
O Saramago, que a sabia toda, já tinha avisado. É preciso ter muito cuidadinho quando se é irónico perante jornalistas.
Professor da Boston University (onde também é Director e Senior Provost Fellow, o que equivale a dizer que é um tipo importante, um big shot), Cornelius Hurley tem a desculpa de viver do outro lado do Atlântico e não saber português. Estas duas coisas juntas isentam-no de pecado no delicado caso do desconhecimento do sábio conselho do nosso Nobel da Literatura.
Cornelius é o sujeito que aparece na fotografia imediatamente atrás da starking trincada - que, esclareço desde já, por causa do cheiro das tintas, que o facto de surgir em primeiro plano se prende apenas a imperativos de ordem estética, ou seja não pretende simbolizar o pecado original.
Democrata militante (meteu férias para ir fazer campanha no Colorado por Obama, cujo primero mandato, confessa, o está a deixar muito desiludido) e equipado com uma excelente cabeça e uma boa capacidade de explicar o que pensa, o professor Cornelius foi vitima da sua própria ironia.
A páginas tantas e a pedido da plateia (constituida por uma dúzia de portugueses), discorreu sobre a Fox News e permitiu-se afirmar que aos olhos reacionários desta cadeia de televisão um democrata e liberal (etiqueta que nos States, ao contrário do que sucede na Europa, tem uma conotação de esquerda) é comunista e gay.
Pois no final do dia, o bom do Cornelius foi interpelado por uma colega minha, que ensaiou consolá-lo, dizendo-lhe, a título de palmadinhas nas costas, que ela própria tinha sido militante comunista na sua juventude, o que à luz do pensamento de Willy Brandt equivalia a chamar-lhe burro e gay.
Burro porque Cornelius tem seguramente mais de 60 anos e Willy Brandt escreveu: "Quem aos 20 anos não é comunista não tem coração. E quem assim permanece aos 40 anos não tem inteligência"
Gay porque ao circunscrever as suas indagações ao tópico comunista, a minha colega significou aceitar como boa a outra componente da equação irónica que ela consumiu como se tratasse de uma revelação.
O caso do Cornelius, que afinal não é comunista nem gay, foi o episódio mais picaresco do seminário sobre Banking and Global Finance que estou a frequentar na Boston University. E só não tenho mais pena dele, porque, no entretanto, soube que o bom do professor reside num moradia de um milhão de dólares em Back Bay, um bairro de elegantes edificios de Boston, que bate aos pontos a nossa avenida Marechal Gomes da Costa.