As questões relacionadas com o bem-estar animal são aparentemente conhecidas de quem trabalha com animais, mas os alunos de um curso sobre esta temática ficaram surpreendidos com os mistérios desta área que esperam agora pôr em prática.
"Recebi provas inequívocas de que os animais sofrem e sentem dor, tal como nós", disse à Lusa Inês Gaspar, bióloga e finalista da primeira edição da pós-graduação em Comportamentos e Bem-Estar Animal que decorre desde Setembro no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA).
Este curso teve duas partes: na primeira foram estabelecidas as bases biológicas do comportamento e bem-estar animal e, na segunda, foram abordados os problemas de certos contextos específicos.
Aos 30 anos, a bióloga Inês Gaspar espera agora aplicar os conhecimentos na vida profissional, mas garante que aprendeu "a pensar de outra forma em temas como a eutanásia", disse.
Para o seu trabalho de final de curso, esta aluna escolheu acompanhar o regresso ao Oceanário de Lisboa de duas crias das lontras Amália e Eusébio, após a morte deste último, no ano passado. As duas crias estavam num aquário de Roterdão e o seu regresso foi decidido para fazerem companhia à "viúva".
A aluna acompanhou este regresso e testemunhou que, apesar de uma inicial aproximação de uma das crias à mãe, deixando a irmã sozinha, regressou depois para junto desta. Concluiu Inês Gaspar que estes são "animais muito inteligentes, extremamente sociais e curiosos e cada um com a sua personalidade muito própria".
As lontras demonstraram "preferências com quem estar", disse, acrescentando que isso prova que são capazes de fazer escolhas e de adaptarem a cativeiro comportamentos que tinham no meio natural. Mais ainda após esta formação, Inês Gaspar considera que é "chocante" alguém questionar o direito dos animais ao bem-estar.
A veterinária Fátima de Sousa, 47 anos, reconhece que, mesmo com formação nesta área, a informação que recebeu no curso a surpreendeu. "Umas das coisas que mais me entusiasmou e surpreendeu foi ver que já há alguns estudos e trabalhos desenvolvidos sobre comportamento e bem-estar animal", afirmou, recordando que há alguns anos, esta era "uma área minimizada".
A trabalhar nos serviços oficiais da região autónoma da Madeira - onde existe uma característica produção animal - Fátima de Sousa acredita que tem agora mais instrumentos para passar a mensagem de bem-estar animal aos produtores.O seu trabalho final de curso pode dar uma ajuda, já que elaborou uma espécie de código de boas práticas adaptado à produção da Madeira.
"Com o conhecimento que adquiri, tentei que os produtores adaptassem à produção, através deste manual, as regras do comportamento e bem-estar animal", afirmou. Os animais "têm de ter determinadas condições na produção, de forma a que vivam no seu ambiente de uma forma o melhor possível e sem sofrer distúrbios", disse. Para Fátima de Sousa, este equilíbrio é "fantástico" e é "a base de uma produção que não colida com o comportamento e bem-estar animal".
Marcado para sábado a sessão de encerramento desta primeira edição da pós-graduação em Comportamentos e Bem-Estar Animal contará com intervenções do professor universitário e ex-secretário de Estado do Ambiente Humberto Rosa e de Michael Appleby, consultor científico e assessor de política em bem-estar animal para a Sociedade Mundial de Protecção Animal.