Ser político, para si, é uma profissão?
Não, embora algumas pessoas - como eu, e assumo-o -, por terem sido eleitas e sucessivamente reeleitas para determinadas funções políticas, tenham a vida profissional afectada. Mas há duas questões fundamentais: saber se na política fazemos coisas bem ou mal feitas; e saber se, estando na política, estamos disponíveis para sair dela, independentemente do que iremos fazer. É por aí que se mede a liberdade de uma pessoa.
Deixou o Parlamento Europeu (PE) sobre o qual disse não ser “refúgio dourado ou cemitério de elefantes, onde se vai acabar a carreira política”. Mas não é bem isso que a História mostra...
Tenho expectativa de que a minha não acabe! Falaremos daqui a alguns anos para avaliarmos se essa tese é verdadeira ou falsa. O PE é cada vez mais uma instância de maior relevo na União Europeia e o tipo de experiência que ali se adquire será cada vez mais importante para a política nacional.

Manuel Alegre escreveu ontem no Expresso que  o PS precisa de acordar. O PS parece ficar sempre assustado quando ele fala. O seu valor está inflacionado?
É uma referência histórica, simbólica do PS. É natural que tenha um tratamento especial. Numa manifestação, em Maio de 68, o ministro do interior terá proposto ao General De Gaulle que mandasse prender o Sartre como um dos instigadores da rebelião popular. Ele disse: não, porque não se manda prender Voltaire. O PS tem um estatuto especial para quem tem um estatuto especial.

Manuel Alegre é o Sartre do PS?
Não, até porque não é filósofo. Mas  há figuras que, tocando nelas, é um pouco em nós próprios que tocamos, mesmo quando não temos consciência disso.
 
Helena Teixeira da Silva

Manuel Pinho caiu do Governo e ficará para a História devido a um gesto infeliz. Mas o socialista José Lello, 65 anos, não se deixa alarmar.  “Qualquer português indignado responderia da mesma forma.” 

Também já foi ministro.Lembra-se de alguma vez ter tido um gesto no parlamento do qual se tenha arrependido?
Não.Não sou muito de gesticular; de usar o verbo sim, já sou.


Usando o verbo, disse uma vez que desconfiava da sanidade mental de João Soares. Não foi no parlamento, mas não descredibiliza a política?
O João é um grande amigo e, felizmente, estava com total sanidade. Mas os políticos têm que ser idênticos àqueles que os elegem. É preciso contenção, mas não vamos querer que sejam de plástico. 


A imagem de Manuel Pinho no Parlamento, no último debate da Nação, vale mesmo mais do que mil palavras?
Reagiu a quente às provocações do Partido Comunista e demonstrou que não tem a estaleca nem a capacidade de encaixe de outros políticos. Mas os portugueses não o culpabilizaram como algumas virgens feridas da política queriam. Ele até podia ter feito como Zé Povinho, que também ficou célebre por um gesto especial. Não o fez porque é mais sofisticado. Mas respondeu como todos os portugueses, para quem o gesto é tudo, responderiam quando ficam feridos na sua dignidade.


O que viu naqueles dois dedos indicadores esticados? Eram chifres?
Aquilo surgiu na sequência de  um diálogo muito vivo com Bernardino Soares sobre quem tinha influência sobre o povo de Aljustrel. Os comunistas estavam enciumados pelo facto de o dr. Manuel Pinho ter tido sucesso numa freguesia eminentemente comunista. Manuel Pinho quis dizer que os comunistas de Aljustrel tinham trocado o PC. Uma traição.


O gesto custou-lhe a demissão.  Mas Joe Berardo veio logo oferecer-lhe emprego na administração da sua Fundação. Caso para dizer que haverá menos um desempregado em Portugal?
Um homem com o curriculum de Manuel Pinho terá tudo menos dificuldade em encontrar alternativa ao trabalho que desenvolveu no Governo. Não obstante, achei interessante que Joe Berardo tivesse feito o que fez. É conhecido pela sua acutilância e teve graça. Mas com certeza Manuel Pinho não está aflito à espera do emprego do comendador.


Surpreendeu-o a velocidade a que o episódio Pinho voou lá para fora?
Não, na medida em que esse acontecimento teve o seu picante. E teve graça pela sua forma tão peculiar e tão inusitada. Uma imagem com graça é muito apetecível para jornais e televisões.


Para os estrangeiros, Manuel Pinho teve ali o seu momento-Berlusconi?
[Risos] Não, não! Berlusconi é ordinário; não é de todo o caso do dr. Manuel Pinho. Os momentos Berlusconi são para ser projectados com bolinha vermelha por cima. O gesto do dr. Manuel Pinho teve graça e nada de ofensivo.

Disse recentemente que a "TVI teria sucesso na república das bananas, porque falha na objectividade e no respeito pelos valores mínimos da isenção". Não será essa uma definição perfeita para o Parlamento português?
Não. E não me referi à TVI no seu todo, mas ao Jornal Nacional de sexta-feira, que é um programa humorístico travestido de programa informativo. No parlamento, salvo um ou outro arremesso – como aconteceu com o deputado do PSD Eduardo Martins, que não usou um gesto inofensivo mas um vernáculo para agredir o colega de outra bancada –, 99% das circunstâncias são relações de elegância e fairplay assinaláveis.


Fora da política, canta fado...
[Risos]...Não só, também canto outras coisas. Sou capaz de cantar Frank Sinatra. Sobretudo nos casamentos, desafiam-me sempre.


É sempre a estrela convidada?
Como não sou uma pessoa inibida, aceito o desafio e tenho tido o meu sucesso. Um dia,  desistindo da política, talvez possa enveredar pela vida artística [risos].


Antes disso, o seu maior fado é o Boavista Futebol Clube?
Pode ser. E, infelizmente, não é um fado só meu.

Helena Teixeira da Silva