Dava jeito saber a data exata do meu passamento

quarta-feira, 30 de Maio de 2012 às 18:06

A vida não é uma maratona, nem sequer é comparável com qualquer outro tipo de corrida.

Na maratona sabemos logo à partida que a meta está à distância de 42 quilómetros, mais uns tantos metros, e o que há a fazer é dar às pernas e ir doseando o esforço de maneira a conseguirmos fazer todo o percurso.

A vida não é assim, pois não sabemos a que distância está a meta, salvo raras excepções, como quando estamos no estado terminal de uma doença e o médico anuncia que só nos restam três meses de vida (e, atenção, porque que eles às vezes enganam-se) - ou quando conseguimos concretizar com sucesso a decisão de abreviar abruptamente a nossa estadia na terra, recorrendo aos próprios meios.

Em 98% dos casos (estimativa da minha única e exclusiva responsabilidade, pelo que me dispenso de publicar a ficha técnica e de indicar os NS/NR), na véspera de morrer nem sequer passa pela cabeça do pessoal que está em últimas exibições, que o avião em que viaja vai cair, ou que que sofrerá um AVC fatal, ou que será barbaramente assassinado porque o homicida é burro e confundiu-o com o vizinho do 3º esquerdo que ele suspeita anda a comer-lhe a mulher - e que por isso estamos a beber o nosso último café, acompanhado de uma Água das Pedras fresca, a dar o último beijo e a ver pela última vez a Glenn Close num episódio da 3ª temporada de Sem Escrúpulos.

Creio que quem formatou assim as coisas deve ter pensando demorada e seriamente no assunto, ponderando sabiamente os prós e os contras, antes de tomar a terrível decisão de rodear o timing da nossa partida do máximo suspense.

Se me desse ao trabalho, estou convencido que bastariam cinco minutos com o pensómetro ligado (um apaelho que o Professor Pardal e o seu ajudante Lampadinha inventaram a meu pedido e me ajuda a refletir) para alinha aqui umas boas dez razões para nos ser vedado o conhecimento antecipado do dia do nosso passamento.     

Mas o contrário também é verdadeiro. Aterroriza-me, por exemplo, a perspetiva de não deixar as minhas coisas completamente arrumadas e em ordem (por causa do cheiro das tintas acabei de anotar fazer testamento nos lembretes no meu iPhone).

E arrepia-me o desperdicio gerado pelo desconhecimento da data da nossa morte. Vou dar só um exemplo. Hoje de manhã, pela fresquinha, antes de ir levar o João à escola e seguir para o JN, estive duas horas a guardar e, pastas do meu Arquivo de Pessoas uma parte da montanha de recortes por classificar que está a transformar o meu escritório numa enxovia.

Ora o mer Arquivo de Pessoas é, por assim dizer, uma arquivo morto (apesar de menos de 1% das pessoas que lá moram já estarem a fazer tijolo, assim de repente só me estou a lembrar de duas, o O' Neill e o Júlio Resende), ou, na melhor das hipóteses é um arquivo zombie.

Ao contrário do Arquivo de Temas, que consulto sempre que tenho de me documentar para escrever sobre um determinado assunto, o Arquivo de Pessoas não tem nenhuma utilidade imediata. Estou a construi-lo a pensar na hipótese de, no futuro, poder ganhar a vida a escrever sobre pessoas conhecidas - obituários, perfis, notas biográficas, eu sei lá...

Ora se eu soubesse que ia morrer amanhã, ou para a semana, ou até mesmo no próximo 5 de Outubro (que creio anda vai ser feriado), era certo e sabido que parava de alimentar o Arquivo das Pessoas, tinha passado aquelas duas horinhas na cama, talvez deitasse fora a papelada toda - e, sabe-se lá?, até podia voltar a fumar. 

A fotografia que ilustra este post é o meu último auto-retrato com 55 anos

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3 comentário(s)
  • Bruxinha // quarta-feira, 30 de Maio de 2012 18:06

    Instagram,

  • Bruxinha // quarta-feira, 30 de Maio de 2012 18:06

    Aí, aí, aí, estas vivinho ! Prazer em conhece-lo! Rs

    Uma chatice se soubéssemos , creio eu!  Ficaríamos motivados a viver tudo em demasia para nao perder tempo ou alguns ficariam estáticos pelo pouco tempo!

    Mas já que ainda ontem os amigos o parabenizavam, posso sugerir outra anotação para este estado  lúgubre...bom, eu decidi ser cremada.... Uma opção, of course!

    Mas, por favor, aparentas nao gostar de surpresas, a maioria são ótimas surpresas!

    E mais outro favorzinho, tomas sol, pois  as energias se tornam mais positivas.

    E aproveitas, a cama nao bem feita, as flores rosas, os papeis espalhados, o vinho branco, o próximo verão, o futebol, as mulheres boas como o milho, os bons e maus pensamentos, principalmente porque nao podemos escolher tudo na vida! Beijo

  • jorge_fiel // quarta-feira, 30 de Maio de 2012 18:06

    Preclara Bruxinha

    Indo por partes.

    1. Lá está. Como em tudo na vida, também no conhecimento prévio do momento da nossa morte teria vantagens e inconvenientes;

    2. Eu próprio também gostaria de ser cremado, sendo-me indiferente o destino a dar às cinzas, que tanto podem ser snifadas ou usadas para fazer café:

    3. As boas surpresas são ótimas, de acordo. Mas as más nem tanto...;

    4. Apanhar sol e gozar a vida s~so bons conselhos, obrigado.

    beijos

    Sempre a considerá-la!

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