Tag: transportes públicos

Eu, colecionador de tralha, confesso-me arrependido

segunda-feira, 17 de Setembro de 2012 às 18:06

Uma das minhas piores manias é colecionar tralha. Todo o tipo de tralha. Tenho uma enorme dificuldade em deitar coisas ao lixo. O grave é que tenho a perfeita consciência que há algo de perigosamente compulsivo nesta atitude.

Não me desfaço da roupa que já não serve, com a desculpa que posso apanhar uma daquelas doenças em que um tipo emagrece mesmo sem querer e a comer como um javardo. Não dou a roupa que me fica excessivamente larga (herdada de um familiar e de um amigo que já ultrapassaram os três digitos de peso), porque acho que mais ano menos ano ela me vai servir. E por aí adiante.

Sempre que faço uma viagem, vou acumulando a tralha toda que vou recebendo - cartões de visita de restaurantes, planos de museus, contas, mapas, cartões de embarque, recortes de jornais, guias de exposições, folhetos de atrações turística  etc,etc, etc. sendo que nestes etc até pode caber a embalagem vazia de um pacote de açúcar do Starbucks (facto verídico).

Depois, quando regresso, guardo toda esta tralha numa pasta arquivadora, identificada na lombada por um autocolante -  neste caso Madrid Setembro 2012 - que vai fazer companhia às pastas Boston Junho 2012, Roma Julho 2012 e por aí adiante.

Foi por culpa desta minha irritante faceta de colecionador de tralha que me impediu de praticar uma boa ação, facto que me arrrependo e passo a explicar. Na sequência de contas aqui devidamente prestadas na pretérita 6ª feira, optei por comprar um passe válido para cinco dias, apesar de a nossa estadia em Madrid se limitar a quatro dias - mas bem preenchidos.

Quando ao fim do quarto dia passamos a última barreira do metro, em Barajas, e iamos começar a caminhada até ao terminal 1 do aeroporto, o meu filho Pedro perguntou-me se iamos precisar mais do passe. Respondi-lhe que não, e então ele disse que ia oferecer o dele (que ainda tinha um dia à borla) a um backpacker acabado de chegar que estivesse na bicha para comprar o bilhete de metro para o centro.

E se bem o disse, melhor o fez. E eu, em vez de lhe dizer logo para levar também o meu, hesitei porque já estava a ver o bilhete na pasta Madrid Setembro 2012. Este pecadilho ainda não me saiu da cabeça. Por isso, eu, colecionador de tralha, confesso aqui o meu arrependimento por não ter oferecido o bilhete ainda válido por mais 32 horas no sistema madrileno de transportes públicos..

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Sou alérgico à penicilina e a taxímetros

sexta-feira, 14 de Setembro de 2012 às 18:06

Sou alérgico à penicilina e a taxímetros. Da primeira alergia, protejo-me tornando-a pública sempre que alguém, de preferência com estudos na área da saúde, se prontifica para me dar uma injeção ou prescrever um medicamento que desconheço. Já quanto à segunda, resolvo o assunto fugindo dos táxis.

Quando chego a uma cidade, a primeira coisa que faço é estudar pormenorizadamente o seu sistema de transportes públicos, nomeadamente a oferta de passes de curta duração e os trajetos das linhas de autocarro. E nunca parto às escuras, pois faço previamente algum trabalho de casa, consultando guias em papel e a internet.

Tenho o hábito de descartar, logo à partida, os cartões turísticos, tipo Madrid Card, que existem em todas as grandes cidades europeias e agregam na sua oferta o passe para os transportes públicos a entradas gratuitas ou com descontos e outras facilidades (evitar bichas e por aí adiante) em museus ou outras atrações. Tenho para mim que são mau negócio.

Em Madrid, a oferta de abonos turisticos de curta duração compreende passes de um dia, dois, três e cinco dias - o que só confirma uma das mais vincadas caraterísticas da minha personalidade, que é a originalidade, já que programei uma estadia de quatro dias, lapso de tempo que as luminárias do Consorcio de Transportes de Madrid acharam desnecessário atender com um produto especifico.

O passe de um dia, válido para metro e autocarros, numa zona suficientemente ampla para abranger o aeroporto de Barajas, custa oito euros por pessoa adulta. O de três dias fica por custa 17,40 euros e o de cinco por 25,40 euros. 

Seguindo o sábio conselho do camarada Guterres ("É fazer as contas!"), optei pelo de cinco dias. Os dados da equação são os seguintes. No momento em que estávamos a comprar os passes, em Barajas, pouco passava das nove da manhã, ou seja tinhamos o dia todo pela frente. No quarto dia, o regresso era só ao final da tarde. Há um bilhete de dez viagens, em que cada uma fica a 1,20 euros, mas o trajeto de e para o aeroporto tem um agravamento que o leva a custar seis euros por viagem.

Como sou um tudo nada maníaco (o um tudo nada apenas confirma a tendência para sermos sempre bastante indulgentes connosco) nalgumas matérias, dei-me ao trabalho de assinalar todas as viagens de metro e autocarro que consumimos, concluindo que fizemos 31 normais a que há que acrescentar mais duas de ida e volta para Barajas.

A partir destes dados apurei um não negligenciável lucro líquido individual de 23,80 euros (e global de 119 euros) na compra do passe de cinco dias, que passo a demonstrar, apesar de saber que corro o sério risco do Gaspar ou um dos seus rapazes ler isto e aplicar-me logo uma taxa ou imposto sobre esta esforçada poupança.

37,2 euros (31 viagens normais x 1,20 euros, o preço que conseguiria se tivesse adquirido o bilhete múltiplo de dez viagens) + 12 euros (viagens de ida e volta a Barajas) = 49,20 euros - 25,40 = 23,80 euros x 5 (creio já ter infromado as preclaras e os preclaros de que faço parte de uma família numerosa) = 119 euros!

Esta minha contabilidade pode ser contestada com base no argumento de que se não tivessemos comprado o passe muito provavelmente não teríamos feito tantas viagens de metro e autocarro. Não contesto a tese, pois ela é verdadeira. Mas contra-argumento dizendo que muito provavelmente teriamos visto e experimentado menos coisas e teriamos exigido das nossas pernas mais do que seria razoável.

Aqui chegados, os preclaros e as preclaras, já ligeiramente aborrecidos com esta árida temática (o ligeiramente apenas confirma a tendência para sermos sempre bastante indulgentes connosco), podem muito legitimamente perguntar porque raios é que está a ilustrar este post a fotografia da placa toponímica de uma pequena rua madrilena.

Eu passo a explicar. A calle del Amor de Dios desempenhou um papel nuclear no transfer entre aeroporto e o apartamento que alugamos no Bairro das Letras.  Em Barajas, apanhamos a linha 8 do metro para Nuevos Minsiterios, onde apanhamos a 10, direção Puerta del Sur, mudando novamente em Tribunal para a 1 (identificada pou um fashion azul cueca, que só pode homenagear a vasta comunidade gay madrilena), direção Valdecarros, com destino a Anton Martin.

Emergimos à superficie na Plaza Anton Martin e bastou-nos percorrer a curta e simpática calle del Amor de Dios para chegar à calle Huertas, onde tinhamos o 3º direito interior  do nº 10 alugado por três noites.

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É melhor andar cá em cima, no autocarro

sábado, 19 de Maio de 2012 às 18:06

O autocarro é injustamente menosprezado pela esmagadora maioria dos turistas e boa parte dos viajantes nas suas deslocações no interior das grandes cidades estrangeiras.

Eu próprio fiz parte deste mainstream, até que, aqui há cinco anos,tomei a acertada decisão de consagrar algum tempo ao estudo do mapa dos double deckers londrinos. Assim que comecei a dominar trajetos e horários, nunca mais quis outra coisa senão os autocarros.

A rapidez, derivada do facto de não conflituar com o trânsito, e a consequente maior fiabilidade no cumprimento de horários, são as únicas vantagens comparativas do metro sobre o autocarro.

O resto são só desvantagens. Andam-se quilómetros debaixo de terra nos inóspitos corredores de acesso às plataformas das estações nos metros de Londres e Paris. Durante a viagem, a única paisagem são os outros passageiros. E nas horas de ponta a gente é tanta que nos permite viver imaginar a triste existência das sardinhas em lata (que, neste particular, sofrem emnso porque já estão mortas).

O autocarro é bestial. Mesmo quando está no seu pior, ou seja engarrafado no trânsito, permite-nos regalar os olhos a ver a paisagem, seja ela Trafalgar Square, a rue de Rivoli ou a Piazza Venezia.

Em Roma, a rede de metro é bastante incipiente, constituída por duas linhas radiais (trazer e levar gente para a periferia é a sua principal tarefa) que se cruzam num x , que tem o seu coração na estação ferroviária de Termini, que tem ao lado, na Piazza Cinquecento, um grande terminal de autocarros.

Os bilhetes vendem-se em praticamente todo o lado (quiosques, tabacarias, restaurantes, ao ponto da livraria duplex alojada no grande átrio da estação de Termini ter-se visto obrigada a pôr à entrada um letreiro a explicar que não vende bilhetes), são de flat rate (um euro para qualquer distância) e dão para os dois lados, ou seja para uso no metro ou autocarro.

Nas grandes capitais do resto da Europa, mas também no Porto e em Lisboa, as empresas de transportes públicos urbanos têm investido muito em colocar nas paragens informações detalhadas sobre o horário e trajetos das diferentes linhas o que nos facilita imenso a tarefa de navegar pela rede de autocarros.

Mais, em quase todas as cidades há uma linha regular que percorre uma data de pontos de interesse turístico, como a 69 em Paris, ou a 64 em Roma.


Foto da tabuleta informativa na paragem do autocarro 64, na Piazza Cinquecento, junto a Termini, em Roma

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Dá trabalho ser alérgico a taxímetros

sexta-feira, 18 de Maio de 2012 às 18:06

Sempre que alguém se prepara para me dar uma injeção ou prescrever um medicamento que desconheço, declaro imediatamente que sou alérgico à penicilina – e, se suspeitar que tenho audiência (e estiver bem disposto e com tempo), até acompanho esta revelação como uma descrição colorida das circunstâncias em que descobri esta alergia.

Lidar com a alergia à penicilina é, por isso, infinitamente mais simples do que gerir a alergia a chatos, e muito menos trabalhoso do que viajar sendo alérgico a taxímetros – uma alergia que se declarou em todo o seu esplendor há 20 anos, por ocasião do solstício do Verão, em Paris, e que se tudo correr bem contarei um destes dias, com detalhe, a todas as preclaras e preclaros.

No meu raide de 42 horas sobre Itália, ocorrido no último fim de semana, tive a oportunidade de enriquecer o meu arsenal de conhecimentos sobre transportes públicos ao ser apresentado à Terravision, uma empresa que se dedica a fazer ligações por autocarro entre aeroportos europeus e o centro das cidades.

Nem todos os aeroportos são servidos por metro, como o do Porto. Em Lisboa, por exemplo, os trabalhos de expansão da linha vermelha, levando-a do Oriente até à Portela, já decorrem há tempo suficiente para merecerem o qualificativo de obras de Santa Engrácia.

Boa parte dos aeroportos secundários operados pela Ryanair não dispõem de ligações ferroviárias regulares e baratas ao centro da cidade, e é um disparate completo ir gastar num táxi o que se poupou na viagem de avião.

A Terravision está aí para desatar este nó, em vários aeroportos italianos, e não só. Os bilhetes - que podem ser adquiridos num pequeno e improvisado stand de vendas já na zona de embarque do Sá Carneiro – garantem, por exemplo, uma ligação de autocarro, a cinco euros por cabeça (viagem de aproximadamente uma hora) entre o aeroporto de Pisa e o a estação ferroviária de Santa Maria Novella, em Florença.

Em Roma, a Terravision opera os dois aeroportos principais, Fiumicino (Easyjet, TAP, Alitalia) e Ciampino (Ryanair), a seis euros e quatro euros, respetivamente, por trajeto e por cabeça, a partir da estação ferroviária de Termini.

Há uma ligação ferroviária rápida entre Fiumicini e Termini, mas que importa 14 euros por cabeça e trajeto. Ou seja no caso de duas pessoas fica a 28 euros, mais do dobro que o autocarro Terravision, e quase ao preço do táxi – que custa em média 40 euros.

Nestas coisas há sempre que fazer um balanço entre tempo e dinheiro, mas parece-me claro que a Terravision é a melhor opção.

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