Duas ou três coisas sobre a minha mãe

segunda-feira, 14 de Maio de 2012 às 18:06

A I República já estava a dar as últimas quando a minha mãe, Flora dos Anjos Oliveira Jorge, veio ao mundo a 28 de Abril de 1923. Foi a mais velha das duas filhas (a mais nova, Maria Luísa, nasceria três anos depois) do casamento pouco feliz de Júlia Rosa de Oliveira Jorge e José Dias dos Santos Jorge Júnior.

Se tenho bastantes recordações da minha avó Júlia – que viveu e morreu no andar da avenida Rodrigues de Freitas onde morei durante os meus primeiros 16 anos – o mesmo não posso dizer do meu avô materno, que nunca vi e de que pouco ouvi falar.

Sei que as duas filhas ainda eram muito pequenas quando ele abandonou a minha avó, que foi obrigada a recolher com miúdas à casa do pai dela. Sei que o meu avô materno teve duas ligações posteriores duráveis, que pelo menos de uma delas teve um filho, que lhe herdou o apelido Santos Jorge e foi médico pediatra no Hospital Santo António. Sei ainda que a minha mãe, creio que já neste século, soube da existência deste seu meio irmão mas que nunca chegou a conhecê-lo e encontrar-se com ele.
 
Luís Oliveira, o meu bisavô materno, tinha residência na rua de Miraflores, em Campanhã, que ficava em cima da fábrica de fósforos que geria, creio que em representação do Banco Borges.

A minha mãe cresceu em Miraflores, fez a escola primária na rua de Pinto Bessa e aprendeu costura. Ainda adolescente começou a trabalhar em casa num negócio de fabrico de chapéus que ajudou a família a atravessar sem privações de maior o difícil período da II Guerra Mundial.

A minha mãe comprava no mercado de Bolhão as penas de frango e de pombo, que depois de lavadas e tingidas eram cosidas ao molde, num processo completamente artesanal de manufatura.

As capelines e outros modelos de chapéus para senhora eram feitos por encomenda de Julinho, um modista, com atelier em Fernandes Tomás, que não andarei longe da verdade se disser que era homossexual – não assumido, como é óbvio já que estamos a falar de tempos bem menos liberais do que os atuais em termos de moral sexual, e numa cidade conservador em que o único gay saído do armário e reconhecido, o Carlinhos da Sé, era um cromo ridicularizado por todos.

A minha mãe manteve o negócio dos chapéus mesmo depois de casar com o meu pai, Alfredo da Costa Fiel, na igreja do Bonfim (que se tornou um acontecimento noticiado pelo Jornal de Notícias, porque o carro em que seguia a noiva avariou de vez a meio da subida na rua do Bonfim - e o repórter estava lá), e de ambos irem morar para o 2º andar do 304 da avenida Rodrigues de Freitas – onde havia sempre pequenas penas e esvoaçar pelo ar e um leve cheiro a tintas e anilinas entranhado nas cortinas.

Quando os caprichos da moda começaram a fazer escassear as encomendas de chapéus de penas a minha mãe, diversificou, iniciando o fabrico de asas para os anjinhos usarem nas procissões – uma opção que não deixa de ser curiosa por a minha mãe ter Anjos no seu nome.

Lembro-me perfeitamente de a ver a cortar o molde das asas em papelão, onde depois cosia as penas. Este negócio foi-se mantendo até em 1973 nos mudarmos para a Pasteleira. O mercado de asas para anjinhos já andava ruim, e o meu pai não queria penas pelo ar no nosso andar novo, a meio de uma das torres vermelhas, com um vista de cortar a respiração sobre o rio e o mar.

A minha mãe passou a vida a ajudar e a servir os outros. A ajudar a minha avó Júlia a manter a família sem ajuda do marido. A ajudar o sogro, Jaime da Ressurreição Fiel, e a sogra, Maria Eugénia da Costa Fiel, nas doenças e velhice. A ajudar o meu pai a andar sempre janota e a ter em casa um rendimento suplementar ao que ele trazia do seu trabalho de escriturário na Secção de Pessoal do STCP. A ajudar-me a crescer e a dar-me educação. Nunca poderei esquecer o enorme carinho e amor que tinha por mim, o seu único filho, e que eu nem sempre soube retribuir.

Quando ficou viúva, teve a sorte de lhe apareceram os netos, que lhe permitiram continuar a fazer aquilo que ela mais gostava de fazer e fazia como ninguém – ajudar. Enquanto a saúde lho permitiu foi a melhor avó no mundo para a Mariana, o Pedro e o João, que a choram porque sabem que nunca ninguém os amou e cuidou tanto deles como ela, a vovó Flora.

Neste dia em que fui ao cemitério do Prado do Repouso despedir-me para sempre da minha mãe, espero que me desculpem estar a maçar-vos com uma história que só interessa a mim e aos meus – mas eu senti muito a necessidade de escrever sobre a minha mãe, de partilhar o seu exemplo de vida e manifestar o meu arrependimento por ter conseguido saber mais sobre ela para aprender mais com a sua experiência.

Antes de acabar este post, ilustrado com uma fotografia da minha mãe, feira pela minha filha Mariana, permitam-me ainda que transcreva as linhas que ela escreveu sobre a avó no seu mural no Facebook:

A minha Avó ensinou-me a tabuada (de cor e salteado), deu-me uma carrada de tabefes bem merecidos, ensinou-me a cozer e a fazer rissóis, fez uma carrada de vestidos para as minhas Barbies, levava-me a mim e aos meus irmãos a ir ver os comboios na estação de Francelos, e em geral, foi uma grande Senhora, sempre com garra, quando metia uma coisa na cabeça não havia volta a dar. Vou ter imensas saudades da minha Vóvó... :(

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4 comentário(s)
  • SergioLuso // segunda-feira, 14 de Maio de 2012 18:06

    Meu caro JF ,

    Hesitei se havia de comentar algo tão intimo ou se o silencio seria a melhor opção, pois sei que sabe que sou seu leitor militante.

    Sou mais novo 7 anos que o meu caro e talvez por isso e por uma sorte tremenda que por vezes me esqueço de dar valor ainda tenho pai , mãe e ate uma avó em perfeitas condições físicas e mentais e por isso agora que acabei de ler o seu magnifico post vou a Matosinhos para visitar a minha avó e passar em casa dos meus pais para os abraçar .

    Por vezes a coragem de uns ( o seu post ) alerta para as fraquezas de outros ( a minha ausência em visitar a minha avó e pais )

    O meu muito obrigado !

  • jorge_fiel // segunda-feira, 14 de Maio de 2012 18:06

    Preclaro SergioLuso

    Só pela visita à sua avó, já valeu a pena eu ter escrito este texto.

    Mais vezes do que seria desejável, nós só damos pela falta quando a perda já é irremediável.

    Sempre a considerá-lo

  • AST // segunda-feira, 14 de Maio de 2012 18:06

    Permito-me duas notas apenas sobre assunto de foro tão íntimo.

    Gostei de recordar o Porto de meados do século passado, os locais, as esquinas, as gentes tripeiras, os "fait-divers" como o do carro da noiva, através das suas pinceladas biográficas de uma Senhora - sua Mãe.

    Tal como o caro Jorge Fiel, também nasci na Júlio Dinis (embora uns anitos antes) e estou a ver como se lá estivesse e passasse todos os locais que refere no seu apontamento -  muito fruto de, durante sete anos, ter percorrido parte da Rodrigues de Freitas e subido toda a Av. Camilo até chegar ao nosso Alexandre Herculano.

    É sempre bom recordar a Vida de Mulheres sem medo, capazes dos maiores sacrifícios pelos que lhe são próximos (e não só). Pena é, como refere, o sentimento de que nem sempre tenhamos sabido (ou podido) usufruir tanto quanto deveríamos de quem tinhamos, quando ainda tinhamos. E depois a terrível sensação do "Nunca Mais".

    Um abraço.

  • jorge_fiel // segunda-feira, 14 de Maio de 2012 18:06

    Preclaro AST

    Agradeço-lhe o comentário. Curioso termos em comum  não só local de nascimento (a Maternidade Júlio Dinis, responsável pelo fato da maioria dos portuenses terem Massarelos como freguesia de nascimento), mas também o liceu, o Alexandre - para as coincidências serem maiores só faltava mesmo termos deixado de ser analfabetos no mesmo sítio (eu andei na Escola Primária instalada no edifício da Junta de Freguesia do Bonfim, no Campo 24 de Agosto.)

    Sim, o que mais dói é a sensação de definitivo. A constatação de que nunca mais vamos beneficiar da companhia da pessoa que foi mais importante na nossa vida.

    Um abraço

    Sempre a considerá-lo

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