Fotos do Skype. A Internet revolucionou o viajar...

 

Estou no Aeroporto do Cairo e são 10 da noite. Vi as pirâmides e a esfinge, passei o dia com alguns amigos, mas estou num limbo e tudo parece andar mais depressa do que o normal enquanto eu transito lentamente à espera de uma despedida. À medida que a hora do voo se aproxima tento compreender que vou voltar para casa. Um ano de viagem, 19 países, milhares de experiências, e agora umas horas para aterrar num sitio que não é desconhecido mas sim talvez o que eu conheço melhor.

Estou triste, contente, ansioso e ao mesmo tempo anestesiado. 

Mas estou e as coisas são como são, e no fundo é apenas uma nova partida e não uma chegada.

Resta-me só agradecer às pessoas que me acompanharam durante este ano no papel e no blog e a todos os que me ajudaram e apoiaram quando decidi fazer esta viagem e começar este projecto; e também a todas as pessoas com quem tive a oportunidade de viajar e partilhar momentos.

E por último quero agradecer às pessoas que conheci e aos sítios que visitei que foram a vida e a alma  desta crónica.

Mas já chega de despedidas e agradecimentos e de memórias reflectidas.

Dentro de umas horas sento-me no avião, inclino a cadeira para trás e preparo-me para uma nova partida.

 

 

 

Uma ultima nota para os Leitores. Espero que esta viagem tenham contribuido para inspirar em alguns de vos o bichinho da viagem.

Para todos aqueles que sonham com aventuras e descobertas peguem na mochila e facam-se a estrada. Se o mundo fosse feito de viajantes, seria um mundo muito mais tolerante.

 

Obrigado.

 

 

Tel Aviv é conhecida como a Bubble, a bolha. É uma cidade moderna, com bares e restaurantes da moda abertos até tarde, com galerias, museus, praia, e muita gente na rua de noite e de dia.

As ruas são seguras e o estilo de vida é comparável ao das grandes capitais europeias.

No entanto, a apenas 50 quilómetros fica Jerusalém, o centro do conflito Israelo-Palestiniano.

Estudantes e jovens profissionais juntam-se aqui depois de cumprirem o serviço militar, e tendo servido o pais, acomodam-se na ignorância.

Nos só queremos poder viver em paz, ter uma vida normal. Também temos o direito de esquecer, disse-me Alon, 29, residente em Tel Aviv.

Mas não é uma opinião geral, e existem manifestações regulares de várias organizações israelitas que lutam pela causa palestiniana e contra o governo vigente. Nos últimos anos estas manifestações têm ganho cada vez mais apoio dos habitantes jovens, na sua maioria seculares.

Mas os problemas parecem distantes, como se existisse um muro invisível à volta da cidade.

A população muçulmana é praticamente inexistente, mesmo em Jaffa, agora chamada Yafo, uma das principais cidades palestinianas antes da criação de Israel em 48.

Em Tel Aviv vive-se numa dimensão paralela.

 

Hebron é a maior cidade da Cisjordânia e é também uma das cidades mais sagradas para Judeus e Muçulmanos pois é o local do Túmulo dos Patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob.




 A cidade foi ocupada por Israel em 67 e desde 97 foi dividida em dois sectores, H1 e H2.

 O sector H1 é administrado pela Autoridade Palestiniana, e vivem aí cerca de 120,000 Palestinianos.

 

No fim do bazar da cidade velha fica o sector H2, onde se encontra a Mesquita e a Sinagoga (a antiga mesquita foi dividida) e onde vivem cerca de 30,000 Palestinianos e cerca de 500 colonos Israelitas guardados por cerca de 2000 soldados.



Aqui as ruas estão vazias, as lojas fechadas e os colonos caminham de pistola ao cinto.

 As restrições de movimento impostas pelo exército obrigaram grande parte das lojas a fechar, e os ataques por parte dos colonos sobre a população Palestiniana mantém muitos dentro de casa.





Os colonatos abrangem todo o sector com alguns a debruçarem-se sobre o bazar.

 

Depois de repetidos casos de colonos a despejarem lixo e por vezes, pedras e tijolos, as ruas do bazar estão cobertas por redes de proteção.

Hebron é uma das frentes do conflito Israelo-Palestiniano.

 

 

 

 

Quando eu era mais pequeno brincava sempre com a minha vizinha da frente. Percorríamos as ruas do campo, juntávamo-nos a outros grupos de crianças. Passávamos o dia fora de casa.

Um dia o Ariel Sharon subiu ao Monte do Templo e a nossa vida mudou.

A Segunda Intifada que tirou a vida a cerca de 5500 Palestinianos e 1100 Israelitas, ficou marcada por uma maior presença do exército Israelita nos campos de refugiados, com imposições de recolher obrigatório e castigos colectivos: demolições de casas de familiares de militantes e incursões violentas.

A Intifada já durava há dois anos quando durante um dos períodos de recolher obrigatório os Israelitas entraram no campo, prontos para tudo.

Estávamos todos dentro de casa mas a certa altura ouvi um grito da casa em frente e um som de gás a espalhar-se.  O som das botas dos soldados aproximou-se. Uma mulher começou a chorar, e um homem começou a berrar, mas com a confusão nem se conseguia perceber o que dizia. Um tiro silenciou a noite.

Na manhã seguinte a minha vizinha não saiu de casa. O gás que tinha sido usado rebentou mesmo em cima dela, e a exposição prolongada deixou-a incapacitada para o resto da vida.

 






O personagem Handhala foi criado pelo cartonista Palestiniano Naji al-Ali e acompanhou-o praticamente a vida toda. Handhala é uma criança dos campos que presencia as atrocidades cometidas. Handhala esta sempre de costas a olhar para a sua terra, e mantém os braços cruzados atrás das costas rejeitando uma solução vinda do exterior.

Naji al-Ali foi assassinado em Londres em 87 por um suposto membro da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) que no entanto se provou posteriormente ser um agente-duplo da Mossad.

Mas Handhala sobrevive como um símbolo da resistência Palestiniana.

 

 

Somos todos refugiados de aldeias perto de Jerusalém. O campo foi aberto em 1949 e tem vindo a crescer desde essa altura. Actualmente somos 13000 pessoas a viver numa área de 1 quilometro quadrado.. Vivemos uns em cima dos outros, é o que se vê.

Salem vive em Dheisheh, um campo de refugiados Palestinianos em Belém, na Cisjordânia.

Depois da criação do estado de Israel milhares de Palestinianos foram forçados a abandonar as suas aldeias e muitos acabaram num dos campos de refugiados administrados pelas Nações Unidas.

Muita gente quer sair do campo, mas com o desemprego em 70%, e com uma grande percentagem da população com menos de 15 anos, a vida é muito difícil. Para alem disso vivemos no medo constante de represálias Israelitas. Eles continuam a aparecer no campo. Vêm de noite para não darem nas vistas. Batem à porta de algumas casas, revistam, e às vezes levam pessoas.

Durante a primeira e a segunda intifada, a presença Israelita era constante; o campo estava rodeado de arame farpado e apenas existia uma entrada, que era controlada pelo exército. Israel impôs recolheres obrigatórios severos, com o mais longo a prolongar-se por 84 dias.

Não podíamos sair, não podíamos ir à casa de banho. Era uma espera lenta, angustiante, à espera do próximo tiro.

A antiga entrada para o campo. So se encontrava aberta algumas horas por dia. O resto das entradas estavam fechadas com arame farpado e postos militares.

 

 

 

 

 

 

 

 


 

No sul da Jordânia, a 60 km de Aqaba no Mar Vermelho, Wadi Rum, o Vale da Lua, e Wadi Musa, ou Vale de Moisés, onde se encontra Petra, a antiga capital dos Nabateus, são a casa de milhares de Beduínos da tribo Al-Howaitat.

Tradicionalmente nómadas, os Beduínos de hoje em dia são na sua maioria sedentários, mas raramente viram as costas ao Deserto.

É uma vida simples. A noite não se houve nem se vê nada a toda a volta e as estrelas que brilham como um manto negro de brilhantes são a única companhia. Durante o dia é o sol que acompanha e castiga. O ritmo é lento no Deserto.

Os beduínos não vivem em aldeias mas sim em famílias. É normal passar por um conjunto de tendas a cada 10 ou 15 quilómetros, e em cada um destes grupos apenas vive uma família. É uma vida introspectiva sem grande contacto social. O Deserto é o companheiro constante.

Num mundo cada vez mais rápido e cada vez menos simbiótico o estilo de vida dos Beduínos ainda é marcado por um grande respeito e por uma coexistência com a Natureza.

E é o próprio Deserto, com a sua desolação e aridez, que afasta o fantasma do desenvolvimento preservando um estilo de vida que remonta à antiguidade.

 

 

 

 

 

 

 O Hezbollah, ou o Partido de Deus, tem um grande poder politico no Líbano, embora isso não seja tão visível em Beirute.

Em Balbek, um complexo de templos Romanos estava aberto um museu do Hezbollah, com posteres contra Israel e uma mensagem bem clara a porta.

Se vierem cá outra vez, nos vamos ate vocês.

Desde a Guerra do Líbano de 2006 o Hezbollah garantiu um enorme peso politico visto que as grandes perdas sofridas pelos israelitas foram todas infligidas por militantes xiitas do Hezbollah.Vistos como um movimento de resistência no mundo árabe e como terroristas no ocidente, a única realidade certa e a dimensão do Partido no Líbano.

O Hezbollah administra varias zonas no Líbano, especialmente as que tem uma maior população xiita; gerem escolas e serviços sociais para alem de se envolverem em varias medidas de apoio a povo.

A saída do museu, uma recriação de um dos bunkers do sul do Líbano que ficaram famosos com a Guerra de 2006.

A saída um militante entrega panfletos informativos em arábico e inglês.

 

O Hezbollah e visto como o braço direito do governo Iraniano e a sua mão armada contra Israel, mas para muitos o Hezbollah salvou o Líbano de uma nova ocupação Israelita e são heróis que conseguiram expulsar um inimigo comum.

 

Poster com alvos apontados a cidades e pontos estrategicos Israelitas.

 

 

Recriacao da Flotilla de apoio humanitario a Gaza que foi parada pelo exercito de Israel.

 

 

Imagens de danos causados pelo avanco de Israel e uma mao de sangue com a estrela de David.

 

 

 

 

 

Dia 14 de Setembro de 1982, o então Presidente do Líbano Bashir Gemayel foi assassinado. A guerra civil que tinha começado em 75 e dividido o país entre Muçulmanos e Cristãos, Sunitas e Xiitas, Palestinos e Libaneses, continuava.

Ao meio dia do dia seguinte, forças Israelitas, que ocupavam então Beirute, rodearam os campos Palestinianos de Sabra e Shatila fechando todas as saídas.

Mas o pior estava para vir. As 6 da tarde do dia 16 de Setembro, 150 membros das milícias Falangistas, transportados e protegidos pelas forças militares de Israel entraram no campo. O som de tiros, então já habitual numa Beirute destruída pela guerra, intensificou-se. De dentro do campo ouviam-se ordens e berros de intimidação e de terror.

A medida que a noite descia, o exército Israelita começou a disparar artifícios de iluminação. O céu brilhou com fogo e com sangue.

Durante as 48 horas seguintes as milícias Falangistas perpetraram um massacre sobre a população Palestiniana sob o pretexto encontrar e prender terroristas, com o conhecimento do exército de Israel e do então Ministro da Defesa Israelita Ariel Sharon.

Estimam-se que cerca de 2000 a 3500 Palestinianos tenham morrido em Sabra e Shatila.

 

 

 

Sabra e Shatila continuam a ser duas zonas extremamente pobres, contrastando com a baixa parisiense e amante da dolce vita de Beirute.
Shatila ainda e um dos maiores campos de refugiados do Líbano e um dos mais deteriorados. O apoio ao Hamas tem aumentado alimentado pela degradamento da situação dos Palestinianos a viver no Líbano. O sonho de uma terra própria mantém-se vivo.

 

 

 

 

 

Palmyra - A noiva do Deserto

Depois de centenas de quilometros de Deserto, chegamos a um Oasis de onde se ergue Palmyra. Esta noiva com milhares de anos ja foi ocupada por Gregos, Persas e Romanos. Hoje em dia, no entanto, apenas os Beduinos fazem dela a sua casa.










 

 

Damasco

Damasco é a maior cidade da Síria e, para quem chega de carro,atravessar os subúrbios pode ser um pesadelo. Mas quando chegamos ao centro voltamos atrás no tempo. A cidade velha, aladinesca, é um labirinto de arcos e ruelas, becos e entradas.

Aqui vivem juntos Xiitas, Sunitas e Cristãos. A população judaica de Damasco, outrora significativa, foi diminuindo desde a criação do estado de Israel. Hoje em dia, se existem, estão escondidos.

A Síria, historicamente religiosamente tolerante, com uma grande percentagem de cristãos, mantém-se um estado secular com liberdade religiosa (excepto para judeus, devido ao grande ódio entre a Síria e Israel que se mantêm em litígio em relação as Colinas de Golã, anexadas por Israel em 67 durante a guerra dos seis dias). No entanto, na realidade é um governo bastante repressivo que não admite oposição e que esmaga qualquer indícios de pensamento politico livre.














 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alepo

 

Alepo, no norte da Siria, é a segunda maior cidade do pais. Rica em historia e em cultura, Alepo é uma cidade simpatica e acolhedora, famosa pela comida e pela afabilidade do povo.


 

 

Krak des Chevaliers 

O Krak, considerado um dos castelos mais bonitos do mundo é uma memoria de pedra da época das Cruzadas. Um monumento de pedra e de luz que se mantém praticamente indiferente a passagem do tempo. O estado de conservação permite-nos viajar para outras épocas sem grande esforço para a imaginação.

 

 

 

 

 

 

O sol marca o meio do dia e estende a sua luz em todas as direcções, iluminando e aquecendo uma imensidão branca; o deserto. A estrada segue até ao limite do horizonte sem nada a vista para além de umas pequenas ruínas.

Esta terra que já viu Alexandre e já viu Roma, Fenícios, Persas e Egípcios, que já foi controlada por Cristãos e Muçulmanos, mostra a sua história na pele.

As Cidades Mortas, cidades abandonadas que datam desde o século 5 A.C. a poucos quilómetros de Alepo, mantém-se vivas com a ajuda das pequenas aldeias que se formaram em seu redor, com alguns habitantes a ocuparem secções inteiras das ruínas.

Os Cruzados deixaram a sua marca com o Krak des Chevaliers, um castelo que T.E Lawrence descreveu como o castelo mais bonito do mundo.

E há a Noiva do Deserto, Palmira, uma cidade romana em ruínas que cresce de um oásis.

O Deserto. Ele ocupa a maioria do território mas apenas os beduínos fazem dele sua casa. Casas isoladas espalham-se ao longo da estrada, separadas por vários quilómetros.

Com um keffieh na cabeça, um beduíno fuma um cigarro enquanto vigia o seu rebanho. O sol queima-o mas não se vêem árvores em redor. A cinza cai e eu perco-o de vista, um ponto na imensidão.

 


 

 

 

 

 


 

 

 



 

 

Um canto percorre as ruas estreitas da cidade velha de Diyarbakir. A medida que o som da oração da manhã se apaga na Mesquita o canto vai dobrando esquinas, escondendo-se por momentos para logo em seguida reaparecer mais forte e mais vibrante.

O canto sai do pulmão de um homem de idade avançada, já perto dos 70, que se junta com outros no pátio de um Centro Cultural Curdo. Não é um recital mas sim um combate de vozes que ganham forma em melodia, competindo entre si, uma após outra.

São lendas, historias de amor, de guerra, de família. Cânticos de revolta e cânticos religiosos. De colete e boina, levam o Curdistão na voz, na mente, no corpo.

Muzaffer, encostado a um canto até aí, levanta-se em esforço e aproxima-se do circulo. Uma bala alojada na coxa, uma lembrança de quando era mais novo e lutava nas montanhas atrás do sonho de um Curdistão livre, obriga-o a mancar enquanto se dirige para o centro lentamente. Quando chega a sua vez, a voz dele explode num som doloroso e triste, um canto poderoso mas melancólico que parece reverberar dos seus ossos em ruinas para as paredes da cidade, penetrando, como a bala que transporta, nos corações de homens e edifícios, dando voz ao Curdistão.

 




 

 

 

 


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