Detidos de prisão sul-africana cuidam de aves bebés

04/04

2011

às 10:32

Fotos: Associated France Press

Os ruídos próprios da prisão são cortados por uma explosão de pássaros canoros, enquanto Bernard Mitchell, um condenado por homicídio, com o corpo tatuado e dentes de ouro, beija ternamente um papagaio com apenas cinco semanas. “Eles pensam que eu sou mãe deles, são como que meus filhos”, diz à AFP, enquanto tenta arrefecer o mingau quente com que vai alimentar a ave. Bernard Mitchell, de 41 anos, é um dos participantes num projecto desenvolvido na prisão de Pollsmoor, na Cidade do Cabo, África do Sul, que consiste em atribuir aos prisioneiros aves bebés para que tomem conta delas.



“Eles tocam-te”, conta Bernard. “Eu nunca fui uma pessoa muito sensível, sempre fui muito agressivo. Estava sempre envolvido em confusões e tinha má reputação na prisão”. E acrescenta: “Os pássaros ensinaram-me a ser paciente. Eu não posso ser agressivo com eles. Tenho que amá-los, tratar deles, alimentá-los. Tudo”.



Detido pela primeira vez aos 14 anos, este antigo gangster é o coordenador do “Correctional Bird Project”. O peso de cada ave bebé é registado diariamente. Elas são alimentadas a cada duas horas para que a plumagem cresça saudável e possam depois ser vendidas. O projecto arrancou em 1997, pelo então director da prisão, Wikus Gresse, que sempre acreditou que os animais tinham o poder de conseguir recuperar até o mais duro dos criminosos. “Você pode ser um criminoso. Pode ter feito coisas muito perigosas. Mas eu defendo que, na prisão, você tem que demonstrar que é capaz de mudar e que quer uma vida diferente, melhor”, afirmou à AFP.

 


O projecto é auto-financiado e há cada vez mais prisioneiros a querem participar. As vagas são limitadas a cerca de uma dúzia de detidos, que são sujeitos a um treino e têm que prometer que abandonam os gangues, as drogas e os cigarros. Em contrapartida, aprendem como organizar reuniões e têm direito a uma cela só para si com 6,25 metros quadrados (normalmente, é dividida com mais dois prisioneiros).



Afagando o estômago de um papagaio do Senegal, confortavelmente deitado na sua mão, Lento Kindo, 31 anos, conta que é muito difícil deixar os pássaros ir quando arranjam um novo dono. “É muito triste”, sublinha. “É como se estivessemos a dar os nossos filhos a outra pessoa”.


O “Correctional Bird Project” remete-nos para o filme “O prisioneiro de Alcatraz” (1962), protagonizado por Burt Lancaster, que conta a história real de Robert Straut que durante o cativeiro se ocupou a recuperar aves doentes ou feridas.

0 comentários

Comentar artigo

Se está registado, faça o Login

publicidade

Fale com o autora

envie os seus conteúdos para: fmariano@jn.pt

blogues associados

publicidade