
Sou alérgico à penicilina e a taxímetros. Da primeira alergia, protejo-me tornando-a pública sempre que alguém, de preferência com estudos na área da saúde, se prontifica para me dar uma injeção ou prescrever um medicamento que desconheço. Já quanto à segunda, resolvo o assunto fugindo dos táxis.
Quando chego a uma cidade, a primeira coisa que faço é estudar pormenorizadamente o seu sistema de transportes públicos, nomeadamente a oferta de passes de curta duração e os trajetos das linhas de autocarro. E nunca parto às escuras, pois faço previamente algum trabalho de casa, consultando guias em papel e a internet.
Tenho o hábito de descartar, logo à partida, os cartões turísticos, tipo Madrid Card, que existem em todas as grandes cidades europeias e agregam na sua oferta o passe para os transportes públicos a entradas gratuitas ou com descontos e outras facilidades (evitar bichas e por aí adiante) em museus ou outras atrações. Tenho para mim que são mau negócio.
Em Madrid, a oferta de abonos turisticos de curta duração compreende passes de um dia, dois, três e cinco dias - o que só confirma uma das mais vincadas caraterísticas da minha personalidade, que é a originalidade, já que programei uma estadia de quatro dias, lapso de tempo que as luminárias do Consorcio de Transportes de Madrid acharam desnecessário atender com um produto especifico.
O passe de um dia, válido para metro e autocarros, numa zona suficientemente ampla para abranger o aeroporto de Barajas, custa oito euros por pessoa adulta. O de três dias fica por custa 17,40 euros e o de cinco por 25,40 euros.
Seguindo o sábio conselho do camarada Guterres ("É fazer as contas!"), optei pelo de cinco dias. Os dados da equação são os seguintes. No momento em que estávamos a comprar os passes, em Barajas, pouco passava das nove da manhã, ou seja tinhamos o dia todo pela frente. No quarto dia, o regresso era só ao final da tarde. Há um bilhete de dez viagens, em que cada uma fica a 1,20 euros, mas o trajeto de e para o aeroporto tem um agravamento que o leva a custar seis euros por viagem.
Como sou um tudo nada maníaco (o um tudo nada apenas confirma a tendência para sermos sempre bastante indulgentes connosco) nalgumas matérias, dei-me ao trabalho de assinalar todas as viagens de metro e autocarro que consumimos, concluindo que fizemos 31 normais a que há que acrescentar mais duas de ida e volta para Barajas.
A partir destes dados apurei um não negligenciável lucro líquido individual de 23,80 euros (e global de 119 euros) na compra do passe de cinco dias, que passo a demonstrar, apesar de saber que corro o sério risco do Gaspar ou um dos seus rapazes ler isto e aplicar-me logo uma taxa ou imposto sobre esta esforçada poupança.
37,2 euros (31 viagens normais x 1,20 euros, o preço que conseguiria se tivesse adquirido o bilhete múltiplo de dez viagens) + 12 euros (viagens de ida e volta a Barajas) = 49,20 euros - 25,40 = 23,80 euros x 5 (creio já ter infromado as preclaras e os preclaros de que faço parte de uma família numerosa) = 119 euros!
Esta minha contabilidade pode ser contestada com base no argumento de que se não tivessemos comprado o passe muito provavelmente não teríamos feito tantas viagens de metro e autocarro. Não contesto a tese, pois ela é verdadeira. Mas contra-argumento dizendo que muito provavelmente teriamos visto e experimentado menos coisas e teriamos exigido das nossas pernas mais do que seria razoável.
Aqui chegados, os preclaros e as preclaras, já ligeiramente aborrecidos com esta árida temática (o ligeiramente apenas confirma a tendência para sermos sempre bastante indulgentes connosco), podem muito legitimamente perguntar porque raios é que está a ilustrar este post a fotografia da placa toponímica de uma pequena rua madrilena.
Eu passo a explicar. A calle del Amor de Dios desempenhou um papel nuclear no transfer entre aeroporto e o apartamento que alugamos no Bairro das Letras. Em Barajas, apanhamos a linha 8 do metro para Nuevos Minsiterios, onde apanhamos a 10, direção Puerta del Sur, mudando novamente em Tribunal para a 1 (identificada pou um fashion azul cueca, que só pode homenagear a vasta comunidade gay madrilena), direção Valdecarros, com destino a Anton Martin.
Emergimos à superficie na Plaza Anton Martin e bastou-nos percorrer a curta e simpática calle del Amor de Dios para chegar à calle Huertas, onde tinhamos o 3º direito interior do nº 10 alugado por três noites.