Jorge Fiel escreve redação sobre a cama

domingo, 6 de Maio de 2012 às 18:06

Eu gosto muito da cama. Citando o meu amigo Fernando Costa Lima, num simples mas impressionante encadeamento de duas perguntas singelas e retóricas: “Se posso estar sentado, por que estou de pé? Se posso estar deitado, por que estou sentado?”

A cama é o sítio por excelência para estarmos deitados. É melhor estar deitado na cama do que, por exemplo, num chão duro de tijoleira fria, ou na calçada à portuguesa de uma rua qualquer.

Também não é mau estar deitado ao sol da relva do Parque da Cidade num dia bonito de verão ou primavera, mas penso que as preclaras e os preclaras concordarão comigo se disser que neste particular de uma pessoa estar deitada a cama é imbatível.

A cama é uma peça de mobília multifunções. Woody Allen faz da cama o seu escritório. Não deixa de ser curioso que um dos melhores humoristas do nosso tempo trabalhe no mesmo sítio que as moças que exercem aquela que por alguma razão que ainda não desvendei é considerada a mais velha profissão do mundo.

(eu tenho cá para mim que essa consideração é um insulto à mãe Eva, mas não estou aqui para arranjar problemas e como esse assunto não vem ao caso o melhor é seguir em frente)

Eu gosto muito de ler na cama, apesar dessa atividade ser muito mais produtiva ao acordar do que ao deitar, pois nove em cada dez vezes em que o tento fazer à noite adormeço com o livro caido no peito antes de chegar ao fim do capítulo.

Há quem adore ver televisão na cama, mas eu qualifico este hábito de bárbaro e declaro todos os meus quartos de dormir zonas livres desse perigoso eletrodoméstico – embora, não nego, infrinjo essa regra e petisco um bocadinho, não muito, de televisão na cama quando pernoito num hotel.

A cama também serve para comer, em ambos os sentidos, o literal e o figurado. Tomar, de vez em quando, o pequeno almoço na cama é uma manifestação de preguiça que aprecio (e por isso recomendo), mas é preciso ter muito cuidado que não há pior que dormir em lençóis cheios de migalhas.

A cama é também o local mais apropriado não só para fazer filhos como ainda para nos entregarmos às práticas que se estivermos em idade fértil e não tomarmos as devidas precauções poderão conduzir ao nascimento de um ou mais bebés, mais ou menos nove meses depois.

Fazer sexo no avião, no cemitério, na praia (cuidado que a areia nas virilhas e outras partes ainda mais intimas pode muiiiito incomodativa), no banco de trás do carro (atenção que o Smart two excluído desta opção), no escritório, no jardim, em cima do tapete em frente à lareira, no duche ou em cima da tampa da máquina de lavor roupa no momento da centrifugação são fantasias bastante comuns e não tenho nada quando dois adultos responsáveis aceitam arriscam uma excentricidade.

Mas, não me lixem, o melhor sitio para fazer amor ainda continua a ser a boa e velha cama.

Este post está ilustrado com uma reprodução do quadro do quarto de Van Gogh em Arles, cujo original está exposto no Musée d'Orsay, em Paris

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