Abril 2012 - Posts

Saiba porque é que me divorciei da Fnac

segunda-feira, 30 de Abril de 2012 às 18:06

Divorciei-me da Fnac no último Natal. Fiquei com muita pena, porque ao longo de muitos anos (tantos que até já lhes perdi a conta), sempre nos demos bem e tivemos um ótima relação. Mas não podia fazer outra coisa.

Como andava esganado de tempo e estávamos a dois dias do dia, aproveitei a hora do almoço para resolver a questão das prendas na Fnac, que tem a vantagem de disponibilizar três das quatro categorias essenciais de produtos para oferecer - só lhe falta mesmo o vinho.

A loja de Santa Catarina estava a abarrotar. Os balcões de informações estarem atulhados de gente não facilitou a tarefa de encontrar os livros, discos e DVDs que constavam da minha lista de prendas potenciais.

Mal consegui por um V à frente de todos os nomes da lista de beneficiários, dirigi-me à zona de caixas e aguardei, stressado mas paciente e ordeiro, que chegasse a minha vez na fila que me pareceu mais promissora.

Quando chegou a minha vez, para facilitar o processamento, nem dei oportunidade para que a menina da caixa me perguntasse se tinha cartão Fnac. Entreguei-lho logo. A titulo de primeiro preparo, ela passou-o na máquina e informou-me que havia problemas com ele - e o melhor que eu tinha a fazer era averiguar com a colega do guichet respetivo (o do cartão Fnac) o que se passava com o cartão.

Como o que eu queria era despachar-me o mais depressa possível (já estava atrasado para uma reunião no jornal), perguntei-lhe se depois de esclarecer o drama do cartão poderia beneficiar de um wild card para pagamento.

Como ela me respondeu que não, que teria de voltar para o fim da fila, eu disse-lhe que pagava primeiro e mais tarde, com tempo, iria pedir que me contabilizassem os pontos.

"Mas olhe que assim perde o desconto, que não é assim tão pequeno quanto isso", advertiu a rapariga da caixa, enquanto olhava para a montanha de CDs, livros e DVDs que eu tinha reunido (coisas para uns 150 euros, estimava eu). O argumento dela calou fundo no forreta que há em mim. 

Apesar de atrasado, transitei para a o balcão do cartão Fnac, onde estava a ser atendida uma mulher, que, coscuvilhando, vim a saber ser bancária e estar com problemas idênticos aos meus com o cartão Fnac.

A situação (adora esta palavra!) era a seguinte. Interpelado em Outubro para proceder ao débito da anualidade de 15 euros de renovação do cartão Fnac, o meu banco escusara-se a fazê-lo, pelo que o cartão tinha sido anulado.

Não valia a pena estar ali a tentar perceber por que é que o banco tinha mudado de ideias (nos anos anteriores a Fnac frequentara a minha conta sem problemas), sem que eu tivesse tomado alguma atitude relativamente ao assunto.

Naquele momento, o que importava era adotar a mesma atitude pragmática que celebrizou o Marquês do Pombal, após o grande terramoto de 1755. E, naquele momento, enterrar os vivos e cuidar dos mortos significava descomplicar. 

"Ok. Quanto é que eu devo? 15 euros?", perguntei. Não. Eram 23 euros, porque aos 15 da anualidade havia que somar oito de multa por mau comportamento.

"Ok. Então pague-se dos 23 euros e resolve-se já o assunto!", retorqui, avançando com o cartão Multibanco. Não, não era assim tão simples. Era preciso preencher de novo os impressos da candidatura. 

Foi nesse preciso momento que eu tomei a decisão de me divorciar da Fnac. E vim-me embora, atrasado, chateado e sem prendas de Natal.  

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Ninguém me chama caixa de óculos

domingo, 29 de Abril de 2012 às 18:06

Era fim da tarde e bebia um chá na esplanada da Mesquita de Paris quando me apercebi que é tudo verdade naquela história da velhice ser uma segunda meninice e do retorno à infância, tema interpretado com alguma graça e muita imaginação pelo realizador David Fincher em O curioso caso de Benjamim Button - uma fita em que o protagonista (Brad Pitt) nasce velho e vai rejuvenescendo ao longo da vida, em contraciclo com o resto das pessoas que o rodeiam e, naturalmente, envelhecem.

Peguei no mapa da cidade, patrocinado pelas Galerias Lafayette, com o objetivo de planear o percurso até à Bastille, a ser feito a pé para aumentar o apetite para os mexilhões do Leon de Bruxelles, quando constatei que os meus olhinhos não conseguiam decifrar o nome das ruas. Foi o alerta. Ainda resisti a comprar logo uns óculos de leitura. Mas os dados estavam lançados. Passado o cabo do meio século de vida, as minhas vistas queixavam-se de cansaço.

Hoje é-me praticamente impossível escrever ao computador ou ler os jornais se não tiver encavalitados na ponta do nariz os óculos de 1,5 diopterias comprados na farmácia do Campo Alegre. Estou tão dependente deles como do telemóvel. Se saio de casa sem alguns destes dois objetos, volto para os apanhar.

Não é a primeira vez na minha vida que dependo de óculos. Nasci com os olhos desalinhados, um para cada lado (vesgo, se preferirem, ou a olhar ao mesmo tempo para as duas câmaras, como o Medeiros Ferreira), e a ver duas imagens sobrepostas (mesmo antes de ter bebido uma gota de álcool), pelo que tive se sofrer um intervenção cirúrgica que conferiu uma ilusão de simetria ao meu olhar e usei óculos até aos dez anos - o que me aborrecia porque na escola primária do Campo 24 de Agosto, alguns colegas chamavam-me caxadóclos quando queriam pegar comigo.

Agora, que voltei a usar óculos, num óbvio sintoma de que estou a caminhar para a segunda meninice, estou a estranhar que ninguém me chame caixa de óculos.

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Charlene do Mónaco fez uma depilação à brasileira?

sábado, 28 de Abril de 2012 às 18:06

Como hoje é dia de folga (de 15 em 15 dias temos o fim de semana mais ou menos por nossa conta), a seguir ao Arroz de Pato comemorativo do 89ª aniversário da minha mãe, sentei-me na cadeira favorita e comecei pela imprensa cor de rosa (são quase tão digestivas como um longo passeio a pé) o desbaste da pilha de jornais e revistas que se amontoavam na mesinha da sala, escondendo por completo da vista os bonitos coffee table books que estão lá para a decorar.

Quando acabei a Nova Gente e a Lux, achei que seria um imperdoável egoísmo da minha parte não partilhar com as preclaras e os preclaros a imensa quantidade de coisas importantes que aprendera ao folhear essas revistas.

O saber não ocupa lugar, mas como é fim de semana e eu não quero correr o risco de vos maçar ou até mesmo parar a digestão com o processamento de informações que poderão considerar não relevantes, resolvi apresentá-las sob a forma de uma passatempo cultural/recreativo. Um quizz como dizem os americanos!

Como me vejo no papel de faclitador (nós todos tendemos a ser muito indulgentes com a nossa própria pessoa) e nunca gostei de ter de virar o jornal ao contrário para procurar as soluções do questionário, optei por um método seguro, fácil e infalível: a resposta certa é sempre a c) que está em itálico.

Aqui ficam, sob a forma de um leve passatempo, seis informações preciosas que colhi nas edições desta semana das revistas Nova Gente e Lux:

1. De que é que os pais do Angélico andam à procura?

a) do primeiro dentinho do malogrado cantor;

b) do Ferrari que ele terá escondido, algures em Ayamonte (há quem pense que esteja em Huelva), após uma atuação em Vila Real de Santo António no Carnaval de 2010;

c) dos cachets em atraso que terão ficado por pagar ao seu falecido filho.

2. Por que é que Kate Middleton, a duquesa de Cambridge, casada há um ano com o principe William, não quer que o cunhado Harry (que é cara chapada do pai, aquele amante militar ruivo e estroina da desaparecida Lady Di) se mude para casa deles, o Palácio de Kensington?

a) porque ele tem a detestável mania de deixar sempre a tampa da sanita levantada depois de se servir dela para satisfazer as suas necessidades fisiológicas de caráter líquido;

b) porque ele tem o censurável hábito de lhe dar palmadas no rabo sempre que se cruza com Kate no corredor e ela não vai acompanhada pelo seu meio irmão e herdeiro da Coroa britânica;

c) porque teme que o comportamento rebelde e boémio de Harry seja uma influência má e negativa para o seu maridinho e principe.     

3. Após um ano fora, em Miami, Mickael Carreira, 26 anos, regressou à pátria com...

a) uma nova orientação sexual e um namorado cubano, que já teve uma relação com Madonna, com quem planeia casar-se este Verão, na Comporta;

b) convertido à igreja da Cientologia e amigo do Tom Cruise e do John Travolta, com quem fala todos os dias no Skype ou no Facetime;

c) com cabelos brancos, mais adulto, sereno e otimista.

4. Como se chama o primeiro filho de Yannick Djaló (atual marido de Luciana Abreu, ex-estrela da equipa de futsal do Coimbrões, que lhe deu duas filhas batizadas Lyonce e Lyanii), fruto do seu primeiro casamento com Ana Sofia?

a) José Estaline Martins Djaló;

b) Kcinniak Óladj;

c) Chrystiam Martim.

5. Como é que o ministro angolano general Kundi Paihama costumava chamar a António Ferreira, marido da fadista Mariza, que acusa de lhe roubado 19 milhões de euros?

a) Branca de Neve;

b) meu fofinho vigarista;

c) sobrinho branco.

6. O que é que Charlene, mulher de Alberto II do Mónaco (que no próximo mês de Maio vai ser entronizado confrade do Vinho do Porto), cortou recentemente?

a) os pelos púbicos, numa radical e estonteante depilação à brasileira;

b) o dedo anelar da mão direita quando tentava abrir uma lata de conserva de sardinhas portuguesas;

c) o cabelo, passando a usar um penteado à rapazinho.

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Notícia do meu regresso à Golden Delicious

sexta-feira, 27 de Abril de 2012 às 18:06

Comecei por ser um fã da Golden, mas por volta da mudança do século mudei-me para a Starking, iniciando um processo no sentido das maçãs de casca vermelha que me levou a estabilizar na Royal Gala.

Se me perguntarem qual o meu fruto preferido, eu muito provavelmente respondo figos. Adoro figos e, se calhar mais vezes do que seria desejável, quero figos.

Mas devo acrescentar que simpatizo muito com os frutos vermelhos, como a amora, mirtilo ou framboesa (é tão erótico deixar cair uma framboesa num flute com champanhe!), que estão muito na moda, o que até se compreende pois são ricos em anti-oxidantes.

Creio que os morangos estão integrados no perímetro da designação frutos vermelhos. Também gosto de morangos, mas um pouco menos, o que só pode ter a ver com uma má experiência vivida em Fridaybridge, Inglaterra, onde, no Verão de 1972, trabalhei em strawberries fields – mas isso é outra história que se tudo correr bem será contada aqui nesta Lavandaria.

O perfume e o aspeto das laranjas e tangerinas são muito atraentes, mas a minha intenção era não me dispersar muito nesta conversa sobre frutos, que já vai como as cerejas (viciantes ao natural e esplêndidas em iogurte), e concentrar-me na problemática da maçã.

A maçã é como o ouro. Um valor refúgio. Pode não se o nosso fruto predileto, mas é um fruto seguro, barato (a sua relação qualidade/preço é quase sempre imbatível), bastante fiável (nove em cada dez maçãs são satisfatórias, ou seja a proporção inversa ao que acontece com os dióspiros) e, como agravante, amiga da nossa saúde. Eu não gosto de ir ao médico e acredito no dizer inglês de que “a apple a day keeps the doctor away”.
 
A boa e velha maçã além de nos presentear com uma alargada variedade de oferta (além das já aqui citadas Golden, Starking e Royal Gala, lembro-me, assim a correr, da Granny Smith, Fuji, Pink Lady, Bravo de Esmolfe e Reineta), tem o picante de ser um símbolo de sedução sexual, desde que o Adão caiu na tentação de dar uma trincadela da maçã que lhe foi oferecida pela Eva  - bem o mais certo é que a essa trincadela se tenham sucedida outras, de caráter amigável, em locais judiciosamente escolhidos da anatomia da primeira mulher (a Eva, não da Michelle Obama nem a Maria Cavaco).

Sem querer forçar muito a coisa, recordo que ter uma laringe (também conhecida por maçã de Adão) saliente é olhado como sinal de virilidade. E se pensarmos bem, por algum motivo os Beatles batizaram a sua editora com o nome Apple e a Apple se chama Apple.

Vem tudo isto a propósito do facto que depois de um pouco mais de uma década a fio de fidelidade absoluta às maçãs vermelhas voltei ao consumo da Golden Delicious, regresso que tem a ver com o facto da mercearia que fica aqui perto do JN, na esquina do Largo Tito Fontes com a Guedes de Azevedo, ter à venda a preços razoáveis boas maçãs Golden originárias de Armamar e Lamego.

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Já estava com saudades da Ashley Judd

quinta-feira, 26 de Abril de 2012 às 18:06

Não está neste momento a passar na televisão nenhuma série que me encha realmente as medidas. Foi esta a minha reflexão quando ontem, ao fim da tarde, percorri a pasta de Minhas Gravações à procura de um episódio para ver antes de começar o Real Madrid- Bayern.

Para desenjoar vi o penúltimo episódio da 4ª temporada de Leverage (Jogo de Audazes) - série que gravo a pedido do meu filho João – e que, devo dizer, se revelou muito divertido.

Enquanto espero pelas novas temporadas de séries realmente viciantes, como Downton Abbey e The Good Wife, passo a partilhar o meu top five atual:

1. The Firm. Muito absorvente e emocionante, como não podia deixar de ser numa série baseada num livro de John Grisham. Usam e abusam do flashback, mas agarraram-me, principalmente porque ainda estou para saber se desembrulham do mistério em volta da Sarah Holt. O Mitch Mc Deere (Josh Lucas) está muito bem, mas a mulher dele, Abby (Molly Parker), é um paõzinho sem sal, e a promitente cunhada Tammy (Juliette Lewis) é detestável!

2. Touch. O regresso de Kiefer Sutherland após o fantástico 24 não podia deixar de ser um acontecimento. Ofegante como sempre, faz de Martin Bohm, pai sofredor de um filho autista, numa série que proporciona enredos excitantes mas bastante inverosímeis;

3. Body of Proof. Histórias boas, um cenário agradável (Filadélfia é uma bela cidade) e Dana Delany (continua um mulher admirável apesar de já não fazer com que o meu coração palpite como uma batata frita) compensam uma galeria de personagens desigual;

4. Missing.  Só vi o pilot, mas Ashley Judd (na foto)e cenas movimentadas em Roma e Paris chegaram para entrar diretamente para o meu top five – e não me espanta nada que escale rapidamente no ranking até ao primeiro lugar;

5. Leverage. Tem a vantagem de proporcionar um momento de família com o João, no sofá, em frente à televisão. E, como agravante, apesar de não ser bonita a Sophie Deveraux (Gina Bellman na vida real) não é nada de deitar fora…

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Jorge Fiel não desvenda mistério do 25 de Abril

quarta-feira, 25 de Abril de 2012 às 18:06

Tinha 17 anos, quase 18 (sou Gémeos e a foto ilustra o meu aspeto à época), e vivia emprestado em casa dos meus tios desde que o andar alugado onde habitava com os meus pais, na avenida Rodrigues de Freitas, deixou de garantir condições de segurança aos seus ocupantes, depois do prédio com quem fazia paredes meias ter desabado a meio da noite.

Após ter sido declarado persona non grata no Alexandre e no Nobre, em virtude das minhas actividades extra curriculares, frequentava o Liceu de Gaia, onde repetia o 7º ano, a que estava preso por apenas uma disciplina, devido à minha falta de jeito para lidar com as declinações do alemão (com as do Latim tinha-me entendido à primeira tentativa, vá-se lá perceber porquê).

Tinha muito orgulho em ser militante da LCI, secção portuguesa da IV Internacional, pequena (organizados em células, entre Porto, Coimbra e Lisboa, deveríamos ser uns 30, número magro que não reflete a influência que tínhamos no movimento liceal) organização trotskista fundada por Francisco Sardo, um veterano da Crise Académica de Coimbra (e dono de um mítico Carocha branco), em que em cuja organização em Lisboa, dirigida pelo médico Cabral Fernandes, despontava uma estrela, o camarada Anacleto, aka o Puto (o Francisco Louçã é da minha idade), que dera nas vistas nos protestos da Capela do Rato.

Os ventos de mudança eram perceptiveis. A Primavera marcelista tinha sido sol de pouca dura e a revolta militar das Caldas, a 16 de Março, prenunciava o Outono de um Estado Novo cansado, que de novo apenas guardava o nome.
Toda a Oposição ativa no país preparava as manifestações do 1 de Maio e nós na LCI, não fugíamos à regra.

Naquela madrugada de 24 para 25, a minha tarefa e a do Zé Pedro Guedes era distribuirmos no bairro camarário da Pasteleira panfletos que pretendiam mobilizar os operários para os protestos no Dia do Trabalhador.

Impressos em folhas A4 numa policopiadora Gestetner, no apartamento que servia de aparelho à LCI, após o texto ter sido batido num stencil na máquina de escrever, os panfletos (aka panflos) eram dobrados em quatro e enfiados nos bolsos dos casacos antes de sermos levados ao local de distribuição.

Nessa noite, quem nos conduziu foi o Hugo, um estudante de Arquitetura, natural de Amarante, que tinha um R5 verde inglês. A ideia era esperar que o bairro estivesse todo a dormir para começar a enfiar sistematicamente em todas as caixas de correio do bairro os panflos clandestinos que enchumaçavam os bolsos dos casacos.

Nessa madrugada, a distribuição não correu bem. Iríamos a meio, quando demos pelos faróis de um carro que parou bruscamente. Saíram de lá uns três tipos que vinham com ar decidido e poucos amigos na nossa direção. Pelo sim pelo não, interrompemos logo ali a distribuição e fugimos.

O Zé Pedro ficou (e ainda está convencido) que eram Pides e nós estivemos à bica de ser presos numa altura em que a coluna do Salgueiro Maia já estava em Lisboa. Ora aqui está um mistério que eu nunca conseguirei esclarecer.

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Sim, eu drogo-me com colesterol

terça-feira, 24 de Abril de 2012 às 18:06


Os homens são diferentes das mulheres e ainda bem que é sim, pois essa diferença é a base para uma enorme potencial de prazer, apesar de mesmo no capitulo do sexo as atitudes dos dois géneros serem também elas muito  diferentes – as mulheres precisam de uma razão para o fazerem, enquanto nós precisamos apenas de um local.

Ir às compras, torrar dinheiro em roupa e acessórios, é a terapia adotada pela generalidade das mulheres quando estão de telha. É uma forma de evasão, como outra qualquer, que pode ser viciante, mas é honesta e compreensível, pois ninguém consegue permanecer são durante muito tempo num estado de realidade absoluta.

Todos nós, sem exceção, volta e meia precisamos de um atalho que nos faça escapar da dura realidade, sendo que não é indiferente se o vamos procurar na pastelaria, no fundo de uma garrafa ou numa pedrinha de haxe.

Eu quando estou de trombas, opto muitas vezes por preencher o vazio emocional com batatas fritas do McDonald’s (provavelmente as melhores do mundo) mergulhadas em mostarda e acompanhadas por Coca Cola.

Trata-se de uma receita reconfortante, na justa medida em que estimula a produção de serotonina, uma hormona que dá sensações de prazer e ajuda a combater a depressão - uma explicação cientifica fornecida pela mesma medicina que desaconselha o seu uso.

Sei perfeitamente que faço mal em drogar-me com colesterol, mas apesar disso continuo a defender o direito de cada individuo de escolher a maneira como se suicida em suaves prestações. Ao fim e ao cabo, a periclitante sustentabilidade da nossa Segurança Social exige que alguns se sacrifiquem e desistam de teimar em sobreviver até aos 100 anos.

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Jorge Fiel desvenda mistério do porta moedas

segunda-feira, 23 de Abril de 2012 às 18:06

Não posso negar que sabia que o bolso do lado direito do casaco cinzento, grosso, da Decénio, tinha um buraco. Alias não é o único. O blazer castanho com espinha padece do mesmo mal.

O que eu desconhecia em absoluto é que andava sem rede porque o forro do casaco, do lado do bolso furado, está completamente rasgado. Ou seja, guardar uma coisa nesse bolso era praticamente sinónimo de me ver livre dela.

Sem o saber, passei a manhã a jogar uma espécie benigna de roleta russa com os meus objetos de bolso, de que passo a fazer o inventário: porta moedas Samsonite, chaves de casa (com a argola decorada pela bandeira cubana), chave da carrinha Fiat Marea, lenço de assoar, iPhone 4, carteira com o logo do BCM (Banco Comercial de Macau) gravado, e um caderno de apontamentos Clairefontaine 9x14 cm quadriculado, com 192 páginas.

Uma breve vista de olhos na fotografia que abre este post chega para perceber que a vítima da minha incúria foi o porta moedas (que, calculando por alto, estava recheado com 23 euros e uns trocos em moedas pretas), pois o outro objeto em falta é o o iPhone que não consta da imagem porque estava a ser usado para a registar - e posteriormente tratar com um filtro da Instagram (uma app que recomendo a todas as preclaras e preclaros).

Como ontem estive a fechar, aproveitei a manhã para vagabundear. Para começar, instalei-me na esplanada coberta da Tavi a reler os jornais do fim de semana, antes de os deitar fora, pagando o café com um euro tirado do porta moedas.

Depois, como tinha o carro bem estacionado, aproveitei para fazer umas compras na rua Senhora da Luz. Seis embalagens de 1,5 litro de sumo de laranja/cenoura/limão e um pão da avó no Pingo Doce, que importaram em 7,59 euros liquidados com uma nota de dez oriunda do porta moedas. Um quilo de tangerinas, um quilo de laranjas e duas alheiras (uma de caça, de Trancoso, e uma normal, de Torre de Moncorvo) numa loja de artigos regionais que eu não conhecia e fica do outro lado da rua. E, por último, no quiosque do café ao lado, adquiri seis saquetas de cromos da coleção referente ao Euro 2012 da Panini, pagos com moedas vinda do meu falecido porta moedas. Foi a última vez que o vi.

Só dei pela falta do belo e saudoso porta moedas Samsonite quando, meia hora mais tarde, na caixa da Fnac de Santa Catarina, o procurei para pagar os 50 cêntimos de diferença na operação de troca da edição em paperback do The Preacher, de Camilla Läckberg (que custou 9,95 euros e só depois de o ter comprado reparei que tinha na mesinha de cabeceira, na tradução portuguesa intitulada Gritos do Passado) pelo Saving Faith, de David Baldacci, e o CD dos Humanos ao vivo - que estavam em promoção, a cinco euros cada.

Apoquentado, subi Santa Catarina, a pensar que só havia duas hipóteses. Ou tinha deixado o porta moedas no carro (a melhor hipótese), ou tinha-o deixado no quiosque do café da Foz velha onde comprara os cromos. Estava na disposição de me meter no carro para despistar in loco a primeira e a segunda hipóteses, quando meti a mão no bolso do casaco e verifiquei que ele não tinha fundo. O mais provável era ter-se verificado uma terceira hipótese: perdi o porta moedas porque inadvertidamente o meti no bolso sem fundo. Uma m erda!

Como sou adepto da doutrina brasileira de que não vale a pena chorar sobre leite derramado, logo procurei consolar-me desdobrando a tese do podia ter sido pior.

Podia ter sido pior se tivesse perdido as chaves de casa, ou o iPhone, ou a carteira (a maçada que é, e o tempo que se perde na Loja do Cidadão, para não falar das chatices e do custo de anular o cartão Multibanco e pedir um novo), ou até mesmo o caderno Clairefontaine (apesar de só ter apenas apontamentos que eu já converti em peças jornalisticas) ou a chave do Marea (apesar de ter um duplicado em casa).

Mas podia ter sido melhor se tivesse perdido o lenço semi-ranhoso - o que, devo conceder, seria uma quase impossibilidade devido ao efeito conjugado do seu volume e leveza desafiarem a força da gravidade.

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