Não usa heterónimos, mas tem várias vidas. E asas. Miguel Guedes, 37 anos, é a voz nos Blind Zero há 15; a voz do Bloco de Esquerda em Gaia, até Outubro; a voz do FCP, sempre; e a voz dos direitos dos artistas intérpretes. Nesta entrevista, a voz oscila entre o sentido de humor e a militância pela arte e pela liberdade.
Está mesmo na moda convidar músicos para serem mandatários de campanhas políticas. É o mandatário do Bloco de Esquerda em Gaia. Porquê?
Não visto qualquer trapinho. Quando me convidaram, tive que perceber de que cor pintavam a roupa. Pintam de vermelho, cor de que até gosto bastante - exceptuando a cor clubística. Pareceu-me que a roupinha que me assentaria bem. Também é preciso saber quem cria a roupa. Mas tendo em conta as pessoas que estavam envolvidas, pessoas que gostava de convidar para minha casa, senti-me muito à vontade.
Artista que é artista é bloquista?
Não, não. Eu, antes de ser artista, não era bloquista, mas cheguei a estar no PSR. A actividade política sempre esteve comigo, até porque não podemos fugir dela. Em qualquer acção ou decisão ou opinião que tomamos, estamos sempre a ser animais políticos. Os artistas devem ter consciência social. E não querendo fazer da consciência social um património exclusivo da esquerda, parece-me que quando falamos de liberdades, de garantias e de arte, estamos muito mais de braço dado com a esquerda do que com a direita.
Aceitaria ser mandatário de algum candidato para as legislativas?
Se pudesse vestir a cor do fato da pessoa, com certeza. Mas eu tenho alguma dificuldade em lidar com a questão do mandatário, porque me parece uma figuração sempre algo alegórica à procissão. Mas também é uma forma de dar visibilidade à candidatura.
Está a dizer que é mais conhecido do que o BE em Gaia?
Não! Eu disse isso?! Não disse isso. Mas convidam os mandatários por serem pessoas conhecidas nas suas áreas de trabalho. Eu posso dar algum contributo pela visibilidade que tenho. Evidentemente, as pessoas não vão votar no mandatário e muito menos em mim.As pessoas votam no que acreditam. E eu acredito que o BE vai ter uma belíssima votação em Gaia, porque estamos fartos das mesmas políticas e das mesmas pessoas.
Alberto João Jardim defendeu esta semana uma revisão constitucional para proibir o comunismo. Se isto tivesse sugerido por um político do Continente, teria acontecido o quê, sabe?
Não sei, mas aconteceria certamente alguma coisa. Já percebemos há muito tempo que, seja o que for que saia da boca de Alberto João Jardim, não terá consequências práticas na forma como encaramos a política e na forma como a devíamos encarar, ou seja, enquanto acto saudável de democracia. É evidente que ele sabe do que fala, porque comunicou muito com a ditadura antes 1974. Certamente, saberá muito bem o que são proibições. Estou convencido de que ele seria um óptimo censor - e, à sua maneira, já é.
No Porto, Pinto da Costa, presidente do seu FCP, acaba de declarar apoio a Elisa Ferreira. Seguí-lo-ia, se votasse do lado de cá do rio?
Não, não poderia, embora tenha simpatia e estima pessoal por Elisa Ferreira. O meu voto iria para o João Teixeira Lopes, claramente. Mas isso tem a ver com o facto de eu acreditar na pessoa. O senhor Pinto da Costa é o presidente do meu clube, já me deu muitíssimas alegrias, tenho imenso respeito por ele, e considero que politicamente nem estou assim tão longe de algumas coisas que ele defende, porque ele é um democrata. Mas nunca poderia apoiar Elisa Ferreira, porque não compreendo como é possível candidatar-se simultaneamente a Bruxelas e ao Porto. Não gostaria de dizer que é uma falta de respeito pelos portuenses, porque acho que não é disso que se trata. Acho que estamos apenas a falar de uma enorme convicção que ela tem de que não vai ser eleita presidente da Câmara do Porto. Parte para esta prova de aferição já com uma enorme fraqueza, que é a falta de convicção na sua própria candidatura.
Lamenta ou sabe-lhe bem que Rui Rio não seja adepto do FCP?
[Risos] Sabe-me bem, sim. Encaro o Porto Clube como uma extensão do Porto cidade - cidade que sempre vi como sendo aberta, nada monolítica, de liberdade, de gente com o coração na boca, mas exigente, gente que cria e quer criar. Durante os consulados de Rui Rio temos assistido a uma cidade mais cinzenta e mais monolítica. Portanto, não estenderia a Rui Rio uma ficha de associado do FCP. Tenho pena que confunda o facto de não ser portista com a sua enorme animosidade contra o futebol enquanto espectáculo. E tenho pena que não perceba que é inevitável que a cidade esteja umbilicalmente ligada ao Porto Clube. Isso não significa nenhum beneplácito ou regalia especial, mas respeito. E nos últimos anos, ele não o tem feito. Logo, não tem respeitado a cidade.
Sendo advogado, defenderia Pinto da Costa no caso Apito Dourado?
Não estou a exercer [Risos]. Ele tem pessoas muito mais competentes para o defender. Até ao momento, não há qualquer prova das coisas pelas quais está acusado.
Portanto, não seria por falta de convicção na sua presunção de inocência...
[Risos] Com certeza que não. A presunção de inocência é um dos princípios elementares do Estado de Direito.
O FCP é um partido ou uma religião?
Claramente, não é uma religião, porque sou um agnóstico progressista, estou em vias de me tornar ateu, não professo qualquer religião. Tenho muita fé, mas é nas pessoas - não mais do que isso. O Porto é uma amor, uma paixão. É um dos meus casos de família, uma herança que me foi transmitida pelo meu avô, pelo meu pai e que eu abracei com imensa emoção desde que me conheço. E é um enorme espaço de prazer. E também de alguma irracionalidade, acho que é preciso alguma irracionalidade na vida.
Há concertos dos Blind Zero em dias de jogo do FCP?
Há. Houve um concerto, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, estava o Porto a jogar com o Sporting em Alvalade. Quando há jogo, temos sempre alguém dos bastidores que nos vai dando sempre informação up to date do que está a acontecer. E o Porto marcou um golo, que lhe deu o campeonato. Ganhou quando estávamos a cantar o Shine on. Foi um momento de grande euforia.
Um portista interroga-se sobre o destino que o FCP dá ao dinheiro auferido com as transferências de jogadores?
Interroga, claro. E procura respostas nos relatórios de contas. Até agora, não me tenho sentido mal esclarecido.
Dá-lhe particular prazer quando o FCP rouba jogadores ao Benfica?
[Risos] Tem alguma piada. Mas eles não são roubados, porque o Benfica não os adquiriu.
O Falcão foi roubado?
Ninguém rouba uma ave de rapina. Elas são selvagens e livres e assinam por quem bem entenderem. O problema é que normalmente o Benfica anuncia os seus jogadores antes de os contratar e depois isso presta-se a algumas teorias da conspiração. Evidentemente, o FCP só contrata jogadores livres. mas não posso deixar de reconhecer na situação alguma dose de comédia, que já me fez soltar algumas gargalhadas.
É com esta reformulação de plantel que o FCP vai chegar ao Penta?
O FCP vai chegar ao Penta independentemente da reformulação do plantel. Tem uma estrutura sólida, uma base programática escrita e sobretudo tem muita competência e gente que trabalha a sério. Gente que trabalha mais e fala menos.
Sente maior responsabilidade a cantar ou a “bitaitar” sobre futebol?
A cantar. Quando falamos de futebol, falamos de afeição, e de alguma irracionalidade que podemos incorporar no nosso discurso. O que eu faço enquanto artista é muito mais a representação de mim p´róprio num palco. Apesar de haver uma certa teatralização da existência - que há sempre -, há também a consciência daquilo que porventura é o espelho mais fiel dos vários personagens que me habitam a mim e às pessoas que fazem música comigo. Portanto, acho que a arte é mais responsável e menos irracional do que o futebol.
Quinze anos depois do início dos Blind Zero, ainda o acusam de imitar a voz de Eddie Vedder, dos Pearl Jam?
Já não, o que é bom. O relógio marca a hora - acho que era o Tony de Matos que dizia isto - e cada coisa tem o seu tempo. Nós surgimos integrados num espectro em que a comparação era a grande motivação da vida das pessoas, nomeadamente da crítica musical, que nos amava ou nos odiava. Evidentemente, houve coisas que doeram um bocadinho na altura, coisas de que hoje já ninguém fala. Há bandas a copiar bandas, artistas a copiar artistas, apropriações a torto e a direito e não me parece que isso seja visto como um crime de lesa-Pátria. Na altura, foi, mas isso fez-nos ser mais resistentes. E o que não mata cura, não é?
Ainda tem paciência para os arrufos da pianista Maria João Pires?
Normalmente, tenho paciência para arrufos. Gosto de conter situações de ebulição e depois ver saltar a tampa da panela. No caso dela, desconheço que tipo de fogo ateou a panela, mas tendo em consideração outros casos, ela é bem capaz de ter alguma razão.
Helena Teixeira da Silva