
Sei que corro o risco de parecer insensivel, mas a notícia da descodificação do genoma da banana deixou-me indiferente. Eu sei que a banana é a base alimentar para 400 milhões de pessoas e que o estudo do seu ADN, levado a cabo por uma equipa de investigadores franceses, vai permitir aumentar a eficácia do combate às doenças que afetam este fruto. Todavia, a noticia deixou-me indiferente. Estou a marimbar-me para o assunto!
Preocupado com este meu alheamento face a um avanço da ciência benéfico para a humanidade, resolvi fazer alguma reflexão sobre o assunto. A primeira conclusão deste trabalho introspectivo foi a de que a indiferença face à descodificação do genoma da banana é filha direta da minha indiferença face à banana propriamente dita.
Durante a minha infância e adolescência fui um consumidor médio de banana, um fruto que apresentava uma data de vantagens é fácil de descascar (dispensa o recurso à faca), razoavelmente barato e bastante nutritivo. Como agravante, conferia-nos a nós, portugueses pobretes mas alegretes condenados a viver à sombra do imobilismo salazarista, uma aparente vantagem cosmopolita sobre os alemães da RDA a quem estava vedado o acesso a este fruto exótico.
O meu consumo de banana elevou-se notoriamente em 1980, ano em que o cumprimento do serviço militar obrigatório me levou a viver na Madeira, e tinha sempre um cacho de bananas no meu quarto, na Messe do Regimento de Infantaria do Funchal (antigo Dezanove), uma gentileza dos soldados do pelotão que eu fazia de conta que comandava.
Chegado aqui, sinto-me na obrigação de declarar que gosto muito da banana da Madeira, que apesar de pequena e ter um défice de imagem relativamente à que é importada das Américas Central e do Sul é muitissimo mais saborosa do que a oriunda destas paragens mais longinquas.
Passado este pico, deixei praticamente de comer banana, refugiando-me na maçã (muito menos calórica), no âmbito da luta para manter o meu peso aquém dos 80 quilos - meta que, nos tempos que correm, mudou para a de impedir a balança de se vingar do facto de eu me pôr em cima dela respondendo com um número de três digitos.
Continuo, por isso, a manter uma atitude de séria reserva e alguma indiferença face à banana, apesar dela ter uma óbvia conotação sexual. Ao assemelhar-se a um pénis, a banana é usada como ferramenta de trabalho nas aulas práticas dos cursos onde se ensina a alcançar a excelência na arte de praticar sexo oral a um homem.
Por alguma razão o tarado do Andy Warhol desenhou uma banana para a capa do album de estreia dos Velvet Underground, um disco de 1967 em que as letras das canções abordam uma rica panóplia de temáticas, que vão do abuso de drogas aos desvios sexuais, passando pelos clássicos sadismo e masoquismo.