
Das três categorias de traques que catalogámos aqui ontem, a primeira - os silenciosos, mas muito mal cheirosos - é sem sombra de dúvidas a mais problemática, logo a começar porque possibilita que o seu autor se mantenha refugiado no anonimato.
O terrorismo manifesta-se de várias formas. Emitir um traque silencioso mas fétido numa sala habitada por outras pessoas e fazer de conta que não é nada connosco - ou até mesmo criar manobras de diversão, como, por exemplo, olhar com desconfiança para a sola dos sapatos ou perguntar ao parceiro do lado se por acaso tem conhecimento de alguma avaria na canalização do prédio - é não só um atitude cobarde que não dignifica quem a toma como ainda por cima deve ser considerado um ato de terrorismo moderno e de alcatifa.
Não é por acaso que eu, já há muitos anos, batizei de assassinos silenciosos os traques expelidos pela calada mas absolutamente podres, que se emitidos numa divisão densamente povoada lançam injustamente a suspeita sobre pessoas cujos intestinos estão completamente inocentes.
Ninguém está livre de emitir em público um assassino silencioso. Melhor seria fazer das tripas coração e aguentar frima até chegarmos ao aconchego da privacidade de uma casa de banho ou (a melhor opção) de um ambiente aberto e,de preferência, desabitado num perimetro de 25 a 30 metros.
Mas se não for possivel... o que lá vai lá vai. Deve, no entanto, assumir a responsabilidade pelo ato irrefletido e inconveniente do seu intestino, pedindo, em nome dele, desculpa a todos os narizes ofendidos, e, de seguida, abandonar rapidamente a sala (até para não ficar para ali exposto ao cheiro nauseanbundo que saiu das suas próprias entranhas), pronunciando uma frase descontraída, dita com um sorriso nos lábios,como por exemplo:
a) bem, parece que o melhor mesmo é eu ir à casa de banho...;
b) esta minha mania de comer feijão preto e couve mineira a acompanhar a picanha acaba sempre por colocar-me em situações embaraçosas;
c) às vezes não há nada como uma distração destas para acabar com uma reunião que já não adiantava nem atrasava.
(continua)