
Quando recebi a terrível notícia que me levou a antecipar bruscamente o final das férias italianas, começadas na véspera, estava sentado, à sombra, nas escadas da igreja de San Lorenzo, com a curiosidade aguçada pela advertência do The Rough Guide de que a sua fachada rude e pobre, de tijolo nu, não passava de um prelúdio inapropriado para a poderosa simplicidade da decoração interior do jovem Brunelleschi, que se celebrizou por desenhar a arquitetar a mais célebre de todas as cúpulas, a que cobre o Duomo de Santa Maria del Fiore e domina Florença.
A Piazza de San Lorenzo é o território base dos Medici. Atrás de mim, estava a igreja paroquial da família e a Biblioteca Mediceo-Laurenziana, que Miguel Ângelo projetou para os Medici.
Na esquina oposta da praça, o Palazzo Medici-Riccardi, onde os fazedores da glória de Florença habitaram durante mais de um século, antes de se mudarem para residências mais espaventosas, como os pallazos Pizzi e Strozzi.
No enfiamento da diagonal, a estátua de Giovanni delle Bande Nere, pai do grão-duque Cosimo I, o primeiro dos Medici (na foto, que o retrata incomodado por um trio de pombos), a que eu for apresentado na véspera, estava ele parado há uma data de séculos, em cima de um cavalo, na Piazza della Signoria.
A véspera, sexta feira, tinha sido o meu primeiro e penúltimo dia em Florença, onde desembarquei, pouco passava das quatro da tarde, junto à estação ferroviária de Santa Maria Novella, oriundo de Pisa, a bordo de um autocarro da Terravision.
Como era o primeiro dos cinco dias planeados para a Toscana, arrumada a tralha no quarto 350, no 4ºpiso do Hotel Diplomat, saímos à rua sem outros planos que não fossem a de flanar despreocupadamente.
Parámos a contemplar a fachada gótica de Santa Maria Novella. Fizemos uma escala na loja do Museo Nazionale Alinari della Fotografia. Vagabundeamos pelas ruas em direção às margens do rio Arno, gulosos de ver o Ponte Vecchio.
Desaguados no rio, junto à Piazza Goldoni e à ponte allo Carraia, e caminhando em direção ao sol, fomos ganhando a ideia de que a ponte S. Trinità (reconstruída pedra a pedra depois de ter sido dinamitada pelos nazis quando da sua retirada) também não é nada de deitar fora.
Demorámo-nos na ponte Vecchio e espreitámos a cara dos Uffizzi, antes de estacionar na esplanada do Rivoire, pasmados com o que os nossos olhos viam.
Assistimos ao desmontar da feira na Piazza della Repubblica e ao entusiasmo com que um grupo de supersticiosos turistas chineses esfregavam o focinho brilhante da estátua do javali (reza a lenda que o esfreganço acompanhado do donativo de uma moeda garante ao autor e benfeitor o regresso a Florença).
Já era noite quando vi pela primeira vez ao vivo a catedral de Santa Maria del Fiore. Cansados por um dia cumprido e agitado, regressamos a pé (em Florença andamos sempre a pé) a Santa Maria Novella, onde comemos uma pasta, na trattoria Il Portale, na via Luigi Alamanni, mesmo ao lado do hotel, antes de nos deitámos. Amanhã era outro dia.
Hoje, decidimos dar a parte da manhã à zona norte. Começamos pelo Mercado Centrale - que bom que era que o Bom Sucesso e o Bolhão ficassem assim depois de renovados! -, e deixamo-nos perder a espiolhar as barracas de vendedores que enchem por completo as ruas à volta.
Passavam 18 minutos do meio dia, hora local, quando recebi a notícia que me levou a interromper as férias. Estava sentado à sombra, nas escadas da Piazza de San Lorenzo, a ler o que os autores do The Rough Guide Italy escreveram sobre os Medici, quando me telefonaram a dizer que a minha mãe, Flora dos Anjos Oliveira Jorge Fiel, 89 anos completados a 28 de Abril, tinha morrido, subitamente, no Porto.