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Confundido com Leonel Vieira, após uma francesinha

sexta-feira, 20 de Julho de 2012 às 18:06

Pensando bem, estou cada vez mais conservador. Ou seja, quando identifico uma necessidade, para a satisfazer recorro quase sempre a formatos previamente testados e estabelecidos. Só pode ter a ver com a idade. Mas também deve estar relacionado com um sistema automático de poupança e preservação das celulazinhas cinzentas.

Quando o tema é francesinha, para recomendar ou consumo próprio, o meu formato tipo é o Capa Negra, no Campo Alegre, do outro lado da sede da junta de freguesia de Massarelos.

Pode não ser a melhor francesinha do mundo - os maiores especialistas vivos nesta matéria (um escol integrado, entre outros, pelo meu colega Tiago Rodrigues Alves), tendem a fazer consenso em torno do Bufete Fase, em Santa Catarina, quando a rua sobe a sério para chegar ao Marquês.  

Mas, seguramente, o Capa Negra é uma opção mais que honesta. Com a agravante da francesinha se fazer acompanhar de Super Bock de pressão impecavelmente tirada e fresca, devido à elevada rotação de barris derivada do alto consumo deste café que se tornou restaurante.

Ter formatos não implica declinar outras experiências. No início do ano, para despachar uns tickets restaurante, resolvemos dar uma chance à francesinha da Cufra e ela revelou-se à altura - nada a dizer em seu desabono.

Há um par de meses, no decorrer dos contatos tendo em vista a marcação de um almoço com o pessoal do Marketing da Unicer -  onde esteve em cima da mesa uma ação conjunta com o JN de promoção daquele que se tornou o segundo prato mais emblemático da nossa cidade, logo a seguir às incontornáveis tripas -, de Leça do Balio sugeriram comermos uma francesinha no Café Santiago, em Passos Manuel.

Abreviando, tenho de reconhecer que a francesinha se revelou uma belíssima surpresa, passando imediatamente a integrar o meu formato francesinha, que ficou assim enriquecido com uma opção na Baixa, ainda para mais num café que me trás recordações do passado.

Como até aos 16/17 anos habitei no número 304 da rua Rodrigues de Freitas, em frente à Garagem Galiza e à Casa da Espanha, a rua de Passos Manuel fazia parte da minha área de intervenção pessoal. aliás, nas noites de 6ª feira era comum encontrar-me com um amigos num de dois cafés desta rua  - o Clássico e o Astronauta, ambos em frente ao Coliseu.

Voltando ao século XXI, devo informar as preclaras e os preclaros que não há um mas dois cafés Santiago na rua Passos Manuel, separados por escassas dezenas de metros. O primeiro e original fica ali logo, onde a rua inicia na praça do Poveiros o seu percurso descendente em direção à praça D. João I, e o segundo - que só pode ser a demonstração do sucesso do primeiro - surge um pouco mais abaixo e ocupa o espaço outrora ocupado pelo café Clássico que eu desenterrei no parágrafo anterior, que é uma espécie de regresso ao passado.

Voltando ao presente. Hoje ao almoço fui ao Café Santiago (versão II, ou seja o antigo Clássico) comer uma francesinha. Foi bom. E tive sorte em ir cedo (12h30), pois por volta da uma da tarde estava cheio. E quando saí havia uma data de gente de pé à espera de mesa.

Como boa parte da clientela é constituida por turistas, não é preciso ser um Hercule Poirot para concluir que o Café Santiago deve estar recomendado por um ou mais guias de viagem.

A coisa está de tal maneira sofisticada, que até há uma lista de francesinhas. Para simplificar optei pela da casa, a francesinha à Santiago, uma versão que não pode ser considerada low cost (custa nove euros), nem baixa em calorias, porque a sanduiche é transformada numa ilha, por estar rodeada de batatas fritas por todos os lados.

Eu gosto de batatas fritas. Mas não tenho o hábito de as consumir ao mesmo tempo que a francesinha. No Capa Negra peço sempre a opção clássica - ou seja sem a modernice do ovo e das batatas fritas. A única explicação que encontro para esta minha encomenda de hoje tem a ver com facto de eu ser muito sensível às coisas que aparecem clasificadas como da casa - até o vinho, imaginem.

A coisa correu muito bem. A francesinha estava ótima. A cerveja e companhia impecáveis.O serviço, bastante razoável, foi assegurado por um empregado que faz parte daquele formato misto engraçado-interventivo e ao mesmo tempo atencioso. Quando lhe pedi mostarda (adoro molhar a ponta das batatas fritas em mostarda de Dijon apesar de estar careca de saber que isso é letal para o hemorroidal), não se eximiu a censurar a atitude de acrescentar mais ingredientes à bomba calórica que tinha acabado de colocar em cima da minha mesa. E na altura de fazer o troco fez um truque de mãos engraçado com as moedas. Deixei-lhe ficar 90 cêntimos de gorjeta.

Foi só no finalzinho que surgiu uma pequena nuvem a toldar o céu azul (tão azul que até parecia ter acabado de sair da máquina de lavar) do meu almoço de francesinha no Café Santiago. Estava de iPhone em punho, a fotografar o back office (esforço que resultou na foto mediocre que ilustra este post), quando fui interpelado pelo empregado atencioso-engraçadinho-interventivo:

- Desculpe lá perguntar, mas estamos todos aqui na dúvida. O senhor é o realizador Leonel Vieira, não é?

Uma das morais que se pode extrair desta história é que nem todos os gajos gordos, grandes e carecas são o realizador Leonel Vieira - nem tão pouco o artista plástico Pedro Cabrita Reis.

A outra é que é muito triste não nos sermos confundidos com o George Clooney, por várias razões e mais uma, sendo que esta última tem a ver com o nos habilitarmos a sermos convidados para fazer um anúncio televisivo a uma marca de cápsulas para café concorrente da Nespresso.

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