
A I República já estava a dar as últimas quando a minha mãe, Flora dos Anjos Oliveira Jorge, veio ao mundo a 28 de Abril de 1923. Foi a mais velha das duas filhas (a mais nova, Maria Luísa, nasceria três anos depois) do casamento pouco feliz de Júlia Rosa de Oliveira Jorge e José Dias dos Santos Jorge Júnior.
Se tenho bastantes recordações da minha avó Júlia – que viveu e morreu no andar da avenida Rodrigues de Freitas onde morei durante os meus primeiros 16 anos – o mesmo não posso dizer do meu avô materno, que nunca vi e de que pouco ouvi falar.
Sei que as duas filhas ainda eram muito pequenas quando ele abandonou a minha avó, que foi obrigada a recolher com miúdas à casa do pai dela. Sei que o meu avô materno teve duas ligações posteriores duráveis, que pelo menos de uma delas teve um filho, que lhe herdou o apelido Santos Jorge e foi médico pediatra no Hospital Santo António. Sei ainda que a minha mãe, creio que já neste século, soube da existência deste seu meio irmão mas que nunca chegou a conhecê-lo e encontrar-se com ele.
Luís Oliveira, o meu bisavô materno, tinha residência na rua de Miraflores, em Campanhã, que ficava em cima da fábrica de fósforos que geria, creio que em representação do Banco Borges.
A minha mãe cresceu em Miraflores, fez a escola primária na rua de Pinto Bessa e aprendeu costura. Ainda adolescente começou a trabalhar em casa num negócio de fabrico de chapéus que ajudou a família a atravessar sem privações de maior o difícil período da II Guerra Mundial.
A minha mãe comprava no mercado de Bolhão as penas de frango e de pombo, que depois de lavadas e tingidas eram cosidas ao molde, num processo completamente artesanal de manufatura.
As capelines e outros modelos de chapéus para senhora eram feitos por encomenda de Julinho, um modista, com atelier em Fernandes Tomás, que não andarei longe da verdade se disser que era homossexual – não assumido, como é óbvio já que estamos a falar de tempos bem menos liberais do que os atuais em termos de moral sexual, e numa cidade conservador em que o único gay saído do armário e reconhecido, o Carlinhos da Sé, era um cromo ridicularizado por todos.
A minha mãe manteve o negócio dos chapéus mesmo depois de casar com o meu pai, Alfredo da Costa Fiel, na igreja do Bonfim (que se tornou um acontecimento noticiado pelo Jornal de Notícias, porque o carro em que seguia a noiva avariou de vez a meio da subida na rua do Bonfim - e o repórter estava lá), e de ambos irem morar para o 2º andar do 304 da avenida Rodrigues de Freitas – onde havia sempre pequenas penas e esvoaçar pelo ar e um leve cheiro a tintas e anilinas entranhado nas cortinas.
Quando os caprichos da moda começaram a fazer escassear as encomendas de chapéus de penas a minha mãe, diversificou, iniciando o fabrico de asas para os anjinhos usarem nas procissões – uma opção que não deixa de ser curiosa por a minha mãe ter Anjos no seu nome.
Lembro-me perfeitamente de a ver a cortar o molde das asas em papelão, onde depois cosia as penas. Este negócio foi-se mantendo até em 1973 nos mudarmos para a Pasteleira. O mercado de asas para anjinhos já andava ruim, e o meu pai não queria penas pelo ar no nosso andar novo, a meio de uma das torres vermelhas, com um vista de cortar a respiração sobre o rio e o mar.
A minha mãe passou a vida a ajudar e a servir os outros. A ajudar a minha avó Júlia a manter a família sem ajuda do marido. A ajudar o sogro, Jaime da Ressurreição Fiel, e a sogra, Maria Eugénia da Costa Fiel, nas doenças e velhice. A ajudar o meu pai a andar sempre janota e a ter em casa um rendimento suplementar ao que ele trazia do seu trabalho de escriturário na Secção de Pessoal do STCP. A ajudar-me a crescer e a dar-me educação. Nunca poderei esquecer o enorme carinho e amor que tinha por mim, o seu único filho, e que eu nem sempre soube retribuir.
Quando ficou viúva, teve a sorte de lhe apareceram os netos, que lhe permitiram continuar a fazer aquilo que ela mais gostava de fazer e fazia como ninguém – ajudar. Enquanto a saúde lho permitiu foi a melhor avó no mundo para a Mariana, o Pedro e o João, que a choram porque sabem que nunca ninguém os amou e cuidou tanto deles como ela, a vovó Flora.
Neste dia em que fui ao cemitério do Prado do Repouso despedir-me para sempre da minha mãe, espero que me desculpem estar a maçar-vos com uma história que só interessa a mim e aos meus – mas eu senti muito a necessidade de escrever sobre a minha mãe, de partilhar o seu exemplo de vida e manifestar o meu arrependimento por ter conseguido saber mais sobre ela para aprender mais com a sua experiência.
Antes de acabar este post, ilustrado com uma fotografia da minha mãe, feira pela minha filha Mariana, permitam-me ainda que transcreva as linhas que ela escreveu sobre a avó no seu mural no Facebook:
A minha Avó ensinou-me a tabuada (de cor e salteado), deu-me uma carrada de tabefes bem merecidos, ensinou-me a cozer e a fazer rissóis, fez uma carrada de vestidos para as minhas Barbies, levava-me a mim e aos meus irmãos a ir ver os comboios na estação de Francelos, e em geral, foi uma grande Senhora, sempre com garra, quando metia uma coisa na cabeça não havia volta a dar. Vou ter imensas saudades da minha Vóvó... :(