Breve notícia dos meus encontros com javalis

quarta-feira, 12 de Junho de 2013 às 13:02

Já tinha 24 anos quando se deu o meu primeiro e inadvertido encontro com um javali. Foi na Tapada de Mafra, bela localidade onde eu estava a viver, a expensas do Estado português, instalado numa camarata da Escola Prática de Infantaria, que ocupava parte do imponente palácio e convento barroco mandado construir por D. João V e que inspirou Saramago a escrever uma das suas mais preciosas obras.

Uma das provas da instrução dos cadetes de Infantaria consistia numa prova que demorava 24 horas e nos levava a percorrer a tapada, andando sozinhos de um lado para o outro -  a carregar ao ombro uma G3 descarregada e às costas uma mochila cheia -, a dar água sem caneco. O objetivo era testar não só a nossa prontidão fisica mas também a capacidade de orientação, pois no início desta espécie de rali pedestre davam-nos um azimute e quando atingissemos essa direção encontrariamos aí alguém que nos forneceria outro azimute, e assim sucessivamente durante as 24 horas de um dia.

Algures a meio da noite, senti (sim, o instinto existe) que estava a ser seguido, o que racionalmente era um perfeito disparate - se se tratasse de um outro cadete, mais perdido ainda do que eu, de certeza se anunciaria para juntarmos os esforços na descoberta do controlo seguinte.

A principio não liguei. Depois, comecei a olhar furtivamente pelo ombro para trás - não sei se já vos tinha contado mas foi nessa altura que mentalmente compus a canção "Over my shoulder", que 15 anos mais tarde seria celebrizada pelos Mike & the Mechanics ;-).  Finalmente arranjei lata e virei-me para trás para ver ao certo o que se passava.

E o que se passava era que eu estava a ser seguido a uma distância curta, de cinco a seis metros, por um imponente javali, escuro como a noite e armado com umas presas ameaçadoras. Eu parei e ele parou. Continuei a andar e ele continuou a andar. Voltei a parar e a virar-me para trás e ele voltou a parar.

Como não estava equipado com as munições de calibre 7,62 mm usadas pela G3 (o transporte da arma regulamentar tinha como única finalidade fazer peso e criar mais uma dificuldade naquele dia de passeio pela tapada) nem sequer valia a pena equacionar a hipótese de iniciar tardiamente uma carreira de caçador.

Resignei-me a continuar o meu caminho, mais desperto (cortesia do javali), após decidir que me defenderia com a  coronha da espingarda no caso improvável de ser atacado pelo meu seguidor, e tentei com sucesso abstrair da sua presença, pois não dei pelo momento em que ele mudou de ideias e basou.

Após este meu primeiro contacto ao vivo com um javali, nunca mais o voltei a encontrar um inteiro (até porque não se trata de animal que por norma integre as coleções dos jardins zoológicos), mas apenas no prato, servido na forma de solemillo, no Pavilhão de Caça, em Santa Cruz do Bispo.

O ano passado, na minha primeira viagem a Florença, reencontrei um javali, desta feita não de carne (que casa muito bem com framboesas e pode ser ainda mais saborosa do que a do seu primo porco) mas de bronze, Il Porcellino, uma reprodução de uma estátua romana de mármore que está nos Uffizzi.

Quem vem da Ponte Vecchio pela Via Por Santa Maria quase que tropeça no Il Porcellino, junto ao Mercato Nuovo, onde se vendem couros e recordações variadas, quando se se virar à direita se vai dar à magnífica Piazza della Signoria e seguindo em frente se desagua na insonsa Piazza della Repubblica.

O focinho do javali brilha como ouro, porque, de acordo com a tradição, o forasteiro que o esfregar garante automaticamente o seu regresso a Florença. Já não me lembro se o ano passado passei a mão pelo focinho do Il Porcellino, mas como voltei, achei por bem fazer-lhe uma visita.

Na presença do javali e da multidão de turistas que lhe acariciam o focinho e tiram fotografias a seu lado, concluí que o Porto teria toda a vantagem em arranjar uma supertição igual a esta. É ótimo para o turismo, como está demonstrado pela quantidade de gente que em Roma se põe de costas para a Fontana de Trevi na esperança de ao atirar uma moeda para as suas águas estar a comprar o regresso a uma cidade tão sexy como a capital italiana.

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Uma declaração de amor à Piazza della Signoria

segunda-feira, 20 de Maio de 2013 às 18:06

Ao longo da minha vida estive numa mão cheia de sítios tão deslumbrantes que me impressionaram ao ponto de ser acometido pelo pensamento generoso de que nenhum ser humano deveria ser autorizado a morrer sem primeiro os ver e viver. A Piazza della Signoria, onde foi queimado o fanático religioso Savonarola, em Florença, faz obviamente parte dessa selecta lista locais que esmagam pela sua beleza.

A esplanada do café Rivoire, mesmo em frente ao Palazzo Vecchio (na foto) é a melhor plateia para saborear esta praça que se desenvolve num elegante L, em que a fonte de Neptuno (um trabalho maneirista em que o deus do Mar está rodeado por simpáticas ninfas que comemoram as vitórias navais da Tuscana), de Ammannatti, faz de rótula.

Os preços praticados na esplanada do Rivoire não são baratos, antes pelo contrário, mas faça o favor de os encarar na desportiva, pois a melhor utlidade que o dinheiro tem é precisamente esta, a de ajudar a arredondar a perfeição de um momento.

Uma cópia (o original foi transferido para a Academia, em 1873) do David, de Miguel Ângelo, é merecidamente a vedeta da galeria de escutura ao ar livre que é a Piazza della Signoria, mas não posso deixar de chamar a atenção de todas as preclaras e preclaras para dois trabalhos de Giambologna (esse mesmo, o tarado e desenvergonhado da fonte de Bolonha em que as sereias têm duas pernas e espremem as mamocas para elas jorrarem água): a estátua equestre de Cosimo I (creio que não seria uma heresia traduzir-lhe o nome para Cosme), um dos mais famosos dos Medici, e o Rapto dsa Sabinas, um virtuoso conjunto de três figuras contorcidas, esculpidas num único bloco de mármore, que está na Loggia dei Lanzi.

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Restaurantes vazios devem contratar figurantes

sexta-feira, 17 de Maio de 2013 às 6:06

Mete-me muita impressão que no mesmo bairro, a escassa distância, às vezes mesmo ao lado um do outro, coexistam restaurantes completamente às moscas - apenas guarnecidos por empregados e proprietário com cara de quem está à beira do suicidio e têm mais do que razões para isso - e outros sem uma mesa livre, em que o dono não consegue dissimular alguma satisfação pelo seu sucesso no momento de enxotar a clientela supranumerária, dando origem a mal entendidos curiosos, como a da francesa que deixou cair um dommage quando soube que não havia esperanças de jantar ali nessa noite, ao que o italiano despachador repondeu com um cínico sim, talvez domani, mas tem de se esforçar e vir muito mais cedo. 

Exemplo desta segunda categoria de restaurantes é a tratorria La Casalinga, na via del Michelozzo,em Oltrarno (ou seja na margem esquerda do Arno), junto a Piazza di S. Spiritu (onde pulsa o coração da movida noturna fiorentina), recomendada por todos os guias turísticos de Florença como um restaurante low cost com cozinha familiar e pratos tipicos tuscanos, que serve doses XXL e, ainda por cima, é um dos favoritos dos indigenas (só essa informação chega para fazer dele um poderoso magneto de forasteiros).

Moral da história, ainda antes das oito da noite já há filas gigantes, que os empregados desencorajam dizendo que antes das dez da noite não há nenhuma hipótese de estarmos sentados e em vias de encomendar comida. Como é óbvio desisti à primeira e nunca mais lá voltei.

Sempre me desagradaram os contrastes gritantes entre ricos e pobres, entre gente com uma saída incrível e rapazes e raparigas solitários a que ninguém lhes liga, entre restaurantes cheios e restaurantes vazios. É o meu feitio Robin dos Bosques.

Por isso deixo ficar aqui uma sugestão aos donos de restaurantes vazios. Por que é que não contratam comensais figurantes (o cachet podia ser comida à borla)  para evitar terem as salas e esplanadas desertas que afugentam a clientela, e assim evitam ser olhados como um foco de peste negra ou de desarranjos intestinais? 

PS. A fotografia que ilustra este post é um aspeto da fantástica cúpula que Brunelleschi construiu para a catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença    

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Jorge Fiel vítima de carneirismo na via delle Oche

quinta-feira, 16 de Maio de 2013 às 18:06

No meu primeiro jantar em Florença fui vitima do carneirismo, o que é bastante grave porque eu sou um acérrimo critico deste fenómeno.

Rumava a um restaurante da via delle Oche, creio que recomendado pelo Rough Guide, quando tropecei num outro, o Repubblica que estava possuido de uma enorme animação, cheio de gente e de luz. Volúvel como sou, tive de me esforçar - e me recordar do episódio dos marinheiros de Ulisses, atados aos mastros, para melhor resistirem ao cântico das sereias - parar resistir à tentação de entrar e mandar às urtigas o restaurante recomendado.

Mas quando cheguei ao destino primitivo e deparei com um restaurante elegante mas sombrio, sossegado porque pouco povoado, sucumbi ao instinto, fiz marcha atrás e regressei ao Repubblica, pois um restaurante agitado e cheio é sempre mais sexy que outro quase deserto.

O Repubblica estava mesmo cheio como um ovo, pelo que me arrumaram na pior das mesas que um restaurante pode oferecer - a que fica junto à porta da casa de banho- e eu comecei logo a arrepender-me de me ter deixado conduzir pelo instinto.

Uma coisa é animação vista de fora outra coisa é vivida por dentro. Olhada de perto, a agitação era produzida pela ação conjunta de duas mega-excursões, uma de irrequietos e barulhentos miúdos italianos (deviam estar a festejar o final de um ciclo de estudos) e outra de seniores franceses - um dos quais confundi com o chefe de sala numa daquelas cenas gagas em que sou mestre.

Farto do barulho, da posição geo-estratégica da mesa e da demora do serviço, decidi bater em retirada mas esse meu sábio movimento foi impedido in extremis pelo verdadeiro chefe de sala que me transportou para outra mesa, que, no entretanto vagara (presumo que os seus ocupantes tinham fugido horrorizados pelo barulho dos excursionistas), e garantiu assim a minha permanência.

Cortada a retirada, não tive outro remédio senão encomendar a refeição, que foi nem boa nem má, antes pelo contrário. Deste jantar no Repubblica da via delle Oche, em Florença, aprendi que nem sempre é boa ideia deixar-nos encandear pelo brilho da luz e da agitação - e que temos muito a ganhar se soubermos disciplinar os nossos impulsos. 

PS. A foto que ilustra este post é da escultura de Hércules e Cacus, de Bandinelli, que fica junto à porta do Palazzo Vecchio, na impressionante Piazza della Signoria. É impressão minha ou a posição de Cacus é muito equívoca,(para não dizer outra coisa)? 

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Missão impossível na Via dei Serragli

quarta-feira, 15 de Maio de 2013 às 18:06

 

Lembram-se da Missão Impossível? Estou a falar da série televisiva, produzida e exibida pela CBS nos anos 60 (e que a RTP passou entre nós, a preto e branco), e não do franchise cinematográfico inaugurado por Brian de Palma.

Eu delirava com aquele sistema de comunicação em que a missão era comunicada ao Jim Phelps, o chefe da equipa, através de um dispositivo de comunicação especial que se auto-destruia automaticamente quando acabava de transmitir a mensagem.

Ora pois, preclaras e preclaros amigos, senti-me um Jim Phelps quando, após ter encontrado o número 49 da Via dei Serragli, correspondente à residência religiosa CSD Forresteria (onde pernoitei dois dias), saquei do manual de instruções recebidas por mail para atingir o quarto onde pernoitaria nos dias seguintes.

Esclareço desde já que o respeito absoluto pelo descanso dominical, desguarnece de pessoal a residência no Dia do Senhor.

De acordo com as minhas instruções, a Operação Abre-te Sésamo iniciou-se na via dei Serragli, quando introduzi o código 432 no teclado da fechadura eletrónica da porta de entrada, que se abriu como uma santola, franqueando-me o acesso a um corredor que desembocava num pátio, protegido por uma porta de ferro.

Pressionando num interruptor, bem à vista e identificada, no corredor, a porta de ferro afastou-se do meu caminho, sem ranger. No pátio, no lado esquerdo, está um conjunto de caixas de correio, protegidas por uma fechadura eletrónica. De acordo com as instruções, premi no teclado o código 1657 e, ato continuo, abriu-se o cacifo 206, que continha no seu interior as chaves do quarto com esse número, bem como a papelada que tinha de preencher, assinar e entregar na receção, o mais tardar até às dez da manhã.

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Estacionar o carro na ponte Vespucci, sobre o Arno

terça-feira, 14 de Maio de 2013 às 18:06

 

Antes desta visita eu já adorava Itália e admirava o génio criativo dos italianos. Esta estada (presumo que também podia empregar estadia, mas Deus me livre de incorrer na cólera da minha amiga que teima em considerar mais correto o uso do vocábulo estada) só reforçou essas adoração e admiração.

Após ter ususfruido em Bolonha. na ida paara o MamBo, de umas utilissimas passadeiras em cotovelo - as mais adequadas para cortar caminho quando atravessamos uma praça (genial invenção que só não compreendo por que é que ainda não foi adotada no nosso país), fui surpreendido em Florença pelo facto de ser autorizado o estacionamento automóvel (pago) num dos lados da ponte Americo Vespucci.

Estava eu a refletir sobre o moitvo porque é que a América foi descoberta pelo Cristóvão Colombo e, apesar disso, não se chama Colômbia mas América, quando reparei na fileira de carros ordeira e pacatamente estacionados num dos lados da ponte que leva o nome do navegador florentino - que logo registei fotograficamente, para posterior beneficio de todas as preclaras e preclaros.

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No Palazzo Pitti, a meter para dentro calorias culturais

segunda-feira, 13 de Maio de 2013 às 18:06

 

Como fica a menos de cinco minutos da residência CSD Foresteria, o Palazzo Pitti foi o primeiro destino nesta estada (e não estadia, garante uma minha amiga boa) em Florença e constitui uma estreia mundial absoluta para mim.

Mandado construir por Luca Pitti, que o pensou XXXL (é o maior de Florença) para chatear os seus rivais Medici, o palácio acabou por ir parar às mãos desta última familia, por uma daquelas ironias em que o destino é fértil, quando começou a faltar o ar aos Pitti.

Investi duas horas e meia na visita, o que é muito pouco tempo para saborear devidamente um palácio tão grande e tão pomposo. A tarefa revelou-se cansativa porque careceu da preparação prévia - ou seja do elaborar com cuidado e critério da lista de alvos a visitar e do percurso adequado para cumprir essa missão.

O consumo de um grande museu ou palácio exige a definição atempada de uma estratégia. Na ausência desse trabalho de casa, no final das duas horas e meia investidas na Palazzo Pitti tenho de confessar que, tudo coado, recordo poucas coisas.

Acabou por ser uma javardice idêntica à de comer sem método, sofregamente, sem saborear os alimentos. Ou seja, estive a meter para dentro, como se não houvessse amanhã. enormes quantidades de calorias culturais.

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Uma estranha forma de numerar as ruas

quinta-feira, 9 de Maio de 2013 às 18:06

 

Os italianos têm várias manias, uma das quais consiste em numerar as ruas de uma maneira sui generis, que pode provocar ataques cardíacos a estrangeiros desprevenidos.

Numa tentativa razoavelmente bem sucedida de controlar os custos da viagem, reservei um quarto duplo, com casa da banho privativa, a 70 euros por noite na CSD Foresteria Firenze, uma residência religiosa, que declarava como morada o nº 49 da via de Serragli, em Oltrarno - ou seja na margem esquerda do rio Arno.

A via de Serragli é uma rua razoavelmente comprida e anorética, propriedade que é extensível aos passeios que são de tal maneira estreitos que é de todo em todo conveniente rodear-nos de alguns cuidados para evitarmos ser atropelados por um dos autocarros que a atravessam (verificar pf na fotografia que ilustra este post).

Após confirmar que a cidade de Florença respeita o principio básico da numeração de risca ao meio - pares de um lado, impares de outro - desci a rua do lado dos pares olhando com atenção para o outro lado do passeio até que senti um baque no coração quando ao número 47 sucedeu o 51, sem contemplar o 49, que era o indicado pela residência onde era suposto eu pernoitar.

Após um primeiro sobressalto, recuperei a calma, caminhei mais umas largas dezenas de metros e respirei fundo quando descobri o nº 49 e a residência.

Após aturadas averiguações descobri a razão para o número 49 não surgir necessariamente entre o 47 e o 51. As ruas obedecem a duas numerações, uma reservada aos prédios de habitação e outra aos estabelecimentos comerciais. Uma idosincrasia, é o que é. A vida tem destas coisas e nós temos de estar preparados para tudo.

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