40% dos cães e 30% dos gatos portugueses têm excesso de peso

11/02

2011

às 18:30

 

Fotos: Direitos reservados

De acordo com a Associação Americana para a Prevenção da Obesidade nos Animais, entre 2007 e 2009, o número de cães obesos aumentou dois por cento, enquanto que o número de gatos com excesso de peso cresceu cinco por cento. Embora não existam números relativamente à realidade portuguesa, estima-se que cerca de 40% dos cães e 30% dos gatos observados por médicos veterinários tenham excesso de peso ou sejam obesos. A incidência da obesidade aumenta com a idade (entre os 5 e os 12 anos) e é mais frequente em animais esterilizados.



Em Portugal, existem mais de 1 milhão e 800 mil cães e cerca de um milhão de gatos, sendo poucos os donos que os alimentam de forma correcta, pois desconhecem que o paladar do seu animal de companhia é menos apurado do que o do Homem (um cão tem 1700 papilas gustativas, um gato tem 500, contra 9000 do Homem). A esta causa acrescentam-se outras, como nos explica, em entrevista, o médico veterinário José Henriques Correia, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa:



Estima-se que 40% dos cães e 30% dos gatos portugueses têm excesso de peso. São números preocupantes?

São números que, pese embora estimados, são deveras preocupantes pelos efeitos prejudiciais que a obesidade tem sobre a saúde e o bem-estar dos animais de companhia.Por outro lado, a obesidade diminui a expectativa de vida dos animais que dela padecem, o que implica um usufruto da sua companhia por menos tempo. Como as doenças associadas à obesidade diminuem acentuadamente a qualidade de vida dos animais com excesso de peso e acarretam preocupações e até gastos adicionais para os donos, há que encarar este problema de frente e tentar solucioná-lo.



Quais as principais causas da obesidade animal?

Na mesma medida que na obesidade humana, entre outras causas de menor impacto, o sedentarismo (falta de exercício físico) e uma alimentação errada são os principais determinantes do excesso de peso. A obesidade nos animais de companhia só adquiriu relevo nas últimas décadas e nas sociedades ditas desenvolvidas. Isto porque cada vez mais os animais de companhia são afastados dos seus estilos de vida naturais (caça, trabalho, etc) e assumidos como membros ou até substitutos da família nas sociedades modernas, sendo sujeitos às condições de vida dos seus donos. Estas nem sempre são as mais saudáveis e naturais, sobretudo nas grandes cidades. A falta de exercício físico e vida ao ar livre, associadas à falta de estímulos ambientais e sociais adequados e à compensação fácil por via do alimento, conduzem a uma relação pouco natural e até compulsiva com a comida por parte de animais de companhia pouco felizes e entediados.



Poderemos afirmar que o estado físico do animal é o espelho do estado físico do dono?

Quase sempre, e generalizando, sim. A partilha do estilo de vida implica que as opções dos donos se reflitam nos seus animais de companhia. É natural que pessoas que se preocupem com a sua saúde, através das suas opções alimentares e de exercício físico, o façam também em relação ao seu animal de companhia, vigiando o seu peso, exercitando-o e fornecendo-lhe uma dieta equilibrada. Estes donos são os primeiros a procurar a ajuda do seu médico veterinário assistente nos estadios mais iniciais do ganho de peso dos seus animais. Pelo contrário, donos com menos atenção à sua própria saúde e aos perigos da obesidade atribuirão o ganho de peso do seu animal ao facto de ele estar “bem tratado”, deixando que a situação se agrave ao ponto de procurarem o seu médico veterinário quando existem já complicações associadas a uma obesidade instalada e de grau mórbido.



Os cães e os gatos não têm noção de saciedade, de quando já comeram o suficiente para as suas necessidades?

Obviamente, existe uma regulação fisiológica da saciedade em todos os organismos superiores, incluindo o cão, o gato e o Homem. Idealmente, o seu intimismo deveria ser muito melhor conhecido, pois seria a chave para o problema da obesidade humana e animal. Cada vez se conhecem mais detalhes desse mecanismo cuja complexidade é de facto muito grande, mas a possibilidades efectivas de o condicionar por via farmacológica são ainda muito limitadas. Como se trata de um problema de saúde pública humana, a Ciência vai avançando nesse campo, e no futuro talvez possamos colher do estudo da obesidade humana respostas aplicáveis à obesidade canina ou felina.

No caso dos animais de companhia, não parece tratar-se de uma questão de quantidade, mas sim de qualidade. Um animal com uma dieta desequilibrada, constituida, por exemplo, por restos de comida humana ou dieta caseira, pode ter deficiências em determinados nutrientes críticos que não estão a ser fornecidos. Naturalmente, tentará compensar as suas necessidades pela ingestão de maiores quantidades de alimento, o que pode conduzir a excesso de peso e, cronicamente, a obesidade. A adequação da dieta à idade, raça, estado fisiológico (crescimento, gravidez, aleitamento, velhice, animais inteiros ou castrados, etc) é complexa, mas está ao dispor de todos. A indústria de alimentos compostos para animais (as rações) tem décadas de investigação por trás e as linhas existentes no mercado adequam-se a todos os animais, quaisquer que sejam as suas características. Alimentar o seu animal de companhia com uma ração específica para as suas necessidades é um investimento com retorno garantido em termos de assegurar o fornecimento dos nutrientes de que necessita, de manter a sua saúde e de prevenir doenças, para além de aumentar a sua longevidade. O médico veterinário assistente dispõe de toda a informação para aconselhar e ajudar a escolher o alimento mais adequado ao longo da vida do animal.



Quais as consequências da obesidade na saúde dos animais?

Infelizmente, são muito graves. A obesidade está associada a doenças cardio-vasculares, metabólicas (como a diabetes mellitus, tanto no cão, como no gato), doença hepática, doenças respiratórias, doenças musculo-esqueléticas (dos músculos, articulações, tendões e ligamentos), para citar as mais importantes. Todas estas doenças têm uma evolução crónica e insidiosa; podem passar despercebidas nas fases iniciais, mas reduzem consideravelmente a qualidade de vida dos animais de companhia. Algumas, como as artroses provocam dor e recusa ao exercício, criando um círculo vicioso que inviabilizam os programas de controlo de peso. Outras produzem sofrimento e podem mesmo comprometer a sobrevivência. A associação da obesidade com o cancro não está ainda tão esclarecida nos animais como nas pessoas, mas tudo leva a crer que os mesmos factores estejam em jogo.



O médico veterinário tem um papel preponderante na sensibilização dos donos e na detecção dos riscos?

A figura do médico veterinário assistente é fulcral nesta problemática. Desde o primeiro contacto, em cachorro ou gatinho ou na adopção de animais adultos, o plano de saúde e prevenção proposto aos donos inclui sempre os aspectos essenciais da prevenção da obesidade: regime alimentar e exercício. As informações sobre treino e higiene são também importantes desde o primeiro dia. Nas visitas programadas de rotina, o controlo e registo do peso é sempre feito, o que possibilita que se analisem os factores contribuintes e que se actue assim que haja desvios à normalidade, mesmo que os donos ainda não se tenham apercebido de que existe um problema.



Além de uma alteração nos hábitos alimentares dos animais e do aumento da prática de exercício físico, que outras soluções existem para combater a obesidade nos animais? Medicamentos? Colocação de bandas gástricas?

O conhecimento científico disponível indica-nos que uma dieta programada para controlo de peso e um regime de actividade física adequado são as chaves para o sucesso no combate à obesidade canina e felina. Um factor imprescindível é a adesão completa do dono ao programa, sem falhas nem desvios. As soluções cirúrgicas não são de uso corrente em medicina veterinária, pelos riscos que envolvem e também pelos custos. Existem no mercado medicamentos especificamente desenvolvidos para utilização em programas de controlo de peso, mas sempre associados a um maneio alimentar correcto. Digamos que podem potenciar os efeitos de um programa de redução de peso e abreviar a perda de peso pretendida, através das alterações metabólicas que produzem e do controlo da saciedade, mas não isoladamente. O médico veterinário assistente é o profissional que dispõe do conhecimento técnico-científico que permite adequar um programa de redução de peso às características específicas do animal e as condicionantes impostas pelo estilo de vida dos donos, pelo que deve ser consultado sempre que haja indícios de problemas de excesso de peso.

1 comentário(s)

Mais Cedo ou Mais Tarde sexta-feira, 6 de Maio de 2011 16:53

15h-16h: Um estudo apresentado pela Associação americana para a Prevenção da Obesidade nos Animais, entre

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