O professor Cornelius não é comunista nem gay

quinta-feira, 14 de Junho de 2012 às 18:06

O Saramago, que a sabia toda, já tinha avisado. É preciso ter muito cuidadinho quando se é irónico perante jornalistas.

Professor da Boston University (onde também é Director e Senior Provost Fellow, o que equivale a dizer que é um tipo importante, um big shot), Cornelius Hurley tem a desculpa de viver do outro lado do Atlântico e não saber português. Estas duas coisas juntas isentam-no de pecado no delicado caso do desconhecimento do sábio conselho do nosso Nobel da Literatura.

Cornelius é o sujeito que aparece na fotografia imediatamente atrás da starking trincada - que, esclareço desde já, por causa do cheiro das tintas, que o facto de surgir em primeiro plano se prende apenas a imperativos de ordem estética, ou seja não pretende simbolizar o pecado original.

Democrata militante (meteu férias para ir fazer campanha no Colorado por Obama, cujo primero mandato, confessa, o está a deixar muito desiludido) e equipado com uma excelente cabeça e uma boa capacidade de explicar o que pensa, o professor Cornelius foi vitima da sua própria ironia.

A páginas tantas e a pedido da plateia (constituida por uma dúzia de portugueses), discorreu sobre a Fox News e permitiu-se afirmar que aos olhos reacionários desta cadeia de televisão um democrata e liberal (etiqueta que nos States, ao contrário do que sucede na Europa, tem uma conotação de esquerda) é comunista e gay.

Pois no final do dia, o bom do Cornelius foi interpelado por uma colega minha, que ensaiou consolá-lo, dizendo-lhe, a título de palmadinhas nas costas, que ela própria tinha sido militante comunista na sua juventude, o que à luz do pensamento de Willy Brandt equivalia a chamar-lhe burro e gay.

Burro porque Cornelius tem seguramente mais de 60 anos e Willy Brandt escreveu: "Quem aos 20 anos não é comunista não tem coração. E quem assim permanece aos 40 anos não tem inteligência"

Gay porque ao circunscrever as suas indagações ao tópico comunista, a minha colega significou aceitar como boa a outra componente da equação irónica que ela consumiu como se tratasse de uma revelação.

O caso do Cornelius, que afinal não é comunista nem gay, foi o episódio mais picaresco do seminário sobre Banking and Global Finance que estou a frequentar na Boston University. E só não tenho mais pena dele, porque, no entretanto, soube que o bom do professor reside num moradia de um milhão de dólares em Back Bay, um bairro de elegantes edificios de Boston, que bate aos pontos a nossa avenida Marechal Gomes da Costa.

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2 comentário(s)
  • Slinkman // quinta-feira, 14 de Junho de 2012 18:06

    Aproveite bem o seminário. Eu bem que gostava de aprender a interpretar a informação disponível sobre Banking and Global Finance, mas ou é tudo servido em bandejas tecnocratas cheias de palavras terminadas em "ing" e eu fico às aranhas, ou, se me esforçar muito, acabo por lhes plasmar o meu enquadramento conceptual e ver ali muito Darwin e Richard Dawkins... concluindo, finalmente, que é tudo um jogo especulativo que acaba por dar vantagem adaptativa aos tecnocratas dominantes no sentido de lhes conferir uma maior aptidão reprodutiva que lhes permita uma maior probabilidade de transferir os seus genes para a geração seguinte.

  • jorge_fiel // quinta-feira, 14 de Junho de 2012 18:06

    Preclaro Slinkman

    Está tão carregadinho de razão que eu até temo que arranje uma hérnia só por causa disso. Banqueiros e financeiros de toda a espécie inventaram uma lingua nova, um dialecto desconhecido dos mortais mais comuns, com o objetivo de nos poderem continuar a enrolar à má fila - e evitarem terem de pagar pelas suas malfeitorias com a prisão ou multas ao nível dos seus salários pornográficos.

    A bem da Nação!

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