
Já tinha 24 anos quando se deu o meu primeiro e inadvertido encontro com um javali. Foi na Tapada de Mafra, bela localidade onde eu estava a viver, a expensas do Estado português, instalado numa camarata da Escola Prática de Infantaria, que ocupava parte do imponente palácio e convento barroco mandado construir por D. João V e que inspirou Saramago a escrever uma das suas mais preciosas obras.
Uma das provas da instrução dos cadetes de Infantaria consistia numa prova que demorava 24 horas e nos levava a percorrer a tapada, andando sozinhos de um lado para o outro - a carregar ao ombro uma G3 descarregada e às costas uma mochila cheia -, a dar água sem caneco. O objetivo era testar não só a nossa prontidão fisica mas também a capacidade de orientação, pois no início desta espécie de rali pedestre davam-nos um azimute e quando atingissemos essa direção encontrariamos aí alguém que nos forneceria outro azimute, e assim sucessivamente durante as 24 horas de um dia.
Algures a meio da noite, senti (sim, o instinto existe) que estava a ser seguido, o que racionalmente era um perfeito disparate - se se tratasse de um outro cadete, mais perdido ainda do que eu, de certeza se anunciaria para juntarmos os esforços na descoberta do controlo seguinte.
A principio não liguei. Depois, comecei a olhar furtivamente pelo ombro para trás - não sei se já vos tinha contado mas foi nessa altura que mentalmente compus a canção "Over my shoulder", que 15 anos mais tarde seria celebrizada pelos Mike & the Mechanics ;-). Finalmente arranjei lata e virei-me para trás para ver ao certo o que se passava.
E o que se passava era que eu estava a ser seguido a uma distância curta, de cinco a seis metros, por um imponente javali, escuro como a noite e armado com umas presas ameaçadoras. Eu parei e ele parou. Continuei a andar e ele continuou a andar. Voltei a parar e a virar-me para trás e ele voltou a parar.
Como não estava equipado com as munições de calibre 7,62 mm usadas pela G3 (o transporte da arma regulamentar tinha como única finalidade fazer peso e criar mais uma dificuldade naquele dia de passeio pela tapada) nem sequer valia a pena equacionar a hipótese de iniciar tardiamente uma carreira de caçador.
Resignei-me a continuar o meu caminho, mais desperto (cortesia do javali), após decidir que me defenderia com a coronha da espingarda no caso improvável de ser atacado pelo meu seguidor, e tentei com sucesso abstrair da sua presença, pois não dei pelo momento em que ele mudou de ideias e basou.
Após este meu primeiro contacto ao vivo com um javali, nunca mais o voltei a encontrar um inteiro (até porque não se trata de animal que por norma integre as coleções dos jardins zoológicos), mas apenas no prato, servido na forma de solemillo, no Pavilhão de Caça, em Santa Cruz do Bispo.
O ano passado, na minha primeira viagem a Florença, reencontrei um javali, desta feita não de carne (que casa muito bem com framboesas e pode ser ainda mais saborosa do que a do seu primo porco) mas de bronze, Il Porcellino, uma reprodução de uma estátua romana de mármore que está nos Uffizzi.
Quem vem da Ponte Vecchio pela Via Por Santa Maria quase que tropeça no Il Porcellino, junto ao Mercato Nuovo, onde se vendem couros e recordações variadas, quando se se virar à direita se vai dar à magnífica Piazza della Signoria e seguindo em frente se desagua na insonsa Piazza della Repubblica.
O focinho do javali brilha como ouro, porque, de acordo com a tradição, o forasteiro que o esfregar garante automaticamente o seu regresso a Florença. Já não me lembro se o ano passado passei a mão pelo focinho do Il Porcellino, mas como voltei, achei por bem fazer-lhe uma visita.
Na presença do javali e da multidão de turistas que lhe acariciam o focinho e tiram fotografias a seu lado, concluí que o Porto teria toda a vantagem em arranjar uma supertição igual a esta. É ótimo para o turismo, como está demonstrado pela quantidade de gente que em Roma se põe de costas para a Fontana de Trevi na esperança de ao atirar uma moeda para as suas águas estar a comprar o regresso a uma cidade tão sexy como a capital italiana.