Bichas há muitas, seu palerma!

quarta-feira, 2 de Maio de 2012 às 18:06

A língua portuguesa é mesmo muito traiçoeira. O douto Dicionário Houaiss atribui 30 possíveis significados para o substantivo feminino bicha, que vão desde “animal comprido e sem pernas” até “galão de patente que se traz na manga da farda ou do uniforme”, passando por “herpes”, “febre amarela”, “pénis” ou “barca de grandes dimensões e muito bem armada com canhões”.

Apesar de toda esta panóplia de possibilidades, em 99% das vezes que um brasileiro emprega a palavra “bicha” refere-se à 30ª aceção do dicionário: “individuo efeminado”.

Na sua imensa sabedoria, o Houaiss admite o significado que a expressão “fazer bicha” tem em Portugal, que designa o que os brasileiros chamam “estar na fila”, uma atividade sobejamente familiar a todos os habitantes deste jardim à beira mar plantado, em particular aos que foram ontem às compras ao Pingo Doce. “Fileira de pessoas (ou de qualquer coisa) dispostas umas após as outras”, é o 8º significado inventariado para o vocábulo "bicha".

Curiosamente “fazer bichas”, para o Houaiss, quer dizer “fazer travessuras”, o que é uma coisa adorável, ao contrário de esperara e desesperar para que chegue a nossa vez de pagar o imposto de circulação do automóvel na repartição das Finanças do 3º Bairro Fiscal.

Em virtude do excesso de voluntarismo de uma antiga colaboradora brasileira do JN (que não tive o prazer de conhecer mas só pode ter sido uma excelente pessoa e uma fantástica profissional), “bicha” fez parte do índex das palavras de uso proibido neste site. Podíamos escrevê-la mas aparecia aos olhos dos leitores codificada desta forma enigmática: ***.

Felizmente, graças a uma diligente intervenção do meu colega Manuel Molinos, a palavra “bicha” foi libertada da prisão em que esteve injustamente enclausurada, o que me permite, parafraseando a frase imortalizada pelo inesquecível Vasco Santana, em A Canção de Lisboa, gritar Bichas há muitas, seu palerma!, enquanto trauteio a inolvidável canção A agulha e o dedal, celebrizada pela saudosa Beatriz Costa.

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