
A vida não é uma maratona, nem sequer é comparável com qualquer outro tipo de corrida.
Na maratona sabemos logo à partida que a meta está à distância de 42 quilómetros, mais uns tantos metros, e o que há a fazer é dar às pernas e ir doseando o esforço de maneira a conseguirmos fazer todo o percurso.
A vida não é assim, pois não sabemos a que distância está a meta, salvo raras excepções, como quando estamos no estado terminal de uma doença e o médico anuncia que só nos restam três meses de vida (e, atenção, porque que eles às vezes enganam-se) - ou quando conseguimos concretizar com sucesso a decisão de abreviar abruptamente a nossa estadia na terra, recorrendo aos próprios meios.
Em 98% dos casos (estimativa da minha única e exclusiva responsabilidade, pelo que me dispenso de publicar a ficha técnica e de indicar os NS/NR), na véspera de morrer nem sequer passa pela cabeça do pessoal que está em últimas exibições, que o avião em que viaja vai cair, ou que que sofrerá um AVC fatal, ou que será barbaramente assassinado porque o homicida é burro e confundiu-o com o vizinho do 3º esquerdo que ele suspeita anda a comer-lhe a mulher - e que por isso estamos a beber o nosso último café, acompanhado de uma Água das Pedras fresca, a dar o último beijo e a ver pela última vez a Glenn Close num episódio da 3ª temporada de Sem Escrúpulos.
Creio que quem formatou assim as coisas deve ter pensando demorada e seriamente no assunto, ponderando sabiamente os prós e os contras, antes de tomar a terrível decisão de rodear o timing da nossa partida do máximo suspense.
Se me desse ao trabalho, estou convencido que bastariam cinco minutos com o pensómetro ligado (um apaelho que o Professor Pardal e o seu ajudante Lampadinha inventaram a meu pedido e me ajuda a refletir) para alinha aqui umas boas dez razões para nos ser vedado o conhecimento antecipado do dia do nosso passamento.
Mas o contrário também é verdadeiro. Aterroriza-me, por exemplo, a perspetiva de não deixar as minhas coisas completamente arrumadas e em ordem (por causa do cheiro das tintas acabei de anotar fazer testamento nos lembretes no meu iPhone).
E arrepia-me o desperdicio gerado pelo desconhecimento da data da nossa morte. Vou dar só um exemplo. Hoje de manhã, pela fresquinha, antes de ir levar o João à escola e seguir para o JN, estive duas horas a guardar e, pastas do meu Arquivo de Pessoas uma parte da montanha de recortes por classificar que está a transformar o meu escritório numa enxovia.
Ora o mer Arquivo de Pessoas é, por assim dizer, uma arquivo morto (apesar de menos de 1% das pessoas que lá moram já estarem a fazer tijolo, assim de repente só me estou a lembrar de duas, o O' Neill e o Júlio Resende), ou, na melhor das hipóteses é um arquivo zombie.
Ao contrário do Arquivo de Temas, que consulto sempre que tenho de me documentar para escrever sobre um determinado assunto, o Arquivo de Pessoas não tem nenhuma utilidade imediata. Estou a construi-lo a pensar na hipótese de, no futuro, poder ganhar a vida a escrever sobre pessoas conhecidas - obituários, perfis, notas biográficas, eu sei lá...
Ora se eu soubesse que ia morrer amanhã, ou para a semana, ou até mesmo no próximo 5 de Outubro (que creio anda vai ser feriado), era certo e sabido que parava de alimentar o Arquivo das Pessoas, tinha passado aquelas duas horinhas na cama, talvez deitasse fora a papelada toda - e, sabe-se lá?, até podia voltar a fumar.
A fotografia que ilustra este post é o meu último auto-retrato com 55 anos